Nada que dissermos vai nos salvar da queda
(Breathe – Taylor Swift)
Delly Cartwright não me analisou por segundo sequer antes de passar os braços pelos meus ombros e me dar um abraço apertado. Eu não estava acostumada com aquele tipo de recepção, mas, ainda sim, fiz com que os meus braços a envolvessem e retribuíssem o abraço de uma forma evidentemente desajeitada. Assim que Delly se afastou razoavelmente, retornou a sorrir para mim daquele jeito afável e então me lembrei de todos os motivos que eu possuía para me afeiçoar a ela.
— Oh Katniss, eu fico tão feliz em ver que você está bem. Você estava na floresta? — antes que eu pudesse elaborar uma resposta em pensamento, ela prosseguiu a falar: — Eu acabei de voltar ao Distrito, mas pelo que eu fiquei sabendo, achei que só veria você daqui um bom tempo. Que surpresa agradável! — eu estava pronta para responder, até mesmo abri a boca para falar, porém o olhar de Delly caiu nos coelhos que eu carregava e então ela tomou a minha oportunidade. — Eu estou atrapalhando você? Porque se eu estiver, eu peço perdão. Eu fiquei empolgada quando vi você que nem ao menos cogitei que poderia fazer você se atrasar...
— Delly, você não está me atrapalhando. — cortei-a, conseguindo finalmente uma brecha. Ela pareceu se acalmar ligeiramente com as minhas palavras e seguiu sorrindo. — Você disse que voltou para o Distrito há pouco tempo... Quando você chegou?
— Há quatro dias. Eu estava ansiosa para voltar. Por mais que estivessem nos tratando muito bem no Distrito 13, eu queria voltar para casa.
— E o seu irmão? — foi impossível não pensar em Prim, todavia não me deixei ser consumida pela tristeza naquela hora. Encarei Delly e vi que o meu questionamento a deixara momentaneamente sem palavras.
— Ele não queria voltar... Por causa dos nossos pais, sabe? Ele ainda é apenas uma criança e não está conseguindo entender todas essas mudanças, mas eu acho que logo ele vai perceber que seremos só nós dois daqui para frente. — um suspiro soturno fugiu dos lábios dela, mas Delly não se deixou abalar e continuou firme. — Acho que voltar para cá é algo que ele demorará a se acostumar.
— Todos nós demoraremos a nos acostumar, Delly. As coisas por aqui estão mudando.
— Eu sei. — mais um sorriso gigantesco foi aberto. — Eu estava conversando com alguns dos rapazes que estão encarregados das obras e reconheci na hora os desenhos de Peeta. Se tudo o que eles construírem ficar igual ou semelhante aos desenhos, o 12 ficará maravilhoso.
— Os desenhos estão realmente bonitos. — concordei, sentindo, finalmente, o olhar de Delly me analisando curiosamente. Achei que ela me perguntaria a respeito de Peeta, como todo mundo, mas ao invés disso, ela somente aumentou o sorriso e confirmou com a cabeça.
— Acho que eu já interrompi você o suficiente por hoje. Vou voltar para o Galpão e deixar você voltar para casa.
— Galpão? — murmurei, arqueando as sobrancelhas e a mirando nos olhos.
Galpão era o local onde, pelo que Peeta me dissera, algumas pessoas que ainda não tinham onde morar estavam ficando temporariamente. Como muitas pessoas não haviam voltado para o 12 até o momento, eu sabia que o lugar não estava tão cheio, e para quem estava acostumado com tão pouco desde sempre, o lugar estava longe de ser considerado ruim ou precário... Mas imaginar Delly e o pequeno irmão dela naquele lugar me deixou um pouco incomodada.
— Sim. Daqui a pouco o almoço vai ser servido e eu preciso estar lá para pegar a comida do Brant.
— Brant...?
— É o meu irmão. — os olhos dela brilharam quando ela me disse aquilo. Senti-me mal por saber o mínimo sobre ela quando parecia que ela se esforçava para saber o máximo possível sobre mim ou sobre o meu estado. — Hoje vai ter sopa de batata e mesmo ele não gostando muito, ele adora ser o primeiro da fila. — esforcei-me para sorrir, porém o que consegui fazer foi erguer a beirada dos meus lábios e abaixar a minha cabeça para olhar os coelhos em minhas mãos. — Então eu já vou Katniss. Foi realmente excelente encontrar você.
Delly me deu outro de seus abraços e começou a criar uma distância de mim rapidamente. Segui mirando os coelhos, tentando calcular mentalmente quanto à carne deles duraria, caso houvesse mais duas bocas para alimentar. Perdi-me nas minhas contas e deixei-as de lado, chegando à conclusão de que não seria nenhum sacrifício para mim voltar a floresta ainda naquela semana para caçar novamente, por isso antes que eu assimilasse a minha ideia, eu já estava gritando para Delly e chamando-a de volta.
— O seu irmão se importaria de não ter que entrar na fila por algum tempo? — perguntei para ela assim que nos aproximamos mais uma vez e vi como Delly frisava os lábios, sem entender. — Quando eu não consegui fazer nada, você fez muito e eu acho que o mínimo que eu posso fazer para agradecê-la é convidá-la para ficar na minha casa, até você e o seu irmão terem onde morar.
Senti-me sendo abruptamente envolvida em um terceiro abraço, e, durante o mesmo, peguei-me me perguntando no que ela pensava durante aquele ato... No passado? Em tudo o que houve? Ou será que é no futuro? Ou Delly simplesmente agia com naturalidade ao me envolver em seu abraço daquela forma amigável, sem pensar em nada? Questionei-me como, durante toda a minha vida, eu nunca trocara uma palavra com aquela garota até o dia em que ela fora em resgate de Peeta. Será que durante todos aqueles anos eu tinha sido daquele jeito? Difícil de conversar, de fazer amizades, de ser simpática? Será que quando eu agisse de forma um pouco mais meiga, todo mundo sempre se surpreenderia com a minha atitude?
Balancei minha cabeça. Eu não deveria pensar nisso. Não por hora. Sorri como consegui para Delly após o novo abraço e a encontrei visivelmente abalada (ou emocionada seria a palavra correta?), com resquícios de lágrimas nos olhos.
— Eu fico muito agradecida pelo convite, Katniss, de verdade, mas eu não quero importuná-la.
— Delly, você não sabe o que é importunar. Eu morei ao lado de Haymitch por praticamente um ano e aquilo sim é importunar. Ter você e o seu irmão na minha casa não será problema algum.
— Você tem certeza? — compreendi o receio dela e me coloquei em sua posição, mas em momento algum repensei na minha proposta ou em retirá-la, pois isso sacudi a minha cabeça, afirmando que estava certa e Delly sorriu – o sorriso mais bonito que eu já tinha visto ela dar – e, com o mesmo se alargando, ela me disse: — Eu vou pegar as minhas coisas. Brant e eu não temos muito para guardar, por isso eu acho que vou demorar só alguns minutos. Ele não vai acreditar quando eu contar...
Eu não precisei falar muito depois que ela aceitou. Peeta e Delly eram semelhantes em demasia naquele ponto: no de conversar com facilidade com quem quer que fosse. Ela atirava palavras para todos os lados e eu precisava me esforçar um pouco para conseguir acompanhar o ritmo imposto por ela, mas assim que chegamos ao Galpão, esperei-a do lado de fora e fiquei chutando algumas pedras com as minhas botas até ela aparecer pela porta mais uma vez, segurando duas mochilas e um travesseiro, e a mão de seu irmão menor.
Brant deveria estar para completar dez anos, entretanto era miúdo, mostrando que ainda não tinha passado pela puberdade e era somente uma criança. O garotinho tinha os olhos claros e os cabelos loiros iguais aos da irmã, porém era tudo. Durante o caminho para a minha casa, não escutei a voz dele em situação alguma e notei que toda a facilidade que Delly tinha para falar, ele tinha para permanecer em silêncio. E eu me afeiçoei por ele graças a isso. Eu não seria a única com problemas para me expressar debaixo do meu teto e agradecia por isso.
— Fiquem a vontade. — falei ao mesmo tempo em que empurrava a porta com um de meus cotovelos e adentrava em casa. Deparei-me com Annie, que estava encostada no batente da porta da sala e sorri um pouco, vendo-a reagir assim que pôs os olhos em Delly.
— Annie! — Delly exclamou surpresa do meu lado e soltou a mão do irmão para ir abraçar Annie, que parecia muito mais confortável abraçando ela do que eu. — Eu não tive a oportunidade de me despedir de você no 13. Quando eu fiquei sabendo, você já tinha ido embora.
— Eu ia dizer o mesmo. Quando vi, já estava no trem a caminho do 4. Só fui perceber que não tinha dado tchau quando fui embora.
Eu sabia que Annie e Delly se conheciam, porque nós costumávamos comer juntas, com os garotos, e conversávamos casualmente na maioria das vezes, mas eu tinha me esquecido de que depois que nós fomos embora do 13, para a nossa missão, elas haviam ficado sozinhas. Provavelmente elas eram bem mais amigas do que eu achei que fossem.
— Então que bom que você e a Katniss se encontraram por aqui. — Annie sorriu para mim e eu nem ao menos tentei retribuir. Eu não estava acostumada a sorrir daquele tanto e por isso meneei a cabeça, como se quisesse dizer que aquilo não fora obra minha. — Entrei em desespero quando acordei e não vi você por aqui.
— Me desculpe. — pedi, nem um pouco acostumada a pedir desculpas dentro de minha casa, afinal, eu não costumava ter a quem pedir desculpas.
— Tudo bem, os coelhos compensam isso. — ela piscou um olho para mim e foi como se eu visse Finnick em minha frente, fazendo aquele movimento e se dispersando no ar com a fala que se seguiu: — E você, Brant? — Annie se aproximou do irmão de Delly e fez um cafuné nos cabelos dele, ganhando um sorriso que eu achei que ele fosse dar tão cedo. — Pronto para me derrotar mais uma vez em uma partida de baralho?
Fiquei vagamente atônita ao notar o jeito que Annie tinha com crianças. Depois de ter escutado tantas vezes sobre o suposto desvairo e falta de capacidade dela inúmeras vezes, de bocas diversas, eu ainda me pegava estupefata quando a via agindo de forma tão normal quanto qualquer outra pessoa. Eu deveria ter aprendido com tudo o que eu vivi na Capital que a maioria das coisas que chegam aos meus ouvidos são mentiras e que não havia credibilidade alguma nas frases vagas ditas pelos outros.
Finnick estava certo sobre Annie. É claro que ele estava. Provavelmente era excessivamente fácil para ele descrevê-la, porque ele havia conhecido não só as qualidades e defeitos dela, mas todo o complemento. Os medos, os sonhos, e até mais a fundo, como a essência e o que se passava pelo coração dela. Finnick conhecia Annie como ninguém e ele havia me dito, compartilhado comigo, algumas poucas coisas à respeito dela, e, além da experiência própria que eu estava vivenciando naqueles dias, seriam naquelas palavras outrora ditas por ele que eu me apegaria.
— Brant continuou treinando depois que você foi embora. Eu perdi uma quantidade vergonhosa de vezes para ele. — Delly abraçou o irmão pelo ombro e ele escondeu a cabeleira loira atrás do corpo dela, notoriamente acanhado com toda aquela atenção.
— Você tem que ter cuidado, Delly, porque do jeito que esse garoto é bom com cartas, é capaz dele se tornar um excelente apostador.
— Vou fazer o possível para mantê-lo longe de encrencas.
As duas trocaram um sorriso cumplice e depois se viraram para mim ao mesmo tempo, olhando-me como se esperassem alguma coisa. Minha boca estava tão seca e eu estava levando tão a fundo os meus pensamentos que achei quase impossível ser eu a quebrar o silêncio que se seguiu.
Ainda bem que Delly estava ali.
— Você quer ajuda com os coelhos?
— Pode ir arrumar as suas coisas e as do Brant, Delly. Eu dou um jeito na cozinha.
— Deixe os coelhos comigo. — Annie esticou as mãos, retirando os animais abatidos das minhas próprias e caminhando até a cozinha antes que eu conseguisse reclamar. — Vá mostrar o quarto para eles, Katniss, e não fique preocupada, eu não vou queimar ou envenenar o nosso almoço.
— Eu não disse que você iria. — sussurrei e Annie deu uma risada controlada, balançando os ombros e fazendo os cabelos sacudirem também. Eu nunca havia visto ela daquela forma.
Eu tinha ignorado a opção de colocar Delly e Brant no quarto de Prim, pois desde que eu retornara para o 13, aquele cômodo permanecia intocável e eu acreditava que ele continuaria daquela exata forma por um bom tempo – ou para sempre -, então como Annie já estava ocupando o quarto de visitas, resolvi dispor o quarto antigo e vazio de minha mãe. Não era muito, mas eu tinha uma vaga impressão de que era mais do que eles tinham no Galpão.
— Eu vou pegar toalhas e uma roupa de cama limpa para vocês. — avisei, depois que abri a porta e a janela, para entrar um pouco de ar fresco e claridade. — Aquela porta dá para o banheiro. Fiquem a vontade para usar os armários. — falei calmamente, contente por estar colocando um pouco de vida naquele quarto que parecia deserto há tanto tempo.
— Katniss... — Delly me chamou e eu virei para poder vê-la. Brant olhava para os lados, com a curiosidade de uma criança ansiosa por novidades, e ela parecia estar, pela primeira vez desde que eu a conhecera, sem palavras.
— Por que vocês não aproveitam e tomam um banho antes do almoço? Os chuveiros dessa casa são ótimos. — disse com um sorriso, tentando interpretar o papel de anfitriã e imitar os passos de Effie para não sair um fiasco total. — Eu vou trazer as toalhas. Sintam-se em casa...
Sai do quarto antes que Delly tentasse voltar a me agradecer. Eu não sabia como reagir a elogios ou agradecimentos. Para mim, escutar um "muito obrigada" era ainda pior do que escutar um xingamento ou algo raivoso. Eu não sabia como lidar com situações como aquela. Suspirei e o meu suspirou ficou perdido pelo corredor. Não precisei fazer esforço para encontrar o que eu dissera que levaria e em questão de um piscar de olhos eu estava de volta ao quarto apenas para deixar nas mãos de Brant as toalhas e algo para cobrir a cama.
Fui até a cozinha e ajudei Annie do jeito que ela me permitiu, cortando alguns legumes e vegetais e preparando uma salada simples para servir de acompanhamento. Sae entrou na minha cozinha sendo acompanhada de sua netinha e eu não pude evitar em oferecer o outro coelho para ela. Annie estava preparando o último. O que significava que eu voltaria à floresta mais cedo do que eu esperava. Agradecida e visivelmente satisfeita, Sae deixou um pote com sopa e alguns pães feitos por ela em cima da mesa, pegou o coelho dela e foi embora antes mesmo de Delly descer junto do irmão.
— Pão? — Delly perguntou, arqueando as sobrancelhas e provavelmente pensando em Peeta, assim como eu pensara.
— Foi a Sae que faz. Você a conhece?
— A Greasy Sae? — não era algo espantoso conhecer alguém no Distrito 12. Como sempre fôramos o menor dos Distritos, seria de se estranhar caso uma pessoa não soubesse o nome de outra. — Ela não nos deixou morrer de fome enquanto estávamos a caminho do 13. — Delly falou com um carinho palpável na voz e olhou para o pequeno Brant, afagando uma bochecha dele. — Vocês precisam de ajuda com alguma coisa?
— Não seja boba, Delly. Estamos preparando um almoço de boas vindas para você, não é mesmo, Katniss? — Annie se esticou um pouco para pegar os pratos no armário e eu acabei me oferecendo para colocar a mesa para ela não precisar fazer esforço ou pegar peso algum.
— Eu posso colocar os pratos...
— Você escutou a Annie. — desviei os pratos que eu segurava das mãos de Delly e comecei a espalhá-los pela mesa, organizando-os da forma que consegui.
Eu não me lembrava quando havia sido a última vez em que eu comera em uma mesa tão cheia de pessoas ao redor. Annie fez o prometido e não deixou queimar a carne do coelho e pelo que eu pude ver, todos nós comemos de boca cheia.
Mastiguei a comida com calma, olhando ao meu redor e encarando as mudanças. Uma casa vazia aos poucos ganhava um toque de esperança. Olhos cansados reconquistavam o brilho. E o peso que carregávamos em nossos corpos, em nossas almas, continuava ali... Mas parecia ser mais fácil suportá-lo com outras pessoas ao redor. Eu já reconhecia aquele efeito porque eu tinha Peeta e ele me ensinara que para se curar uma ferida, a melhor forma não era aprofundá-la ou fazer um machucado ainda maior, e sim esperar, apoiar-se em alguém, dar uma chance ao tempo e respirar.
Dores não se curavam com outras dores.
Dores se curavam com um sorriso meigo como o de Annie, com um abraço apertado como o de Delly, com o carinho e atenção de Sae ou até mesmo com o olhar maravilhado que Brant lançava para o seu prato cheio de comida... Eram aqueles pequenos detalhes que eu tanto estranhava e que Peeta havia me instruído a admirar. E eu começara a constatar as mudanças ao meu redor, às mudanças em mim...
Eu só teria que me acostumar com elas, de um jeito ou de outro.
xxx
— São prímulas da noite, não são? — Delly me perguntou de tarde, bem depois do almoço, um pouco antes da noite cair. Brant brincava no jardim com Buttercup, que ronronava tão alto que mais parecia uma metralhadora atirando para todos os lados. Revirei os olhos ao ver o gato sair rolando pelo gramado, fazendo graça para o garoto.
— Sim. Foi Peeta quem plantou. — respondi, esticando as minhas pernas nos dois degraus de escada abaixo de mim e entortando a minha cabeça para ver se Annie ainda estava ali ou se voltara para dentro de casa, para descansar um pouco. Voltei a olhar para frente quando constatei que ela havia se retirado.
— Essas flores são lindas. Olhe só essas cores... — por mais que eu vivesse a olhar para aquelas flores cuidadosamente plantadas, mirei-as, encontrando os laranjas e os rosas, misturados com vermelhos e amarelos. Parecia uma pintura. Uma das mais bonitas. — Eu não sabia que Peeta entendia de jardinagem.
— Eu também não. — comentei, observando o meu jardim e me lembrando de como alguns dias atrás Peeta estava ali, dedicando-se veemente em organizá-lo. — Mas ele é muito habilidoso. Eu não me espanto mais com o talento dele.
Delly se aquietou por breves minutos. Achei que fora para olhar o seu irmão ou para contemplar as flores como fazia antes, porém errei feiamente. Senti a mão dela tocando o meu ombro como se fosse para me chamar e mudei a direção do meu olhar, fitando-a e esperando por alguma coisa.
— Você realmente gosta dele, não é mesmo? De Peeta...?
Minha garganta se fechou e os meus lábios se entreabriram. Eu não sabia como reagir aos impulsos do meu corpo em dar uma resposta que há muito tempo se localizava na ponta de minha língua, entretanto, eu ainda possuía aquela armadura, aquele muro que me impedia de agir somente depois de ponderar... Todavia Delly parecia saber o que tanto que eu queria dizer em meu silêncio.
Eu era boba em me recusar a admitir para mim mesma que eu gostava de Peeta, mais até do que eu me consentia a gostar. Depois de tudo o que havíamos passado, seria admissível que eu me sentisse um pouco amedrontada, mas nada comparado ao que eu vivenciava diariamente ao me questionar a respeito do que eu sentia por ele. Poderia ser estúpido de minha parte, mas não eram poucas às vezes que eu me colocava a pensar se todos aqueles sentimentos não eram outra criação da Capital. Se não era algo forçado, algo que eu me fazia acreditar que sentia porque em um outro momento eu tivera que me aferrar naqueles pseudo-sentimentos para transformá-los em realidade diante de milhares de olhares atentos caídos sobre nós. Eu me auto-interrogava, colocando-me contra a parede, tentando achar uma resposta cabível para todas aquelas dúvidas e confusões, porém sempre tinha as minhas teorias arruinadas quando colocava os olhos em Peeta.
Talvez fosse porque ele significava segurança para mim, ou porque em horas difíceis, ele fora e era o meu refugio, o meu fio de esperança... Mas olhar para Peeta era como pedir para me esquecer de pensar. Esquecer-me de tudo. E tentar raciocinar com ele ao redor era uma tarefa árdua demais para alguém que estava cansada demais para mais uma luta.
— Ele ligou para você desde que foi para a Capital? — neguei, sem precisar falar, e não quis que ficasse óbvio como a ausência dele estava me transtornando. Mas Delly sabia. É claro que Delly sabia. — Por que você não liga para ele? Eu tenho certeza de que ele adoraria receber uma ligação sua... — arregalei os meus olhos, com a ideia passando pela primeira vez em minha cabeça e soando absurda.
Delly ficou em pé, batendo as mãos nas laterais da calça para afastar os resquícios de poeira e terra e chamou por Brant, falando que estava na hora de entrar porque o tempo estava começando a esfriar e ela não queria que ele ficasse doente. O garoto passou como um raio por mim, segurando Buttercup no colo e carregando uma boa quantidade de lama em suas roupas e rosto. Escutei a porta se fechar, todavia, Delly ainda estava ali, com os braços cruzados e com os olhos fixos em um ponto qualquer, longe de onde estávamos. Eu não me movi, mas me abracei e olhei para o Sol que começava a se pôr.
— Eu não falo isso para aborrecer você, Katniss. — Delly parecia distante, como se estivesse tentando fugir daquele assunto tanto quanto eu, mas, diferente de mim, ela tinha a coragem de falar em voz alta o que pensava. — Eu falo tudo isso porque eu sei que tudo o que Peeta falou diante das câmeras era verdade. Peeta sempre amou você e nenhuma outra pessoa teve a chance de ocupar o espaço que sempre pertenceu à você... — havia um sorriso no rosto de Delly, mas ela não estava feliz. E foi assim que eu percebi. Percebi que eu não era a única que escondia os meus sentimentos. — Eu acho, de verdade, que você deveria ligar para ele. Eu o conheço desde criança, Katniss, e eu sei que não há nada que o deixe mais feliz do que a sua voz...
O silêncio nunca significara tanto vindo de Delly, que continua com aquele sorriso triste no rosto ao observar o escurecimento gradual do céu. Entreabri a boca, entretanto tudo o que consegui pronunciar fora um "me desculpe" e comecei a sentir lágrimas saírem de meus olhos, em um choro mudo... Mas eu não conseguia enxerga-las, porque, como sempre, eu não conseguia enxergar nada além de mim mesma.
Egoísta.
Falei para mim em minha cabeça e repeti por incontáveis vezes, até a voz de Delly ressoar outra vez pela varanda.
— Você não deve pedir desculpas por algo que você não tem culpa alguma, Katniss. — Delly se sentou de novo, mais próxima de mim do que antes, tocando o meu joelho com o dela rapidamente e suspirando de uma forma quase inaudível. — Era para ser assim... — a fala dela ecoou por meus ouvidos e retiraram todo o ar de meus pulmões. Aquela era a verdade, afinal? — Tinha que ser assim...
Não falamos mais nada, apenas nos unimos para assistir o Sol poente e o aparecer de um céu azul escuro farto de estrelas que brilhavam como os nossos olhos úmidos.
Mais tarde, ainda naquela noite, eu segurei o telefone contra o meu peito, discando os números ao compasso das batidas atônitas de meu coração, e, quando escutei a voz dele ressoar pelo telefone, eu soube que Delly estava certa.
Não poderia ter sido de outra jeito...
N/A: Eu confesso que eu sempre achei que a Delly era apaixonada pelo Peeta. Eu sei que pode ser um pouco besta da minha parte, mas eu não sei, ela pode ser uma pessoa muito boa, mas sabe quando você para e pensa a respeito e vê que a história deles parece um romance que nunca deu certo? Aquele tipo de história de amor que só um ama, enquanto o que é amado só tem olhos para outra pessoa? Aquele tipo de história de amor triste? Eu não sei, eu adoro a Delly e espero que vocês não fiquem irritadas comigo por ter feito isso, mas os meus dedos simplesmente escreveram isso e, quando eu vi, já estava pronto, então...
Bem, a respeito do capítulo, foi um capítulo de transição. Não foi nada impactante – e não teve o Peeta de novo, help -, porém eu acho que foi necessário. Mostrar como a Katniss está notando como o Distrito 13 fez com que várias vidas tomassem outros rumos, como ela está se esforçando para "melhorar um pouco" no quesito simpatia e como ela está se virando sem a presença do Peeta eram assuntos que eu queria escrever desde que li pela primeira vez o terceiro livro, por isso eu precisava colocar em algum momento dessa fanfic, e estou torcendo para que vocês estejam gostando (:
E sobre os reviews... Gente, em uma semana de provas complicada como eu estou começando a ter, acreditem, ler o que vocês estão escrevendo para mim é a minha maior felicidade. Eu não poderia pedir por mais! Em questão de quatro capítulos essa fanfic ganhou mais de 35 comentários! É muita coisa, tanto que eu nem sei como agradecer... Mas vou usar o obrigada de sempre, na esperança de que vocês saibam que eu estou realmente agradecida.
P.S.: Eu não sei se o capítulo ficou muito repetitivo. Espero saber o que vocês acharam... E se alguém quiser sugerir alguma frase/cena/algo, fiquem a vontade! Eu costumo adorar as ideias dos leitores de outras fanfics, então por que não aqui?
P.S.²: Acho que agora post, só sexta-feira ou sábado por conta das provas ):
