Capítulo 4
Draco parou em frente ao prédio pela quinta vez naquela semana, olhando. Era uma casa aparentemente normal, mas havia magia aplicada ali e ele poderia jurar que por dentro ela era bem maior do que parecia. Pelo portão gradeado via-se um enorme jardim e uma quadra ao fundo, onde crianças de várias idades brincavam com um ou dois adultos monitorando.
O orfanato não tinha muito movimento, somente os funcionários entrando e saindo e eventualmente algum casal visitante. Ele se perguntava por que ainda tentava juntar algum tipo de coragem para entrar em um lugar tão inofensivo.
Atravessou a rua, tocou a campainha e ouviu o portão ser destrancado, empurrando-o e se dirigindo ao lugar indicado como recepção. Uma bruxa jovem e sorridente se adiantou atrás do balcão.
- Posso ajudá-lo?
- Sim. Por favor, eu procuro uma criança que foi enviada para cá há 24 dias. É um recém nascido, acredito que tenha chegado por coruja. Ele tem uma marca de nascença muito peculiar, uma pequena cobra próximo ao tornozelo direito. Vocês receberam essa criança?
A moça o olhou por alguns segundos que pareceram dias para Draco, impedindo-o de respirar. E fazendo-o fechar os olhos e quase sorrir ao ouvir sua resposta.
- Sim, eu a vi. Ela gerou inclusive muita polêmica por aqui, pelo estado de abandono em que chegou. Mas não posso lhe dar mais informações, senhor. Acho que é mais indicado que você converse diretamente com a direção do orfanato. Por favor, venha comigo.
Draco seguiu a moça pelos corredores do lugar até chegar a uma porta fechada. Do lado de dentro, ouvia-se conversa e risadinhas. Ela bateu duas vezes antes de entreabrir a porta. Do lado de dentro, Draco viu uma mulher sentada em uma mesa, mostrando algo para um rapaz ruivo debruçado sobre seu ombro de forma íntima.
- Senhora Granger, há um senhor aqui querendo saber sobre o Sirius.
Hermione e Ron ergueram a cabeça juntos, divisando um Draco surpreso parado na porta junto a Marie. Por longos segundos a sala mergulhou em silêncio.
- Obrigada, Marie. – Hermione gaguejou, ao que a moça se retirou.
Draco examinou a ex-colega de escola de cima abaixo, não deixando escapar a forma possessiva com que Weasley se colocou atrás dela. Em qualquer situação, ele teria virado as costas e saído no mesmo instante.
Mas a questão é que seu filho estava ali.
- Malfoy? Que surpresa. – ela comentou, tentando manter uma certa postura.
- Digo o mesmo, Granger. Weasley. – ele cumprimentou com um aceno de cabeça.
- Então... O que o traz aqui? – ela perguntou em tom de curiosidade quando o silêncio voltou a pesar entre eles.
- Estou procurando uma criança. Eu a descrevi para a recepcionista e ela se referiu a ele como... Sirius? – a expressão de Draco poderia ser definida como algo entre confuso e enojado.
- Você pode descrever a criança novamente, por favor? – Hermione pediu, trocando um olhar com Ron.
- É um recém nascido, foi trazido por uma coruja há exatos 24 dias, e possui uma marca de nascença com o formato de uma cobra na perna direita.
- Não recebemos essa criança, sinto muito. – Hermione respondeu prontamente.
Draco a encarou, sério.
- Sua assistente disse que receberam. – ele insistiu, erguendo uma sobrancelha.
- A criança esteve aqui, sim, mas por pouco tempo. Ela já foi adotada.
- Adotada? – Draco sentiu algo desabar em seu peito – E você pode me informar por quem?
- Não, não posso. A legislação não permite.
Granger parecia ansiosa para se livrar dele. Mais do que o normal para alguém que ajudara a salvar a vida durante a guerra. E essa lembrança o incentivou a se voltar e trancar a porta antes de voltar a falar com a menina.
- Escute, Granger. – Draco assumiu uma postura prática, falando muito sério com os dois adolescentes a sua frente – Eu sei que vocês têm todos os motivos do mundo para duvidar das minhas boas intenções, mas eu afirmo: essa criança é... vital para mim. Eu preciso encontrá-la. Muito.
- E por acaso não foi você que se livrou da criança, Malfoy? – Weasley disse, firme, sustentando o olhar de Draco quando ele o encarou em fúria – Não fazemos devolução.
Draco ainda olhou de um para outro, vendo resolução e acusações em cada traço, antes de virar as costas e sair dali batendo a porta.
- O que foi isso? – Hermione se deixou cair sentada na cadeira, confusa.
- Foi um Ex-Comensal procurando uma criança com uma marca de cobra, Hermione. – Ron constatou.
A namorada olhou para ele demonstrando o medo que sentia.
- Você acha que a gente deve contar para o Harry? – Ron resmungou, como se para si mesmo.
- Não! – Hermione se ergueu, olhando séria para ele – Ele ainda está se adaptando à criança, a resposta do pedido de adoção ainda não saiu. Deixa o Harry em paz.
- E se ele voltar?
- A gente dá um jeito, segura ele, mas o Harry não pode ficar sabendo.
o0o
Draco saiu do lugar transtornado. Não saberia dizer como, exatamente, fora parar de volta na mansão Malfoy.
Ele encontrara seu filho.
E não encontrara.
A raiva que sentia parecia se misturar com todo o alívio, a angústia e o desespero.
Seu filho fora adotado.
Ele o havia perdido.
E ele estivera tão perto... ele estava lá, em algum lugar.
Tão perto.
Suas mãos tremiam e as lágrimas corriam de forma incontrolável pelo seu rosto. Ele vagava pela casa, inconsciente, derrubando coisas no chão sem perceber.
Sozinho.
Seu corpo bateu contra uma parede e ele se deixou deslizar para o chão, abraçando as pernas com força contra o peito.
Ele não ia desistir.
Nunca.
o0o
A placa com o nome rebuscado em dourado sobre o portão gradeado brilhou em sua mente durante toda a noite, em meio a sonhos e pesadelos, enquanto insistiu inutilmente em dormir.
No dia seguinte foi ao Ministério, saber quais eram seus direitos sobre o filho caso ele realmente tivesse sido adotado. E quais seus direitos caso não tivesse. Ele precisava encontrá-lo, antes de tudo, e sentiu-se derrotado ao ser informado que, realmente, os registros de adoção não eram públicos. Mas os registros de nascimentos eram, e foi com uma fúria contida que ele viu que, por ter virado herói depois da guerra, a quantidade de bebês batizados como Sirius naquele mês era notável. O acesso ao registro do Orfanato St James, porém, lhe foi dado com extrema facilidade. Já o nome do proprietário voltou a lhe causar tamanha avalanche de sentimentos que ele perdeu a noção de quanto tempo encarou aquele nome na folha amarelada.
Harry James Potter.
Ele estava claramente surpreso ao saber que Harry Potter era proprietário de qualquer coisa, mas ao mesmo tempo meio frustrado, pois era algo que ele deveria ter suposto ao ver a sangue ruim e o fuinha como diretores de um orfanato. Potter era o único a ter dinheiro ali para investir em algo como aquilo. Por outro lado, ele não conseguia se decidir se o nome de Potter naquele papel era algo bom ou ruim. Todos os anos de hostilidade entre os dois lhe diziam que era péssimo, mas os últimos acontecimentos em que estiveram juntos – a prisão dele em sua casa e a batalha final em Hogwarts – lhe diziam que, talvez, em uma pequena probabilidade, Potter poderia não ser hostil agora.
E a voz de sua mãe ecoando em sua cabeça quando ela foi presa não o deixava.
Se precisar de algo, procure Potter. Ele tem uma dívida conosco.
Draco realmente não fazia idéia do que ela estava falando, mas ele já estava cansado de se sentir como um homem desesperado. E se a palavra de sua mãe pudesse fazer Potter lhe dizer onde estava seu filho, então ele iria ao menos tentar.
E foi essa certeza que o levou até lá.
o0o
Harry Potter foi uma pessoa que demorou a adquirir um endereço próprio. Ao fim da guerra, voltara, por insistência de Ron e da Sra Weasley, para a Toca, saindo de lá poucas semanas depois na viagem sugerida por Hermione. Quando voltou, chegou a ficar algum tempo na casa de Andrômeda, com a desculpa que queria conviver mais com Teddy, mas não se sentia a vontade. Com a idéia do orfanato, chegou a se instalar no prédio ainda vazio durante um tempo, mas tudo parecia grande demais e ele podia amar aquele lugar, mas não era para ele. Foi morar em um hotel, simplesmente se recusando a voltar a Grimmauld Place, e ficou por lá até Sirius surgir.
Para viver com uma criança de menos de um mês de vida, Harry comprou um pequeno sobrado com dois quartos e jardim há algumas quadras do orfanato, e nos últimos dias se dedicara ferrenhamente a chamar aquilo de lar e cuidar do bebê que, embora ainda estivesse legalmente no orfanato, já vivia com ele.
Draco caminhou sobre as pedras da entrada da casa modesta em que o Salvador escolhera para viver e tocou a campainha encarando o chão. Não fazia idéia do que ia dizer e começava a se perguntar intimamente o que o levara a ir até ali, mas sua garganta ainda parecia que ia fechar cada vez que pensava no filho, e por isso se manteve de pé, esperando, até que a porta se abriu.
- Malfoy? – Potter o encarava com uma expressão de assombro e Draco se sentiu de repente muito cansado de tudo aquilo.
- Precisamos conversar, Potter. Eu posso entrar? – perguntou, olhando o rosto do outro sem o usual desafio em sua voz.
Harry somente concordou com a cabeça, abrindo espaço para que o outro entrasse, batendo a porta.
O barulho, porém, despertou alguém que impediu Draco de sequer reconhecer o ambiente.
Ele somente andou até a criança que chorava.
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NA: Capítulo postado corridinho direto de São Paulo, crianças. Adiantado de novo porque não sei se vou conseguir entrar na net amanhã, mas não se acostumem, ok?
Sei que estou com as respostas das reviews atrasadas, foi a viagem, mas até o capítulo que vem elas devem se regularizar.
Mas isso não é motivo pra vcs deixarem de me dizer o que acharam desse, não é mesmo? ;)
Beijos e até a próxima sexta!
