Mil Coisas Belas por Duinn Fionn
tradução: Camila Merlin Gesser
betagem da tradução: Serim
Capítulo Quarto
Sharing the same cold cell, betrayer and betrayed,
An island with two frightened castaways
Dividindo a mesma cela fria, traidor e traído,
Uma ilha com dois rejeitados assustados
Warsaw 1943 (I Never Betrayed The Revolution) - Johnny Clegg
Dean tinha encontrado o apartamento perfeito. Bem, talvez perfeito fosse uma palavra muito generosa para descrevê-lo, mas o quarto que seria seu estúdio - era perfeito.
Era localizado em um bairro sem grandes atributos na Londres trouxa. Não que Dean tivesse algo contra o Beco Diagonal, mas o distrito bruxo em Londres era muito pequeno para acomodar todos que queriam morar lá. O aluguel também era mais barato do lado errado do Caldeirão, embora ainda fosse diminuir um pouco suas economias. A maioria de seus amigos também morava por ali e se misturavam - virando nativos, eles diziam.
Mesmo assim, esperava fazer um nome entre os artistas da Londres Trouxa, e um endereço não-mágico era um importante requerimento.
Tinha chamado Seamus para ajudá-lo na mudança. Não que eles planejassem levantar muitas coisas - na verdade precisava que Seamus vigiasse enquanto ele lançava feitiços de levitação nas caixas e móveis.
"Acha que posso arriscar um Impervio?", ele perguntou a Seamus, enquanto eles saíam de um caminhão alugado na rua molhada. "Eu odiaria encharcar minhas coisas. Por que teve que chover justo hoje?".
Seamus afirmou com um gesto da cabeça. "Provavelmente seguro. Duvido que alguém nos veja entre aqui e a porta, com medo de pedirmos ajuda nesse tempo".
Dean concordou e lançou um feitiço de impermeabilidade nos conteúdos do caminhão. "Desculpe, mas não podemos lançá-lo em nós mesmos. Seria estranho - dois caras secos no meio da chuva".
Eles guiaram mais do que carregaram as caixas através da rua e dentro do apartamento. Vários de seus novos vizinhos estavam andando pelos corredores, então era necessário que ao menos parecesse que estavam carregando tudo do jeito trouxa. Haviam se tornado bons em fingimento ao longo dos anos - Dean tentou se lembrar quantas vezes eles se mudaram desde a guerra. Sete ou oito, achava, a última sendo quando Seamus conseguiu convencer sua noiva e se mudou com ela. Seamus teve que prometer uma data de casamento firme para isso, e o caro planejamento do dia o estava deixando louco.
"Lydia já mandou os convites"?, ele perguntou educadamente.
"Depois de três visitas à gráfica, sim, finalmente", Seamus disse detrás das almofadas que carregava. "Aceite meu conselho, Dean, e fuja com sua amante se puder".
"Por que você não foge então?".
Seamus riu. "Eu escolhi a família errada para me juntar. A mãe de Lydia nos mataria se não nos casássemos na igreja".
"Ah, como se ela não fosse te matar se descobrisse que estão morando juntos".
Seamus cruzou os dedos em forma de cruz, fazendo com que as almofadas flutuassem por um instante. "Não diga isso. Se ela descobrir, eu estarei implorando por uma morte rápida".
Dean o empurrou de onde estava bloqueando a porta do apartamento. "Então por que arriscar?".
"Porque ela vale a pena, amigo". Ele parou no meio do caminho. "Droga, Dean, esse lugar é muito pequeno! Para onde?".
"Quarto. Ali".
Seamus derrubou as almofadas sem cerimônia. "Então o que houve com aquela garota que estava vendo? Debby? Dana?".
Dean rolou os olhos. Quando eles se encontravam, Seamus sempre perguntava de sua vida amorosa. "Dária. Faz um tempo que não a vejo".
"Seu destruidor de corações. Você passa por mais mulheres do que qualquer um que eu já conheci. O que havia de errado com essa?".
"Nada".
Seamus franziu suas sobrancelhas, e Dean se preparou para a versão peculiar deles das vinte perguntas. "Ela era bonita?".
"Sim".
"Trouxa, então?". Significando, ela sabe da guerra?
"Não. Americana, no entanto". Ela sabe, mas não foi parte dela.
"Dean, quando vai aprender? Veja, essa é a razão porque eu e Lydia somos perfeitos um para o outro. Nós conseguimos conversar sobre as coisas que aconteceram com a gente. No nosso primeiro encontro, conversamos sobre onde estávamos durante a batalha final. Ótima maneira de quebrar o gelo, amigo".
E assim, a camaradagem relaxada que Dean estava se forçando a construir sumira, deixando-o com a culpa que sempre sentia perto de seu melhor amigo. Seamus podia contar calmamente sobre o que acontecera na guerra, porque sua pior lembrança havia sido apagada. Se ele soubesse do que tinha acontecido, com certeza não estaria ali com Dean.
Pela milésima vez, arrependeu-se das lembranças parciais que tinha da noite em que foram capturados. Nunca sabia o que era pior - as coisas de que se lembrava, ou o que imaginava que tinha sido apagado. Repetia a cena em sua mente todas as noites, ouvindo-se dizer as palavras que condenariam Seamus à morte com ele. Seguido disso, iria se agonizar pelos seus crimes, os que não sabia - de que outras maneiras traíra seu melhor amigo?
E como eles tinham escapado?
Seamus ainda estava falando de garotas. "...Encontrar alguém que tenha algo em comum com você".
"Sabe, eu realmente não quero discutir isso", ele disse, mais duramente do que pretendia.
A mágoa nos olhos de Seamus mostrou que ele havia ido longe demais, mas era muito tarde para voltar atrás. "Sabe, Dean, a gente costumava falar sobre tudo. Melhores amigos, lembra?".
Dean se esforçou para ignorar a grande distância que havia crescido entre eles. "Sinto muito". E ele sentia. Sentiria muito para sempre, mas não podia nem começar a contar Seamus por quê.
"Tudo bem", Seamus respondeu, mas parecia estranhamente quieto.
"Pronto para outras caixas?".
"É".
Dean esperou para ouvir o humor normal de Seamus, algum comentário engraçado que fosse aliviar a tensão entre eles. Nunca veio.
Two dozen other stupid reasons why we should suffer for this,
Don't bother trying to explain them, just hold my hand while I come to a decision on it.
Duas dúzias de outras razões estúpidas de por que devemos sofrer por isso,
Não se preocupe em tentar explicá-las, apenas segure minha mão enquanto tomo uma decisão.
Save It For Later - English Beat
Infeliz, Draco xingou os negócios que o levaram ao Beco Diagonal hoje entre todos os dias - as ruas estavam cheias de crianças, adolescentes, e famílias em suas excursões de compras anuais, antecipando a ida a Hogwarts. Ele tentou ignorar as lembranças de suas próprias excursões ali, a felicidade que sentiu quando cheirou seus novos livros na Floreios e Borrões, os pequenos pacotes de doces que sua mãe sempre comprava, o confortável, rico toque dos uniformes feitos sob medida.
E sua aparência hoje não passou despercebida. Olhares frios dos estudantes mais velhos, bocas abertas em choque dos mais novos, mãos rapidamente alcançando as crianças para afastá-las dessa pessoa sinistra no meio deles. Ele não precisava ler o Profeta Diário para saber o que corria pelas mentes da sociedade bruxa - Draco Malfoy era alguém cujo caminho você não queria cruzar.
Irritado, quase decidiu aparatar novamente para a Mansão Malfoy e esperar por um dia melhor, mas era muito urgente. Ao invés disso, apressou o passo, vendo as multidões se abrindo na frente dele como se fossem servos amedrontados abrindo espaço para seu lorde. Foi cuidadoso de não olhá-los nos olhos.
Seu primeiro destino era o Gringotes. A porta da eminente instituição financeira dos duendes abriu invisivelmente quando se aproximou antes que sua mão alcançasse a maçaneta. Lá ele foi recebido e levado a uma sala de reuniões, onde o gerente bancário da família Malfoy, Royashk, cumprimentou-o com respeito.
Respeito que apenas muito dinheiro trazia.
Ele relaxou um pouco. Honestamente, não tinha certeza de seu status econômico naquele momento. Tinha certeza de que as contas dos Black estavam abertas por ser o herdeiro legítimo de sua mãe. Mas os milhões dos Malfoys eram outro assunto - que não estava legalmente resolvido.
Royashk estava tão cauteloso e prudente em relação à fortuna Malfoy quanto ele.
"Sr. Malfoy. Nós discutimos o assunto que nos pediu, e não conseguimos chegar a uma conclusão definitiva. Os promotores bruxos ainda não chegaram a uma decisão".
É claro que não - Lucius ainda estava legalmente vivo. Tinha esperado problemas vindos disso. Respondeu com a mesma formalidade do bancário.
"Eu irei contatar meus advogados assim que nossa reunião estiver concluída".
"É claro", o duende respondeu. Ele passava um fino, peludo dedo sobre os vários anéis que usava.
Draco o observada cuidadosamente, sabendo que estava na presença de uma mente muito calculista.
Royashk continuou. "Você tem acesso irrestrito às contas Black para seu uso imediato. Assim, a não ser que circunstâncias apareçam que o façam necessitar de maiores fundos, nós preferimos deixar as contas Malfoy restritas por um tempo. Se você precisar dessas contas, no entanto, por favor, me contate e nós poderemos reconsiderar essa posição".
Draco aceitou esse acordo com um gesto da cabeça. Gringotes estava jogando com ele muito cuidadosamente - eles não podiam aliená-lo caso, como ele esperava, virasse o herdeiro legal. Por outro lado, eles tinham que considerar o Ministério, o qual já tinha lançado a primeira tentativa de colocar as mãos no dinheiro de seu pai. Não foi uma surpresa que a vingança dos bruxos do Ministério não acabasse com o beijo do dementador. Não com um alvo tão tentador como a fortuna Malfoy na frente deles.
Ele passou pela tarefa tediosa de transferir as contas Black para seu nome e logo se encontrou no fundo de uma rua iluminada fora do Gringotes. Inspirou profundamente e, devagar, soltou o ar. Estava mais tenso do que imaginava e o ar fresco e o sol o ajudaram a melhorar seu humor. Para sua surpresa, viu uma garota atrevida, talvez do sétimo ano, tentando trocar olhares com ele. Ah, o charme do garoto malvado, ele pensou, segurando um sorriso. Desculpe, querida, você não faz meu tipo, ele refletiu, divertindo-se, mas você tem um irmão mais velho por aí?
Ele subiu a rua em direção a Redmund, Hall e Strongfellows. Enquanto passava pelos últimos modelos de vassouras arrumadas na vitrine de uma loja de quadribol, não pôde resistir a uma longa, e boa olhada. Merlim, foram mesmo apenas alguns anos atrás que ele estava ali, com o rosto colado no vidro como esses estudantes de hoje? De repente, sentiu-se muito velho para sua idade.
Lysander Redmund, o parceiro mais velho, parecia já ter as tropas legais para a batalha pelo seu dinheiro. Draco não reconhecia os outros dois bruxos na conferência, apresentados a ele como Fontinelle Green e William Wolcott.
"O Ministério nos mandou uma coruja essa manhã com o objetivo oficial de confiscar a fortuna Malfoy", Redmund começou.
Mesmo que seu advogado já o tivesse avisado disso antes, ainda doía de ouvir. "Malditos," ele murmurou, e podia ter dito muito, muito mais, mas para que gastar palavras? Dessa vez, todos os bruxos da sala estavam batalhando do lado dele.
Fontinelle Green, uma mulher pequena de idade considerável - e experiente, ele esperava - falou. "O status legal das vítimas do Beijo dos Dementadores ainda é ambíguo, Sr. Malfoy. Especialmente no seu caso, a pergunta fica: você pode receber herança nesse momento?".
Ele percebeu que ela estava sendo cuidadosa para citar os fatos sem ferir seus sentimentos, e ele estava agradecido por seus modos. O que ela estava dizendo era, na verdade, a pergunta: Lucius Malfoy está vivo ou, para fins legais e práticos, morto?
Ela continuou. "O fato é que o, han, relacionamento do Ministério com os dementadores é tão novo que cria um vácuo legal. Eu acredito tenha vivenciado isso depois do julgamento de seu pai".
Ah, sim. Uma má lembrança. Em sua pressa de julgar Comensais da Morte e administrar essa nova, mas não exatamente mortal, forma de punição - e não era a noção de ser beijado poética? - o Ministério havia criado alguns problemas para si. Em primeiro lugar, essas conchas vazias e desafortunadas tinham que ser guardadas em algum lugar. Mas após várias reuniões, ficou decidido que as famílias nunca deveriam ver os prisioneiros novamente. No entanto, os que foram beijados continuavam tendo as necessidades básicas para sobreviver - comida, abrigo, manutenção - e deixá-los morrer sem ajuda, famintos, era visto como muito bárbaro para o então chamado lado da luz. Definitivamente má publicidade. Então o Ministério levou-os até um instituto perto de Bath, em uma pequena cidade bruxa chamada Wellow - fora da visão e fora da mente dos outros.
Draco se forçou a prestar atenção em Wolcott, que estava especificando o que exatamente o Ministério queria. "As contas no Gringotes, é claro. As propriedades em Sussex e no exterior, o apartamento em Londres, os armazéns em Hogsmeade. A Mansão".
Ele congelou quando percebeu seu erro. Até aquele ponto, tinha se permitido se concentrar nas contas do Gringotes. Por que tinha ignorado a chance de irem atrás da Mansão? Era pensamento positivo ou plena estupidez? Naturalmente, essa seria a primeira coisa que atacariam - o símbolo visível da anteriormente poderosa família Malfoy.
Redmund aparentemente notou sua resposta de choque, porque foi rápido em dizer, "É claro que o que o Ministério deseja e conseguirá são duas coisas completamente diferentes. Nós não deixaremos o Ministério ter sucesso. Mesmo que digam que estão agindo contra Lucius e não você, o fato é que somente você é prejudicado por essas ações. Perdoe-me por dizer isso, mas seu pai não terá punição maior. Somente ele era um Comensal da Morte, enquanto você é um veterano da guerra que lutou contra seu pai. Nós iremos lembrá-los disso quantas vezes for possível. Às vezes, a opinião pública é persuasiva para balançar o Ministério".
Pensou nas expressões de desgosto que viu na rua, e desejou ao seu time boa sorte. A dura realidade era que ninguém gosta de um traidor, mesmo que o traidor esteja do seu lado. Qualquer obrigado que tivesse recebido do mundo mágico foi, com certeza, mera obrigação.
Fontinelle Green retirou um pergaminho da grande pilha na frente dela. "Eu fiz uma lista de membros da Ordem que sabem do seu serviço para eles e, conseqüentemente, para o Ministério. Nosso plano é pedir apoio público para preservar sua herança de ser retirada dessa maneira antipatriota".
Ele olhou para ela com interesse. Quais nomes ela reunira?
Ela começou a ler. "Severus Snape. Dean Thomas. Seamus Finnigan. Hermione Granger. Ronald Weasley". Draco segurou uma risada quando ouviu o nome - o inferno iria congelar no dia em que Weasley concordasse em testemunhar a seu favor. Ela pausou, olhou para ele sem nenhuma expressão, e disse, "Harry Potter".
Potter? Ele abriu sua boca para protestar, mas Redmund o interrompeu.
"Não há espaço para animosidades, Sr. Malfoy. Um testemunho positivo de Harry Potter seria um benefício enorme no seu caso".
Se fosse positivo, pensou sardonicamente. Poderia acreditar que Potter tinha enterrado todos os anos de animosidade por causa dos eventos da guerra, quando lutaram pelo mesmo fim? Será que Potter sequer estava ciente dos feitos dele durante a guerra? Sim, Potter tinha o cumprimentado publicamente no julgamento de Lucius, e tinha expressado algumas palavras de consolo no enterro de sua mãe que pareciam sinceras. Mas o que faria? Potter o ajudaria agora? Ou seria convencido de que nada que o Ministério fizesse contra Lucius era justificado?
E será que Draco tinha coragem de pedir por tudo isso?
Os outros na sala estavam olhando para ele em expectativa. Decidiu-se, como sabia que faria, como sabia que tinha que fazer. "Façam o que for necessário. Eu não ligo para o dinheiro. Ou o resto. É só - Eu não posso desistir da Mansão. Eu -". Ele não conseguiu terminar.
Isso parecia ter sido recebido como ordens, porque Redmund e os outros arrumaram seus papéis e se levantaram.
"Nós o informaremos de qualquer progresso em corujas diárias, Sr. Malfoy. Deixe-nos saber de qualquer informação útil para esse caso".
Draco Malfoy estava novamente em guerra.
Beneath the trees we slumbered; and in the wings of Azrael, slowly, we faded to black.
Embaixo das árvores, nós dormimos; e nas asas de Azrael, vagarosamente, nós desaparecemos no breu.
Scarlet Seraph
Draco leu os papéis daquele dia enviados por seus advogados enquanto se dirigia ao seu escritório. No final de sua correspondência diária, estava irritado e questionou por que seus advogados o torturavam com tantos detalhes - não era por isso que eram pagos, e generosamente, então? Enquanto as semanas passavam e via como seu caso estava sendo construído argumento por argumento, havia ficado primeiramente curioso e finalmente absorvido nas etapas para esclarecer sua posição, lidando com os argumentos fortes e fracos. Às vezes até podia imaginar um resultado positivo. Se não fosse tão importante, poderia facilmente se fascinar pelas posições cuidadosamente construídas, os argumentos bem pensados, as idéias logicamente apresentadas para que isso siga necessariamente aquilo, levando a um julgamento satisfatório.
Nada era certo. Ainda havia uma possibilidade de ele perder tudo para o Ministério - eram teimosos e estavam se preparando para uma longa luta. No entanto, ao contrário de suas tendências sonserinas, e porque era tão importante, ainda preferia ter esperanças.
Distraiu-se de seu caminho por brilhantes raios de sol iluminando a grande escadaria. Era familiar o suficiente com a mansão para saber que esse tipo de intrusão só ocorria nessa época do ano. Raios de sol tão repetidos e previsíveis como as estações, desde quando a mansão fora construída, e continuando no futuro até um dia em que ele não estivesse mais ali para apreciá-los. Parou, então foi até o espaço iluminado e se sentou, sentindo os raios rapidamente esquentarem sua calça e camisa preta.
Instantaneamente, teve uma lembrança – quando conheceu Gregory Goyle.
Sua primeira impressão de Gregory foi a de um menino tímido espiando por trás da montanha que era seu pai. Sr. Goyle estava cumprimentando Lucius e limpando de suas roupas as cinzas da lareira em que acabara de chegar. Draco só podia encarar - não tinha conhecido nenhuma criança além de Pansy Parkinson, que era sua melhor amiga - e Gregory havia encolhido um pouco sob o olhar fixo. Lembrava-se de ter gostado da sensação de poder que o desconforto de Goyle havia lhe dado. Assistindo-os de perto, Lucius tinha feito as primeiras apresentações. Então ambos os homens se dirigiram ao escritório, deixando claro que os dois garotos deveriam se divertir em outro local.
Pegou a manga de Gregory e o puxou insistentemente, apenas dizendo "Vamos, você". Não estava surpreso - talvez devesse estar - quando Gregory seguiu-o sem jeito, como se a transição entre seguir as ordens de seu pai e as de Draco fosse um talento natural. Draco estava se dirigindo a um dos cômodos no primeiro andar - naquela época já guardava o santuário que era seu quarto de estranhos - quando notou os raios de sol na escada e mudou de direção. Gregory, apanhado nessa rápida mudança de rumo, quase tropeçou, mas Draco sentiu-o recuperar seu equilíbrio enquanto tentava esconder o fato de ter tropeçado. Como se agradar Draco fosse sua segunda natureza. Como se os desejos de Draco fossem mais importantes do que os dele.
Já gostava desse menino.
Sentou-se no terceiro degrau, sentindo o sol rapidamente esquentando sua pele pálida, e ainda mais rápido sua roupa preta. Gregory hesitou, então se sentou do lado dele, não muito perto, intencionalmente cuidadoso para não bloquear nenhum raio de sol. Se virasse sua cabeça um pouco, poderia ver Gregory observando-o, boca ligeiramente aberta, suas mãos apertando sua manga com incerteza. Draco inclinou sua cabeça na direção do sol, sentindo o calor dos raios vindos da janela, sentindo o olhar do garoto ao seu lado, sentindo a ligação entre eles. Estava feliz sabendo que poderia ter um amigo do sexo masculino, assim como seu pai. A idéia era confortante. Ele fechou seus olhos.
O garoto do seu lado tossiu, se mexeu um pouco, e finalmente falou, "Você é um anjo?".
Ele se virou, surpreso. "O quê?".
"Você é um anjo?", Gregory repetiu, com menos força, como se tivesse acabado de perceber que tinha dito algo estranho, talvez algo que tivesse ofendido Draco.
Não tinha idéia de como responder, então ficou quieto, olhos arregalados por causa da pergunta inesperada. Honestamente, não sabia o que um anjo era. Lembrava-se de uma figura que tinha visto há algum tempo de uma criatura vestida de branco, com enormes asas, envolvida por raios de luz. Mas aquele anjo era uma mulher, não um menininho de olhos cinza relaxando num degrau em suas roupas comuns.
Gregory se mexeu desconfortavelmente como se soubesse que tinha dito algo confuso, mas continuou. "Você é tão bonito. Você está brilhando. Eu já vi anjos, e eles são iguais a você. Brilhantes".
"Onde?".
Gregory parecia não conseguir conectar a pergunta com o que ele acabara de dizer, então Draco tentou novamente.
"Onde você viu anjos?".
"Ah. Nós temos uma janela, na nossa casa, uma janela colorida. Você sabe, aquelas que fazem uma figura. E tem anjos lá".
"Anjos são meninas".
"As nossas tem meninos e meninas. Meninos podem ser anjos".
"Com asas?". Ele já tinha esquecido que Gregory não era tão rápido como ele, então continuou. "Os anjos da sua janela têm asas?".
"Sim. Asas. Sim".
"Bem, eu não tenho asas".
"Não, Draco". O outro garoto espiou atrás das suas costas para ter certeza. "Ainda não".
Será que Gregory esperava que ele crescesse asas, então? Ficou mais animado enquanto pensava nisso. Poderia até gostar - não, com certeza iria gostar - de um par de fortes asas. Sabia que dragões tinham asas - tinha várias figuras de dragões, e ele sempre se imaginava, como o ser igual ao seu nome, subindo aos céus e voando livremente e tão longe quanto queria. Seus pais nunca disseram que ele iria crescer asas, mas então, sabia que seus pais mantinham muitos segredos dele. Talvez esse fosse outro.
Mas se era um segredo, ele não devia contar a Gregory. Não agora. Talvez quando fossem melhores amigos, então poderia. Asas como aquelas seriam difíceis de esconder, de qualquer jeito.
Gregory estava olhando para ele como se esperasse que crescesse asas naquele momento, tirá-las de um lugar secreto e as abri enquanto ele assistia. Parecia que o menino queria tocá-lo, mas Draco já sabia que não se atreveria, que já tinha registrado seus limites.
Gregory fez uma última tentativa de conversa. "Meu pai me contou, antes de vir para cá, que eu deveria ser muito cuidadoso perto de você. Ele disse que você é um menino especial".
Ah. Ele já tinha ouvido isso também, de seu pai, de sua mãe, de outros Malfoys. Não sabia que outras pessoas sabiam, também, e se sentiu aquecido com reconhecimento.
No fim das contas, Draco relutantemente desistiu da idéia de que era um anjo. Mas durante todo o tempo que conheceu Gregory, duvidava de que o outro menino tivesse feito a mesma coisa. Não do dia que se conheceram até o dia em que foi morto. Gregory sempre o havia tratado como se fosse uma criatura do céu, alguém de além do mundo que conheciam, até além da magia bruxa. Nunca entendeu, nunca conseguiu fazer Gregory parar de tratá-lo assim, tirava vantagem disso às vezes, mas respeitava do mesmo jeito. Parecia trazer conforto a Gregory, que seu melhor amigo fosse um anjo, mesmo que mais ninguém reconhecesse isso. Gregory sabia - uma simples crença para um simples menino - e era o suficiente.
Suficiente para seguir seu amigo, seu anjo, ao serviço do Lorde das Trevas. E depois, ao serviço da Ordem. Porque era aonde seu anjo o estava guiando.
Onde Draco o deixou para trás. Nem tentou tirá-lo de lá – deixou-o para trás para ser morto. Nem conseguia voltar para ver seu túmulo, e como se arrependia disso.
No final, pensou com ódio, Gregory estava certo. Ergueu-se dos degraus e desceu a escadaria, tremendo do repentino frio enquanto se afastava da luz do sol. Tinha sido o anjo de Gregory esse tempo todo. O maldito anjo da morte.
Am I the witness or am I the crime,
A victim of history or just a sign of the times?
Eu sou a testemunha ou o crime,
Uma vítima da história ou somente um sinal dos tempos?
Woman Be My Country - Johnny Clegg
Dean sabia que as coisas finalmente chegaram no limite. Por meses estava tentando lidar com a noite em que traíra Seamus, mas toda vez em que se encontravam, ele era novamente reduzido a um silêncio desconfortável. Seamus começou a perceber que havia algo de muito errado entre eles, e Dean sabia que ele suspeitava que tinha algo a ver com a noite em que foram capturados e com a escapada inexplicável. E sem saber o que tinha acontecido, Dean não podia falar sobre o assunto ou acalmá-lo.
Mas isso estava acabando com ele.
Sabia que Draco Malfoy tinha a chave. Evitava pensar em Malfoy, mesmo sabendo que um dia, não conseguiria mais ignorá-lo e teria que procurá-lo, para confirmar seus maiores medos.
Tinha traído Seamus, seu melhor amigo, e Seamus não se lembrava de nada. Um homem menos digno teria agradecido às estrelas e continuado sua vida como se nada tivesse acontecido. Mas Dean não era assim.
Era perseguido por pesadelos. Seus dias eram repletos de arrependimento. Não conseguia mais carregar sua própria culpa, a de aceitar o tipo de pessoa que realmente era. A imagem que tinha de si mesmo antes da guerra - o mito de que era digno de pertencer a grifinória - tinha sido uma farsa, não testada. Porque quando finalmente confrontou seus piores medos, não teve coragem moral suficiente para superá-los. Para salvar sua própria pele, ele covardemente jogou fora a única pessoa que deveria proteger. Não era melhor do que qualquer Comensal da Morte.
Afastou-se de seus amigos, mergulhou nos seus desenhos, tentou esquecer mais do que sabia que tinha sido apagado. Sem resultados.
Então ali estava, arrumando sua gola contra o vento em uma manhã fria de março em Wiltshire, aparatando nos portões da Mansão Malfoy assim que sua carta foi respondida com um educado convite.
Os portões pretos de ferro se abriram e ele se dirigiu pelo jardim. Pássaros cantavam sua chegada como se fosse uma celebridade. Alcançando a porta, levantou um batedor e o soltou, fazendo um alto barulho.
Instantaneamente, a porta se abriu e ele foi recebido por uma elfa-doméstico.
"Sr. Thomas", a voz aguda disse. "Você é bem-vindo aqui, senhor. Por favor, venha".
Ele retirou seu casaco, o qual foi rapidamente pendurado, e seguiu a elfa até um escritório. Malfoy já estava lá; o homem se inclinou, apertando sua mão, e perguntou, "Chá? Café? Algo mais forte, talvez?".
"Chá está ótimo".
Enquanto Malfoy dava instruções à elfa, Dean se permitiu olhar ao redor. Sempre imaginou seu colega de escola vivendo ricamente, e não estava desapontado. Mas tinha experiência limitada nesse departamento e não estava preparado para a escala impressionante do cômodo. Tudo que tinha visto até ali era elegante e belo, num nível intimidante. O artista nele apreciava tudo, mas o garoto do leste de Londres se sentia estranho e nervoso.
Assim que as perguntas educadas foram feitas, Dean foi direito ao ponto.
"Malfoy", ele começou em um tom de voz sério que havia praticado antes de chegar. "Eu tenho um grande favor para pedir".
Malfoy parecia intrigado, e levantou suas sobrancelhas, indicando para ele continuar.
"Eu quero - isto é, eu estou pedindo para você cancelar o feitiço de memória que colocou em mim".
Malfoy fingiu inocência, como Dean suspeitava que ele fosse fazer. Não seria desencorajado. Não agora. Depois de todo esse tempo, ele não agüentaria o fingimento educado de Malfoy.
"Eu me lembro do suficiente". Ele continuou. "Suficiente para saber que você nos ajudou a escapar. Snape disse isso no tribunal de seu pai". Não vendo uma negação do outro, continuou. "Eu sei que traí Seamus naquela noite. Eu sei disso. Eu aceito isso. Mas eu preciso saber do que aconteceu depois". Estava implorando agora, suas palavras eram baixas e intensas. "Eu não consigo viver comigo mesmo sem saber de tudo. Você entende isso?".
"Por que você tem tanta certeza que eu tive alguma coisa a ver com seu feitiço de memória?". A voz aristocrática era calma e distante.
"Eu sei. Seamus e eu sabemos. Seamus não se lembra de nada a não ser o pouco que concluímos juntos. Mas eu lembro. Eu lembro".
Ele podia ver que a resistência de Malfoy estava sendo destruída, mas continuou sem falar nada.
"A guerra acabou. Isso realmente importa agora?".
Dean fez com que sua voz não ficasse mais emocional. "Eu... Eu realmente preciso saber. Malfoy. Por favor". Ele disse tudo que podia. "Por favor".
"Eu entendo".
"Não, eu não acho que você entenda. Sobre traição, eu quero dizer. Como poderia? Você nunca -".
O tom polido desapareceu em um instante, trocado por raiva e ultraje. "Como você se atreve a me dizer o que eu entendo ou não entendo? Você se acha especial, Thomas? Acha que os sentimentos dos outros não chegam nem perto dos seus?".
Envergonhado, ele conseguiu dizer, "Não. Não foi o que eu quis dizer".
Malfoy estava olhando para ele friamente. "Como você pode dizer isso para mim, de todas as pessoas? Não é como se você soubesse o que eu era. O que eu fiz. Você não imagina quão sujas minhas mãos estão".
Arrependido, percebeu como suas palavras tinham sido ofensivas. "Desculpe. Eu não pensei quando disse aquilo".
Sua desculpa parecia acalmar Malfoy um pouco. "Thomas, todos nós estamos a um passo de trair alguém que é próximo de nós. Nós gostamos de pensar que somos nobres, mas até aparecer algo que desafie essa ilusão, nós nunca vimos nossa feiúra. A maioria das pessoas nunca teve a chance".
"Conte-me". Ele disse com uma voz baixa.
"Por que eu deveria?".
Ele respirou fundo. "Porque eu estava errado. Você me entende".
Malfoy o olhou sem dizer nada por um longo momento, então deu um suspiro. "Não há razões para não contar, eu acho. Você se lembra de Gregory Goyle?".
Dean concordou com um gesto da cabeça. Goyle tinha sido um de seus interrogadores naquela noite.
"Gregory era meu melhor amigo, durante anos, até mesmo antes de Hogwarts. Ah, eu sei que vocês grifinórios achavam que era apenas um guarda-costas contratado. Todos pensavam pouco de Gregory. Ele não era o melhor aluno em Hogwarts, ou o mais inteligente. Mas eu tenho que dizer que era o mais leal". Malfoy estava não estava olhando para Dean, e sim para um canto do quarto.
"Eu nunca falei com Goyle, a não ser durante aulas. Eu sei que ele andava com você". Dean admitiu.
"Ele tinha poucos amigos, mas eu era um deles. Não existia algo que ele não fizesse por mim. E quando eu me juntei aos Comensais da Morte, me seguiu. Não por lealdade ao Lorde das Trevas ou por simpatia à causa. Nem um pouco. Gregory não era assim - ele não pensava muito em ideais abstratos".
Dean nunca tinha visto Malfoy sem jeito antes, mas agora ele estava nervosamente passando seus dedos pela xícara de chá.
"Gregory nunca soube que eu era, e eu nunca arrisquei meu pescoço para contar. Estava muito ocupado salvando minha própria pele. Nem tentei falar sobre o que ele queria. Quando eu fui descoberto, tive que deixá-lo para trás".
"Mas ele escolheu estar lá-". Dean começou, mas foi rapidamente interrompido.
"Não, ele não escolheu estar lá. Escolheu estar comigo, e eu o abandonei. Tem uma diferença". O rosto de Malfoy não traía seus sentimentos. "Mas fica pior. Depois que eu fui embora, Gregory conseguiu descobrir que eu já trabalhava contra os Comensais da Morte. Finalmente foi ver Severus, que decidiu confiar nele. Gregory trabalhou contra os Comensais então. Mas eu nunca soube".
Agora Dean entendia por que Malfoy parecia tão chocado no julgamento de Lucius, depois que Snape disse que Goyle era um espião. "Eu nunca suspeitaria dele".
"Bem, pena que você não era um Comensal da Morte, então. Porque eles acabaram pegando-o. Nunca teve o treinamento que eu tive, e não era muito astuto. Severus conseguiu perceber os rumores bem a tempo. Tudo estava frágil por minha causa também - Severus conseguiu se livrar de ser culpado por todo o fiasco. Mas transferiu a culpa da minha traição para alguém mais... Merecedor".
"Ele teve sorte".
"Não, ele foi oportunista. Convenceu todos que meu pai era mais culpado, e foi Lucius que acabou sob Cruciatus. Justiça irônica, não?".
Dean não respondeu. Não tinha nada que podia dizer.
"Naquele ponto, Gregory estava perdido não importava o quê. E Severus não podia ter dois espiões descobertos em seu círculo. Então fez o que tinha que ser feito naquelas circunstâncias - ele o denunciou".
"Então Snape o traiu. Não foi você".
Malfoy franziu as sobrancelhas e negou com um gesto da cabeça. "Gregory só estava lá por minha causa. Ele se tornou um espião para a Ordem por minha causa. Se não fosse por mim, a mãe dele o teria levado até Durmstrang antes do sétimo ano com Vincent Crabbe, e ele nunca seria envolvido nessa confusão. Severus o traiu, mas eu o traí antes".
Dean queria confortá-lo; Draco só tinha feito o que tinha que fazer. Mas sua própria situação provava que as coisas não eram tão fáceis. "Sinto muito".
"Eu sinto muito também. Por Gregory. Mas ele não foi o único que eu tive que trair. Eu já tinha feito coisas muito piores anteriormente". Ele se levantou. "Vou mostrar a você".
Dean seguiu Malfoy fora do escritório. Nenhum dos dois falou enquanto atravessavam o corredor, os passos ecoando ao redor. Malfoy parou na frente de uma porta fechada, murmurando algo para destrancá-la. Eles continuaram.
Encontrou-se em um largo salão sem janelas de algum tipo, e pelas aparências, esse cômodo nunca era usado. Escuridão jazia em todos os cantos, a única luz vinda da varinha de Malfoy.
"Lumus", ele ouviu, e tochas se acenderam nas paredes, iluminando a mobília pesada e os tapetes caros.
Do centro do salão, ele podia ver uma galeria de retratos bruxos – de Malfoys até onde podia ver. As figuras pareciam desacostumadas a serem perturbadas, e houve um murmúrio enquanto acordavam. As palavras eram inicialmente indistinguíveis, então ele começou a entender o que estavam dizendo. O barulho ficou mais alto.
"Como se atreve a mostrar sua cara para nós", ele ouviu. "Traidor de sangue".
"Você não é digno de ficar perante nós. Saia dessa casa".
"Traidor sujo".
"Assassino. Você praticamente matou seu pai. Sua mãe morreu pagando por sua traição".
"Você é indigno do nome Malfoy".
"Nós o repudiamos".
"Traidor".
"Traidor".
"Traidor".
Dean estava em choque enquanto o barulho ficava tão alto ao redor deles que ele queria tampar suas orelhas. Todos os ancestrais Malfoy estavam jogando insultos ao seu único descendente. Já Draco ficou impassível, com a cabeça erguida, aparentemente não afetado, mas Dean sabia que isso era fingimento - como alguém conseguiria ouvir aquele ódio bruto sem senti-lo em todo seu ser? Até mesmo Dean, que não conhecia nenhum desses bruxos e bruxas, sentiu a feia, pesada emoção nas palavras. De repente, era demais.
Ele cutucou Malfoy. "Vamos embora". Por um momento, sentiu-o resistir ao seu pedido, mas, para seu alívio, assentiu, e saíram do cômodo. Antes de chegar à porta, pararam na frente de um grande retrato - Dean reconheceu Lucius e Narcissa. O casal estava se comportando igual aos outros retratos - traidor, traidor, traidor - e Dean observou Malfoy assentir com um gesto da cabeça e fechar seus olhos. Então, graças a Deus, finalmente, eles voltaram ao corredor. Malfoy fechou a porta atrás deles levemente, cortando as vozes no meio de seus xingamentos.
Dean ainda estava muito chocado para falar.
Malfoy virou-se na direção dele com uma expressão neutra. "Então veja, se algum dia eu tiver alguma dúvida sobre quem sou e o que fiz, sempre terei quem me lembrar".
Ele não podia acreditar que Malfoy escutava àquele veneno por vontade própria. "Você não é assim. Eles não sabem da verdade - como poderiam saber?".
"Eles sabem que eu traí Lucius. Isso é um fato, Thomas - eu traí. Eu achava que era necessário, mas isso não muda nada. Não para eles".
Eles retornaram ao escritório, onde Dean se jogou em uma cadeira. "Posso perguntar uma coisa?".
Malfoy o olhou com um sorriso distante. "Essa parece ser uma tarde de confissões. Vá em frente".
"Por que você fica aqui? Para que viver sozinho? Não traz muitas lembranças ruins? Quero dizer, os encontros dos Comensais, sua mãe...". Ele não queria ser insensível e mencionar o assassinato da mãe dele naquela casa. "E aquela multidão de agora há pouco…".
"Bem, eu não os visito muito, para dizer a verdade".
"Mas por que você fica aqui?".
O olhar sério de Malfoy continha um ar estranho de perplexidade. "Por que eu não ficaria aqui? É minha casa".
"Sim, mas deve haver outros lugares para você viver. Essa não pode ser a única propriedade que você possui".
"Não, é claro que não. Tenho um apartamento em Belgravia e uma casa em Marseilles. Uma mansão fora de Praga. Uma pequena vila em St. Petersburg, eu acho. Uma cabana na Mongólia".
"Você está brincando".
"Bem, sim, na verdade. Mas só na parte da cabana". Malfoy sorriu ironicamente. "O que você acha que significa extremamente rico? Os Feijões de Todos os Sabores que eu quiser e um servo dedicado a tirar os ruins para mim?".
Dean riu. "Eu acho que nunca pensei nisso. Sendo que não é algo que eu tenha que lidar".
"Que pena, então. Bem, deixe-me contar, corrupção é uma atividade muito lucrativa. E os Malfoys estão nela por gerações". Ele franziu suas sobrancelhas. "E ainda tem os Black...".
"A família de Sirius?".
Malfoy concordou com um gesto da cabeça. "A família da minha mãe também. Potter nunca te contou? Ah, bem, ele deve ter vergonha de nossa conexão. Mas já mencionando isso, se Sirius Black não tivesse deixado o Largo Grimmauld a Potter, eu seria o dono de lá também. Ah, bem, não posso ter tudo, eu acho". Sua expressão ficou mais séria. "Mas eu pertenço a Mansão Malfoy. É o local em que cresci. Eu amo estar aqui".
"Você ama?". Dean achava isso incompreensível, mas é claro que não tinha sido criado como parte da aristocracia bruxa. Não tinha afeição por nenhum dos inúmeros lugares que chamou de casa. "Para mim, as pessoas que fazem um lar. O local, os quartos - nada disso importa muito".
"Eu sei que me considera fútil, Thomas, mas eu não posso evitar sentir afeto por essa casa - minha herança, minhas tradições, minhas memórias - e sim, eu tenho algumas lembranças boas daqui". Sua resposta dura fez Dean perceber que ofendera seu anfitrião com o que dissera, e tentou consertar.
"Eu nunca estive em uma casa mais bonita, Malfoy. Você sabe que eu cresci em um bairro pobre e isolado - ou talvez não soubesse. Nós nem tínhamos os Feijões de Todos os Sabores, muito menos um servo. É apenas diferente. Eu não quis dizer que era ruim".
Malfoy o olhou curiosamente. "Isolado? Como os trouxas sabiam que você é um bruxo?".
Ele riu em frente à confusão de Malfoy. "Não, não assim. É claro que eles não sabiam de nada. Nós vivíamos em um bairro com outros imigrantes. Um bairro de negros".
Malfoy não parecia muito esclarecido. "Um bairro de negros?".
"É. Eu sou negro. Você não percebeu?". Ele riu nervosamente, então de repente percebeu: "Você não sabe do que estou falando, não é?".
Malfoy balançou a cabeça em forma negativa.
Dean se encontrou em uma posição difícil, tendo que explicar racismo para a pessoa mais racista que conhecia. Malfoy absorveu sua explicação sem uma palavra.
"Então é igual à situação de sangues-puros e trouxas que os Comensais acreditavam", ele terminou.
"Mas cor de pele? Isso é estranho. Não diz nada sobre que tipo de bruxo você é".
"Não. Mas nascer puro-sangue ou de pais trouxas também não, não é? Assim que você é um bruxo, você é talentoso ou não. O resto é circunstância de nascimento. Como ser negro".
"Eu não sei".
Dean o olhou intensamente. "Bem, do meu ponto de vista, eu não percebi diferença alguma entre ser odiado por ser nascido de trouxas e ser odiado por ser negro".
Malfoy parecia avaliar aquilo, e eles ficaram em um breve silêncio. Após um momento, Dean retornou ao seu assunto original.
"Concordamos que é importante não enterrar o passado. Acho que você entende porque preciso que retire o feitiço de memória".
Ele viu as últimas resistências de Malfoy desaparecerem. "Tudo bem. Não estou muito surpreso por seu pedido. E está certo - não importa mais. Eu o fiz para proteger Severus, mas a guerra acabou. Pelo menos é o que eles me dizem". Sem mais hesitação, Malfoy retirou sua varinha e disse as palavras que Dean tanto esperava. "Finite incantatem".
Ele fechou os olhos e sentiu a memória voltar, se abrindo e finalmente liberando sua história enterrada. Ele viu, como se pela primeira vez, a corrente de eventos levando à sua escapada: o questionamento de Bryce e Goyle, a observação silenciosa de Snape, os beijos enganosos de Malfoy - uma surpresa, isso - sua escapada, e o final.
E finalmente, após meses tentando e falhando em se lembrar da sua traição a Seamus, podia se lembrar dos dedos pressionados contra os seus enquanto estavam presos à parede da cela, as palavras sussurradas de Seamus, o perdão oferecido e prontamente aceitado.
Ele devia ter imaginado. Os sentimentos de dúvida e culpa que estava carregando por meses desapareceram, substituídos por uma leveza bem-vinda, uma alegria libertadora.
Estava esperando para recuperar a crônica da escapada deles, mas o que tinha descoberto, o que era totalmente inesperado, foi a detalhada revelação das ações de Malfoy enquanto arriscava sua própria vida e os salvava.
Sentou-se em silêncio por um longo tempo, absorvendo a informação, tentando entendê-la.
Finalmente disse, "Obrigado, parece que devo minha vida a você. Mas por que se preocupou em se esconder de nós mesmo depois que a guerra acabou?".
Malfoy levantou um ombro delicadamente. "Quem sabe? Parecia uma boa idéia na época, sabe?".
Ele só podia rir. "Acho que sim. Quero dizer, nenhum de nós esperava que isso acontecesse, para começar. Foi muito azar ser capturado sabendo tanto naquela noite. Mais um dia, e a informação teria sido apagada e nada disso teria acontecido".
"Destino", Malfoy murmurou. "Tinha que acontecer, eu acho".
"Mmm. Então aonde você foi? Depois que nos salvou?".
"Grécia, acredite ou não - ah, esqueci, temos uma vila em Thessalonica -, mas por um curto tempo. Então tive que voltar". Ele olhou Dean severamente. "Do lado dos anjos, é claro. Eu nunca poderia voltar aos Comensais depois da fantástica virada de eventos".
"É claro, Carmichael".
Malfoy desviou o olhar, envergonhado. "É, tá bom. Eu precisava voltar à ação das coisas. E para dizer a verdade, eu não me arrependi por muito tempo de ter deixado os Comensais, embora estivesse muito bravo com vocês na hora. A Terra dos Comensais da Morte não era o mais agradável - ou mais seguro - lugar para se estar. Mesmo para um Malfoy".
Dean sorriu em simpatia genuína. Definitivamente havia mais em Malfoy do que ele deixava as pessoas verem em seus tempos de Hogwarts. Ele não cometeria o erro de julgá-lo novamente.
"Quer saber - se sua oferta ainda estiver de pé, eu acho que gostaria de algo mais forte afinal de contas".
Malfoy o olhou com mal disfarçada surpresa. "Claro, Thomas".
Ele disse rapidamente. "Ei, me chame de Dean. Agora que já me beijou, acho que tem essa permissão".
Antes da tarde acabar, eles tinham bebido muito mais do que ambos estavam acostumados. A conversa tinha se aquecido a cada momento que passava, encorajada pelo álcool, a isolação, e a afinidade crescente entre eles. No final dessa festa particular, tinha forçado uma promessa de Draco - Draco, imagine só, refletiu - para posar para ele no seu estúdio no próximo dia. Mas não muito cedo na manhã, estavam de perfeito acordo.
Come as you are, as you were, as I want you to be,
as a friend, as a friend, as an old enemy.
Venha como é, como era, como que quero que você seja,
Como um amigo, como um amigo, como um velho inimigo.
Come as You Are - Nirvana
Uma única dose de poção para ressacas não estava funcionando nessa manhã, Dean percebeu. Era uma surpresa ele não ter se matado quando aparatou da Mansão Malfoy. E Malfoy - Draco, ele mentalmente se corrigiu - tinha prometido posar para ele hoje. Imaginou se o outro apareceria, ou se era uma promessa feita sob licor, feita para ser educadamente quebrada.
Ele se preparou para a visita de qualquer jeito.
Surpreendentemente, uma batida forte o interrompeu de seus pensamentos, e a porta se abriu sob seu comando. Draco colocou a cabeça para dentro tentativamente - nada de elfos-domésticos ali - e o cumprimentou.
"Oi, Draco", ele respondeu, feliz por ter se lembrado de usar o primeiro nome do outro. "Pode entrar".
O apartamento de Dean era um compromisso não balanceado entre um local decente para se viver e uma ótima iluminação de estúdio, e a iluminação tinha ganhado. Ele estava mais ciente de suas condições depois que visitou a casa de Draco no dia anterior. O apartamento inteiro cabia no quarto de retratos com muito espaço de sobra.
Vendo, tarde demais, que deveria ter arrumado um pouco, ele chutou uma pilha de roupas sujas e abriu um caminho para o sofá. "Estou fazendo café. Você quer?".
"Sim, obrigado". Draco hesitou por um instante, então retirou uma pilha de revistas e se sentou, mas não parecia relaxado. Suas costas estavam um pouco retas demais, suas mãos arrumavam uma imperfeição invisível em sua camisa, e seus olhos percorriam o quarto, olhando para tudo menos Dean.
"Já volto". Alguns passos o levaram até a porta da sua pequena cozinha. Enquanto terminava de servir duas xícaras de café, tentou controlar seu próprio nervosismo. Ele estava um pouco inclinado a pegar o álcool novamente, para tentar reafirmar a camaradagem do dia anterior, mas seu estômago se revoltou com a idéia. Até mesmo o cheiro de café não tinha seu efeito natural nele.
"Como você gosta do seu?", ele perguntou.
"Com leite, por favor".
Ele retirou o leite, verificando a data de validade e cheirando hesitantemente o conteúdo. Parecia bom. Ele pôs um pouco em ambas as xícaras. No ultimo segundo, agarrou um pote de biscoitos, então parou. Não podia colocar o pote nas mãos de seu hóspede e fazer com que ele enfiasse a mão ali - precisavam estar em um prato. Colocando tudo na mesa novamente, ele procurou por seu melhor prato, e gastando mais tempo arrumando os biscoitos para não parecerem tão desorganizados. Só que agora, ele não conseguiria carregar tudo. Ele ao menos tinha uma bandeja?
Virando muito rápido para checar, bateu a cabeça na porta do armário que deixou aberta.
"Droga".
"Você está bem?".
"Sim... eu só -". Só me dei uma acordada. O que estava pensando, tentando impressionar alguém como Draco Malfoy com uma xícara de café barato e uns biscoitos? Ele era um artista tentando fazer um nome, e devia parar de agir como se não fosse. Não tinha aperitivos delicados em prataria de heranças, não tinha um elfo-doméstico devotado a servi-lo, e com certeza não tinha um escritório para receber seu hóspede.
Mas então, não tinha um quarto cheio de retratos que o odiavam.
Ele finalmente conseguiu segurar duas xícaras em uma mão, o prato na outra, suspirou, e entrou na sala.
"Vamos para o estúdio, está bem?".
Seu estúdio era a melhor parte do apartamento, e ele o arrumava mais do que o resto da casa. Sentiu sua tensão dissipar-se enquanto olhava em volta, finalmente confortável.
Draco entrou vagarosamente, olhando os desenhos, a maioria incompletos, que estavam pendurados nas paredes. "Esses são bons", ele disse, e riu. "Para ser honesto, eu não sabia o que esperar".
"Mas eu desenhava na escola".
"Mmm, foi o que ouvi. Mas eu nunca tinha visto algo seu".
"Dumbledore organizou uma galeria para os estudantes no último mês de escola. Você não -".
"Deve ter sido depois que fui embora", Draco disse em voz baixa, e Dean se sentiu como um idiota.
"Certo. Desculpe".
"Quero dizer, eu não esperava cachorros e gatinhos, mas me ocorreu depois que você foi embora que eu não fazia idéia se você era sério em relação a desenhar. Que bom que estou em boas mãos".
"Obrigado".
"Mas eu tenho que confessar. Eu nunca fiz algo parecido antes. Isso é completamente novo, então você terá que me dizer o que fazer".
"Sem problemas. Todos meus modelos são amadores".
Draco se virou para olhar os desenhos mais perto dele, um retrato que Dean estava fazendo da filha de sua vizinha, como forma de pagamento de aluguel. "Eles não se mexem".
Dean sorriu. "Não. Eu só desenho retratos trouxas. Quando eu desenho, eu gosto de capturar apenas um momento, e eu preciso definir esse momento. É mais... Eu não sei, honesto, talvez. Retratos bruxos mudam muito, para mim parece que eles têm muito poder. Eu não gosto disso. Como um artista, eu quero estar no controle".
Draco deu um pequeno sorriso. "Eu queria que os artistas que pintaram os Malfoys se sentissem assim".
"Eu imagino. Bem, eu posso garantir que esse retrato Malfoy nunca dirá nada".
Draco riu, e Dean percebeu que ele finalmente relaxara.
"Venha se sentar". Ele colocou sua mão no ombro de Draco, um primeiro toque que fazia a maioria dos seus modelos encolherem, mas não houve reação. Ótimo.
Ele o levou a um ponto onde a luz estava mais fraca. "Essa é a parte que todos ficam com vergonha. Eu vou olhar para você em ângulos diferentes. O que estou procurando é a maneira que a luz cai, as posições mais expressivas, idéias sobre o que quero mostrar com esse retrato".
"Tudo bem".
"Sinta-se livre para falar. Coce seu nariz, se alongue quando precisar. Eu vou avisar se estiver trabalhando em alguma parte em que preciso que fique parado, mas isso vai demorar um pouco." Ele pegou as mãos de Draco e balançou um pouco para relaxar seus ombros.
"Você vai me desenhar inteiro ou só a cabeça?".
"Não sei ainda. Deixe-me ver o que vem na minha cabeça. Vire sua cabeça para a esquerda… Isso, aí".
Dean nunca podia olhar outra pessoa sem imaginar automaticamente como ela ficaria no papel. Como desenharia suas feições, sua postura, sua expressão para evocar um certo humor. Quando ele podia, iria observar o máximo que pudesse. Mas nunca se permitiu olhar para Draco desse jeito, nunca. Quando eram mais novos, ele era intimidado pelo jeito de Draco - desafio e ódio. Ninguém arriscava encará-lo com medo de apanhar dos outros sonserinos. Dean tinha observado de certa distância, sabendo que Draco estava fora de sua liga.
"Mexa sua cabeça devagar da direita para a esquerda, então para cima e para baixo. Ei, está ótimo."
Ele percebeu imediatamente que Draco era o sonho de um artista. O jeito que a luz definia sua face com luz pálida e sombras contrastantes - os ângulos de suas bochechas, seu queixo pontudo e longos cílios, sua boca voluptuosa - faziam os dedos de Dean doer por um lápis. Cada virada da cabeça de Draco revelava outra expressão, outra pessoa. Ele podia sentir animação crescer sobre o prospecto de capturar até mesmo algumas delas, e forçou-se a continuar observando.
"O que você vê quando eu me mexo dessa forma?", Draco perguntou.
"Estou observando luz e sombras, na maioria. E como suas feições mudam de um ângulo para o outro".
"Tem luz suficiente em mim para isso?".
"Para começar, sim. Mas deixe-me tentar algo". Ele pegou uma lâmpada de perto e a ligou. "Eu posso criar muito com isso. Quando eu a coloco aqui -" ele a posicionou no chão "- eu posso fazê-lo parecer misterioso e sinistro. Daqui de cima, você parece angelical. Ainda mais se eu a colocar atrás de você, assim... A luz brilha através do seu cabelo e você parece positivamente etéreo".
Draco riu. "Essa é uma novidade".
Dean colocou a lâmpada no chão e a desligou. "Venha para essa cadeira e vamos ver o que o sol faz com você".
"Coisas ruins. Queimaduras, sardas. Dê-me uma bela masmorra a qualquer dia". Ele se levantou graciosamente e andou até a cadeira.
Dean estaria satisfeito só de olhá-lo andar - ele tinha uma graça e elegância natural quando se movia. A maioria das pessoas levava horas para ficarem à vontade, mas Draco nasceu com confiança inata.
"Agora eu irei ver como seu corpo fica na luz natural".
Draco fez mais exercícios, e perguntou sobre o que estava fazendo e por quê. Todos os sinais de nervosismo haviam desaparecido.
"Sente-se de lado, incline para frente, e abrace seu joelho. Bom, sim. Coloque sua cabeça no seu joelho. Aham. Agora vire e olhe para mim. Feche seus olhos".
Depois de um minuto, Draco disse. "Eu vou dormir assim. Acho que a noite passada está tendo seus efeitos".
"Certo, então. De pé. De pé!".
Draco se levantou, esperando pela próxima instrução.
"Eu já sei o que vai mantê-lo acordado".
Ele olhou ao redor do estúdio e viu um pedaço de madeira jogado entre seus desenhos. Servia. Ele retirou sua varinha e transformou aquilo em uma espada, a passando a Draco com uma pequena reverência. "Aqui. En garde".
Draco olhou para a espada, então para ele, com desgosto. "Amador. Isso não dá". Retirando sua própria varinha, mudou a simples espada para uma típica de esgrima. "Essa é uma arma de verdade. En garde". Ele fez uma pose exagerada.
Dean não pôde deixar de rir. "Vá em frente. Divirta-se".
"Eu não tenho um oponente". Ele olhou para Dean, esperançoso.
"Ah não. Sem chance. Sou horrível com objetos pontudos e afiados. Você terá que imaginar".
E foi isso que Draco fez. Ele atacou e lutou contra um inimigo invisível, virando sua espada com fogo e intensidade genuínos, enquanto Dean observava, se divertindo. Finalmente, respirando profundamente e suando, Draco terminou a solitária batalha.
Dean pegou um copo d'água para ele.
"Obrigado", Draco disse, ainda respirando pesadamente. "Eu não sabia que posar seria tão ativo".
"Não é. Eu fiz uma exceção especial para você".
Draco abaixou seu copo e sorriu ironicamente. "Vingança por causa da escola? E eu achava que éramos amigos".
"Eu vou tentar pegar leve com você, então", disse, surpreso e feliz que Draco tivesse brincado casualmente.
"Você pode começar me tirando desse maldito sol".
"Claro. Eu quero você de volta na cadeira em que começou".
Draco se jogou nela com exaustão fingida, e Dean ficou com pena dele, lançando um feitiço refrescante.
Draco fechou os olhos e suspirou quando o ar gelado o atingiu. "Mmm. Obrigado".
"Estou pronto para começar a desenhar. Você pode ficar como está". Sua mente estava tão ativa quanto o corpo de Draco há alguns minutos atrás. Por hoje, uma sobrancelha relaxada, um olho fechado, uma bochecha. Ele começou.
Eles passaram o resto da tarde papeando - quem tinha se casado com quem, onde todos terminaram, o que estavam fazendo agora - interrompidos pelas instruções de Dean e as perguntas de Draco.
Finalmente, Dean parou. "Relaxe, soldado". Ao olhar confuso de Draco, disse. "Terminei por hoje".
"Posso ver?".
"É claro". Ele virou o painel para Draco ver seu trabalho e tentou não se preocupar com o que o outro diria.
"Ah. Está bom. Eu nunca me vi desse lado. Eu realmente fico assim?".
"Sim. Você fica diferente dependendo do ângulo. Mais do que todos que já desenhei, na verdade".
"Isso é bom?".
"Muito bom. Significa que há várias maneiras para eu te desenhar". Ele ia descrever algumas de suas idéias, quando percebeu que Draco só tinha prometido um dia.
"Você terminará esse primeiro?".
Ele assentiu com a cabeça, agradecido que Draco sugeriu. "Se você puder voltar e sentar, eu vou".
Draco olhou para ele surpreso. "Ah. Eu achei que você iria querer que eu viesse. Você quer?".
Dean sorriu. "Com certeza. Eu estava com medo que você não quisesse".
"Não, é interessante. Aprender como é feito".
"Já é interessante por estarmos fazendo isso juntos. Quem adivinharia isso?".
"Bem, nós vivemos em tempos interessantes".
Dean estava guardando seus lápis, mas parou para olhar para cima. "Engraçado que você tenha dito assim".
Draco levantou as sobrancelhas em pergunta silenciosa.
"Essa é uma maldição Chinesa dos trouxas... que viva em tempos interessantes".
Draco deu um pequeno sorriso. "Eu não sabia que trouxas têm maldições".
"Ah, claro que têm. Eles apenas não têm poder para torná-las realidade".
"Hmm. Eu acho que isso é bom. Eu acho que vivi meu limite de tempos interessantes. Depois desses últimos anos, estou pronto para um feitiço de tédio".
Talvez, Dean pensou, Draco só quisesse um tipo diferente de maldição.
So I live, that's about all I can say; I breathe nearly every day.
Então eu vivo, é só o que posso dizer; eu respiro quase todo dia.
I Live - The Fixx
Draco amava o labirinto na Mansão, era um dos seus lugares favoritos para relaxar. Entre as antiguidades do resto da casa, o labirinto era novo em folha, construído com as instruções de sua mãe. Ele ocupava um pedaço baixo do terreno cercado de cedros. Pequenos arbustos delineavam os caminhos, sugerindo um não confinamento, e sim guia para aonde os pés humanos quisessem levar. O caminho tinha inumeráveis curvas, todas levando ao centro. Ele foi feito para contemplações relaxantes.
Hoje era o lugar perfeito para se andar e descarregar suas emoções. Ignorou a leve chuva que começou a cair, apenas apertando mais seu casaco. A conexão do labirinto com sua mãe o ajudava a se acalmar - apenas um mês havia se passado desde seu assassinato. Nenhum suspeito tinha sido reconhecido, mas não estava surpreso. Ele sabia quem seus assassinos eram - qual Comensal da Morte tinha feito o trabalho sujo não importava.
Eles não estavam atrás dela, é claro; não particularmente. Nada que sua mãe fazia tinha sido de importância para os Comensais. Ela era uma criatura concentrada apenas nos prazeres materiais da vida - visões, cheiros, toques e gostos. Esse labirinto era puramente Narcissa - um luxo civilizado longe da atmosfera de Comensais que ela ignorava.
Não, a verdadeira vítima era Draco. Sem Lucius para protegê-la, Narcissa havia se tornado dispensável. Os Comensais da Morte apenas viam nela uma maneira de chegar a Draco e exploraram isso. As barreiras ao redor da Mansão não foram feitos para manter fora os amigos de Lucius; Draco percebeu tarde demais que a entrada estava aberta aos seus inimigos.
E ele sentia falta de sua mãe, mais do que achava que iria levando em conta a história deles. O único retrato de Narcissa na Mansão era o dela com Lucius, e ele se recusava a visitá-lo. Ele achava que tinha outro dela no Largo Grimmauld - de tempos em tempos pensava em pedir a Potter para ver, mas não tinha a coragem. Ele não queria ter a conversa com Potter que esse pedido requereria.
Enquanto andava, percebeu como sua vida havia se tornado igual a esse labirinto. De um lado para o outro, de dentro para fora, andando sozinho até chegar ao centro - um destino falso, porque nada o esperava no fim de seu caminho. Ele só podia virar e voltar para onde começara.
"Draco". Ele levantou sua cabeça com a chamada inesperada, e viu Severus andando até ele em uma das entradas no cedro.
Ele parou no caminho e observou sua visita andar pela grama molhada.
"Severus". Seu antigo professor não estava ignorando a chuva como ele; já estava começando a parecer um cachorro molhado, e seus sapatos estavam completamente encharcados.
Severus o observou com uma expressão cômica. "Eu achava que apenas grifinórios não tinham o bom-senso de sair da chuva".
Ele sorriu. "E eu achei que apenas sonserinos tinham o bom-senso de usar roupas com feitiços de impermeabilidade nesse tempo". Ele se virou, indo na direção de uma das saídas. "Vamos entrar para uma xícara de chá?".
Severus parecia aborrecido na subida à Mansão.
Ele percebeu a expressão, e riu levemente. "Não se preocupe, Severus, nós podemos aparatar daqui".
Sully trouxe chá para eles na sala de visitas, onde o fogo estava queimando na lareira. Ambas as cadeiras foram arrastadas para mais perto, e os dois homens olharam silenciosamente o fogo, permitindo que o calor tirasse a umidade de suas roupas.
"Os duendes de Gringotes reconsideraram sua herança?", Severus perguntou. Draco estava mandando novidades para ele que achava necessárias, não entrando em detalhes, mas pedindo conselhos quando precisava.
"Não há motivos para reconsiderarem. Para ser honesto, eu acho que eles gostam da ambigüidade. E até ter um túmulo onde eu posso cuspir, não há nada que eu possa fazer",
Silêncio.
"Apenas desembuche. Você é horrível em conversa fiada",
Severus franziu as sobrancelhas. "Talvez porque nunca consigo praticá-la",
Ele riu. "Poupe-me! Eu sei que você não veio de Hogwarts para discutir o andamento da minha herança. E eu tenho certeza que não veio aqui para discutir política de duendes",
"É claro que não. Um amigo não pode mais visitar sem ser detido na porta? Ou você já colocou Veritaserum no meu chá, e está esperando fazer efeito?",
Ele apreciou a maneira casual com que Severus o lembrava das conversas deles depois do Veritaserum. Ele só podia rir - agora - lembrando-se da sua vergonhosa admissão sobre querer beijá-lo - felizmente, eles haviam superado a paixão de estudante e desenvolvido uma amizade verdadeira, baseada em temperamentos iguais e experiências em comum.
"É claro que coloquei. Veritaserum, como um velho e sábio professor um dia me disse, é a poção mais comum no mundo mágico",
"Velho?",
"Bom, sábio, pelos menos. Talvez não tão velho, pensando nisso",
"Com essa descrição revisada, eu acho que conheço o professor, então",
"É claro que conhece", Ele deu um pequeno sorriso irônico. "Agora, me diga tudo sobre sua vida amorosa clandestina, Severus. As fofocas nunca chegam até aqui. A não ser quando eu ouvi que uma nova professora de Estudos Trouxas está em Hogwarts. Uma professora muito sozinha. É o que dizem",
Severus franziu as sobrancelhas. "Quem, se depender de mim, continuará assim. E como está a sua vida amorosa nesses dias, Draco?".
"Maravilhosamente inexistente".
"Você me surpreende. Um bruxo atraente e rico como você?".
"Não é tão difícil de entender. Primeiro, tem o assunto problemático de eu ser gay. Tende a reduzir os candidatos dramaticamente. Então tem a reputação de filho-de-um-horrível-Comensal-da-Morte que eu tenho. Seguido da reputação de espião-de-lealdade-indeterminada que eu mesmo inventei. Então qualquer peixe foi assustado para fora d' água".
"Sinto muito. Mas o mar é muito pequeno em Wiltshire para começar. Talvez você devesse procurar em águas mais distantes".
"Severus, por favor. Daqui a pouco você estará publicando anúncios anônimos no Profeta Diário para mim. Bruxo solitário procurando por outro. De reputação terrível e chocante sem prospectos de melhora".
"Você está mesmo solitário aqui?".
Ele balançou a cabeça, sem acreditar. "Entendo. Então você veio aqui se aproveitar da minha hospitalidade com o objetivo de descobrir meus segredos mais obscuros? Você está espionando o espião? Tenho que lembrá-lo, aprendi com o melhor".
Severus ergueu sua xícara em reconhecimento. "Fico feliz que admita".
Ele mudou de assunto. "Não que eu não esteja feliz pela sua companhia, mas por que está aqui?".
Severus abaixou sua xícara antes de responder. "Estou aqui para convencê-lo a vir visitar Hogwarts".
Ele escondeu sua surpresa pelo convite, e fez sua resposta neutramente. "Hogwarts? Por quê?".
"Eu achei que você gostaria de sair daqui por um tempo".
Draco, não preparado para a sugestão, não respondeu. Severus era a última pessoa que ele esperava mostrar estar preocupado pelo seu estado mental.
"Você está cercado de antigas lembranças e fantasmas aqui, apenas com corujas de seus advogados. Não é saudável para um jovem".
"É minha casa", ele disse baixo.
"É um maldito caixão vertical, Draco!".
Ele finalmente deixou sua irritação sair. "E o que é Hogwarts? Apenas uma viagem no passado. Diga-me qual é pior".
"Então vá a Londres. Ou Paris. Ou para o maldito Timbuktu. Não importa". Severus se inclinou para frente, seu olhar intenso. "Só não se deixe virar um dos fantasmas aqui. Nós já vimos vidas desperdiçadas o suficiente na guerra. Não se deixe ser mais uma casualidade por ficar aqui e ver sua vida passar".
Ele não sabia o que dizer em sua defeca; sentia como se tivesse perdido os argumentos antes mesmo de começar. "Eu não estou -".
"Você está. Eu posso ver. O que você faz com seus dias? Você não vê ninguém, você vive nessa casa gigantesca sozinho. Você passa as horas conversando com retratos? Joga paciência e bebe uísque? Pensa em maneiras de irritar seu elfo-doméstico -".
"Eu entendi".
"É mesmo?". O olhar de Severus era muito intenso para ele encarar por muito tempo.
"O que você quer que eu diga?". Ele relaxou na sua cadeira, derrotado. "Eu não sei o que devo fazer agora. Eu nem terminei a escola. E francamente, não há muito para um ex-espião. Você tem sorte por já ter um emprego". Ele sorriu fracamente. "Então me dê seu melhor conselho de carreia, Severus. Estou ouvindo".
Severus se permitiu um pouco de conforto, respondendo com sua própria tentativa de humor. "É mesmo um Malfoy. Procurando um servo para o trabalho pesado". Ele relaxou e sentou na cadeira, satisfeito por ter sido escutado. "Até mesmo meus estudantes mais novos iriam olhar para você agora e dizer procure uma vida, como eles falam hoje em dia".
"Eu tenho uma vida. Só que ela não é muito grande no momento". Draco permitiu que sua frustração se mostrasse em sua voz. "E você pode falar. Você mora em uma maldita masmorra. Desde quando virou um especialista em como ter uma vida social ativa?".
"Calma, Draco. Só quero ajudar".
"É. Muito obrigado". Draco estava tenso, e finalmente olhou para Severus. Algo na discussão deles de repente parecia muito engraçado - o cego liderando o cego - e ele deu um pequeno sorriso. "Desculpe".
"Draco, não se preocupe tanto. Não importa o que você fará agora. Vá trabalhar na Floreios e Borrões. Sirva sorvete no Fortescue. Limpe o Corujal do Ministério. Apenas faça algo. De preferência longe daqui".
"Eu - eu vou pensar".
"Isso. E depois comece. Mais cedo do que tarde".
"Tudo bem". Ele esperava que isso fosse o suficiente.
"Honestamente, eu não acho que ninguém da sua geração teve a chance de ser um adolescente idiota. Como você poderia? Olhe para você - criado com nada mais do que anos da influência de Voldemort em sua casa, então forçado a ir para a guerra antes de completar dezoito anos". Severus se inclinou, para provar seu ponto. "Isso pode parecer estranho vindo de mim, mas você precisa aprender a ser infantil e bobo, enquanto ainda é jovem. Meu Deus, Draco, você tem vinte e um anos. Você vive como se tivesse oitenta".
Ele hesitou, e Draco imaginou o que adicionaria nesse discurso que o faria desconfortável. "Sabe, não foi coincidência que os membros da Ordem apareceram no funeral de sua mãe. Tem pessoas que se preocupam com você. Deixa-as mostrarem isso. Não erre pensando que está sozinho no mundo". Sua voz era tão baixa que Draco quase não ouviu o que disse. "Não cometa os mesmos erros que eu".
N/T: Finalmente capítulo betado! Não estava antes por causa de sérios problemas (¬¬') no hotmail, mas aí está!
Esperam que tenham gostado!
Obrigado pelas reviews e obrigada Serim (beta)!
Bjs!
Mila Crazy
