Título: Sorte de Herói – Capítulo 4 – Escape*
Autora: Amy Lupin
Beta: Lunnafe
Par: Harry/Draco
Classificação: pg-13
Avisos: Fic escrita para o Projeto Sectumsempra de Amor não Dói III.
Razão utilizada: 41. Porque ninguém provoca no Harry o mesmo efeito que o Draco. E ninguém provoca no Draco o mesmo efeito que o Harry.
Disclaimer: Essa história é baseada nos personagens e situações criadas e pertencentes a J.K. Rowling, várias editoras e Warner Bros. Não há nenhum lucro, nem violação de direitos autorais ou marca registrada.
-xyz-
Draco estava encostado na parede de pedra do lado de fora do Décimo Tribunal. As portas estavam abertas, um guarda estava postado na entrada e era possível ouvir boa parte do que se dizia do lado de dentro, mas a mente de Draco estava longe. Longe até para prestar atenção nos olhares de esguelha que a sentinela lhe lançava.
Naquela manhã os réus eram a família Goyle. Draco havia chegado atrasado propositalmente para evitar ser encarado pelas pessoas e não tinha intenção de entrar. Não havia nada que pudesse fazer em favor de Goyle. Pelo contrário, seu testemunho apenas o incriminaria ainda mais.
Já fazia quase uma semana que Draco fora declarado inocente, como sua mãe dissera com tanta convicção que aconteceria. Na manhã do julgamento o loiro não tivera certeza do que pensar ao ver Potter no banco das testemunhas. Draco não sabia o que pensar sobre aquele Harry, o verdadeiro. Não conseguia sondar os pensamentos do grifinório, não conseguia ler nada em seu olhar. Será que Potter estava lá para salvá-lo ou condená-lo? Será que Potter reconhecia as tentativas covardes do sonserino de poupar sua vida?
Será que mereço ser salvo depois de tudo que fiz desde que o conheço?
Como poderia saber? Por mais que fingisse que sim, Draco não conhecia de verdade aquele Harry Potter sentado no banco das testemunhas. Em seus sonhos, sim. Mas aquele era real. Aquele não lhe diria coisas doces e reconfortantes como o Harry de seus sonhos. Até onde Draco sabia, Potter o desprezava.
O loiro também não entendia por que Narcissa estivera tão certa que tanto ela quanto Draco seriam inocentados. Até ver Harry Potter ser anunciado como testemunha de defesa. Até ouvir seus argumentos.
Harry Potter estivera na Torre de Astronomia na noite em que Hogwarts fora invadida pelos Comensais. Era dele a segunda vassoura que Draco vira. Era por isso que Potter sabia sobre Draco ter desarmado Dumbledore. Potter entregara sua lembrança ao Ministério - Draco preferia não pensar na humilhação que aquilo significava. Harry sabia que Draco estava tentando salvá-lo. Narcissa havia salvado Harry. Era isso que sua mãe estivera escondendo aquele tempo todo. Era por isso que ela tinha certeza de que Potter intercederia por eles.
Mas por que ele defendeu meu pai? Draco se perguntava.
Claro, havia todos aqueles argumentos que Potter usara para convencer os jurados. Mas Draco não parava de se perguntar se não havia algum outro motivo.
Inconscientemente o loiro enfiou a mão por dentro da capa e alisou o próprio peito. Draco nunca se esqueceria daquele duelo no banheiro da Murta que Geme. Bastava um relance da própria imagem no espelho e lá estavam as marcas brancas onde os cortes haviam cicatrizado. Os cortes abertos pela varinha de Harry. Mas seria possível que Potter também se lembrasse?
Apesar de Draco só ter recordações confusas sobre aquele dia, não fora difícil perceber a culpa de Harry na maneira como ele o encarara nos dias seguintes. Até mesmo Pansy havia lhe contado como Harry parecera prestes a entrar em colapso quando ela comentou em voz alta no jantar como Draco havia quase morrido pelas mãos de Potter. Mas tanto tempo havia se passado desde aquele duelo... Seria possível que Potter ainda se culpasse?
"Aquele idiota não tinha idéia do que estava fazendo..." Draco se lembrara de Snape resmungar enquanto inspecionava suas cicatrizes. "Mas você pode ter certeza que isso lhe ensinou uma lição sobre não usar feitiços desconhecidos nem na própria sombra".
Draco foi arrancado de seus pensamentos pelo som de passos descendo as escadas. O loiro se empertigou, evitando olhar para a direção de onde vinha o som. Os passos diminuíram ao se aproximar e alguém limpou a garganta.
"Malfoy".
Draco levantou os olhos no mesmo instante, seu coração disparando ao reconhecer a voz. Harry estava parado a três metros de distância olhando em sua direção. Usava uma capa preta simples e um pouco surrada por cima das vestes trouxas. Enquanto Draco encarava, o moreno mudou o peso do corpo de um pé para o outro e colocou as mãos nos bolsos.
"Potter" Draco respondeu àquele curto cumprimento, agradecendo por sua voz ter saído firme. O que o ex-grifinório poderia querer com ele? Certamente não esperava que Draco se desdobrasse em agradecimentos? Porque Draco não tinha certeza se conseguiria colocar em palavras o que sentia. Sentia-se grato, sim. Mas seu instinto de autopreservação lhe avisava para não demonstrar vulnerabilidade.
"Imaginei que o encontraria aqui. Eu..." Harry limpou a garganta novamente e lançou um olhar de esguelha para a sentinela. Draco também olhou naquela direção e percebeu a maneira como o guarda os encarava com estranheza sequer tentando esconder o desprezo que dirigia na direção do loiro. "Gostaria de falar com você. Em particular" Harry completou antes que Draco tivesse tempo para fazer alguma observação sarcástica sobre como Potter já estava falando com ele.
Draco foi pego de surpresa por aquelas palavras. Olhou ao redor. Não havia nenhuma sala onde eles pudessem se esgueirar. A não ser talvez o banheiro, mas se Potter queria privacidade aquele não seria o lugar mais indicado. Potter pareceu perceber sua dúvida, pois tornou a falar.
"Se você puder me acompanhar..." ele falou vagamente, lançando outro olhar de esguelha para o guarda.
Draco acenou afirmativamente após um breve momento de hesitação e Potter girou nos calcanhares voltando por onde viera. Draco o seguiu, mantendo uma distância segura. Aproveitou para respirar fundo e observar atentamente o moreno que caminhava sua frente.
Draco continuava um pouco mais alto, apesar de Harry ter crescido alguns bons centímetros desde que deixara Hogwarts no ano anterior. Um observador qualquer provavelmente não notaria diferença nenhuma no caminhar do moreno, os passos curtos e apressados, o corpo um pouco curvado para frente. Mas Draco percebia a forma como seu queixo estava mais levantado e seus ombros mais relaxados. Parecia que ele havia tirado um peso de sobre as costas e Draco imaginava que podia entender o motivo.
Draco se perguntou, não pela primeira vez, se seria possível que o que sentia por aquele garoto fosse amor. Lembrava-se de ter lhe ocorrido aquela certeza ao pensar que Harry estava morto na Batalha de Hogwarts: que o amava tanto quanto seu peito doía. Mas naquele momento, enquanto Draco seguia o Herói do Mundo Bruxo pelos corredores do Ministério de cabeça fria, amor parecia uma palavra tão forte! Talvez fosse o sentimento de perda que tivesse feito com que Draco pensasse que o amava. Talvez o que realmente sentisse fosse apenas uma profunda admiração mesclada com inveja. Como poderia amar alguém que mal conhecia? Seria melhor se não tentasse mais dar nome ao que sentia. E era isso o que faria dali para frente.
Eles subiram as escadas para o próximo andar, mas ao invés de caminharem na direção do elevador, seguiram por outro corredor até chegar em um hall. Apesar de boa parte do Ministério se encontrar no julgamento, ainda havia pessoas trabalhando e dois bruxos totalmente desconhecidos passaram por eles encarando. Draco tinha noção de onde eles se encontravam e aquilo despertou sua curiosidade para algo além da pessoa que o guiava. Sempre tivera certa fascinação pelo Departamento de Mistérios.
"Aqui" Potter falou indicando uma porta e dando espaço para que Draco entrasse primeiro. O cômodo parecia uma sala de visitas com uma decoração simples, dois sofás e uma lareira. Havia sido uma caminhada curta, mas parecera bem mais longa pela ansiedade que o loiro experimentara. Draco não fazia idéia do que Potter poderia querer com ele e nunca imaginara que pudesse se sentir tão... desconfortável na presença do garoto com que costumava fantasiar as mais variadas situações. "Sente-se" Potter convidou como se o lugar lhe pertencesse.
Draco se sentou numa ponta de um sofá e aguardou em silêncio enquanto Potter se sentava no outro, de frente para ele. Potter umedeceu os lábios, o olhar nunca se fixando por muito tempo no rosto do loiro. Draco reparou em como os lábios dele ficaram rosados e brilhantes.
"Sinto muito por Goyle, mas não há nada que eu possa fazer por ele" Harry falou com a testa franzida.
"Ninguém está cobrando isso de você" apesar da surpresa Draco não pôde conter o impulso de responder um tanto rispidamente.
"Eu sei, mas..." Harry o fitou franzindo ainda mais o cenho. "Vi a maneira como você o salvou na Sala Precisa, sei que você se importa com ele".
"É claro que me importo!" Draco continuou, irritado. De repente tudo em Potter o irritava, desde a sua preocupação – por mais genuína que fosse – até a maneira como o moreno o atraía sem fazer o mínimo esforço. "Ou você pensa que apenas grifinórios fazem amigos? É por causa do seu complexo de herói que você me chamou aqui? Por que se for..."
"Não, não foi por isso" a expressão de Harry beirou a contrariedade por um instante, mas acabou se suavizando enquanto ele levava uma das mãos para dentro da capa. Do bolso interno ele retirou uma caixa fina e comprida que fez os olhos de Draco se arregalarem. "Eu vim lhe devolver isto".
Draco se sentou na beira do sofá em sua ansiedade por pegar a caixa que lhe era estendida. Seus dedos tremiam ao abri-la. Ele contemplou sua varinha por um momento antes de segurá-la. Minha não, ele pensou. A varinha de Harry. Ele a conquistou e agora está me devolvendo.
Não foi como da primeira vez, quando os dedos de Draco ficaram quentes e faíscas de reconhecimento jorraram para o alto. Daquela vez não houve nada, apenas a sensação de saudosa familiaridade. A varinha de Harry, ele repetiu o pensamento extasiado. Draco quase não registrou as palavras seguintes de Potter enquanto inspecionava sua varinha em busca de arranhões. Aparentemente ela não havia sido danificada. Harry havia cuidado bem dela.
"Não tenho certeza se vai funcionar como antes" dizia o moreno ajeitando os óculos no rosto.
E de repente Draco sentiu medo de não ser aceito pela varinha de Harry. Não sabia se suportaria tal rejeição.
Por favor, me aceite. Por favor, por favor...
Draco respirou fundo, apontou para a lareira e verbalizou o encantamento apenas mentalmente. Um jato de luz atingiu a lareira, fazendo surgirem chamas azuis. Encorajado por aquele feito o loiro buscou com os olhos até localizar um cinzeiro numa mesinha e apontou para o objeto. O cinzeiro ganhou vida, bem como uma calda rosada e pelagem branca. Um ratinho guinchou e desceu da mesa com rapidez, indo se esconder debaixo do sofá, porém antes que o alcançasse outro jato de luz o transformou de volta em cinzeiro. Draco já ia procurar outra coisa para testar quando percebeu que Harry o encarava atentamente, como um bichano atento a cada movimento seu. Porém nesse caso, o loiro seria o rato.
Draco sentiu as bochechas esquentarem diante daquele pensamento e pigarreou, corrigindo a postura no assento e erguendo o queixo com toda dignidade que conseguiu reunir. Potter inesperadamente sorriu.
"Imaginei que você gostaria de tê-la de volta" o moreno falou com suavidade.
"Obrigado" Draco agradeceu desconcertado. Estava se sentindo quente e reconfortado por dentro. Estava se sentindo aceito, como se o fato da varinha tê-lo reconhecido lhe tornasse de alguma forma ligado a Harry. Era um pensamento tolo, Draco sabia.
"Parece que está funcionando bem" Harry comentou e Draco deu de ombros.
"De fato".
Um silêncio carregado se seguiu enquanto eles se encaravam. Draco pensou em perguntar o que acontecera à antiga varinha de Harry, mas não conseguia se obrigar a perguntar. Havia tantas outras coisas que gostaria de saber a respeito do moreno, porém o tempo passou e ele permanecia em silêncio. Afinal, não era como se eles fossem amigos e Draco não era ingênuo o suficiente para pensar que um dia poderiam vir a ser. Muita coisa havia se passado entre os dois. Coisas difíceis de esquecer, quanto mais de perdoar.
"Isso é tudo?" Draco perguntou por fim.
Potter pareceu que ia dizer alguma coisa, porém acabou meneando a cabeça e mordendo o lábio inferior.
"Isso é tudo" Potter falou baixando os olhos.
Sem nenhuma palavra Draco se levantou e deixou a sala, a varinha firmemente segura entre os dedos. Tinha uma impressão ruim na boca do estômago. Como se não fosse voltar a ver Harry pessoalmente por um longo tempo.
Percebeu que aquele sentimento tinha nome: era saudade.
-xyz-
Draco terminou de se vestir pela manhã e se encarou no espelho. Ajeitou o colarinho da camisa, alinhando-a com a capa e alisou a lapela. Não pela primeira vez, Draco se perguntou por que se dava ao trabalho de se arrumar todos os dias. Não saia de casa mais que o necessário – o que significava uma vez por semana que era quando Narcissa o arrastava para as lojas de móveis mais caras, empenhada que estava na re-decoração da Mansão. E eles não recebiam visitas desde... desde que o Lord das Trevas trazia seus próprios convidados para a Mansão como se fosse ele próprio o anfitrião. Não havia sequer uma coruja que não fosse a que entregava o Profeta Diário todas as manhãs.
Bem, aquilo não era totalmente verdade. Pansy às vezes lhe escrevia contanto como sua família estava se virando nos Estados Unidos. Eles haviam se mudado do país por tempo indefinido, como haviam feito muitos de seus conhecidos sonserinos, famílias puro sangue que não chegaram a se envolver com a Guerra. Se não fosse pela pena que Lucius estava cumprindo Draco sugeriria a seus pais que fizessem o mesmo. Aquela casa ainda lhe trazia muitas lembranças ruins e Draco se perguntava se um dia seria capaz de olhar para a sala de jantar – mesmo depois de terminada a reforma - e não se lembrar de Nagini engolindo a professora de Estudo dos Trouxas. Com um arrepio Draco empurrou tais pensamentos para o fundo da mente.
A maioria das famílias puro sangue que haviam permanecido em Londres tinham algum parente em Azkaban e não estavam exatamente receptivos aos Malfoy. Como era o caso de Goyle. O pai de Gregory estava preso e ele estava cumprindo uma pena mais leve, prestando serviços para a sociedade. Por mais que Draco tivesse lhe salvado a vida na Sala Precisa, Gregory não queria mais conversa com ele.
No fim os Malfoy eram desprezados por ambos os lados da Guerra por terem escapado relativamente impunes. A liberdade de Lucius era uma afronta para muitos. Sem contar que não era segredo para ninguém como Lucius havia corroborado para a condenação de muitos Comensais.
Draco suspirou e deu as costas para o espelho. Desceu as escadas e rumou direto para a copa. Tal cômodo havia sido subutilizado no passado devido à sua proximidade com a cozinha e o constante fluxo de elfos domésticos, mas com a sala de estar e de jantar fechadas para reforma a copa havia sido equipada com uma mesa grande e uma decoração provisória.
"Bom dia, mãe, pai" Draco cumprimentou e tomou seu lugar ao lado de sua mãe, que lhe sorriu por trás da xícara de chá.
"Bom dia, meu querido" Narcissa cumprimentou assim que pousou a xícara novamente no pires e limpou os lábios delicadamente com um guardanapo. "Dormiu bem?"
"Perfeitamente" Draco falou se acomodando conforme a postura que mandava a etiqueta. Enquanto essa breve conversa aconteceu, um elfo doméstico havia aparecido e servido o chá da maneira que Draco preferia de modo que quando o rapaz terminou de estender o guardanapo no colo bastou esticar a mão para tomar seu chá. O elfo doméstico desapareceu com a mesma rapidez com que havia aparecido e Draco se serviu das torradas com geléia.
"Dê uma olhada nisso, Draco" Lucius falou dobrando o jornal em uma página indicada e passando o Profeta diário para o filho com uma sobrancelha levantada. "Tenho a impressão que vai lhe divertir".
Curioso, Draco aceitou o jornal e inspecionou-o enquanto levava a xícara fumegante à boca. Mas a xícara logo ficou esquecida conforme Draco passava os olhos na foto da garota Weasley usando uniforme verde-escuro com uma garra no peito e acenando em meio às demais garotas carrancudas do time das Harpias de Holyhead. Mas o que realmente prendeu sua atenção foi a manchete que dizia: 'Herói do Mundo Bruxo solteiro!'.
Draco passou os olhos pela reportagem conforme algumas palavras lhe saltavam à vista: 'Após se juntar para as Harpias de Holyhead para a temporada de quadribol em Londres... ... fontes confiáveis dizem que foi a jovem quem terminou o namoro... o motivo parece ser a agenda de jogos do time que inclui vários meses viajando pela Europa... Ela alegou não ser justo para nenhum dos dois insistir num namoro a distância sendo ambos tão jovens... O Garoto-Que-Sobreviveu se encontra solteiro e provavelmente carente... resta saber quem será a próxima sortuda a arrebatar o coração do nosso herói...'
"Então" Lucius comentou quando o filho demorou a demonstrar alguma reação. "Quem iria imaginar que seria a Weasley a largar Potter, não?"
"A fama deve ter subido à cabeça da garota" comentou Narcissa indiferente.
"Hm" Draco falou finalmente tomando seu chá e pensando em um comentário inteligente enquanto seu cérebro ainda processava a informação. "Ela passava de mão em mão na escola. Não é mesmo de se admirar" falou por fim, mantendo o tom desprovido de emoções.
"Mas não deixa de ser intrigante. Qualquer um podia pensar que eles se casariam dentro em pouco e teriam filhos como coelhos" Lucius comentou. "Vire a página, Draco".
Draco assim o fez dessa vez com mais preocupação. Aquilo não era tudo?
A resposta veio na forma de duas fotos publicadas uma ao lado da outra. Uma era recente, de Potter e Weasley sentados lado a lado numa mesa de restaurante conversando com as cabeças abaixadas e os rostos muito próximos. Draco torceu os lábios em desgosto. A imagem ao lado parecera ser do mesmo casal de relance, porém logo Draco percebeu que era mais antiga. A garota não era Weasley, apesar de ser ruiva. Seria possível que Potter já tivesse partido para outra? foi o pensamento que lhe assaltou de imediato.
Mas havia algo de errado com Potter, o nariz era maior e os olhos... Draco voltou a olhar para os olhos da ruiva e lá estavam os olhos verdes de Harry. Aqueles eram os pais dele, Draco pensou com alívio e então leu a manchete: 'Coincidência ou Complexo?'.
'É difícil não notar a semelhança entre os casais da foto... seria apenas coincidência o fato de Harry Potter ter escolhido para namorada uma garota tão parecida com a mãe?... Especialistas dizem que o Herói-do-Mundo-Bruxo pode ter subconscientemente buscado os atributos da mãe que nunca conheceu... possível diagnóstico seria o Complexo de Édipo... inconscientemente tentando reconstruir a família que nunca teve...'
"Pessoalmente" Narcissa falou depois de espiar por cima do ombro do filho. "Sempre achei essa semelhança entre a Weasley e Evans repugnante. Acho absurda a menção ao Complexo de Édipo, afinal o menino nem conheceu a mãe, mas é realmente perturbadora a semelhança da garota".
"Pessoalmente" Draco falou folheando o jornal para se certificar de que não haveria mais nenhuma surpresa pela frente. "Sempre achei a garota muito sem graça".
"E não é para menos" Lucius comentou, parecendo um pouco perdido em pensamentos.
Em praticamente todas as páginas havia menção de Harry Potter – inclusive uma sugerindo os possíveis gostos do rapaz para garotas baseado no depoimento de amigos e pessoas próximas do ex-grifinório - e Draco achou melhor inspecionar o jornal com mais atenção depois do café da manhã.
"Sabe Draco..." Lucius falou depois de um longo silêncio em que o garoto se concentrou em passar mais geléia de amora nas torradas que sobraram. "Andei examinando algumas árvores genealógicas e confesso que fiquei um tanto desanimado com as opções de futuras esposas para você".
Aquilo fez Draco parar de mastigar sua torrada e engolir com dificuldade. Teve que tomar um gole de chá para empurrar a torrada e queimou a garganta.
"Ora, ainda é cedo para tomarmos alguma decisão, querido" Narcissa comentou dando tapinhas suaves nas costas do filho como que para desengasgá-lo. "Aliás, pode até demorar um pouco mais de tempo, mas nós não podemos nos dar ao luxo de prejudicar o futuro de Draco por tomar uma decisão precipitada. Sei que as coisas parecem difíceis no momento, mas dê mais alguns meses e você verá como as pessoas são capazes de esquecer..." ela mordiscou uma rosquinha doce, interrompendo a frase propositalmente.
"Bem... acredito que você tenha razão" Lucius falou depois de um breve silêncio em que Draco ficou olhando de um para outro.
"Não me importo se tiver que ficar solteiro para o resto da vida" o garoto falou, tentando não soar petulante, apenas apontando um fato.
"Claro que não" Narcissa sorriu e lhe lançou um olhar de quem entende das coisas. "Mas garanto que sua opinião também vai mudar com o tempo" ela lançou então um olhar de esguelha para Lucius, que desviou os olhos disfarçando o riso com uma tosse.
Draco rolou os olhos limpando a boca e se desculpando antes de se levantar.
"Tem algum compromisso hoje, querido?" Narcissa perguntou antes que Draco tivesse dado mais que alguns passos, o jornal quase casualmente estufado dentro da capa.
"É claro que não, mãe" Draco falou antecipando o que viria a seguir.
"Quer me ajudar a escolher algumas cores para as cortinas?"
"Narcissa isso é coisa para você pedir à sua nora, quando tiver uma" Lucius censurou e também se levantou. "Venha até a biblioteca comigo, Draco".
Draco assentiu. Seu escrutínio ao jornal teria que esperar até mais tarde.
Uma vez na biblioteca Draco franziu a testa para os espaços vazios nas estantes, onde antes estiveram volumes considerados suspeitos pelo Ministério. Esperou sentir raiva pela ousadia do Governo em se intrometer nas posses de sua família, mas na verdade se sentiu aliviado. Fora realmente infantil de sua parte seu fascínio com as Artes das Trevas.
"Draco você já pensou em continuar os estudos por conta própria?" a voz de Lucius interrompeu seus pensamentos e Draco foi se juntar ao pai que se sentara em uma das poltronas confortáveis próximo à lareira.
"Não sei. Ainda nem fiz os exames..."
Lucius fez um gesto de desprezo com a mão.
"Ainda estamos em janeiro. Eles provavelmente o chamarão para o exame até o meio do ano, não se preocupe com isso. Quando eu me formei meu pai me trouxe aqui e fez a mesma pergunta. Ainda não vivi o suficiente para ler todos os livros desta Biblioteca, mas conheço o bastante para guiá-lo. Conhecimento nunca é demais".
Draco acenou afirmativamente imaginando se deveria contar ao pai o que vinha pensando havia algum tempo. Lucius havia mudado nos dois últimos anos. Ele já não era mais tão exigente com o filho como no passado, mas Draco ainda se via temeroso da reação do pai em certos momentos.
"Pai... na verdade eu gostaria de trabalhar para o Ministério" o garoto falou antes que se arrependesse.
"Trabalhar?" Lucius exclamou encarando o filho atentamente. "Você sabe que não precisa disso" ele falou e Draco respirou aliviado quando não percebeu nenhuma censura na voz do pai, apenas curiosidade.
"Sei que não, mas seria uma forma de ganhar um pouco mais de confiança do Ministério e, por que não?, respeito. Além do mais eu não sei se conseguiria passar o resto da vida sem fazer alguma coisa, sem ter uma obrigação. Estou em casa há cinco meses e..." já não aguento mais, Draco terminou em pensamento. "Você entende, pai?"
Lucius o encarou por alguns segundos em silêncio antes de falar.
"A questão não é se eu entendo ou não, Draco. A questão é se você está ciente da dificuldade que você terá apenas para conseguir um cargo no Ministério. Não vai ser nada fácil e - supondo que você se empenhe de verdade e consiga - você ainda terá de enfrentar o desprezo e a desconfiança lá dentro. Você está a par as consequências dessa sua ambição, Draco?"
"Eu..." Draco baixou os olhos. "Eu sei que não vai ser fácil, mas estou disposto a me esforçar".
"Não basta se esforçar, Draco. Você vai ter que se humilhar. Como por exemplo" Lucius umedeceu os lábios sem nunca deixar de encarar o filho nos olhos "você pode ter que pedir uma ajuda a Potter. Ainda assim você estaria disposto?"
Draco se viu sem palavras. Não havia pensado nisso. Lucius sorriu lentamente.
"Agora você entende o que quero dizer. Por que você não tira o jornal de dentro da capa e lê a página sete, onde fala que Potter iniciou o treinamento para auror esta semana?" Lucius interpretou erroneamente a surpresa no rosto do filho por ter sido flagrado com o jornal, pois continuou. "É isso mesmo que você ouviu: Potter que, como você, não fez os exames de NIEM's e, diferente de você, sequer compareceu ao seu último ano em Hogwarts foi recrutado para o treinamento de auror. Será apenas uma questão de tempo. Em breve ele fará parte oficialmente do Ministério".
Draco aquiesceu e retirou o jornal dobrado das vestes, ainda atordoado.
-xyz-
"Muito bem Harry. Meus Parabéns!" Kingsley Shacklebolt deu tapinhas no ombro de Harry.
"Obrigado" Harry não pôde conter um sorriso de satisfação.
"Seja bem-vindo ao nosso departamento, Harry" Gawain Robards apertou sua mão com firmeza. "Eu reforço que estamos honrados que você tenha se disposto a unir forças conosco. E desta vez não há nenhum repórter anotando tudo o que digo".
"Obrigado, senhor. É uma honra para mim também. Honestamente" Harry reafirmou aliviado por finalmente se ver livre dos flashes das câmeras e das Penas de Repetição-Rápida.
Harry acabara de ser condecorado auror pelo Chefe do Quartel General dos Aurores depois de um ano de treinamento. A cerimônia de condecoração havia sido mais pomposa que o normal, com uma coletiva de imprensa e várias figuras importantes do Ministério, inclusive o Ministro. O treinamento também havia sido mais breve que o normal, que deveria durar dois anos. Porém nesse caso Harry não era a única exceção. O QG havia sofrido várias baixas com a guerra e o treinamento havia sido abreviado devido às circunstâncias.
Assim que Robards o liberou, Harry se viu cercado pelos demais aurores. Podmore despejou elogios e Harry chegou a imaginar se algum dia o homem largaria sua mão. Em seguida foi a vez de Proudfoot, depois Savage, depois Williamson seguido de Dawlish. John Dawlish não havia se preocupado em esconder seu descontentamento com o fato de Harry ter defendido Lucius Malfoy no julgamento, mas as coisas haviam mudado bastante desde então. As notícias sobre a família de ex-comensais eram cada vez mais raras, pois a mídia já havia esgotado o assunto e ninguém mais se importava como antes. Havia, claro, uma fofoca ou outra de vez em quando, mas sempre havia assuntos mais interessantes do que os Malfoy e eles caíam novamente no esquecimento da mídia.
Podmore, apesar de estar sempre nas comemorações, havia se aposentado e os outros quatro aurores eram os únicos que haviam sobrado do antigo QG. Além deles, havia os membros mais novos que tinham se formado no treinamento antes de Harry. Apesar de muitos bruxos e bruxas se alistarem para os treinamentos, muito poucos chegavam até o final. Em ordem de admissão, havia Declan Sutter, um rapaz de descendência alemã que devia estar beirando a casa dos trinta anos, alto e forte como um cavalo baio; Kirsty Beasant, uma garota magra e alta, porém bastante perspicaz e resistente; Scott Mabbott, um rapaz negro pouco mais velho que Harry e Callum Earle, um garoto quieto e um pouco carrancudo.
Earle foi o último a apertar a mão de Harry, porém o fez com tanto entusiasmo que Harry olhou para Mabbott procurando uma explicação.
"Ah, ele só está empolgado por deixar de ser o mais novo integrante do QG" explicou Scott Mabbott, com quem Harry mais havia se identificado de toda a equipe. "Você sabe como é, o mais novo sempre fica com as piores tarefas, as mais chatas. Vigílias, revistas, relatórios, coisas do tipo. Hey, o que acha de sairmos para comemorar?"
"Ah na verdade" Harry falou sem graça "eu já havia combinado com meus amigos de nós sairmos para tomar alguma coisa. Você gostaria de vir conosco?"
Scott deu de ombros.
"Se você realmente quiser que eu aceite o convite..." ele falou simpático e Harry sorriu.
"Claro, seria ótimo. Vou chamar os outros também".
"Fechado!"
-xyz-
Mas as coisas não saíram conforme Earle gostaria. Assim que Harry começou a trabalhar no departamento, Robards fez questão que Harry estivesse na linha de frente junto com os aurores mais velhos e experientes. Principalmente se havia alguma chance da imprensa estar presente - e de algum modo Robards sempre dava um jeito de sair ao lado de Harry nas fotos.
Harry se sentia culpado todas as vezes que Robards chegava com uma nova missão e Earle olhava esperançoso para o chefe só para ver Harry ser escolhido para a verdadeira ação enquanto ele e Mabbott acabavam ficando para trás. Como estava prestes a acontecer naquela manhã, dois meses após a nomeação de Harry.
"Temos uma missão" Robards falou ao entrar sem perder tempo com cumprimentos. "Dois assassinatos e uma pessoa desaparecida. Savage e Williamson já estão a caminho do local esperando pelo contato do sequestrador, eu os contatei antes que chegassem. Beasant e Sutter, vocês vão investigar a identidade das vítimas e os suspeitos. Potter, Proudfoot e Dawlish, vocês me acompanhem. Temos que rastrear os sequestradores. Mabbott, Earle, me avisem imediatamente se alguém entrar em contato com mais informações e fiquem prontos para pesquisarem assim que tivermos alguma pista. O que vocês estão esperando?"
Não houve nenhum questionamento enquanto todos se preparavam para seguir as ordens.
"Hey ninguém está culpando você" Scott falou quando Harry pegava sua capa para sair atrás de Robards sem tentar disfarçar sua irritação.
"Fale por você" Harry falou olhando na direção de Earle que voltava para trás da escrivaninha visivelmente contrariado.
"Gawain! Que bom que o encontrei a tempo" todos olharam na direção da porta. Um velho bruxo que Harry reconheceu como funcionário do Escritório de Serviços Administrativos da Suprema Corte dos Bruxos.
"Não, Crutchley, você não me encontrou a tempo. O que quer que seja terá de esperar. Estou com uma missão..."
"Não tomarei mais que dois minutos do seu tempo, Gawain. É sobre Lucius Malfoy, ele..."
"Não é assunto nosso" Robards o interrompeu novamente mau-humorado. "É assunto do seu departamento. Agora se você me der licença..."
"Ele está fazendo exigências..."
"Como ele ousa...?"
"... e ameaças!"
Aquilo fez com que Robards se calasse. Harry engoliu em seco ao perceber Dawlish murmurando um "Era só o que me faltava..." enquanto lançava um olhar de esguelha cheio de acusações na direção de Harry. Aquilo não ia terminar nada bem.
"Que tipo de ameaça?" o chefe do QG perguntou com uma mescla de curiosidade e raiva.
"Deixe-me começar pelo começo" Crutchley respirou fundo aliviado por finalmente ter conseguido chamar a atenção do auror. "Lucius Malfoy recebeu uma ameaça, uma carta. E está recorrendo ao seu direito de Proteção à Testemunhas. Eu sei" ele emendou antes que Robards o interrompesse novamente "que é responsabilidade do meu departamento fornecer essa proteção e providenciar as devidas investigações, mas a carta se mostrou completamente impossível de ser rastreada. A única conclusão a que chegamos é que a ameaça provavelmente foi feita por algum dos comensais fugitivos, o que faz com que nós tenhamos que envolver o seu departamento".
Robards meneou a cabeça, contrariado. Mas acabou cedendo.
"Proudfoot, você fica. Se precisar da ajuda de Mabbot ou Earle..."
Mas Crutchley ainda não havia acabado.
"Na verdade terá que ser Potter".
Harry quase deixou a capa escorregar por entre os dedos.
"O que você disse?" Robards girou nos calcanhares para encarar o velho como se o desafiasse a repetir aquelas palavras.
"Essa é a exigência de Lucius Malfoy" Harry admirou Crutchley por conseguir falar sem gaguejar muito. "E a ameaça é que ele fará uma queixa formal contra o Ministério se não mandarem Potter até as nove horas de hoje".
Robards soltou uma gargalhada sem humor.
"Você só pode estar brincando comigo! Dezenas de pessoas processam o Ministério todos os dias pelos mais absurdos motivos e agora nós temos que cumprir um capricho de um ex-Comensal da Morte para evitar que ele nos processe? Eu vou dizer a Lucius Malfoy onde ele deve enfiar sua queixa formal!"
"Mas Gawain, o Ministro pessoalmente..."
"Vou falar com o Ministro" Robards deu as costas ao velho bruxo. "Assim que eu voltar. Tenho um inocente para resgatar nesse momento, tenho certeza que Lucius Malfoy pode esperar".
Os protestos desesperados de Crutchley foram ignorados pelo Chefe dos Aurores e Harry não conseguiu mais se conter.
"Senhor!"
"Má idéia, Harry" Mabbott tentou avisar, mas Harry já estava se adiantando para caminhar ao lado de Robards para fora da sala.
"Senhor, não vejo problema algum em ficar e..."
"O diabo que você vai ficar" Robards explodiu. "Tenho melhores planos pra você do que ficar de babá para aquele..." o homem limpou a garganta, mas Harry teve a impressão de discernir um palavrão em meio ao ruído.
"Gawain! Que bom que o encontrei a tempo" as mãos de Robards se fecharam em punhos ao ver Kingsley Shacklebolt saindo do elevador ao seu encontro. "Imaginei que Crutchley teria algum problema para convencê-lo".
"Me desculpe Shacklebolt, mas..." Robards começou, porém daquela vez foi o Ministro quem o interrompeu.
"Não, você é quem vai me desculpar Robards, mas isso não está acontecendo desde hoje. Faz uma semana que Lucius Malfoy recebeu a ameaça e fez essa exigência. Faz uma semana que estamos tentando contornar a situação e, acredite, se houvesse outra maneira nós já teríamos encontrado. Eu sei a respeito da sua missão e não pretendo tomar mais do seu tempo com isso. Agora se você puder, por favor, me emprestar um de seus oficiais?"
Harry olhou de um rosto determinado para o outro e daquela vez teve que admitir que qualquer coisa que dissesse só agravaria sua situação. Robards finalmente deixou os ombros caírem derrotado.
"Como quiser, senhor Ministro. Harry leve quem você precisar, mas peça para... alguém nos alcançar no Átrio para substituir você. Com sua licença, Shacklebolt" o chefe dos aurores continuou em direção ao elevador seguido de seus subordinados.
Harry olhou para Shacklebolt e imaginou se ele também o culpava pelo que estava acontecendo, mas o ex-auror o encarou com simpatia guiando-o de volta para o QG.
"Sinto muito por isso, Harry. E não se preocupe com o seu chefe. Ele não gosta de ser contrariado, mas quem gosta?"
"O que houve?" Harry perguntou preocupado.
"Infelizmente não tenho tempo para explicar. Crutchley!" Shacklebolt chamou assim que eles voltaram ao escritório.
"Ah, graças a Deus!" o homem falou levantando as mãos para cima. "Me desculpe Ministro eu..."
"Está tudo bem. Você fica responsável por colocar Harry a par dos detalhes no caminho. Não temos muito tempo antes das nove. Boa sorte, Harry" Shacklebolt falou e saiu.
Harry então se viu cercado pelos olhares assombrados de seus colegas de trabalho. Ele pensou rapidamente no que dizer.
"Hmm... Earle, Robards e os outros estão esperando por você no Átrio".
"C-como?" Earle falou depois de uma pausa assombrada.
"Ele não está nos melhores humores, então sugiro que você corra" Harry aconselhou.
E foi o que Earle afobadamente fez. Em seguida Harry respirou fundo e encarou os dois únicos aurores restantes.
"Preciso que alguém me acompanhe a Wiltshire" ele abriu o jogo.
"Ahmm..." Mabbott lançou um olhar de esguelha para Proudfoot, que se sentou e se acomodou antes de falar.
"Você vai entender se eu disser que não faço questão de pôr os pés naquele lugar, sim Harry?" ele falou examinando as próprias unhas.
"Claro!" Harry falou rapidamente sem conseguir conter um pequeno sorriso ao encarar Mabbott. "Vamos, Scott?"
"É pra já!"
Os dois seguiram Crutchley até o Escritório de Serviços Administrativos da Suprema Corte dos Bruxos onde o bruxo mais velho recolheu uma pasta de um arquivo antes de os três rumarem para o elevador. Durante o caminho para o Átrio, Crutchley colocou os dois a par dos detalhes.
"A carta foi enviada por meio de uma coruja alugada do Beco Diagonal. O emitente passou uma identidade falsa. Utilizou o nome de um bruxo escocês falecido há quinze anos, Duff Ranald. Investigamos se essa identidade poderia dar alguma pista sobre a identidade do criminoso, mas não encontramos nada. Aqui está a carta" o velho bruxo retirou de dentro da pasta um pergaminho embalado em plástico transparente para Harry.
O pergaminho não tinha nenhum timbre ou marca d'água. As letras haviam sido cuidadosamente recortadas do Profeta Diário para não expor a caligrafia do autor. A mensagem era curta: "Lembre-se do que aconteceu a Karkaroff".
"Algum traço de magia?" Harry perguntou passando o pergaminho para Mabbott analisar.
"Os únicos resíduos de magia que encontramos são da redação do jornal. O criminoso deve ter gastado bastante tempo recortando e colando as letras ao modo trouxa. O pergaminho é dos mais comuns, portanto irrastreável. Não encontramos nenhuma impressão digital também".
"Então o único motivo de vocês suspeitarem de algum Comensal da Morte é a menção de Karkaroff".
Crutchley encolheu os ombros.
"É a resposta óbvia, não é? Faz alusão à traição de Lucius Malfoy, negociando informações em troca da própria liberdade. E a ameaça está subentendida, pois todo mundo sabe que fim teve Igor Karkaroff. Temos que concordar que Lucius virou a pedra no sapato de muitos que agiam por trás dos panos. Você consegue pensar em alguém?"
"Suspeito? Pelo menos cinco" Harry falou, passando as mãos pelos cabelos. Eles atingiram o Átrio e rumaram para o local de aparatação.
"Prontos?" Crutchley perguntou quanto eles se posicionaram. "Todos conhecem o local?"
"Nunca estive lá" Mabbott falou e Harry estendeu o braço para ele.
"Eu levo você".
No instante em que Mabbott se segurou em seu braço Harry fechou os olhos, mentalizou o portão de ferro trabalhado da Mansão Malfoy e sentiu o puxão característico no umbigo. Quando voltou a abrir os olhos estava de frente para a propriedade.
"Que diabos!" Mabbott deu um pulo para trás assustando um pavão albino que espiava por cima da sebe. O pavão abriu as asas e se afastou enquanto Harry ria. "Não achei engraçado".
"Desculpa" Harry consultou o relógio velho e arranhado que ganhara de Molly Weasley enquanto o outro auror se recompunha. "Estamos dentro do prazo, faltam dez minutos para as nove".
Crutchey havia aparatado um pouco mais longe. Logo que ele os alcançou uma voz metálica que parecia vir do próprio portão falou.
"Identifique-se".
"Auror Potter, auror Mabbot e... ora essa!" Crutchey se interrompeu. Os portões haviam se aberto assim que o primeiro nome havia sido pronunciado.
Harry entrou primeiro seguido de um ressabiado Mabbott e Crutchley fechou a fila.
"Harry, espero que você tenha tudo sob controle por aqui" Mabbott cochichou parecendo um tanto constrangido. "Por que eu nunca liderei nenhuma operação. Na verdade, quase não saio daquele escritório, você sabe..."
"Está tudo bem, não se preocupe" Harry o tranquilizou. De certa forma talvez Harry tivesse muito mais experiência do que o colega mesmo tendo começado depois.
Ao som de água corrente de uma fonte, eles subiram pelo caminho ladeado pelas sebes de teixo até o casarão imponente com suas janelas em formato de losango. Um elfo doméstico abriu a porta e convidou-os a entrar. Harry hesitou. Por fim achou que suas memórias sobre a última vez que estivera naquele lugar estivessem distantes o bastante para serem inofensivas. Porém ao entrar Harry mal reconheceu o hall ou a sala de visitas. A decoração havia mudado drasticamente com cores mais vivas e o ambiente estava mais iluminado. O lustre que Dobby havia quebrado fora substituído por outro ainda maior e as paredes, que costumavam ser roxas, agora haviam sido pintadas em cores mais claras.
A atenção de Harry foi atraída para a figura que se levantou de um dos sofás para recebê-los com uma sobrancelha arqueada.
"Ora, se não é o auror Harry Potter chegando com" Lucius Malfoy espiou um relógio de parede "cinco minutos de lambuja. Justamente quando eu terminava de escrever uma coruja não muito agradável para a Suprema Corte" ele se adiantou para – pela primeira vez na vida - apertar a mão de Harry. "Queira se sentar, Sr. Potter".
"Obrigado" Harry falou a despeito da estranheza da situação. Em seguida o moreno vasculhou o vasto aposento com os olhos até encontrar outra pessoa, então experimentou um leve desapontamento ao perceber que não era Draco. "Sra. Malfoy" ele cumprimentou de longe, ao que Narcissa respondeu com um leve aceno de cabeça.
"Auror Potter. Senhores, com licença. Vou chamar Draco".
Harry se sentou e os outros fizeram o mesmo, apesar de não terem sido recebidos tão calorosamente – para os padrões de Lucius Malfoy - quanto Harry. Um elfo doméstico os serviu em seguida. Segurando uma xícara de chá fumegante, Harry lançou um olhar de esguelha para o corredor por onde Narcissa havia sumido como se pudesse apressá-la com o gesto.
"Creio que o senhor já esteja ciente dos fatos, Sr. Potter?" a voz arrastada de Lucius chamou sua atenção de volta para a sala de visitas.
Antes que Harry pudesse responder, Crutchley se adiantou.
"Sr. Malfoy, nós não tivemos tempo de expor todos os fatos ainda, mas..."
"Uma semana não foi tempo suficiente para colocar Potter a par do assunto?" Lucius o interrompeu com um olhar gélido.
"Receio que tive apenas alguns minutos esta manhã para saber sobre a carta que o senhor recebeu, Sr. Malfoy" Harry achou por bem desviar a atenção do anfitrião do velho bruxo que parecia estar exausto pela corrida contra o tempo. "O Quartel-General dos Aurores assumirá a investigação a partir de agora e..."
Harry se interrompeu ao ouvir passos e olhou na direção do corredor, por onde Narcissa logo apareceu seguida de perto por Draco. Fazia mais de um ano que Harry não o via a não ser por meio de uma ou outra foto de longe numa matéria especulativa do Profeta Diário. Draco não parecia fisicamente mudado, mas havia algo diferente que Harry não conseguiu identificar de pronto. Seus olhos se encontraram brevemente.
"Potter" Draco cumprimentou com os olhos fixos em algum ponto perto dos sapatos do moreno.
"Olá, Draco" Harry respondeu e teve que respirar fundo para acalmar as batidas do próprio coração. Ele esperou que todos se acomodassem antes de prosseguir. "Nós precisamos, Sr. Malfoy, que o senhor nos forneça todas as informações – qualquer informação que julgar relevante – sobre sua rotina e de sua família e as circunstâncias em que o senhor recebeu a ameaça".
Lucius se recostou em seu assento com a pompa de um monarca.
"Tenho certeza que o senhor, auror Potter, como funcionário do Ministério tem acesso a cada passo que dei nos últimos... dezoito meses" ele falou, sarcástico.
Harry não se deixou abalar.
"Se necessário, sim. Mas preciso saber também sobre o relacionamento que o senhor e sua família mantém com outras pessoas, se alguém entrou ou tentou entrar em contato com algum de vocês recentemente, alguma coisa suspeita. Qualquer coisa".
Para surpresa de todos, quem respondeu primeiro foi Narcissa.
"Costumo ir ao Beco Diagonal uma vez a cada semana ou quinzena" ela começou em tom de quem trata de negócios. "Algumas vezes Draco me acompanha para ir à livraria. Sempre tomo o cuidado de prestar atenção se estou sendo seguida e oriento o meu filho a fazer o mesmo".
"E a senhora já teve a impressão de estar sendo seguida?"
"Sim. Por duas vezes eu tive essa impressão, mas não consegui reconhecer meu perseguidor. Mantenho contato apenas com algumas damas, senhoras de famílias nobres" ela levantou o queixo presunçosamente. "Posso citar nomes, se preferir".
"Prefiro que a senhora faça uma lista, por favor. E você, Draco? Já teve a impressão de estar sendo seguido?"
"Ahm..." Draco limpou a garganta parecendo surpreso por Harry ter lhe dirigido a palavra diretamente. "Não, creio que não".
"Draco anda um pouco distraído ultimamente" Narcissa falou em um tom levemente reprovador.
Harry esperou que ela lhe oferecesse mais informações, mas quando ficou claro que aquilo era tudo voltou a perguntar.
"E você mantém contato com alguém, Draco? Algum colega de Hogwarts?" Harry tomou o cuidado de não restringir os suspeitos apenas à Sonserina.
"Pansy Parkinson" Draco deu de ombros. "Daphne Greengrass às vezes manda um cartão de Natal".
"E Goyle?" Harry perguntou. "Nott? Zabini?"
"Nunca mais nos falamos" Draco falou, desviando os olhos para as próprias mãos.
"Vocês costumam frequentar mais algum lugar além do Beco Diagonal?" Harry achou ter visto Draco lançar um olhar de esguelha na direção dos pais antes de responder que não. "E o senhor, Sr. Malfoy? Tem se relacionado com alguém... do passado?" Harry tentou soar casual e por um momento achou que Lucius faria outra observação sarcástica, porém ele respondeu com seriedade.
"Se você está se referindo a alguém envolvido ativamente com o Lorde das Trevas, não, eu não mantenho contato com ninguém do tipo por razões óbvias. Apenas uma ou outra família de renome. Passarei os nomes para Narcissa".
"Ótimo. Se entendi corretamente, vocês não têm nenhum motivo para desconfiar de alguém em particular?" Harry tomou o cuidado de olhar para os três, que negaram.
"Sr. Potter acredito que o senhor tenha muito mais informações sobre os suspeitos do que nós" Lucius falou como quem encerra o assunto. "E por falar nisso eu poderia citar alguns nomes de algumas pessoas... do passado que até hoje não foram capturadas".
Ele estava jogando verde e Harry sabia. Qualquer informação sobre as caçadas a Comensais da Morte era confidencial mesmo que no momento não houvesse muitas pistas reais para seguir na maioria dos casos.
"Claro, nós podemos começar por essas pessoas" Harry falou já se levantando e pousando a xícara vazia na mesinha de centro. "Nós manteremos contato com vocês e com a sua Guarda Pessoal" aquilo fez um alarme soar na mente de Harry. "Aliás, eu não vi nenhum guarda de Proteção à Testemunhas postado na entrada" ele comentou buscando o olhar de Crutchley.
O velho bruxo pareceu ainda mais velho e encurvado.
"B-bem... o caso é que..." ele começou, porém Lucius o interrompeu.
"Eu recusei os termos propostos pela Suprema Corte dos Bruxos quando recorri ao meu direito à proteção. Tive a oportunidade de conhecer alguns dos oficiais da Guarda Pessoal e não quero ninguém do tipo xeretando na minha propriedade. Mas por que o senhor não se senta, Sr. Potter? Creio que não foi informado de toda a situação ainda".
Harry olhou para Mabbott que não tinha se atrevido a abrir a boca até o momento. O garoto deu de ombros. Crutchley desviou os olhos antes que Harry pudesse questioná-lo propriamente. Harry voltou a se sentar com uma sensação ruim na boca do estômago. Devia ter adivinhado que estava tudo correndo bem demais para ser apenas aquilo.
Lucius limpou a garganta.
"Sr. Potter ao longo de todos esses meses tive que aprender a relevar os olhares que recebo sempre que me atrevo a colocar os pés para fora de casa, mas isso não significa que eu tenha me acostumado com eles. Entenda, não renunciei ao meu direito de proteção pessoal, apenas resolvi exercer o meu direito de poder escolher a minha Guarda Pessoal. Em uma semana eu consegui reunir diversas evidências na própria Legislação que me garantem esse direito e eu poderia facilmente processar o Ministério caso ele se recusasse a atender ao meu pedido. Aliás, era nisso que estava trabalhando antes de vocês chegarem. A solicitação que fiz ao Sr. Crutchley que ele obviamente se esqueceu de mencionar para o senhor é que você seja minha Guarda Pessoal, Sr. Potter".
"Eu?" Harry arregalou os olhos e Mabbott teve um acesso de tosse. "Mas... Sr. Malfoy..."
"Sim?" Lucius piscou impassível em seu trono.
Harry procurou alguns argumentos válidos para recusar, mas não encontrou nenhum. Seu treinamento como auror certamente o havia preparado mais que suficientemente para realizar tal função. Harry pensou em Earle, para quem sempre sobrava aquele tipo de tarefa. Ora, por que Harry se recusaria? Por acaso estava deixando a fama lhe subir à cabeça? Aquela era a chance de Harry mostrar para Robards que não aceitaria ser indulgênciado pelo resto de sua carreira como auror.
"Claro" Harry falou por fim. "Quando é que eu começo?"
O meio sorriso que se espalhou pelo rosto de Lucius Malfoy foi no mínimo assustador. Primeiro porque Harry não estava acostumado a ver o homem sorrindo – nem pela metade. Segundo porque era evidente que a intenção de Lucius também era mostrar que ainda sabia exercer sua influência, dobrar as pessoas da maneira que bem entendesse.
"Eu confio na proteção do meu lar" Lucius falou em tom de negócios. "Não preciso que ninguém o vigie, mas quero que você esteja disponível para acompanhar qualquer um de nós quando precisarmos deixar a mansão. Em qualquer horário. E também se acontecer de nós recebermos outra correspondência suspeita. Acredito que vocês tenham algum dispositivo de comunicação para esse tipo de chamadas de emergência, estou certo?"
"Sim, aqui está" Crutchley vasculhou os bolsos da veste até retirar o que parecia ser um punhado de relógios baratos. "Eles são programáveis. Basta você apontar varinha, dizer a palavra programada – geralmente sobrenomes - e em seguida a mensagem – limitada a cinquenta caracteres. Quando um deles for ativado, todos os demais vão aqueccer e mostrar a mensagem. Vejam".
O velho bruxo programou o de Harry para ser acionado toda vez que ele apontasse a varinha e dissesse 'Malfoy'. Harry prendeu a pulseira ao redor do pulso direito, uma vez que o esquerdo já estava ocupado pelo antigo relógio de Fabian Prewett. Os três Malfoy torceram os narizes para os falsos relógios e colocaram no antebraço ao invés do pulso para que ficasse seguramente escondido pela manga das vestes.
"Bem, acredito que isso significa que começo imediatamente" Harry concluiu resignado. "Algum de vocês pretende se ausentar hoje?"
Harry olhou na direção de Draco que por algum motivo estava encarando Mabbott com cara de poucos amigos. O loiro desviou os olhos assim que percebeu estar sendo observado.
"Entraremos em contato quando precisarmos dos seus serviços Sr. Potter" Lucius Malfoy falou e só então se levantou. "Agradeço a sua cooperação até o momento auror Potter. Tenho certeza que o senhor fará tudo que estiver ao seu alcance pela minha família".
Harry estreitou os olhos diante da polidez de seu anfitrião. Aquele homem não dava sequer um ponto sem nó.
"Até logo. Obrigado pelo chá" eles se despediram.
"Cara, Robards vai comer o fígado de alguém hoje" Mabbott falou assim que eles saíram para o quintal da propriedade. "E algo me diz que aquele Draco Malfoy não gostou muito de mim. Ele não parou de lançar uns olhares estranhos em minha direção".
"Impressão sua" Harry falou distraído.
"Então aquela careta é permanente? Olha, sei quando uma pessoa não vai com a minha cara. E pode ter certeza que o sentimento é mútuo".
Harry não estava prestando atenção. Sua mente já estava trabalhando na lista de suspeitos. Lucius Malfoy estava mais que certo sobre ter certeza que Harry daria o melhor de si naquele caso.
-xyz-
N.A.: *O título é inspirado na música Be My Escape- Relient K indicada pela Dany.
Era para o capítulo ter saído antes, mas o hotmail sacaneou com a gente, né Fê? E eu só tenho um comentário a fazer sobre o capítulo: foi assustador escrever o Lucius o.o'
jujumalfoy (bom, você comentou Segunda Chance, mas como eu não tenho como responder espero que você leia esse recadinho. Muito obrigada por vencer a sua timidez para me deixar uma review! Espero que você goste de mais esta fic!) Ninha (você também comentou em Segunda Chance, espero que algum dia leia isso aqui: muito, muito obrigada! É bom saber que meus esforços valem a pena!) Isis Coelho (Eu também não tenho paciência pra pescarias, mas aceito mais um golinho de chá, por favor uhuahuahua. Sobre sua review para SC, muito obrigada por acompanhar e por sempre incentivar, fofa! E o maior orgulho para mim foi ler sua opinião sobre os 'meus' personagens, obrigada! Quem sabe um dia eu não siga mesmo o seu conselho ;D) Yasmin Getirana (Oh eu também espero não desistir dessa fic, fofa! E garanto que se isso acontecer será por motivo de força maior. Mas compreendo o seu receio e agradeço pelo voto de confiança ;D) Lud (Adorei sua objetividade hehehe. Obrigada! Espero não ter demorado muito!) Julia (Meu bem, eu não sei quantos capítulos a fic terá porque estou postando os capítulos conforme vou escrevendo. Sei como é difícil acompanhar uma fic inacabada portanto não vou culpar você se decidir esperar eu finalizar, mas estou fazendo o possível para atualizar rapidamente, ok? E quanto a eles ficarem mais juntos... bem acho que esse capítulo responde a sua pergunta, non? *faz cara de inocente*) ze (Aee nem demorou! Muito... Acho rss. Obrigada! ^.~).
O capítulo anterior teve 267 hits e 24 reviews! Awesome! Vocês arrasam! *O*
