A.U – Universo alternativo.
Essa fic usa personagens de Saint Seiya ambientados em Vampiro, A Máscara parte do cenário do World of Darkness – Segunda Edição, publicado pela White Wolf. E obviamente nenhuma das duas obras me pertence.
Não custa repetir: Cross over entre minhas duas grandes paixões: CDZ e Vampiros. Como eu é que mando aqui e não o Kurumada ou o Justin Achilli estou tomando certas liberdades em relação aos personagens e a ambientação. Não vou seguir nenhum dos dois universos ao pé da letra, capisco?
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CAPÍTULO III, Razões que a própria razão desconhece
Chicago, galpão na zona industrial próxima as margens do Lago Michigan, dias atuais -aproximadamente uma e quarenta da madrugada.
No chão em meio a confusão causada pelo frenesi de Ikki e Shaka, ao olhar para o lado, Milo ficou mais vermelho do que um pimentão. Ao se arremessar contra o chão havia puxado a Ventrue loira que diante do pimentão Milo abriu um encantador sorriso.
- Desculpe, eu sujei seu vestido! – Falou, absurdamente sem graça olhando pro vestido tomado pelo pó do chão daquele galpão.
- Não tem problema, é só lavar. Na verdade você me tirou do caminho do "tanque de guerra". E agradeço por ter sido tão generoso. Fazendo menção a Aioria.
- Acho que podemos levantar... – Milo certificou-se de que o pior já tinha passado olhando para os lados. Levantou-se e ajudou sua suja companheira a se levantar.
- Não! Não peça desculpas novamente... ? – E ela fez uma curiosa expressão de interrogação.
- ... Milo, meu nome é Milo. Casa Toreador. Sou grego, por isso o sotaque. – Completou cumprimentando-a.
- Chicago está sendo tomada pelos gregos, melhor eu me esconder! – Falou, sorrindo e fazendo menção aos milenares irmãos Ventrue, Saga e Kannon e os Brujah Aiolos e Aioria. – Eu sou Gabrielle, quero dizer, Condessa. Casa Ventrue. Brasileira e odeio carnaval, antes que me pergunte. – Sorriu.
Ela tinha senso de humor, nunca vira aquilo em um Ventrue. - A senhora luta muito bem! Nunca tinha visto uma mulher derrubar um marmanjo tão rápido. – E ele fez uma posição de ataque satirizando o Brujah que ela derrubara.
- Obrigada, Milo. Mas acredite, não tem nada a ver com força e sim com a mente. Uma neófita como eu nunca derrubaria qualquer um que fosse na base da força.
- Neófita? Está brincando! – Falou sem esconder o choque diante do que acabara de ouvir.
- Por quê a surpresa? Tenho pouco mais de oitenta anos como Ventrue. Ou não percebeu que meu corte de cabelo é típico da década de vinte? – Ela balançou graciosamente a cabeça piscando para ele. – Vou te dar uma dica sobre nós, Ventrue: geralmente carregamos vestígios dos tempos em que fomos abraçados, coisa de tradicionalismo, sabe?
- Por Atena! Você é mais nova que eu! E freqüenta as arenas dos Brujah, assim... Numa boa? Ah, valeu pela dica, vou começar a reparar nas roupas e nos cabelos dos Ventrue! Clã mais estranho, hein? Quero dizer... Mais complicado! Pra mim todo Ventrue tem o rei na barriga, aiii desculpa, num queria te ofender.
Ela riu e concordou com a cabeça. - Meu clã me considera uma pessoa com gostos exóticos. Como tenho força política, chamam de "exótico" meu comportamento, mas no fundo eles querem dizer que eu sou quase uma paria em relação aos meus companheiros. – Ela se empertigou - Somos educados demais para dizer sinceramente o que pensamos uns dos outros. – E ela completou com uma careta de pouco caso ao referir-se a seus iguais.
- Estou vendo que temos muito em comum, Condessa. Eu sou literalmente um paria entre os Toreador. Tudo por quê fui abraçado pela beleza que possuo. Como não tenho dons artísticos como possuem a maioria esmagadora da minha família, sou uma piada ambulante. – Declarou com pesar.
- Quem te abraçou fez um favor a humanidade ao eternizar sua beleza, Milo. Sei que os Toreador costumam ser muito cruéis quando sentem ciúmes de alguém, e certamente, você chama tanto a atenção que eles tornam sua vida insuportável. Mas... Se quiser, eu posso te ajudar a mudar um pouquinho essa situação... – Ela falou com honestidade na voz.
Milo arregalou os olhos. – Como você pode me ajudar? Você é Ventrue e eu sou um Toreador. Somos muito diferentes!
- Somos diferentes, mas temos uma coisa em comum: somos neófitos. Demorei pra descobrir o caminho do "sucesso" e não custa nada partilha-lo com você. Uma noite dessas você será mais forte e influente do que muitos do seu clã e aí vai lembrar dessa conversa e da sua mais nova amiga, aqui! – Sorriu, piscando para ele. – É uma troca de favores, e eu posso te ensinar a fazer política, vital para a sobrevivência vampírica, o que acha?
- Eu acho que não levo jeito pra ser candidato! – Riu. – Desculpe, não resisti em fazer essa piada infame. Condessa, eu ficaria muito feliz com sua ajuda e nunca, nunca esqueceria disso, te dou minha palavra. – Estendeu a mão para ela e cumprimentaram-se novamente.
Milo estava realmente cansado de ser a "piada" dentro das reuniões Toreador. Todos o olhavam com desprezo, desdém. Não agüentava mais ficar em Atenas por causa da maneira como os esnobes Toreador o tratavam. Não comparecia nem mais as reuniões da Guilda Toreador e raramente freqüentava as reuniões da Camarilla, vivia recebendo broncas de seu Primogênito e havia começado a andar com anarquistas. Quando isso aconteceu, recebeu um passagem só de ida para Chicago.
Já na cidade, procurou os Brujah e fora calorosamente recebido por seu patrício Aioria, um Brujah tão velho quanto Atenas. Estava sinceramente gostando muito de andar com Aioria pelos longos corredores da Universidade de Chicago, em pouco mais de dois meses aprendeu com os Brujah coisas que seu clã não se dera ao trabalho de ensina-lo. Tais pensamentos passaram rapidamente por sua mente e ele mais uma vez se viu atento a sua interlocutora.
- Bem, começamos por você estar sempre com os Brujah. Calma, não há nada demais nisso! – Ela percebeu que Milo iria falar algo defendendo os Brujah. - O que existe demais é que você é protegido do clã e não um aliado, um companheiro dos Brujah. Existe uma sutil diferença nisso, Milo.
- Caramba... Eu nunca tinha pensado nisso... Gosto muito dos Brujah, eles tem uma paixão pelo conhecimento e pela igualdade que eu acho... Única. Meu clã prefere se ater a coisas banais como a marca da suas roupas, saldo da sua conta bancária ou se você freqüenta os lugares da moda. Sinceramente? Acho que a vida, quero dizer, a pós vida é muito mais do que isso.
- Sim, a pós vida é muito mais complexa do que isso, Milo. Não devemos desprezar os extremos, sejam os luxuosos salões, sejam os sujos galpões. Você precisa intensificar essa preocupação agora. Pra ganhar o respeito seja dos Brujah ou dos Toreador, você precisa fazer algo grande, se for aqui, nessa noite, nessa arena, melhor. Todos os clãs respeitam a força e se é força que eles querem... Podemos fazer algo além disso, existe a estratégia, a inteligência. – E ela apontou para a cabeça, enfatizando com um gesto o que acabara de falar.
- Mas eu nem sei lutar! Quero dizer, sei o básico, pra me defender... E quem eu desafiaria? – Falou perplexo.
- Vi que o Duque de Strasbourg, já te olhou umas três vezes desde que começamos a conversar. – Calma, num olha pra ele, falou entre dentes, ele ta olhando de novo pra cá! – Ele é um Ventrue, e não é qualquer Ventrue. É primogênito de Chicago e ainda tem a fama de caçador de Garous, é de meter medo esse sujeito. E se você o derrota na arena... Tenho certeza de que não apenas os Brujah, mas a Camarilla inteira vai passar a te olhar de um jeito diferente, e aí, você ganha respeito e força politicamente. Infelizmente é assim que as coisas funcionam em nossa sociedade, Milo. – Ela baixou os olhos, pensativa.
- Esse Duque de Strasbourg é o Kamus? É isso? – Ele perguntou, meio confuso, não deixando de reparar que ela ficara distante por alguns momentos.
- Sim, ele mesmo. Só que você tem que lembrar que apenas pessoas com status igual ou superior ao dele podem chamá-lo pelo primeiro nome. Isso se ele não te der essa permissão, entende?
- Sempre me enrolo com essa coisa de etiqueta, Condessa.
- Depois você se acostuma, Milo. Agora, existe uma maneira até muito simples de vencer o Duque de Strasbourg. – Olhou para os lados, certificando-se que sua conversa não estava sendo ouvida e cochichou no ouvido de Milo seu plano. Ele por sua vez, arregalou os olhos e tentava conter uma risada.
- Por Atena! Eu nunca pensaria em fazer isso... Devo falar com ele agora? – Perguntou tentando conter a risada.
- Ah, Milo, no amor e na guerra vale tudo! Fale sim, acho até que você não vai precisar ir até lá, ele já está vindo até nós, disfarça, vai! Aposta quanto que ele vai me dar bronca por estar com você? Repare como a bronca Ventrue é "sutil".
Acalmada a confusão, Kamus ficou observando o ambiente. Em uma das extremidades estavam Aioria e um grupo de motoqueiros que tinham vindo de Seatle, pouco mais próximo dele estavam o Toreador dos intensos olhos azuis e aquela Ventrue que tinha lutado na arena.
Informou-se com Mú, o Mestre das Harpias a respeito da jovem Ventrue. Em menos de um século de vida ela conseguiu um status dentro da Camarilla que poucos alcançaram. Poucos, como ele, um verdadeiro ancião. Era como se a vida existisse ainda naquela quase criança da noite e sua fama a tornara uma verdadeira celebridade na América do Sul, onde controlava com maestria as Harpias do sul do continente.
– Ela veio pro encontro do Conselho Mundial de Harpias e talvez fique para o Baile de Máscaras que os Toreador farão, disse Mú. – E Kamus se colocou a pensar... O que uma pessoa tão importante e apesar de neófita fazia com um Toreador tão insignificante? Certamente era tão educada que não conseguia afasta-lo de si.
Observou-os discretamente por quase vinte minutos, ela estava com o vestido antes branco, completamente cinza por ter se jogado ao chão ao lado do Toreador, conversando muito próxima dele. Ele não sabia dizer ao certo, mas algo naquela situação o incomodou. Tentou se concentrar na luta na arena, mas sem sucesso. – Vou até eles. – Pensou.
Kamus, caminhou completamente indiferente aos que estavam em seu caminho, concentrando sua visão no Toreador e na Ventrue que animadamente conversavam. Notou que ambos eram de uma beleza sobrenatural e formavam uma visão bastante agradável aos seus olhos.
Estava tão acostumado com vampiros bonitos ou surrealmente bonitos que dificilmente se abalava. Mas tinha algo diferente nos dois, certamente era a juventude, notava-se facilmente o quão próximos dos humanos aquelas duas crianças da noite ainda eram.
Ele fez uma mesura com a cabeça, cumprimentando-a. Fez o mesmo com Milo. Os dois retribuíram o cumprimento e olharam para o rosto impassível de Kamus.
- Condessa, é um prazer conhece-la, mesmo que não seja em circunstâncias normais. – Ele forçou um daqueles sorrisos pré fabricados e gelados, definitivamente sua especialidade. Ser encantador e distante, um verdadeiro cavaleiro do Clã dos Reis.
- Duque de Strasbourg, o prazer é inteiramente meu e peço desculpas por não ter me dirigido a sua pessoa antes. – Sua voz era tão formal e fria quanto a de Kamus. – Milo procurava se conter diante da encenação da Condessa, queria rir a todo custo. Ela olhou para ele com o canto dos olhos e parecia dizer a ele para segurar a risada.
- Creio que o senhor... – Olhou para o Toreador.– Milo, esteja aproveitando sua agradável companhia, não? – Ele demorou para falar o nome de Milo de propósito, só pra mostrar a ele o quanto era insignificante. Mas aqueles olhos... Eram tão azuis... Tão perturbadores. Por que estou tão incomodado com isso? É apenas um neófito! – Pensou, sem se mostrar um milímetro abalado.
- Ah sem dúvida, Duque de Strasbourg, a companhia da Condessa é simplesmente inenarrável tamanha sua espiritualidade. – Falou contendo alguns palavrões que vinham a sua mente, Ventrue metido, agora ele realmente estava com vontade de enfiar um tapa na fuça daquele almofadinha.
- Vai lutar hoje, Duque de Strasbourg? – Perguntou a loira.
- Com exceção de Aioria e Mú, não vejo alguém com força suficiente para me enfrentar, Condessa. Já estamos velhos demais para propiciar shows nesses eventos. – O tom de cinismo dele impressionou até mesmo a Condessa, acostumada a lidar com Ventrue praticamente o tempo todo.
- Se o senhor fosse desafiado, lutaria? – Perguntou ela com educada curiosidade.
- Regras são regras, não? Seria obrigado a lutar, mas não haveria graça nenhuma no combate. – Falou demonstrando seu tom entediado de dono do mundo.
Milo estava se segurando pra não mandar aquele almofadinha pra ! – Larga de ser fresco, Kamus, vem lutar comigo que vou te dar uma lição pra você aprender que humildade é uma qualidade que você não tem! – Milo explodiu e os dois Ventrue olharam para ele, a Condessa intimamente concordando com ele e Kamus completamente surpreso com aquele comportamento.
- Milo... Por favor, não fale assim com o Duque de Strasbourg, devemos respeita-lo... – E seus olhos estavam alarmados, diante da explosão do Toreador. – Não, Milo, assim não! – Ela pensou, preocupada.
-Se é isso que você quer, assim será. – Limitou-se a dizer. – Condessa, gostaria de me acompanhar? Creio que a companhia do senhor Milo já esteja a entedia-la. – E estendeu o braço para ela.
Diante de praticamente uma "ordem" do seu ancião para se retirar da companhia de Milo, ela estendeu o braço, não sem antes dar uma piscada para Milo. E saiu de braços dados com Kamus que não demonstrara nenhuma reação a provocação de Milo. Internamente ele apenas pensava em como derrubar o Toreador sem machuca-lo muito.
- Obrigada por sua companhia, Duque de Strasbourg. – Respondeu educadamente quando se juntaram ao grupo de Aioria e os motoqueiros de Seatle.
- O prazer foi meu, Condessa. – Fez um gesto chamando Aioria que meio a contra gosto saiu da companhia da japonesa bonita. – O que você quer, Kamus? Estou vendo que já conheceu nossa amiga, Gabrielle.
- Sim, a Condessa é uma companhia encantadora. – Limitou-se a dizer. – Seu pupilo me desafiou a entrar na arena com ele, estou comunicando que não pretendo mata-lo, mas talvez ele se machuque um pouco. Esteja preparado, por favor.
- Mas o Milo num tem juízo mesmo! Se ele desafiou, agora tem que lutar, paciência! Num força muito com o menino, por que ele ainda é muito novo, Kamus.
Kamus concordou com a cabeça e saiu com a Condessa a tira colo. Ela estava possessa da vida de ter que desfilar com aquele perfeito exemplo de calma e auto controle. Não via a hora dele desgrudar dela. Mas estava confiante. Milo venceria o combate, ah, sem dúvida. – Tem que dar certo, tem que dar, se não eu mandei o Toreador pra morte... Ai... Preciso deixar de ser tão sentimental... – Pensava, desesperada, mas sem demonstrar a preocupação que sentia.
- Condessa, permite-me? – Fez um gesto tencionando deixa-la junto a Aldebaram.
- Claro, Duque de Strasbourg. – E ela se aproximou de Aldebaram e cumprimentou-o com um gesto de cabeça.
- Por favor, Aldebaram, cuide da Condessa, tenho uma luta para participar agora.
- Deixa comigo, Kamus. Se bem que a Condessa num precisa que eu a defenda, essa guria é dura na queda!
- Suas considerações são irrelevantes sendo que o quesito a ser avaliado é o cavalheirismo, caro Aldebaram.
- Ah, Kamus... Tenha a santa paciência! Vai lutar então... Pera aí, você vai enfrentar o Milo! Num acha isso desproporcional, homem?
- Foi ele quem me desafiou. Não pretendo mata-lo. Fique tranqüilo.
Aldebaram se limitou a olhar preocupado para o neófito Toreador, pensando em quantos ossos Kamus quebraria no rapaz.
Do outro lado da arena Milo subia tirando o sobretudo. Era só manter a calma e seguir os conselhos da Condessa. Ele nem prestou atenção nos xingos de Aioria, dizendo que ele seria esmagado que nem barata.
Kamus tirou a gravata e o terno, entregou os pertences pra Condessa. Dobrou metodicamente as mangas de sua camisa e subiu na arena colocando-se em posição de combate. Do outro lado da arena, Milo estava parado, imerso em seus pensamentos. – Certamente ele se arrependeu de me desafiar, pensou Kamus sem se preocupar.
Milo concentrou toda sua força para usar um de seus dons de sangue: a Presença. Através desse poder ele se mostraria excepcionalmente atrativo para Kamus, e ele precisava despertar alguma emoção naquele Ventrue. Faze-lo sentir-se atraído por sua pessoa, era esse o caminho. – No amor e na guerra vale tudo, repetiu consigo e encarou Kamus intensamente.
Sem se dar conta, Kamus não conseguia desviar os olhos dos olhos de Milo. – São tão azuis, tão profundos... Mas por quê pertencem a ele? Por quê? Por que estão me incomodando tanto? Por que me trazem lembranças? Kamus viu-se perdido num passado, muito distante.
– Kamus não se deu conta de que Milo caminhava lentamente em sua direção, sem desviar os olhos dos seus. E aquilo começava a dar-lhe um calor imenso – O que é isso? Faz tanto tempo que não sinto esse calor... É tão intenso, tão bom... Sinto-me... Vivo! É isso, vivo... Quase como se meu coração batesse... Deus... É tão bom! – Há quanto tempo amaldiçoara Deus? E agora ele agradecia a ele por se sentir vivo!
Milo parou na frente de Kamus. Como se estivessem em câmera lenta, ele envolveu Kamus num abraço e inclinou-se para beija-lo. Ao toque dos lábios de Milo, Kamus sentiu seu corpo quase explodir – Aquele sentimento quente, tão peculiar... Tão único... Entregou-se completamente, sem nem ao menos lembrar-se de onde estava, só haviam os olhos e agora aqueles lábios a satisfaze-lo. Assustou-se, e e então a dor... Quase um branco, quase silêncio absoluto e então ele se deu conta do que Milo fizera.
No meio da arena dos Brujah, o Toreador usara sua presença e o deixara em transe absoluto. Conseguiu se aproximar dele e enquanto estava beijando-o, Milo o estacou pelas costas ao abraça-lo.
A última coisa que ouviu foi Milo dizer algo como "No amor e na guerra, vale tudo, Kamus" e um barulho ensurdecedor e agora o branco completo, o silêncio absoluto.
O galpão quase foi ao chão quando o corpo de Kamus encontrou a lona fria da arena. E tudo graças... A esperteza de Milo que estava sendo ovacionado por todos os presentes.
Os mais velhos como Mú, Aldebaram, Ikki, Aioria, Máscara mal estavam acreditando no que tinham visto: o neófito Toreador derrubara com estratégia (diga-se de passagem, humilhante) o durão primogênito Ventrue e numa arena Brujah, era um acontecimento inédito. Os neófitos não conseguiam parar de berrar o nome de Milo que ainda não acreditava que dera certo a idéia da Condessa.
Aioria não conseguia acreditar nos seus olhos. Como se não tivesse sido suficiente a luta sensacional de Marin, depois a da Condessa e finalizando com o confronto sangrento entre Ikki e Shaka (que aliás ele precisa acordar) agora isso? Ele estava certo de que Milo iria ser todo quebrado com apenas um golpe de Kamus... Mas o Toreador mostrou-se esperto e usou apenas o poder da Presença para derrubar Kamus e não usara de modo ortodoxo o que deixava a situação ainda mais divertida e ele tentava esconder o riso. – O Kamus vai perseguir o Milo até a morte depois disso, pensou.
Só que... Havia um porém. Se Kamus caiu na armadilha, deveria existir algo errado por baixo daquela fachada de Ventrue perfeito e cavaleiro. Aquilo só funcionaria se houvesse algum conflito não resolvido dentro do Ventrue. Ele compartilhou seu pensamento com Mú que também havia notado o fato. Havia alguma emoção perdida dentro do Ventrue e o Toreador fora esperto em explorar isso.
Milo mal acreditava no que tinha feito, derrubou Kamus usando apenas a Presença! Não conseguia conter-se tamanha surpresa. A dica da sua nova amiga tinha funcionado, mesmo que ele não acreditasse, tinha funcionado. Só que... Ele poderia estar mais feliz, bem mais feliz se os lábios de Kamus ao contrário do que ele esperava, não fossem tão vivos, tão quentes. Ele sentiu uma leve ardência nos lábios e pensou em acudir o corpo caído do Ventrue, mas foi levantado nos ombros de alguém e carregado por uma multidão que invadira a arena.
Enquanto os Brujah o ovacionavam, viu de relance a Condessa acompanhada de Aldebaram levando o corpo de Kamus para fora do galpão. Parecia que ninguém tinha notado que os Ventrue saiam pela porta dos fundos. E agora, ele, Milo, um pequeno neófito Toreador era o centro das atenções.
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Chicago, estacionamento na zona industrial próxima as margens do Lago Michigan, dias atuais -aproximadamente duas e quarenta da madrugada.
Aldebaram colocou com cuidado o corpo de Kamus no banco de trás da limusine da Condessa.
- Obrigada, Aldebaram. – Ela sorriu, acomodando o corpo inerte de Kamus no banco.
- Cuide bem dele, Gabrielle. O ego dele vai estar tão ferido quando essa estaca sair do coração que eu tenho pena de você, amiga.
- Não se preocupe, tenho experiência em lidar com egos feridos de anciões Ventrue. – O motorista fechou a porta e saíram rumo ao hotel onde estava hospedada. Ela sacou o celular e discou um número, sendo prontamente atendida.
- Quer que eu lhe conte em detalhes o que aconteceu, Afrodite?
- Não me mate do coração, Gabrielle! Conte, deu tudo certo?
- Ah, sim, claro que deu! Milo derrubou Kamus e... – E ela lhe deu todos os detalhes da luta. Do outro lado da linha Afrodite se limitava a emitir expressões de surpresa e contentamento.
- Você está com Kamus? – Ele perguntou interessado ao final da narrativa.
- Sim, ele está aqui ao meu lado, só que não pode ouvir nada, tadinho. Estou realmente com pena dele.
- Eu sabia que você seria a melhor pessoa para transformar Milo em um verdadeiro cavaleiro Gabrielle. Obrigado por atender ao meu chamado.
- Você pode ter certeza de que Milo será o mais belo e hábil Toreador da Camarilla de Chicago, tem minha palavra. Assim você poderá voltar para seu país, sem nenhum peso na consciência, Afrodite.
- Ele desconfiou de algo, Gabrielle?
- Não, nada. Ele é esperto, mas nós somos mais, não é? Ao menos por enquanto!
Afrodite rui do outro lado da linha. – Tenha uma boa madrugada, Gabrielle, e boa sorte na hora de acordar o Kamus. E ele desligou o celular.
Ela encarou o vampiro em torpor sentado ao seu lado. – Desculpe, Duque de Strasbourg, mas isso foi pro bem do Milo. O que esconde em seu coração? Certamente já amou um dia, você não me engana! Você vai me contar, ah, vai sim! Ou eu não me chamo Gabrielle!
Afrodite havia ouvido a fama de que a Condessa era uma admirável Tutora através das harpias de Chicago. Chegou a seus ouvidos que ela fizera verdadeiros milagres educando neófitos e os preparando para tornarem-se políticos exemplares dentro da Camarilla.
Ela era um sucesso como tutora entre os vampiros, fizera de sua progênie um dos vampiros mais admirados no costa Leste, apesar da pouca idade tanto dela como de sua cria. Algo próximo de um milagre, diga-se de passagem, considerando que haviam vampiros milenares entre eles.
Como Milo era teimoso e não gostava da companhia dos Toreador (adoravam fazer piadinhas a respeito de sua falta de talento), Afrodite pediu encarecidamente a Aldebaram que lhe apresentasse essa jovem Ventrue e tão logo Milo chegou em Chicago e junto a ele sua fama de "anarquista" ele movimentou mundos e fundos para trazer a tutora para Chicago. Não, ele não permitiria que um jovem tão bonito se perdesse, Milo tinha futuro, só precisava deixar essa incontrolável rebeldia de lado.
Afrodite e a Condessa se entenderam logo de cara. Apesar de Ventrue, ela não era fria e entediante, pelo contrário, era divertida e extremamente sociável. Ele contou a ela o caso de Milo e ela aceitou o desafio de aproximar-se dele e transforma-lo em um verdadeiro cavaleiro. E agora o primeiro passo fora dado. – Adoro contos de fadas! – falou Afrodite, voltando sua atenção para suas adoradas rosas.
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Suíte Presidencial do Swissotel, East Wacker Drive, região central, próximo as margens do Lago Michigan, aproximadamente 20:00, noite seguinte.
Ela já havia se vestido e cuidara do corpo do ancião com toda a precaução possível, se preparando pra hora em que ele seria desperto em completa fúria. – Conte até três e remova a estaca, Gabrielle. – Falou consigo. – Um, dois... Três e arrancou a estaca esperando Kamus despertar.
Não tardou muito e o ferimento aberto em suas costas começasse a se fechar, ela nem ao menos precisou derramar sangue para ajuda-lo, afinal de contas, o homem era um ancião, não precisava dessas coisas que neófitos como ela. Contudo ela não pode deixar de reparar que o corpo daquele homem era cheio de cicatrizes que pareciam ter sido feitas por feras e outras por lanças e espadas, sem dúvida ele era muito antigo e sua fama de cavaleiro era justificava.
Gradualmente Kamus recobrou a consciência. O branco, deixou de ser tão branco, ele começou a sentir as cores. O silêncio deixou de ser absoluto e ele começou a ouvir os ruídos no ambiente. Um ambiente completamente desconhecido. Mexeu a cabeça, tentando se sintonizar, estava vestido da cintura para baixo, mas sem camisa. – Onde? Ele não sabia. – Finalmente as lembranças dos últimos segundos: a arena, o Toreador, a estaca e então o silêncio. – Onde estaria?
- Duque de Strasbourg... Fique tranqüilo, está em lugar seguro, eu lhe garanto. – Sussurrou uma delicada voz feminina.
Ela já tinha ouvido aquela voz... Quem era? Esforçou-se para lembrar... Ah, sim a neófita Ventrue. Isso fez ele pensar no Toreador. Toreador... Arena... Estaca... – Tudo estava começando a fazer sentido.
Esforçou-se para se sentar. Seus olhos percorreram o ambiente, pela decoração deveria ser o Swissotel, na East Wacker Drive. A mulher lhe estendeu uma camisa imaculadamente branca, ele tentou pega-la mas a dor da estaca recém arrancada de seu corpo fez com que quase deixasse cair. – Deixe que eu o ajudo a se vestir, senhor. – E ela ajudou-o. – Ele está pior do que eu imaginava... Pensei que ia acordar quebrando tudo... – pensou consigo.
- Vivi séculos, sem sentir o gosto de uma estaca. – Ele sussurrou, a voz rouca. – E o gosto é amargo, muito amargo... Obrigado, Condessa por cuidar da piada de Chicago.
- Duque de Strasbourg... Sempre existe uma vez para tudo em nossa existência. Certamente falarão por alguns dias, mas depois esquecerão do ocorrido... – Tentou consola-lo, sabendo que era realmente difícil que aquilo acontecesse.
Ele fechou os olhos. – Condessa... Tenho experiência suficiente para saber que as harpias não deixarão uma cena lamentável como aquela passar em branco. – Kamus terminou de fechar os botões da camisa. – Sorte do Toreador que ganhará fama com isso e azar o meu que tive minha honra jogada na lama. Antes um combate justo... Do quê... deixe para lá.
- ... Do quê um beijo que desperta sentimentos, senhor? – Ela arriscou-se a dizer. Já esperando a bronca.
Kamus olhou-a com surpresa. – Foi tão evidente assim, lady?
- Não, senhor. É que... Bem... O senhor sabe... Quando existe algum sentimento dentro de nós, a presença geralmente aproveita-se dele.
- Os olhos do Toreador me lembraram muito uma pessoa que um dia me foi... Muito querida. – Kamus terminou de colocar a gravata e vestiu o terno. – Obrigado por providenciar vestes adequadas. Não esquecerei de sua generosidade, Condessa.
Ela limitou-se a cumprimenta-lo com um aceno de cabeça. – Meu motorista levará o senhor onde desejar, Duque de Strasbourg.
- Com sua licença, Condessa. – E ele se retirou da suíte.
Gabrielle se jogou na cadeira mais próxima tão logo Kamus deixou o aposento. – Aiiii... O que foi que eu fiz com ele... Nunca vi um ancião tão vulnerável, isso não é bom... O que eu fiz? Será que existe algum jeito de reparar isso? Ele vai matar o Milo ou então... Acho que enfiei o Milo em confusão... A não ser que... – E ela pegou o celular.
- Afrodite? – Perguntou sem esconder o nervosismo na voz. – Onde posso encontrar o Milo?
- O Kamus já acordou? – Perguntou, curioso.
- Já. Depois falamos disso, é realmente sério. Preciso achar o Milo, urgente.
- Ele deve estar no Porão, lá no Masquerade. Toma cuidado se for lá, Gabrielle.
- Estou indo pra lá! – Um Ventrue com sentimentos de vingança era algo mais terrível do que um Malkaviano ou um Brujah em frenesi. Havia uma chance de salva-lo da fúria do Ventrue. Era a única chance.
Desligou o celular e rezou para que o Toreador estivesse no Masquerade.
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Só uma observação sobre os poderes vampíricos. Cada clã possui poderes específicos em que são especialistas.
Ventrue possuem Fortitude (resistência sobrenatural), Dominação (controlar mentes) e Presença (Manipular sentimentos a seu favor).
Toreador possuem Celeridade (velocidade sobrenatural), Presença (Manipular sentimentos a seu favor) e Auspícios (poderes telepáticos).
Qualquer clã pode desenvolver outros poderes que pertencem a outros clãs. Mas demoram bem mais do que em desenvolver seus dons naturais de sangue. Um exemplo é o Kannon e o Saga que tem domínio de Auspícios em níveis extremamente avançados para realizar uma comunicação telepática (nível 7) como aconteceu no capítulo passado.
Não acho que esse capítulo tenha ficado tão emocionante como os outros, nem tão descritivo como eu gosto... Sei lá... Sou muito critica comigo mesma... Digamos que era uma passagem necessária para o que estaria por vir e que seria inspirado nos filmes:
Orgulho e Preconceito (Pride & Prejudice) e Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility). – representarão um arco. – Meninas... Se vocês são românticas incuráveis como eu, precisam assistir esses filmes maravilhosos!
A trilogia O Poderoso Chefão (The Godfather) inspiraria outro arco da história de um personagem que até agora só foi citado na história. É o Máscara da Morte, um personagem muito rico pra se trabalhar como Brujah Iconoclasta/Individualista.
Estou pensando muito também em arrancar inspiração dos filmes Garota Interrompida (Girl, Interrupted), Um estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo's Nest) e O Hotel de Um Milhão de Dólares (The Million Dollar Hotel) pra começar a falar dos D-I-V-I-N-O-S Malkavianos, as pessoas tem muito preconceito sobre o clã mais visionário e incompreendido de todos. Quero mostrar por quê o Shaka, Hyoga e Shun se encaixam perfeitamente nesse clã maravilhoso.
Só que... Eu sou movida por comentários, então...
Só escrevo o próximo capítulo se as pessoas deixarem reviews!
-----Nuriko fazendo chantagem barata!--------
Funcionou com os capítulos anteriores, e espero que funcione com esse.
