P - PERFEITO
A porta se abre com um empurrão, e eles passam por ela juntos, colados um ao outro.
Nelson empurra a porta, tornando a fechá-la, e então as costas de Avery estão contra a parede mais próxima. Seus lábios já dormentes estão misturados aos dele, perdidos em seu sabor, e os braços do rapaz moreno estão em volta de sua cintura em um aperto possessivo.
Avery está trêmula, com o coração disparado. Seu fôlego é curto, e ela se sente embriagada pela sensação que se apossa de seu corpo. Ela não não se lembrava da última vez que havia sentido aquilo. Um desejo tão intenso, tão poderoso, capaz de anular toda e qualquer outra coisa em sua mente como se alguém houvesse ateado fogo em suas veias. Ela havia se esquecido do quão deliciosa era a sensação da atração física, da luxúria, de querer fundir seu corpo ao de alguém até que fossem um.
E aquilo era exatamente o que ela queria naquele momento. Ela queria mais daquelas carícias, mais daquelas sensações, mais dele. Avery queria de Nelson tanto quanto ela pudesse ter. E queria agora.
Então, subitamente, ele pára de beijá-la. O aperto em volta de sua cintura se afrouxa, e ela o encara, tentando entender o que está errado. Lendo sua expressão, Avery percebe que Nelson está hesitante, quase em dúvida.
- O que foi? - ela o questiona, com a voz ofegante.
Ele balança a cabeça, fechando os olhos.
- Não é nada, é só que... eu não quero que você sinta que estou apressando as coisas. Não precisa ser agora se você não...
- Não. - Avery responde, apertando as mãos em seus ombros, como se para dar-lhe certeza - Está tudo bem, Nelson. Tudo bem.
Seu olhar parece convencê-lo, pois ele volta a tomar-lhe em seus braços e beijá-la. Uma de suas mãos vai sorrateiramente até o zíper de seu vestido, deslizando para baixo. A mente de Avery se desliga, e ela deixa seus instintos assumirem.
...
Um par de horas depois, Avery tem os olhos fechados enquanto Nelson corre os dedos preguiçosamente por suas costas. A carícia é relaxante, e o silêncio, agradável. As lembranças de horas atrás continuam se repetindo, e ela se demora em cada uma, como se as tivesse vivendo novamente.
Ela se lembra de suas costas tocando o colchão, seus cabelos se espalhando sobre o travesseiro. Se lembra do corpo quente de Nelson sobre o dela, os lábios escaldantes em sua pele e as mãos tocando em todos os lugares possíveis. Ela ainda pode ouvir, em sua cabeça, seus próprios gemidos sufocados enquanto ele se movia contra ela, enviando calafrios de febre por seu corpo. Ela se lembra de seus dedos se entrelaçando aos dele em um aperto doloroso quando o clímax os atingiu, violento e arrasador. As gotas de suor correndo em sua testa, em seu pescoço, os olhos ardentes de Nelson nos seus enquanto compartilhavam o mesmo fôlego. Os lençóis cheiravam a amaciante de lavanda. Avery se lembraria daquele cheiro para sempre.
- O que você está pensando? - a voz de Nelson a tira de suas divagações.
Avery sorri, escondendo o rosto na curva de seu pescoço, e suspira. Um suspiro satisfeito, do tipo que só é possível em momento de calmaria.
- Acho que você sabe.
Nelson sorri de volta e beija o topo de sua cabeça, afastando as mechas de cabelo loiro que estão caídas em seu rosto.
- Acho que nos saímos bem para uma primeira vez.
Avery ri uma risada alta e sonora, e Nelson a olha, espantado.
- Hey! Do que você está rindo?
- "Acho que nos saímos bem para uma primeira vez." - ela imita sua voz da melhor forma que consegue - Você fala como se tivéssemos feito algo muito difícil. - sua voz tem um leve toque de malícia no final.
- É mesmo? - ele gira seu corpo, ficando por cima dela - E como você acha que foi? Seja sincera.
Avery segura seu rosto com uma das mãos, e seu rosto assume uma expressão séria, reflexiva. Por um momento Nelson tem medo do que ela irá dizer, mas as palavras que saem de sua boca são as melhores que ele poderia ouvir.
- Foi perfeito. - ela diz - Não poderia ter sido mais perfeito.
Então ele a beija, lenta e demoradamente, sentindo as mãos dela deslizarem por seus ombros. A palavra que Avery havia usado ainda a pouco também era, para ele, a exata definição daquele momento: perfeito.
...
Q - QUÍMICA
- Você se lembra da reação da equipe quando descobriram sobre nós? - Avery pergunta, pegando um punhado de pipoca na bacia ao seu lado.
- Como é que eu poderia me esquecer? Foram semanas insuportáveis. Eles nos olhavam como se… como se nós fôssemos extra-terrestres.
Avery ri e mastiga algumas pipocas.
- Eu nunca tinha pensado dessa forma, mas agora que você disse, acredito ser exatamente essa a definição. Foram dias extremamente …
- Constrangedores? - sugere Nelson - Embaraçosos?
- Definitivamente. Eu pensei que nunca fosse acabar.
- Você se encrencou com Simon, certo? - Nelson estica a mão para a bacia de pipocas - Creio que não foi agradável.
- Não não foi. Ele me chamou à sua sala e me perguntou se eu estava louca. Se eu havia perdido a minha razão. Parte de mim queria responder a ele que era assim mesmo que eu me sentia: como se eu tivesse perdido a razão.
- Mas você não poderia dizer a ele o principal: que você havia perdido a razão e não queria recuperá-la.
Avery estreita os olhos e inclina a cabeça em falsa reprovação.
- Eu já lhe disse que você é convencido, certo?
- Sim. E também inacreditável. E impossível. São adjetivos que você sempre usa.
Avery revira os olhos.
- E você parece entender como elogios.
- Talvez. Mas sabe de uma coisa? Se há uma pessoa que nunca demonstrou qualquer estranheza em relação a nós dois, esse alguém é Raven. Sabe qual foi a primeira coisa que ela me disse quando soube que estávamos juntos? "Finalmente. Achei que nunca fosse acontecer. Sempre pensei que vocês dois tinham muita química."
- E nós continuamos tendo. - responde Avery sorrindo enquanto desliza uma mão sobre o ombro de Nelson.
- Creio que agora temos ainda mais…
Subitamente, cada um deles decide que o outro merece muito mais atenção, e o filme que passa na TV acaba esquecido, assim como a bacia de pipocas.
...
R- REALIZE
But I can't spell it out for you
No it's never gonna be that simple
No I can't spell it out for you
If you just realize
What I just realized
That we'd be perfect for each other
And we'll never find another
Just realize
What I just realized
We'd never have to wonder
If we missed out on each other, now...
A melodia na voz de Colbie Caillat soa do celular de Nelson enquanto Avery sorri.
- Eu não sabia que você ouvia Colbie Caillat. - Avery diz, olhando para ele com estranheza - Não parece muito seu estilo.
Nelson desliga a música e a encara.
- E não é. - ele responde rapidamente - Esse é o ponto. Você sabe? Quando apenas um trecho de uma música diz tudo o que você sente? Foi exatamente o que aconteceu comigo. Veja, eu estava apaixonado, e tudo o que eu queria era que você percebesse sem que eu precisasse dizer, mas ao mesmo tempo eu queria dizer, até mesmo soletrar se fosse preciso. E então, até hoje, todas as vezes que eu ouço essa música, eu penso em você.
Avery pega o celular da mão de Nelson e voltar a ligar a música.
- Agora, quando eu ouvir essa música, eu também pensarei em você. - ela sorri - E eu também acho que nós somos perfeitos um para o outro.
…
S - SORTE
Nelson gostava de ver Avery dormir.
Ele fazia isso com muita frequência, porque ela quase sempre dormia antes dele, e acordava depois.
Havia algo fascinante em observar seu sono profundo, demorar-se em cada detalhe de seu corpo enquanto ela estava perfeitamente imóvel. Enquanto dormia, Avery parecia mergulhada em um estado de paz absoluta, algo quase impossível quando ela estava desperta, em meio às suas rotinas longas e conturbadas.
Ele sentia-se grato por sua namorada ter um sono tão pesado, permitindo que ele a tocasse sem acordá-la. Um dos principais pequenos prazeres de sua vida era acariciar sua pele cremosa, sentindo a textura macia sob sua palma. Ele amava sentir seu corpo quente pressionado ao dele, ouvir o ritmo suave de sua respiração, assim como os suspiros que ela deixava escapar de vez em quando.
Às vezes, era surreal imaginar que aquela mulher maravilhosa era sua. Era difícil acreditar que ela havia escolhido a ele entre um milhão de possibilidades.
Naqueles simples e silenciosos momentos enquanto embalava sua namorada adormecida em seus braços, Nelson não podia deixar de pensar no quanto ele tinha sorte.
…
T - TUDO
Nelson nunca entendeu o conceito que algumas pessoas tinham para "tudo".
Ele simplesmente não conseguia imaginar algo grande o suficiente para representar todo o sentido da vida de alguém. Era um conceito subjetivo, complicado, que não cabia em sua cabeça de jovem imaturo.
Mas então Avery surgiu, e todo o seu mundo mudou quando ele percebeu que a amava. A mudança havia sido radical, vertiginosa. De repente, ao olhar-se no espelho, ele já não via o mesmo Nelson de pouco tempo atrás. Ele era alguém diferente, alguém que havia encontrado o amor pela primeira vez. Pela primeira e última vez.
Ele soube o que significava "tudo" quando Avery disse "sim" aos seus sentimentos, quando ela aceitou ser o seu "tudo". Ele encontrou o sentido de sua vida quando percebeu que já não podia viver sem ela, e que não precisaria, porque ela também já não podia ficar longe dele.
E ainda que parecesse impossível, sua certeza se tornou mais forte quando ele segurou Danielle pela primeira vez. O precioso bebê de olhos e pele cor de chocolate. O elo que o ligaria a Avery para sempre. No momento em que ele ouviu seu choro, vendo Avery sorrir com lágrimas nos olhos, ele soube.
Aquele era o seu "tudo".
