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CAPÍTULO III

Não consigo compreender por que esta gente, seus tios... pegaram-na para criar — disse Alice, depois de algum tempo. — Parece evidente que não agiram assim por amor ou dever.

— Minha tia não podia ter mais filhos. Ela havia comentado com alguém que Tanya iria se sentir só, e, assim, quando meus pais morreram, decidiu pegar-me para fazer companhia à filha. —Bella lembrou-se então da diferença entre as duas, desde os presentes de Natal e aniversário, até passeios e roupas. A maior parte das coisas que Bella vestia eram sobras de Tanya e sua tia a lembrava constantemente sobre a despesa que tinham com sua alimentação, e que ela deveria se sentir eternamente grata a eles.

— Nós não tínhamos necessidade nenhuma de reconhecer você — inúmeras vezes dissera-lhe. — Fizemos isso por bondade. Você é um grande peso para seu tio e nunca deve se esquecer disso.

"Eu não esqueceria jamais, pois não cansavam de me repetir", pensava Bella amargamente. Sua prima fora enviada para uma escola na cidade, onde ia de trem, mas Bella freqüentara a escola da aldeia. Assim, Tanya recebera uma formação profissional, o mesmo não acontecendo com Bella.

— Você não precisa disso — disse sua tia certa vez — porque vai ficar trabalhando em casa.

"Não passo de uma criada a quem eles não pagam salário", pensava Bella.

Mas agora Bella sorria. Se eles quisessem uma criada, precisariam pagar... Subitamente, uma vontade imensa de voltar a West Havington a dominou. Seria interessante ficar lá algumas horas, conversar com as pessoas e descobrir o que acontecera nesses oito anos, desde que ela fugira de lá. Sabia que causaria sensação, pois agora era uma estranha, assim como Edward Cullen fora certa vez. "Muitas coisas devem ter mudado", pensou ela, enquanto se lembrava do caso entre Edward e sua prima. Será que tinham se casado? Era possível, mas pouco provável, pois, como dissera a Alice, os gregos não costumam se casar com suas amantes.

— Que idade este Edward Cullen teria agora? — perguntou Alice.

— Trinta e quatro. Naquela época, ele tinha vinte e seis anos.

— Ah... bem jovem então! Eu pensei que ele fosse bem mais velho.

— Mas já tinha mentalidade de homem maduro. Edward Cullen era um homem experiente naquela época, e não posso imaginar como de estará agora.

— Provavelmente bastante cínico em relação a mulheres ou... talvez tenha sossegado e se casado com uma encantadora mulherzinha, rodeando-se de filhos.

Bella deu uma gargalhada nervosa e imediatamente a amiga arrependeu-se daqueles comentários.

— Provavelmente ele acharia este tipo de vida excessivamente aborrecido e monótono e bem depressa arranjaria para si um "travesseiro amigo".

— Um o quê?

— Este é o nome que na Grécia eles dão às amantes. Ele se tornaria muito depressa um marido infiel.

Alice olhou cerimoniosamente para ela.

— E mesmo assim você se apaixonou por ele!

— Naquele tempo ele era para mim uma espécie de deus. Apaixonei-me pela aparência física dele, e não me preocupei com o que existia por trás daquilo. Eu era muito jovem e demasiado ingênua. — Ela riu mais uma vez. — Nunca havia sido beijada, Alice!

— Você sempre o odiará, não é, Bella?

— Sempre. — Sua mão fechada e tensa descansava sobre a mesa. Os olhos castanhos brilhavam intensamente e Alice tinha a impressão de que lançavam chispas de ódio. — Se algum dia eu pudesse me vingar, não hesitaria. Chegaria a qualquer extremo para fazê-lo sofrer e o destruiria sem remorsos!

— Bella! Esta não parece você!

— Não se assuste — respondeu Bella, enquanto suas feições delicadas voltavam à expressão meiga. — Eu não sou o médico e o monstro...

— Mas, para falar a verdade, espero que os caminhos de vocês dois nunca mais se cruzem.

— Não acho provável encontrá-lo. Ele mora na Grécia e não pretendo ir até lá. E mesmo que eu fosse, haveria uma chance em um milhão de nos encontrarmos. — Sua voz-agora estava calma. Sentia indiferença por Edward Cullen, como na maior parte do tempo. Pois ele tinha se tomado para ela uma sombra imprecisa, e, a cada ano que passava, parte de um passado que ela não gostava de lembrar. Entretanto havia raras ocasiões em que ele se tomava outra vez assustadoramente real para Bella. Conseguia se lembrar de cada detalhe do seu rosto e até do calor daquele beijo trocado no bosque...

— Embora eu não deseje que você o encontre — disse Alice então, — não resta dúvida de que seria uma experiência interessante para você.

As duas riram, bem-humoradas, e os olhos de Bella estavam agora novamente serenos.

— Seria, realmente — concordou ela.

— Ainda existiria o perigo de a reconhecerem por sua voz, é verdade. Mas não creio que apenas isso pudesse identificá-la.

— Espero que, depois de oito anos, ela também tenha mudado. Mas, de qualquer modo, ele não se lembraria, pois mal conversou comigo. Não estava interessado na criada feia e desengonçada, mas na atraente filha dos donos da casa.

— Seu tio e sua tia eram muito ricos? — perguntou a amiga, interessada.

— Não eram riquíssimos como Edward, mas era a família mais rica de West Havington. Meu tio era um homem muito importante no lugar e todos o tratavam com muito respeito. — Bella calou-se um instante, depois perguntou: — Alice, aceitaria ir comigo até West Havington, um dia desses? Gostaria muito de voltar lá e saber o que aconteceu com todos.

— Adoraria ir com você! — respondeu Alice sem vacilar.

Muitas coisas tinham mudado na pequena vila. Várias construções novas davam um aspecto diferente ao lugar e Bella logo viu que o corredor de casas onde a sra. Stanley morara tinha sido demolido, para o alargamento de uma rua.

— Parece que aquela vilazinha que você me descreveu já não existe mais — comentou Alice, sentada no carro ao lado de Bella, enquanto observava as casas modernas que acompanhavam as ondulações do terreno.

— Ali ficava a granja do sr. Billy — comentou a moça, desgostosa. — Onde estará ele agora?

"Provavelmente aposentado e vivendo como um rei com o dinheiro que conseguiu com a venda de suas terras". Bella parou em frente à agência do correio.

— Está completamente diferente — falou ela, enquanto examinava o prédio. — Alguém construiu mais um quarto daquele lado e uma garagem na frente. Não creio que tenha sido obra de Leah, por isso tenho a impressão de que ela não está mais aqui. Vamos perguntar. — Saíram do carro e entraram no correio, onde, como Bella desconfiara, um estranho as atendeu. Bella comprou alguns selos e depois Perguntou:

— Sabe me informar se Leah Clewater se aposentou? — O homem olhou desconfiado para ela.

— Ela morreu há mais de cinco anos.

— Oh, sinto muito — disse Bella, sem mais uma palavra. Saiu do prédio, sempre com Alice atrás dela. — Ela era muito bondosa comigo — comentou, enquanto enxugava uma lágrima.

— Talvez você não devesse ter voltado — disse Alice, preocupada.

— Quero ver o Solar Grange. Incomoda-se de andar? Não fica longe... depois daquelas árvores ali — ela apontou com firmeza o bosque... onde Edward a beijara e a segurara nos braços...

Estavam andando há poucos minutos quando Bella parou, atônita horrorizada.

— Aquelas casas! — exclamou, apontando adiante.— Estão nas terras do meu tio!

— Está querendo dizer que ele vendeu a terra para a construção de casas?

— Ele sempre jurou que jamais venderia, pois não queria casas próximas à sua propriedade, mas... as casas estão no terreno pegado ao dele.

— Que tristeza! Arruinaram completamente a vista dele!

— Deve ter ficado furioso... danado! Adorava a vista do lago e dos montes cobertos de árvores. — Bella estava cada vez mais espantada. — Que coisa! O Grange está agora completamente cercado de casas!

— Uma cidade enorme, construída em volta da propriedade de seu tio — falou Alice, rindo. — Se isto não é um castigo, então eu não sei o que será... Em seu lugar, estaria pulando de alegria.

— Não estou alegre, mas também não tenho pena. Gostaria de saber se ele ainda está morando lá... Puxa! Aí vem o Billy!

— O fazendeiro seu amigo? Fale com ele. Estou curiosíssima para ver o que vai acontecer.

O homem havia envelhecido mas não demais. Ele chegou mais: perto e Bella caminhou para aquele lado e parou à frente dele, sabendo que Alice vigiava cada expressão de seu rosto. — Por favor. — disse ela, sorrindo — pode me informar se os Denali ainda moram no Solar Grange Não houve sinal de reconhecimento, mas uma ruga marcou a testa dele.

— Certamente — respondeu ele, enquanto voltava os olhos para a casa, no monte. — Vai lhes fazer uma visita?

— Não hoje. Só desejava saber se ainda moram lá. Este lugar mudou tanto, desde a última vez em que estive aqui!

— E quando foi isto? — Ele estava ligeiramente intrigado, olhando para ela. Bella teve a impressão de que ele sentia que havia alguma coisa familiar nela, mas não atinava com o quê!

— Oh! — respondeu Bella vagamente. — Há vários anos, já!

— Realmente, construíram uma cidade inteira por aqui. Eu mesmo tinha uma enorme propriedade aqui, mas fui convencido a vendê-la para um sindicato. Uns verdadeiros ladrões! Poderia ter conseguido dez vezes mais, se tivesse esperado uns dois ou três anos!

— Provavelmente os Denali não gostaram da idéia. Quem sabe vão vender a casa...

— Bem que tentaram. Como vê, o Grange fica em cima de um morro, e uma terra assim não tem valor. Já foi até posta em leilão, mas ninguém ofereceu um lance. Vejam só, a entrada era uma beleza, com uma avenida de árvores que ia até perto da casa. Mas uma grande parte foi desapropriada para a construção da estrada, e por ali passam caminhões pesados e jamantas. Pobre sr. Denali, ele hoje é um homem alquebrado. Sua mulher, então, envelheceu uns vinte anos. Como diz que conhece os Denali deve saber de tudo o que aconteceu com eles. — Novamente o olhar desconfiado dele examinou-lhe o rosto, a testa, os olhos, os cabelos.

— Não sabia que tinham tido tantos problemas — Bella disse, indecisa quanto ao fato de revelar a ele sua verdadeira identidade. — Mas sei que eles tinham bastante dinheiro, portanto não acho que seja um problema assim tão sério para eles, se a casa perdeu o valor.

— Ah, mas há alguns anos ele perdeu todo o seu dinheiro em aplicações mal feitas; assim dizem por aqui. E ele pensou que fosse conseguir uma larga soma pela casa, mas ela não valia mais grande coisa, com todas estas casinhas à sua volta e uma estrada tão movimentada à sua porta.

— É então uma estrada bem larga?

— Bastante larga, e também rodeia a propriedade, passando na frente e pelo lado. — Billy sacudiu a cabeça, sinceramente penalizado. — É uma coisa muito triste, tudo o que aconteceu com ele. O sr. Denali era um homem importante no lugar e agora não passa de um joão-ninguém!

— Ele não tinha uma filha?

Bella estava consciente do olhar desconfiado dele, e mais uma vez pensou se deveria trair seu segredo.

— Sim, Tanya. — Ele parou ainda mais desconfiado. — Estou percebendo, senhorita, que não é muito amiga dos Denali; pois, se fosse, saberia sobre eles. — Havia uma dúvida em sua voz, mas Bella explicou que realmente não era íntima da família, mas, como estava de passagem pelo lugar, queria notícias deles, naturalmente.

— Foi chocante encontrar tudo tão mudado — disse ela, e sentiu-se aliviada quando ele concordou.

— A filha deles era uma linda moça... ainda é, na verdade. Ela casou-se, mas agora está divorciada e voltou para viver com os pais.

— Sei que eles hospedaram uma vez um grego... — disse Bella, enquanto trocava olhares com a amiga.

— Sim, é verdade, eu me lembro. Tanya esperava que ele se casasse com ela, mas desconfio que o rapaz estava apenas se divertindo, estes estrangeiros não são muito confiáveis. — Ele calou-se e ficou pensativo. Depois perguntou: — Não me disse em que ocasião esteve aqui. Chegou a conhecer a sobrinha deles?

Bella adivinhava o nervosismo de Alice, mas manteve-se controlada. Sorriu levemente e respondeu:

— Conheci, sim.

— Uma boa moça, não?

— Mas muito insignificante.

— Realmente. Mas a aparência não é tudo.

— Está querendo dizer que o íntimo é que conta? — Alice falou pela primeira vez e Billy concordou, com um movimento de cabeça.

— Marie... ela queria que nós a chamássemos de Isabella, pois gostava do nome. Bem, Isabella fugiu de casa. Sabia disto?

— Sabia que fugiu, sim. — Bella esperou outros comentários, mas, como ele não dissesse nada, ela insistiu:— Ela teve alguma razão para fazer uma coisa destas?

Billy hesitou bastante, e depois respondeu:

— Tinha sim, senhorita, mas prefiro não comentar sobre isso.

Bella estava muito perto de revelar sua identidade, mas preferiu se calar. Depois de alguns minutos, as duas moças agradeceram e si despediram.

— Ele ficou intrigado — falou Alice, quando as duas deixavam a vila, — mas mesmo assim não conseguiu reconhecê-la!

— O que o deixou mais intrigado foi a minha voz. Mas ele não teve consciência disto. Tudo o que percebeu é que havia alguma coisa familiar em mim. — Bella entrou na estrada principal, e logo deixaram West Havington para trás. — Eu até desconfio que ele eventualmente vá se lembrar de que minha voz é igual à de Marie, mas não saberá o que pensar...

— Ele não descobrirá a verdade, isto é certo.

Alice recostou-se no banco, sentindo-se mais confortável. — Você provou uma coisa, hoje: não será reconhecida por pessoa alguma que a tenha conhecido antes.

— É verdade.

— O que acha da decadência das pessoas que a trataram tão mal? — perguntou Alice, depois de algum tempo de silêncio.

— Não sei... Para ser honesta, Alice, sinto uma enorme indiferença por eles.

— Pois, se eu estivesse em seu lugar, sentiria uma enorme satisfação em saber que foram castigados.

Bella guiou o carro mais algum tempo antes de comentar. Diante de seus olhos apareceu o rosto perfeito do grego, que, apesar de ter passada tão depressa por sua vida, deixou apenas sofrimento e humilhação; para ela.

— Se tivesse sido Edward Cullen — ela disse afinal, — eu certamente teria ficado encantada

— Isto é compreensível.

— Mas um sofrimento tão suave seria pouco para ele! Gostaria de vê-lo desfigurado pelo sofrimento! —disse, com voz trêmula.

Alice olhou espantada para a amiga.

— Você fala como se tivesse vontade de torturá-lo!

— Sim — respondeu ela, com a voz agora mais calma, como se estivesse comentando o vento ou a chuva. — Sim, Alice, se eu ainda tivesse oportunidade, creio que o torturaria!

NA:

Eu não duvido das palavras de Bella, Ela ainda guarda um ressentimento muito grande dos Cullen.

Consegui postar mais cedo graças ao carnaval, assim que tiver 10 comentários eu posto o próximo capitulo.