— Espelho!
Regina ordenava ao gênio enquanto andava com pressa sobre os corredores. Cruzava todo o palácio em direção ao seu quarto, já tendo recolhido dois guardas no caminho, que agora seguiam a Rainha silenciosamente esperando por suas ordens.
— Espelho, apareça!
Seu tom era autoritário e calculista como sempre, mas algo no soar das notas parecia um tanto instável.
— Sim, Sua Majestade. – O rosto do homem se materializou em um dos vidros, piscando na nuvem azul e acompanhando o andar da Rainha por todos os reflexos que passou. – O que deseja?
— Você não mencionou que a lobisomem em questão era tão... temperamental. – A voz de Regina sugeria algo mais do que simples irritação. O gênio estranhou o comportamento da senhora, que antes estava tão decidida quanto fria em sua escolha de capturar a exata mulher.
— Eu não entendo, Minha Rainha? Você disse claramente que queria a lobisomem que segue a Princesa Snow White. – Mas por mais incerto que estivesse, o gênio sabia melhor do que duvidar das ideias da bruxa. Ele jamais mostraria tal insubordinação. – A senhora pediu-me para localizá-la e segui-la por meses-
— Eu sei o que pedi! – Ela gritou, finalmente tendo chegado a seu longo e grande quarto. As compridas janelas eram cobertas por um espesso manto negro e só o que iluminava o amplo cômodo eram as luzes das velas que decoravam as paredes. – Mas seria conveniente mencionar a personalidade daquele animal. – Sua voz era alta e inquebrável. Tanto, em fato, que os dois soldados recolhiam-se o máximo que podiam contra a parede ao lado da porta, tentando ficar longe do ataque de fúria iminente da Rainha.
— Não estou entendo, Majestade. O que aconteceu?
A sutileza na voz do homem atingiu os ouvidos de Regina com um elemento de condescendência e aquilo a levou a uma espiral de raiva. Sem pensar, lançou a mão com força no ar e quebrou o grande espelho da parede com sua magia.
— A garota é tão insuportável quanto Snow White! Se eu quisesse um pet que me lembrasse daquela escória eu teria me contentado com a ridícula tendência a compaixão do Huntsman.
O nome ecoou no ar, e trouxe, da entrada para a sacada, o caçador.
Ele vestia uma desgastada camisa com bufantes e soltas mangas, que não lhe cobriam o peito. A pele exposta era manchada por contusões e áreas avermelhadas. Nenhum dos machucados aparentava ser de batalha.
O homem adentrou o quarto com uma expressão séria, mas estranhamente pacífica, o que indicava a todos ali uma sabedoria ultrajante.
— Eu lhe alertei sobre isso, Rainha. Você não pode tratar criaturas como essas como se fossem meros animais. Eles têm o coração de homem, acima de tudo. – O forte sotaque de Huntsman era carregado com sensibilidade, na genuína tentativa de racionalizar com a mente inquieta de Regina.
— Huntsman. – A mulher o recebeu; Sua voz era grossa com desprezo.
— Você queria um pet. Um subordinado sem opiniões. – Ele sorriu tristemente. – Para isso, bastam seus soldados, você não acha? – Ele indicou o par de homens armados em cada lado da porta. – Lobisomens não são criaturas que você possa escravizar. Se esta mulher lhe lembra Snow White, não há nada que você possa fazer.
— Eu posso quebrá-la. – Ela deu um longo e pesado passo em direção ao homem. Seus punhos eram fechados em bolas ao lado de seu corpo. Os braços eram duros com tensão e os lábios vermelhos se apertavam e pronunciavam as palavras com precisão absurda. – Eu posso tortura-la e entortá-la até que nada semelhante à Snow White reste. Até que toda a lealdade se esvaia e não reste nada além de desespero.
Regina já estava frente a frente com Huntsman. As sílabas tinham vida própria ao deixar sua boca e tocarem o rosto inabalado do homem.
— E que poder vai restar?
Imóvel, Huntsman ousava responder à Rainha.
Fundo dentro de si, ele sentia compaixão pela mulher presa no andar de baixo, furiosamente se forçando contra as barras e estourando rugidos e rosnados que reverberavam por todo o castelo.
Ele sentia a dor emanando dos gritos e uivados; Ele entendia, tão simplesmente quanto entendia a língua dos homens. Os sons eram de agonia. E de dor. E de completo pânico.
Aquilo era familiar para si como a água era para a chuva. O caçador sentira o mesmo deixar o corpo de seus irmãos e irmãs, toda a vez que um era abatido em batalha; Toda a vez que o líder chamava para os outros em luto; Toda a vez que um único irmão ficava para trás.
Ele mesmo uivara desse jeito em seus sonhos. Nas primeiras noites em que finalmente conseguiu dormir, sem coração. Com o peito vazio de sentimento algum, senão solidão. Huntsman gritara as mesmas dores que ouvia ecoar da jaula no início da manhã.
Sentia-se conectado àquela mulher, qualquer que fosse. Porque entendia seu sentimento mais puro. Porque entendia o que sentia e o que perdera.
Mas, acima de tudo, porque ela lembrava-o de seus irmãos.
— Que poder vai permear as paredes, Rainha? Se me lembro bem, era esse o seu desejo. – Frio como nunca, o homem enfrentava Regina. Ele se sentia no dever de forçar a mulher a ver o que fazia. Ele precisava empurrar senso em sua mente e fazê-la entender a atrocidade que cometia. Que repetia. – Você queria um lobo. Não: uma criatura presa entre homem e fera. Porque era esse o tipo de poder que disse precisar nesse castelo.
Regina só o encarava de volta. Nada em seus olhos além de raiva e confusão.
— E que poder vai restar nela – Ele apontou para chão, de onde vibravam fortes rugidos. – Depois que você secá-la de sentimento? De razão para viver?
— Snow White – Regina começou. Seus lábios eram finos em controlada fúria – Não é razão para viver. Snow White – Ela deu um último passo para perto de Huntsman, sua respiração misturando-se com a dele. – Não é algo a se preservar. Ela - e qualquer fruto da sua existência - deve desaparecer. Não deve restar uma única memória sequer da vida daquela detestável princesa.
Não havia um traço no rosto de Huntsman que lembrasse repressão ou desdém. Tudo o que iluminava seu semblante era um sincero dó.
— Apague Snow White daquela mulher, e estará apagando o seu poder.
Regina só virara as costas e saíra do quarto, assoprando as portas abertas com sua mágica e trincando as paredes no impacto.
Seu ódio agora transbordava em sua respiração.
Os dois pobres cavaleiros, forçados novamente a lhe seguir, agora afastaram-se vários passos para trás, medrosos. O Espelho que piscava e lhe acompanhava, também, mantinha-se mais quieto do que o normal, tentando não agravar o nervosismo na Rainha.
Já bastara a impressionante ousadia de Huntsman.
Insolência essa que passara, para o espanto de todos, impune. O Espelho nunca antes vira o homem, até então jurado como animal de estimação para sua Rainha, reagir tão fortemente e argumentar contra Regina. Para todos os que viviam no castelo e, invariavelmente, sob o comando estrito da Rainha, era regra silenciosa: acatar com os desejos e concordar com as desilusões da mulher, não importassem quão irracionais fossem.
Porque ela tinha o poder de terminar com suas vidas, em um simples balançar de seus dedos. E no eterno medo de sua magia, todos se curvavam. Por essa exata razão fora tão anormal ver Huntsman, aquele do peito vazio, confrontar a mulher que detinha, literalmente, seu coração em uma caixa.
Talvez, o Espelho pensou, Regina estivesse tão instigada pela súbita coragem do homem que poupara sua vida, em respeito a sua bravura. Talvez, Huntsman não se levantara contra Regina somente por ele, mas por todos os subordinados. Talvez, somente por aquela mulher.
Fosse qual fosse a razão, os que agora seguiam Regina mais uma vez por um longo corredor - misturados na atmosfera pesada de sua ira -, entendiam que deviam à Huntsman uma menção honrosa. Pois ele fizera o que outros apenas sonhariam.
Estivesse a Rainha ciente das dimensões daquela conversa e, mais ainda, plena e calma em sua consciência, ela poderia ter agido com mais crueldade contra o caçador. Ainda assim, ele vivia. Ela o deixara viver mais um dia.
Ela tinha mais com o que se preocupar.
Abriu os portões do grande hall do seu exército. Embora estivessem todos em preparação para a iminente guerra contra o Reino de Snow White, poucos de seus soldados pairavam por lá. Ela soltou um suspiro decepcionado com falta de capacidade de seus serviçais. Mas, sem paciência para se ocupar com o assunto no momento, apenas guardou-o no fundo da mente. Subiu no palanque no alto centro do hall e bateu duas rápidas palmas.
Elas estalaram no ar, ganhando força ao ecoarem nas paredes. Os que estavam ali tiveram a atenção roubada pelo som. Porém, assim que viram quem os exigia, congelaram. O sangue era água ao correr de seus rostos pálidos. Imediatamente um grande grupo de soldados, generais e capitães se reuniu em organizada formação frente ao palanque.
Todos prestaram suas continências.
— Majestade! – Gritaram em uníssono. Regina não estava no humor para sorrir em resposta ao medo da massa.
— Não quero a ajuda de vocês, exército de preguiçosos. Deixem-me aqui com seus generais: Há assuntos a resolver. – A voz da mulher falou grave e poderosa, estremecendo as pernas de todos ali, acuados frente ao seu poder.
Em poucos segundos o estridente som dos passos apressados se aquietou. Os soldados de menor escalão todos deixaram o Hall, restando ali uma dezena de generais com exuberantes armaduras negras.
— No que podemos servi-la, Sua Majestade? – O general mais alto se pronunciou, respeitosa e temerosamente curvando-se para a figura escura de Regina. Ela ergueu uma mão para dispensar a cerimônia.
— Como sabem, capturei o lobisomem atrás do qual venho mandado muitos de seus incompetentes homens atrás. Não me levou mais de dois dias para rastreá-la e trazê-la aqui inconsciente, ao contrário dos brilhantes fracassos das missões anteriores.
— Sentimos muito por isso, Sua Majes- — O homem tentou recomeçar, mas foi calado com um simples movimento das mãos de Regina.
— Onde estão seus modos? Deixe-me terminar. – Ela limpou a garganta teatralmente, recompondo sua expressão de superioridade que antes perdera para Huntsman. – Essa besta, como sabe, tem seus poderes elevados pela lua. Mais precisamente, a lua cheia. Fui capaz de segurá-la porque seu poder se extravasou em um ponto da noite anterior e tornou-se, assim, de ridiculamente fácil localização. Porém, a chamada Wolfstime, período durante o qual – e isso espero que saibam, pois era seu dever de casa – sua transformação está mais forte, está ainda sobre nós. Há mais um dia restante na fase, e temo que a jaula não seja o suficiente para segurá-la. Não com a teimosia com que a ataca.
Ao dizê-lo, fez-se dolorosamente evidente o quão despreparado seu exército estava para enfrentar uma ameaça sobrenatural. Vista a forma como que seus generais se contorceram em medo e receio, Regina entendeu que, caso não tomasse providências, muitos de seus soldados teriam o mesmo fim que teve o exército patético de Rei George. Ela segurou um rosnado humano de incômodo.
— Preciso contê-la por mais um dia, antes de levá-la a aposentos mais... aproveitáveis. Mas isso não vai ser possível, como posso ver, porque a covardia de vocês vai além do imaginado. Não posso bancar mais homem com essa fera, ainda por cima em um mero - como posso dizer, agora? - acidente doméstico. Isso seria inaceitável.
Um general engasgou em sua saliva, tremendo na intenção de se pronunciar. A rainha assentiu para que falasse.
— Majestade, se me permite. – Ele deu um passo à frente, suas pernas fracas. – Há boatos de um feiticeiro que confeccionou o aprisionamento perfeito para tal monstro.
— Sim, o manto vermelho. – Outro general interrompeu, soando menos inseguro do que o primeiro. – Mas, Majestade, não temos posse de tal coisa. Pelo que conseguimos recolher em nossas missões, é hábito da criatura deixar a vestimenta no interior do palácio da Princesa, por óbvias questões... de segurança. – O homem foi perdendo a coragem à medida que Regina o encarava com olhos duros.
— Não, não me refiro ao manto. – O primeiro general argumentou, prestando mais respeito à Rainha do que o outro conseguira. – O feiticeiro expandiu seu conhecimento para uma família de ferreiros que, aparentemente, foi afetada diretamente por uma dessas bestas. Ele fez um acordo... com esta família. – Mais um se curvava em medo do fitar irredutível e superior da Rainha.
— Por favor, não me diga que está falando de Rumpelstiltskin. – A voz de Regina tomou dimensões cansadas e cínicas. Ela não tinha estômago para olhar na cara de Rumpelstiltskin tão cedo. Muito menos aturar seus modos gritantes.
— O próprio, Majestade.
A Rainha suspirou acentuadamente, revirando os olhos por trás das pálpebras maquiadas. Ela massageou o cenho e olhou para fora, pelas janelas, vendo o sol do meio-dia se aproximar. Ela precisava tomar uma decisão rapidamente.
— Não posso dever-lhe mais favores. Não por enquanto. – Estranhamente, não parecia que ela se dirigia ao exército em sua frente. Seu tom sugeria que estava falando diretamente com o mago, através do vento. Os homens se confundiram, mas não ousaram questionar seus hábitos. – Você, general.
— Chamo-me Regis, Majestade. – O homem deu outro passo à frente, recolhendo seu capacete e descansando-o sobre o peito.
— Não me importo. – Sua rudez era natural. – Tenho um trabalho especial para você. – Ela sorriu novamente, coberta de maldade.
O sino da porta balançou levemente, alertando os ouvidos sensíveis de Granny de que um novo cliente chegara. Ela se apressou da cozinha para o balcão, ciente de que suas garçonetes estavam ocupadas demais naquela tarde de sábado.
Para a sua surpresa, era Mary Margaret Blanchard, a professora do elementar, amiga de Ruby, que se sentava em um dos bancos altos do balcão. Granny sorriu ao ver a imagem gentil da mulher, contagiada por seu sorriso educado. A velha senhora tratou de lhe atender, chamando-lhe a atenção quando a cumprimentou.
— Boa tarde, Mary Margaret. No que posso lhe servir?
Granny não era muito conhecida por sua simpatia, muito menos por sua sensibilidade. Ruby era tensa e insegura o suficiente para que todos suspeitassem da rigidez da velha mulher. Com o traço não muito amigável em mente, eles sabiam que conversas casuais tinham seus limites e que Granny não seria a melhor pessoa para atender a uma mesa.
Ainda assim, ela era gentil com Mary Margaret. Porque Mary Margaret era gentil com Ruby. E Ruby merecia alguém assim em sua vida. Ao menos uma.
— Oh, boa tarde, Granny. Adoraria um croissant e chocolate quente, por favor. – Ela sorriu. Seu rosto, por debaixo de uma suave camada de maquiagem, denunciava uma ressaca pesada. E a mais velha escondeu o conhecimento.
Ela sabia que Ruby havia saído com suas amigas e bem imaginou que nenhuma delas iria regular seu consumo de bebidas. Era de se esperar.
— Se divertiram ontem? – Granny perguntou, tirando um prato vazio de debaixo do balcão e o pondo sobre a mesa em frente à Mary. – Ruby chegou tarde da noite ontem. Imagino que tenham perdido a noção de tempo. – Ela sorriu com mais entusiasmo do que realmente sentia.
Esforçava-se para aceitar os lados mais extrovertidos e sociais de sua neta, por mais irritantes e rebeldes que pudessem ser. Ela sabia que pressionava a garota, mas o fazia para seu próprio bem. Embora, devesse admitir, com o passar o tempo algumas punições e regras começavam a sair do controle e beirar o autoritarismo. Por isso, obrigava-se a relaxar e deixar Ruby viver.
— Na verdade, não muito. Ruby foi embora mais cedo, eram três horas da manhã, eu acredito. – Ela assentiu, desenrolando o lenço do pescoço e o dobrando sobre o colo. Granny logo serviu o pedido da garota com um olhar confuso no rosto. – Nós fomos embora não muito depois. Pegamos um táxi quando a noite se acalmou. – Ela riu de leve, imediatamente levando a mão à têmpora e a massageando com cuidado.
— Estranho. Você disse que Ruby saiu às três? – Granny perguntou, agora deixando de lado seu bloco de pedidos e apoiando-se para frente, sobre a pia. – Ela só chegou à pensão por volta das cinco horas. E não muito bem, diga-se de passagem.
Mary preocupou-se, mas todo o seu sentimento era contornado por um elemento maternal inapagável.
— Bom, por isso que vim aqui. Ela não saiu muito bem. Queria saber como está.
— Pior do que você, posso dizer. – Granny sentiu-se ser um tanto rude, sem intenção. Mascarou a frase com uma risada sarcástica. – Ela reclamou de febre. Eu a dei o dia de folga. – A avó já não tinha mais a pura preocupação pela neta que Mary exibia. – Convenientemente. – Ela adicionou em um murmuro.
— Febre? – Mary endireitou-se no banco. – Quão ruim?
— Ruim o suficiente. – Ela apontou para a lanchonete, convidando a garota a notar a ausência de Ruby. – Ela ainda está na cama. Não tive a coragem de acordá-la. – Granny moveu-se para frente da máquina de bebidas, preparando o copo pedido pela outra. Mary, por sua vez, não fugia o olhar da senhora, atenta e preocupada. – Estava suando como um porco, a coitada. Acho que deve ser uma dessas viroses. Eu também não me sentia tão ativa ontem. – Ela comentou; Seu tom mais causal e relaxado, como se não entendesse o porquê de alarde. – É esse tempo estranho.
— Imagino. – Mary falou baixo, sendo puxada pelos seus pensamentos.
Granny rapidamente notou a sombra se formando nos olhos perturbados da pequena. Serviu-lhe o chocolate quente e aproveitou disso para lhe confortar.
— Não é como se ela fosse morrer ou algo assim. Mas, se você quiser ir vê-la. – A avó apontou para trás, sinalizando a pensão. – Ela está no quarto, deve estar na beira do sono por agora. Pode dar uma passada por lá. Ruby vai apreciar sua visita. – Ela sorriu para mulher, vendo como seus olhos claros se iluminavam com a pequena gentileza.
Sem muitos planos para o dia – que desde que acordara com a cabeça rachando se resumira em tratar de sua ressaca –, Mary decidiu por aceitar a oferta. Com um sorriso mais honesto nos lábios rosados, tirou o dinheiro da bolsa e pagou por seu lanche, recolhendo-o do balcão com cômica pressa.
— Obrigada, Granny. – Tímida, ela se despediu da senhora, saindo pela porta da frente e repetindo o mesmo som do sino por entre as conversas do restaurante. Granny ficou a admirar sua saída saltitante com um semblante satisfeito.
Estava grata por Ruby ter feito tão boa amiga.
Snow estava inconsolável.
Já era o início da tarde e ela não encontrara Red em lugar algum. Granny não conseguira seguir o traço de seu cheiro e os anões quase se viram perdidos na estranha floresta ao tentar acompanhar as largas pegadas do lobo.
Tudo o que conseguiram era um fim de linha, logo a beira de um lago em uma pequena clareira. Granny insistiu que não sentia o cheiro de Red seguir de nenhum lugar a partir dali. Charming só deu de ombros, sem ter muito que contribuir para a conclusão. Mas foi Grumpy quem marcou o coração de Snow com aflição.
— Eu não sei sobre vocês, mas esse lugar está me dando calafrios. – Ele se manifestou, abraçando os próprios braços enquanto segurava sua picareta em uma mão. Charming lhe lançou um olhar repreensivo, alertando-o para as palavras, mas o anão insistiu em dizer o que pensava. – Estou falando sério. Vocês não sentem isso? É como se a temperatura aqui tivesse caído dez graus!
— Grumpy! – Um tímido Sneezy resmungou ao amigo, um tanto intimidado pelos desconhecidos arredores.
— E - vejam! - o que são essas plantas? Estão duras e secas como se estivessem para morrer. – Ele se direcionou para Snow, que abraçava seu próprio tronco em proteção. – Estou lhe dizendo, Princesa, algo estranho aconteceu aqui. Você sente o mesmo, não é?
Snow engoliu em seco. Seus olhos eram tristes e nervosos, lutando contra lágrimas de medo.
— Snow. – Charming se aproximou, tocando-a no braço levemente. Ele tinha um sorriso calmo, mas respeitoso ao sentimento da esposa. Era evidente sua tentativa de acalmá-la e tirá-la dos pensamentos mais ansiosos sobre Red.
— Ele está certo, Charming. Isso não me parece bem. – Sua voz quebrara e ela desfizera a postura desolada, agora se inclinando para frente com convicção. – E se- E se algo terrível aconteceu aqui e Red esteve envolvida? É o fim do traço de seu cheiro, como Granny disse. E não parece que ela sumiu normalmente! – Ela tomou uma porção de ar afiada, com pressa para falar. – Os guardas não viram nada; Nem as pessoas do vilarejo. Essa é uma floresta fora dos limites do nosso Reino, e ela vem caçar aqui para se assegurar de que nada ruim aconteça, mas agora- Charming! E se algo aconteceu com ela?
— Hey, hey. – O Rei tentou acalma-la, afagando os braços inquietos. – Você está se precipitando. Não sabemos disso ainda. Ela vai voltar, okay? Ainda temos mais uma lua cheia por vir. Ela provavelmente quer caçar ainda mais longe. – Ele tentava argumentar, mas algo em sua grave voz dizia a todos que nem ele mesmo acreditava tanto em suas próprias palavras.
— Isso não soa como Red. – Granny interviu, reajustando suas mãos na besta em seus braços. – Quer dizer, se ela fosse sumir assim, com toda a certeza nos deixaria saber. Além do mais, ela havia feito planos com Snow para essa manhã. Ela não faltaria pelo mundo. – A idosa estava já começando a sentir-se tão agitada quanto a Rainha.
Charming suspirou, afastando-se um mínimo passo de Snow. Sentia-se sozinho em sua intenção de acalmar aos nervos do grupo. Todos estavam decididos a pensar o pior.
— Eu não quero ser o pessimista da situação – Grumpy continuou – Mas Granny tem razão. Isso não é a cara da Red. E, é sério que não vamos levar em consideração isso?! – Ele apontou ao redor. – Algo aconteceu aqui. E eu sinto na pele que tem alguma coisa a ver com Red. É gritante, veja. As pegadas - perturbadoramente enormes, se posso dizer - terminam aqui. O cheiro misteriosamente desaparece também um pouco antes. Não quero ser indelicado, mas um lobo daquele tamanho não desaparece tão facilmente. E duvido que Red esteja em alguma fase rebelde ou algo assim. – Espirituoso, convidou Granny para o pensamento, mas a senhora recusou seu olhar. E o anão desfez seu sorriso.
— Charming. – Snow se virou completamente para o marido. Seus olhos aguados e brilhantes eram pintados com preocupação e súplica. – Eu não tenho um bom pressentimento sobre isso. – A voz era pesada e chorosa.
— Snow, querida. – Ele tentou novamente, sussurrando para perto dela e a enlaçando com seus longos braços. – Não há com o que temer aqui. Confie em Red, okay?
— Não é questão de duvidar de Red. – Ela argumentou com um quê de irritação. – Eu não acho que isso se resuma a ela. Acho que alguém a levou para longe. Ou pior... – Snow se perdeu em sua imaginação, arregalando os olhos para o vazio ao visualizar um cenário doloroso e absurdo em sua mente desconcertada. – Oh, Charming! Eu não posso ficar esperando. E se algo terrível aconteceu com Red? Não me perdoaria jamais!
O pedido de Snow ecoou pelas árvores. Os anões, Granny e até os poucos guardas chamados na busca se calaram em respeito à Rainha. Charming ergueu sua cabeça e olhou em seus olhos, vendo em cada um a mesma sombra de perturbação.
Ele suspirou fundo. Fechou os olhos e largou-se de seu otimismo.
— Você tem razão. Vamos tratar de encontrá-la.
A porta bateu três vezes, num ritmo coordenado. Ruby grunhiu em seu sono, confusa e incomodava com o barulho. Ela estendeu a mão para fora das pesadas cobertas e cobriu as orelhas.
O barulho era muito alto. Estava lhe puxando do alívio de sua dormência com muita força. Ela resmungou algo contra o travesseiro, rejeitando a intromissão.
— Por favor, Granny. Eu não me sinto bem para trabalhar hoje. – Sua voz, ainda coberta de sonolência, era mais rouca e fraca do que o normal. Sua garganta ardia. Ela se revirou na cama, encarando a parede, de costas para a porta que insistia em vibrar com uma nova sequência de batidas.
Agora, com uma voz.
— Ruby, sou eu, Mary Margaret. Vim ver como está se sentindo.
O corpo de Ruby imediatamente foi lavado por uma breve onda de disposição e energia, junto de sua surpresa em ouvir a amiga como visita. Ela virou-se de volta para a porta, tentando erguer-se do colchão mole, mas falhando ao sentir os braços ainda mais moles que tudo.
— Está aberta. – Ela gaguejou, ainda pega desprevenida com a presença da mulher.
Mary abriu a porta como se essa pudesse cair dos trincos. Na ponta dos pés e com uma postura cuidadosa, entrou no quarto e com a mesma cautela fechou a entrada atrás de si. Ela se satisfez, então, em parar no centro do tapete do pequeno quarto, frente à cama de solteiro em que Ruby descansava.
Esta, Mary percebeu, realmente não parecia muito bem. Apesar de seu sorriso educado e gentil para recebê-la no quarto, Ruby tinha uma inegável aparência doente. Sua pele clara era mais branca do que o normal e seu cabelo parecia mais pesado com o suor. Os olhos, sempre num misto indefinível de azul e verde, estavam mais escuros. Uma escuridão, Mary achou inapropriado até pensar, que lhe deixou estranhamente elegante.
— Oh, Ruby. – A menor não escondeu sua observação. – Como você está? Não parece muito bem... – Ela deixou a frase desaparecer, entendendo que poderia soar rude.
Mas Ruby riu; Sua voz fraca e rouca.
— Ora, obrigada. – Novamente, a mais alta tentou erguer-se e, ao menos, sentar-se no colchão para propriamente receber a carinhosa visita da amiga, mas nada. Seu corpo era infinitamente mais pesado. Era como se toda a leveza e sensibilidade da noite anterior tivessem sido efeitos de uma droga que agora lhe deixara com nada além de danos colaterais. Cansada e abatida, perdeu para o próprio peso, e o máximo que conseguiu foi apoiar-se nos cotovelos. – Eu estou indo. Um pouco de ressaca, como pode ver.
Mary admirou o esforço de Ruby, mas entendia que sua usual natureza brincalhona não podia ser esperada na situação presente. Ela sorriu para a tentativa, mas não deu continuidade. Ao invés disso, andou para os pés da cama e sentou ao lado do corpo de Ruby, que agora lhe encarava com curiosidade.
— Não acho que isso seja uma ressaca. Você é uma soldada treinada pelo Rabbit Hole, Ruby Lucas. Ressacas não lhe pertencem. – Ainda preocupada com a amiga, Mary respeitava seu silencioso desejo de humor.
Ruby deixou a cabeça cair, rindo sem som. Quando ergueu-se novamente, tornou a olhar os olhos de Mary com mais atenção.
— Sabotaram minha margarita, então. – Ela sorriu seu longo sorriso, mas sua intenção foi sombreada pela evidente feição abatida. Seus olhos já não possuíam tanta alegria. – Mas estou melhor, de verdade. Melhor do que na noite passada.
— Sim! – Mary concordou, arqueando as sobrancelhas. – O que foi aquilo? Você saiu numa pressa.
Ruby não queria responder.
Ela sentia que qualquer coisa que deixasse sua boca em formato de explicação só iria soar ridículo e absurdo, e faria alguém decente como Mary perder completo respeito por alguém como Ruby. Inconsciente de sua forte reação negativa, ela abaixou os olhos e fitou o nada sobre a coberta, buscando palavras para averter a pergunta.
— Não estava me sentindo bem, só isso.
A voz era pesada com tristeza e mistério. E aquilo afundou no coração de Mary, que instantaneamente pôs-se a preocupar-se com mais outra coisa.
Distraída em seus pensamentos embaralhados e envergonhados, Ruby foi tomada de surpresa por uma mão fria tocando sua testa. Um toque suave e gentil, que contrastava completamente com o calor ardente de sua pele e o caos de sua mente.
A natureza calmante que emanava de Mary lhe adentrou como ar adentra o vácuo, e ela relaxou. Os olhos rapidamente correndo para fitar o rosto da amiga.
Ela lhe olhava de volta, com completo carinho.
Um carinho que Ruby nunca antes havia visto dirigido a si.
Sim, ela era uma predadora sexual. Sim, ela passara noites quentes com homens – e mulheres – muitas vezes antes. Sim, ela partilhara de breves romances fúteis e voláteis. Mas nada lhe presenteara com um sentimento desses.
Ela se sentia querida. Desejada e importante.
Como às vezes nem sua própria avó lhe fazia sentir, constantemente diminuindo seu valor sem perceber.
Não. Aquilo era tão suave e tão amoroso que Ruby sentiu que poderia chorar.
Mas não chorou. Tudo o que a consumia agora era surpresa e gratidão. Nada lhe trouxe lágrimas aos olhos.
— Veja, você está queimando. E, como Granny bem disse, suando! Ah, Ruby, não faça isso. – Mary aproximou-se mais, agora sentando ao lado do estômago da outra que, imóvel, só lhe observava sem emitir um som. – Você precisa ver um médico. Se nada melhorou da noite passada, pode ser mesmo uma dessas viroses.
O constante toque de Mary Margaret lhe estava sugando a habilidade de pensar. Ela mal conseguia ouvir suas palavras saírem com forma.
— Se você quiser, posso chamar o Doutor Whale. – O tom de Ruby, desorientado, fez piada. Alfinetava Mary por seu rápido romance, mas, acima de tudo, tentava redirecionar sua atenção para qualquer outro lugar, senão seu toque gelado.
Mary usou a mão em sua testa para tapear a cabeça de Ruby de leve.
— Ow. – A mais alta reclamou, franzindo o cenho.
Mary não se abalou pelo comentário da amiga. Continuou concentrada em seu estado e em sua pequena aflição. Em verdade, a palpável necessidade de Ruby de fugir do assunto lhe sinalizava que talvez sua febre fosse um pouco mais dolorida e quente do que estava disposta a deixar a amiga saber. Mary não cairia no truque. Ela entendia; não era estúpida.
Nesse sentido, Ruby era como um pequeno paradoxo ambulante. Porque, ao mesmo tempo em que se exibia faminta por atenção, também negava um cuidado mais altruísta. Ela evitava atrapalhar os outros e perturbar suas vidas. Ela sentia-se um importuno. Era insegura em relacionar-se mais intimamente com alguém porque lhe faltava a autoestima e confiança para permitir-se receber cuidado.
Para Mary Margaret Blanchard, Ruby era uma grande criança carente, desesperada por um amigo comprometido com suas inseguranças. Ninguém mais percebia isso, senão a mais maternal pessoa na vida de uma confusa Ruby.
Tão confusa que se fez claro em seu rosto o descompasso com o toque em sua pele.
Mary não queria deixa-la desconfortável, mas sentia que era necessário pressionar um pouco mais o ingênuo medo de Ruby. O medo de proximidade.
— Você quer que eu a leve ao hospital? – A menor perguntou, no tom mais gentil e sensível que já ouvira. Em um segundo, contudo, este se transformou em seriedade. – Mas juro por Deus, que se fizer referência à Whale-
— Entendi, entendi. – Ruby assentiu, rindo de leve. Seu riso tornou-se rapidamente uma seca tosse que balançou seu corpo e lhe forçou a fechar os olhos.
Mary não hesitou tocá-la mais uma vez. Levou os dedos ao seu peito para sentir o ar saindo com força de seus pulmões e o que lhe roubou a atenção foi o acelerado palpitar de seu coração. No mesmo instante, permitiu que sua preocupação lhe preenchesse por inteiro. Ela cerrou o cenho e mordeu os lábios, confusa com o que acontecia.
— Ruby, você não está bem. Vamos para o hospital. – Com uma mão em seu peito e outra movendo-se para pegar em seu antebraço, Mary tentava erguer a amiga da cama, mas sentiu-a resistir contra si. A tosse parara aos poucos, deixando uma Ruby ofegante a negar as mãos de Mary.
— Sério, Mary, não é para tanto. Eu vou ficar melhor. Granny me dispensou do turno e me deixou ficar na cama o dia inteiro. Tenho certeza de que isso vai ajudar. – Ela tentou sorrir para a outra, mas Mary estava séria demais para ceder.
— Não. Você não melhorou desde ontem; Duvido que mais sono vá lhe ajudar muito. – Novamente, Mary insistiu em puxá-la de pé, mas Ruby a venceu. Era frustrante como, mesmo debilitada como estava, Ruby ainda conseguia ser a mais forte.
— Está tudo bem. Eu prometo.
— Ruby. – Mary resmungou.
— Vou ficar melhor, okay? Não precisa se preocupar. – A garçonete sorriu; Seu rosto ainda pálido e fraco. – Você não vai me arrastar para o hospital, garota. Pode desfazer a cara emburrada. – Ela riu novamente, ainda rouca da recente irritação.
O silêncio se estendeu enquanto Mary ponderava as possibilidades. Estava dividida entre atender aos pedidos simples de Ruby ou forçá-la para dentro de um hospital. Depois de um longo minuto de dúvida, chegou à conclusão de que, se fosse contra a vontade da amiga, não seria melhor do que a avó rígida e inflexível da qual Ruby tanto reclamava.
Entendeu que deveria se definir naquele momento, entre alguém que força seu desejo em uma insegura garota com tendência a agradar, ou respeita suas opiniões e lhe dá a independência a que aspira. Diante da racionalização, a decisão foi bastante óbvia.
— Tudo bem. – Mary suspirou fundo, rendendo-se à teimosia da amiga. Ruby sorriu novamente, grata à compreensão.
O entusiasmo logo se dissipou ao prever, no rosto rosado de Mary, que algo a mais lhe preocupava. Um balançar de sua cabeça foi o suficiente como uma muda pergunta.
— Granny disse que você chegou em casa às cinco da manhã.
As sobrancelhas de Ruby se uniram em confusão. Seu olhar caiu novamente para baixo e ela apertou a boca, perdida em pensamentos.
— Ruby, você saiu do bar eram três horas. O que ficou fazendo até lá, no estado que estava? – Mary pousou sua mão sobre a de Ruby, pedindo por sua sincera atenção. Seus olhos carregavam seriedade e zelo. – Foi por isso que piorou?
Ruby suspirou, sem coragem de olhar nos olhos pedintes e puros da outra. Ela podia sentir o cuidado lhe irradiando a pele, e novamente, ela sentiu que só iria decepcioná-la com a verdade.
— Eu...
Ela realmente não queria contar a verdade. Sentia-se suja e pesada com tudo o que não poderia contar para alguém bondoso como Mary. Ela engasgou em suas desculpas.
— Hey, Ruby. Pode me dizer. Não vou lhe julgar nem nada. Só estou preocupada, é isso. – Mary sentiu o nervosismo de Ruby, e tentou atenuá-lo com gentileza e certeza, lhe assegurando de que, não importasse o que parecesse, ela estaria ao seu lado. Como amiga.
Mas Ruby não conseguia se permitir. Sua pele novamente pesava e queimava e ela quase pediu para que Mary voltasse a tocar-lhe o rosto, só para acalmar a ardência de seus ossos e a bagunça de sua mente.
Nada.
Ela era fraca. E refugiou-se na mentira.
— Eu encontrei Billy, no caminho. – Ruby não olhou nos olhos de Mary. Continuou encarando o colchão, como se esse lhe esperasse com a segurança que não sentia. – Passei na casa dele e tomamos mais uns drinks. Foi só. – Sua voz a estava traindo, ela conseguia sentir. O tom era fraco e inconvincente. – Eu-Eu realmente não quero que Granny saiba disso. Ela não aprova... bem, qualquer coisa desse tipo. – Suas palavras soavam amargas em sua boca.
Mas Mary era a sua amiga. E calou-se. Se realmente confiou, ou escolheu acreditar em Ruby, esta não saberia. Não viu o que passou em seus olhos e tinha medo de descobrir.
A menor soltou um riso, chacoalhando os ombros.
— Bom, pelo menos alguém foi embora acompanhado, não é?
Ruby entendeu a intenção de Mary e a dedicação por trás do ato lhe ordenou a erguer o rosto e lhe olhar nos olhos. E encontrou, ali, o carinho que tanto desejava. Suas lágrimas lutaram novamente para a superfície.
Desta vez, de culpa.
O sol havia se posto por atrás altos muros do castelo negro. Não demoraria muito para a lua cheia subir, iluminando a noite na floresta e trazendo consigo todo o poder que Red precisava para destruir as barras e fugir.
Ainda assim, era tempo demais. E ela não podia esperar. Suas frustradas tentativas de quebrar as paredes ou trincar o metal eletrizado com sua força na forma humana foram se cansando com cada nova falha. Seus braços e mãos já não tinham a energia para se regenerar mais tão rapidamente quanto antes, e permaneciam na pele fina de uma queimadura ardente.
Ela sentava, furiosa, no chão da grande jaula. Sobre as pernas cruzadas, podia sentir o frio da pedra lhe soprar nos ossos. Sua respiração irregular se rebatia no teto circular e voltava a seus ouvidos com desordem inquietante. Ela contava os segundos para sentir a gigante onda de poder que lhe envolveria o corpo e lhe transformaria no grande lobo negro.
Embora houvesse, com muito treinamento, desenvolvido a habilidade de transformar-se à livre vontade, sem depender da Wolfstime, era ainda muito evidente o pico de seus poderes debaixo da lua cheia. Era quando seus instintos, sua força, toda a sua energia, estavam no máximo. Era quando seu lobo se tornava ainda mais cruel, mais perigoso, mais temível. Foi, em verdade, durante diversas luas cheias, que Red conseguira abater exército atrás de exército sem ofegar, sem pestanejar.
Mas à medida que a sombra da terra cobria a lua, sua força ia diminuindo. E, com ela, se ia também sua tendência à transformação. Tomar sua outra forma durante o dia exigia um pouco mais de seu estoque, e ela retornava ao corpo de mulher um pouco mais exausta. A noite era o que a recebia com mais calor. Quando o sol se punha, qualquer faísca de emoção forte lhe empurrava ao limite, e ela se via formigando para explodir.
Ela estava começando a sentir o ímpeto incontrolável de se transformar. Mas sua exaustão a pedia para esperar, até que fosse realmente inevitável. Pois era, sem dúvida, inevitável. Seria, ao menos, no momento em que a lua surgisse.
A porta estalou alto, rangendo uma nota grave e oca que tirou Red de seus ansiosos pensamentos e desejos. Ela olhou diretamente para a entrada, vendo, da luz do exterior do corredor, surgir a silhueta negra de Regina.
Seu quadril balançava a cada passo, renovada com uma confiança que Red jurava ter-lhe sugado do rosto pálido em seu último encontro.
Ela se viu enganada, porém, ao notar o largo sorriso cruel que adornava as feições delineadas da mulher.
— Boa noite, Little Red. Espero que esteja apreciando seus aposentos.
Os olhos da lobisomem piscaram dourados e suas mãos se coçaram na vontade de pular em sua garganta.
— Vejo que meus serviçais adiaram a entrega do conjunto que escolhi para você. Isso é uma verdadeira pena. – A mulher se aproximava, sua voz melodiosa era uma mistura de maldade e humor. – Eles são tremendos, ridículos covardes, os desculpe. Embora: Entendo por que queiram esperar até o próximo dia para chegar perto de você. – Ela riu, finalmente parando próxima à jaula, ainda longe o suficiente para evitar os longos e rápidos braços da prisioneira. Mantinha as mãos juntas atrás das costas, com os ombros em postura presunçosa. – Seus latidos arrepiaram grande parte de meu castelo, tenho que lhe admitir. Mas só conseguiu me interessar ainda mais, querida.
— Não vai haver o próximo dia. – Red ergueu a voz, pondo-se de pé.
— Sempre há o próximo dia, minha cara. Para você, eu garanto. — Regina ergueu a os dedos levemente no ar, estalando-o estridentemente. – Trouxe um presente especial.
Em poucos segundos, cinco guardas vestidos em extravagantes armaduras negras marcharam para dentro do cômodo. Dois deles portavam armas: Uma longa adaga brilhante e o outro – Red não conseguiu entender o que trazia em suas mãos. Ela forçou a memória e conseguiu relacionar o longo tubo de bambu com algo provindo dos mais selvagens caçadores. Ela sentiu um cheiro amargo no ar e temeu pelo que a esperava.
Acônito.
A chamada Wolfsbane era letal para humanos, mas especialmente temida por lobisomens. Enquanto seu poder regenerativo iria ignorar quaisquer outros venenos mortais para o homem, o acônito se mostrava gritante exceção.
Red imediatamente temeu o que Regina em mente, e silenciosamente pediu para que a lua subisse depressa.
— Por favor, não se distraia com os homens. O assunto aqui será entre mim e você. – Regina, com seu forte sarcasmo, puxou a atenção de Red de volta para seus olhos castanhos. – Eles estão aqui para me ajudar a entregar o seu presente. Como entendi, você não é exatamente receptiva a novas pessoas, errado? – Ela riu ao mirar o rosto alarmado de Red. – Oh, não se culpe. Ninguém reage bem a esses confins, ao menos não em uma primeira impressão. Mas estou determinada a fazê-la enxergar essas paredes de outra forma. Por que, apesar de tudo, você é o meu novo animal de estimação.
Red lutou fortemente contra o impulso de se jogar novamente contra as grades e tentar arrancar a pele do rosto arrogante da Rainha. Mas soube melhor. Respirou fundo e preservou suas forças para a iminente transformação que a libertaria dali.
Isso, obviamente, se nenhuma gota de acônito tocasse em sua pele.
— Posso ver que aquela precaução logo atrás está lhe tirando o foco da conversa. – Regina tentou novamente, apontando para o guarda na atenção de Red – Mas isso é muito rude, não acha? De qualquer forma, não será necessário enfiar um daqueles dardos em você. Não, é claro, se se comportar.
Red engoliu a seco, estudando os olhos de Regina mais uma vez. Ela viu, no limite de sua visão, os braços da Rainha se mexerem por trás de suas costas e trazerem algo para frente.
A Rainha tinha em mãos uma grossa argola de metal negro. A luz brilhava um tom forte de violeta, que combinava ironicamente com os padrões estéticos de Regina.
— Oh, estou vendo que tenho a sua atenção. – A mulher ironizou, erguendo o objeto para frente de seu peito. Visto mais claramente, aquilo quase se assemelhava a uma...
Não.
Red cerrou os dentes em completo nojo.
— O que é isso? – Perguntou gravemente.
— Ora, meu presente para você. – Regina respondeu com humor, arqueando as perfeitas sobrancelhas. – Imaginei que você iria adorar.
— Uma coleira? – Red não conseguiu conter um gutural rosnado.
— A ironia também me agradou. Imensamente, para ser honesta. A melhor parte é: isso foi completa e absurda coincidência. Bem, ao menos eu espero que seja. – A Rainha encenou um olhar ofendido e preocupado pouquíssimo convincente. – Eu entendo agora o quão rude isso soa.
— Não me diga.
— Não me entenda mal. Ser gentil com seus sentimentos não é uma prioridade; Sequer passou pela minha cabeça. Mas até eu teria achado o estereótipo um tanto... ofensivo.
Red mostrou os dentes, deixando seu rosnado sair livre. Os três guardas desprotegidos somente deram um passo para trás.
— Mas, querida, se continuar tão canina assim- Não estará ajudando a quebrar o clichê. – Regina riu. Ela rapidamente então lambeu os lábios e tirou de seu avantajado decote uma pequena chave negra. Lentamente, como que prestando uma cena aos olhos inquietos de Red, ela destrancou a coleira e a abriu. – De qualquer forma, a hora está chegando. Preciso que você vista isso.
Regina sinalizou para trás, fazendo com que dois dos guardas desarmados se aproximassem da jaula. Red imediatamente tomou postura de combate, sentido seus sentidos aguçarem em antecipação.
Foi só ouvir o oco do bambu sendo manejado que seus membros congelaram. Longe atrás de todos, um dos cavaleiros carregara o atirador com um dardo banhado em puro Wolfsbane. E estava apontando a boca negra para seu pescoço. Só sentir o cheiro no ar já lhe cortava por dentro e lhe pesava o sangue.
— Eu repito. – Regina disse. – Comporte-se, e não precisarei que ele enfie a agulha no seu pescoço. E, querida, eu ouvi que isso arde. Demais. Então, por favor, maneiras. Além do mais, acho que o acessório vai combinar com você. – Ela novamente balançou a coleira no ar, brincando com a raiva borbulhante nas veias de Red.
Ela viu o primeiro guarda destrancar a jaula e arrastar a porta aberta, quebrando a corrente do encantamento e tornando as incômodas barras elétricas agora nada mais do que metal comum. A garota ponderou avançar contra o primeiro guarda, mas o bico do cano de bambu não saia de sua visão, em constante alerta do maior perigo em questão.
Se ela fosse atingida, estaria entregue nas mãos da Rainha Má, imensamente mais vulnerável.
Engoliu seco, vendo como agora dois guardas adentravam a cela e se posicionavam, altos e fortes, em cada lado de seu corpo. Ela sentiu seus braços serem agarrados pelas gigantes mãos de cada soldado, um deles apertando os dedos em seu ombro e a forçando para frente.
Ela queria lutar de volta.
Ela queria derrubá-los ao chão e quebrar seus pescoços. Puramente, como uma humana.
Porque Red possuía a força para tal. Tombara inúmeros caçadores de Regina na floresta, com as mãos nuas e humanas. Ela podia fazê-lo. Agora, enquanto ainda tinha tempo.
Regina deu o primeiro passo para frente, agora dentro da jaula. A luz ficara para trás de si, encobrindo seu rosto em sombras e mistério. Tudo o que Red viu foi seu sorriso sádico se engrandecer e seus olhos brilharem.
Os dois últimos guardas entraram atrás dela, em constante proteção. Só restara um, imóvel, com a mira fixa na jugular de Red, pronto para finca-la com acônito líquido, bastasse o primeiro movimento em falso. Ela começou a ofegar.
Ela precisava lutar! Não deveria curvar-se em medo. Forjou e reforçou sua admirável coragem em batalhas; Sozinha contra exércitos, sempre se erguendo vitoriosa, não importasse o medo que lhe abatesse antes de cada luta. Ela não seria fiel a si, se somente congelasse diante da ameaça e rendesse suas forças para uma bruxa como Regina.
Não. Não era essa Red que jurava proteção e lealdade a Snow. Não seria essa Red que sairia covarde e ilesa daquela cela.
Ela iria lutar.
Tudo aconteceu muito rápido, e ela entendeu que nada era racional. Ela se movia por instinto e calor. Seu primeiro golpe foi uma impactante e grave cotovelada no guarda a sua esquerda, que caiu ao chão como um boneco, curvando-se para o lado em que seus ossos trincavam.
— Guarda! – Foi gritado.
Ela virou-se para torcer a cabeça do cavaleiro ao seu outro lado, agora com uma mão livre para o ataque, mas um som surdo cortou o ar e congelou sua ação.
A primeira coisa que Red ouviu foi o forte inalar do homem distante, e, em uma fração de segundo depois, um som fino perfurava a atmosfera ao seu redor. O dardo foi lançado. Ela escutou na trajetória a agulha aproximar de sua pele, e num impulso primal, inclinou sua cabeça poucos centímetros para trás.
Distância suficiente para que o projétil envenenado perdesse o alvo e se enterrasse, por acidente, na garganta do cavaleiro que ainda lhe segurava.
Ela ouviu um gemido grotesco escapar de seus lábios antes do homem cambalear para trás e entregar-se ao chão.
Red sabia que só tinha alguns segundos para terminar com todos os outros guardas antes que outro dardo fosse carregado.
No silêncio profundo, onde somente o pulsar de sua cabeça contava o tempo, ela sentiu um calafrio pontiagudo correr sua espinha. E o cheiro de prata finalmente invadiu seus sentidos. O lobo dentro de si a alertou para a lâmina perigosamente perto de sua coluna, e sua postura automaticamente se arqueou; Os ombros para trás, tentando desesperadamente colocar o máximo de distância entre suas costas e a ponta prateada da adaga nas mãos do guarda atrás de si.
Ela ofegou, suprimindo um rosnado frustrado que vibrava seu peito cansado.
— Acônito e prata, uh? – Red sorriu sem humor, mostrando os dentes brancos ainda bastante humanos, mas ainda intimidantes. – Quanta dedicação.
Regina sorriu mais honestamente. A atração à força de vontade e coragem de Red era agora gritante sem seu semblante quase corado. Os olhos castanhos se escureceram ao correr o corpo da prisioneira à sua frente.
— Eu fiz minha pesquisa. – Respondeu em um dar de ombros, andando para mais perto de Red. A garota estava ainda cansada e perturbada pela adrenalina sacudindo cada fibra de seu corpo. Sua respiração era forte quando tocou a de Regina, apenas a um palmo de distância de seu rosto.
Red mantinha a coluna tensa, temendo a prata. Sua inclinação a colocava ainda mais alta do que Regina do que seria natural.
Se bem que, de perto, a Rainha era um tanto menor do que aparentava.
— Agora, se me permite. – Regina, na mesma precisão e lentidão dramáticas, levou a coleira para perto do pescoço ofegante de Red, que retrucou com um bravo "Não". O metal circulou com perfeição sua garganta, e ela fechou a argola em um discreto click.
Quase como relâmpago, os sentidos de Red se aquietaram; Ela sentiu sua força drenar e sua inquietação e adrenalina diminuírem. A antecipação selvagem pela lua cheia foi apagada para o fundo de sua mente, e nada restou, senão uma mente humana.
Confusão lhe tomou.
O material era gelado contra a temperatura elevada do corpo de Red. Não tão pesada quanto parecia, a coleira era justa a seu pescoço, mas permitia espaço para alguns dedos entre si e o metal. Espaço rapidamente preenchido pelos dedos de Regina, que rodearam o objeto em Red - mãos frias causando arrepios. A Rainha parecia querer mantê-lo esteticamente atraente. Afastou-se poucos centímetros para analisar o novo acessório e sorriu triunfantemente.
— Como o previsto, combina com você.
Quando Regina se afastou, Red levou a mão à coleira, inspecionando suas dimensões.
— Não se incomode. Você não conseguirá retirá-la. O material é encantado e mantém enjaulado seu... lobo. - É isso como o chama? Ugh, isso é tão deprimente. - Enfim, confio que saiba do que se trata. O encantamento é similar ao de seu manto imundo. Com o detalhe de que, esse especial item em questão não foi feito de uma superprotetora avó para sua irresponsável neta. – Red franziu o cenho – Essa coleira é ferramenta de caça e tortura. Feita de homem para animal. E a melhor parte é: foi feita especialmente por sua causa.
As palavras se trancaram em Red e seu sangue virou água. Ela não entendeu porque reagiu da tal forma, mas algo em si gritava que Regina tinha razão.
— É onde deita a ironia que me encanta. Você vê, um de meus homens, Raymund-
— Regis. – O guarda que ainda segurava a adaga contra Red respondeu, calando-se imediatamente após receber o olhar frio de reprovação de sua Rainha. Ela o dispensou com sinal de mão e ele recuou, aliviando Red da tensão da prata contra si.
— Regis. Ele detinha conhecimento de uma família que estava tão desesperada por vingança contra o grande lobo mal, que fez um acordo com um maldito duende, em troca de um segredo: O truque para aprisionar o lobo no corpo do homem. O mesmo truque de que sua capa velha é capaz. E é então que a história ganha proporções – Ela limpou a garganta, parecendo colocar-se em posição apropriada para contar a Red o que planejava. – Raymund soube que a família em questão era de uma longa linhagem de ferreiros, que, com convicção e insistência, se mantiveram longe do caminho do lobo. Até um dia, em que eles descobriram seu filho mais velho mutilado – verdadeiramente aos pedaços - ao pé de uma árvore no alto das montanhas.
Red engasgou, sentindo seus olhos arderem.
— Como isso poderia acontecer?, eles se perguntaram. Nunca formaram grupos de caça e trabalhavam apenas para o bem do vilarejo. Como podia o destino castigá-los tão injustamente? Oh, porque o lobo é desumano e cruel, era por isso. O lobo não viu limites e devorou, membro por membro, uma parte importante daquela família. – Regina moldava sua voz para ridicularizar a história, intencionalmente esfaqueando o coração de Red ao fazê-lo. – E a família tornou luto em raiva. Eles trocaram tudo o que possuíam pelo conhecimento: como aprisionar o lobo. E moldaram-no em seus metais. Tudo encantado com o feitiço exato para capturar o lobo que destroçou suas vidas.
Red não choraria na frente de Regina.
— História um tanto emocionante, você não acha? Acredito que é isso o que os plebeus chamam de carma. E que coisa mais encantadora, o carma. – A Rainha riu.
— O que... – A voz de Red era pesada com a culpa e a dor que há tanto lutava para esquecer. O mesmo sentimento negro que quase lhe movera a tirar sua própria vida, agora voltava a assombrar seu ser. E era esmagador. – O que aconteceu com eles? O que vocês fizeram?
— Raymund é um cara complicado. Pelo o que entendi, ele entrou em uma discussão com o velho ferreiro sobre a partilha do conhecimento. Não acabou muito bem.
— O que...
— Ah, eles morreram, é claro. Não conseguimos recriar o assassinato do filho. - Teatralidade é elemento importante de um bom general - Mas aparentemente uma morte daquelas é especialidade de um lobo. – Ela riu malignamente – Não se preocupe. Ele tentou chegar o mais perto possível. Dê-lhe um pouco de crédito.
Red ofegava em desespero.
Regina levou seus dedos e tocou uma última vez na lisa coleira em Red, descansando o pulso de sua mão contra o coração da mulher.
— E, oh, eles trouxeram os materiais para o castelo. Se quiser, podemos arranjar outras combinações menos... ofensivas para você. Mas isso, é claro, se não resistir. Por enquanto, por favor, aprecie meu presente.
Ela ergueu o rosto, olhando fundo nos olhos de Red, que eram negros de dor. Regina respirou fundo, inalando a essência desolada da mulher a adorando seu estado mais fraco. Ela curvou lábios vermelhos, sussurrando contra a respiração de Red.
— Pense nisso como um adestramento.
