Eram quase nove horas da noite quando Booth bateu na porta dela. Temperance Brennan se assustou com o barulho. Ela havia passado as duas últimas horas sentada no sofá pensando no que Angela lhe tinha dito. Teria ela escolhido Booth para ser o doador de esperma porque inconscientemente ela queria que ele fizesse parte da sua vida? Da sua família?
Não havia dúvidas sobre o fato de ela tê-lo escolhido por ser o homem mais gentil que ela já conheceu e no qual ela podia confiar plenamente. De alguma forma, ela queria que suas maravilhosas qualidades fossem passadas para o filho deles. Além disso, Parker ser um menininho adorável e inteligente também influenciou na sua decisão. Ela não se importaria em ter seu próprio Parker.
Mas teria ela escolhido Booth porque na realidade ela o queria?
Isso não fazia o menor sentido. Eles nunca foram um casal. Eles nunca seriam. Primeiro, eles trabalhavam juntos. Segundo, havia a linha imaginária que ele tinha traçado entre eles. Eles não poderiam arriscar começar um romance. Os danos poderiam ser catastróficos. Cam quase morreu uma vez porque ela estava namorando o Booth. Se Brennan, além de ser parceira do Booth e a maior arma que o FBI tinha para desvendar a causa da morte e armas utilizadas em casos em que isso parecia impossível, fosse também sua namorada, ela seria o primeiro e principal alvo de cada assassino do país. Terceiro, como quase nenhum romance durava por muito tempo, com eles não poderia ser diferente. Será que eles conseguiriam trabalhar juntos depois de um romance frustrado?
Era provável que não.
Então, simplesmente não poderia acontecer. Nunca.
No que diabos ela estava pensando?
Brennan riu sozinha com o pensamento completamente ridículo.
Eles não estavam apaixonados. Eles eram grandes amigos, isso era tudo. Booth era como um irmão para ela, embora ela desejasse que ele não tivesse um corpo tão simétrico e desejável que às vezes a tentavam a cometer incesto. Ah, Senhor! Pare com isso, Temperance!
Isso provavelmente era um efeito do aumento da produção de hormônios. Isso, culpe a gravidez.
Knock Knock.
"Ah! A porta!" Ela quase esqueceu que Booth estava batendo na porta há quase cinco minutos.
"Booooones? Você está aí?" Booth gritou do outro lado da porta. "Está tudo bem?"
"Já vou!" Ela gritou de volta, pulando para fora do sofá e calçando os chinelos.
"Estava tirando um cochilo?" Booth perguntou quando ela finalmente abriu a porta.
Brennan estava vestindo um confortável vestido com gola em decote 'v' e Booth não pode deixar de notar que os seios dela estavam maiores devido à gravidez. Como ele não tinha percebido isso antes? Talvez porque você não é um pervertido e não deveria ficar olhando os seios da sua parceira o tempo inteiro?
"Não, estava lendo um livro." Ela mentiu. "Achei que você não viesse mais." Nos meus sonhos...
"Nos seus sonhos." Ele sorriu. "Eu fiquei preso no escritório tentando conseguir novas informações sobre o caso do Jack, o Estripador."
"Ah, então você descobriu quem matou aquela mulher?" Brennan perguntou.
"Não, Bones, Jack, o Estripador, era um maluco que costumava matar suas vítimas e depois arrancar partes dos seus corpos durante o século XIX." Booth explicou.
"Ah, então é mesmo muito improvável que seja ele, já que ele teria mais de cem anos hoje em dia." Ela concordou com a cabeça. "Mas descobriu mais alguma coisa sobre o caso? Algum suspeito?"
Isso, vamos falar sobre o caso. Talvez ele se esquecesse de toda a história de 'quero ser o pai do seu bebê'.
"Sim, mas eu não vim aqui falar sobre trabalho." Quase.
Ele passou por ela e entrou na cozinha, deixando uma embalagem de comida para viagem no balcão.
"Eu comprei a comida mais sem cheiro e sem pimenta que eu encontrei. Vai te ajudar a não ter enjôos, parece que eles estão te pegando de jeito. Você perdeu peso."
Brennan ficou tocada por ele haver percebido. Ela estava tendo muitos enjôos matinais, às vezes matinais, vespertinos e noturnos.
"Está melhorando com o tempo. Minha médica garantiu que logo irão passar." Ela disse. "Estou certa de que não terei problema algum para ganhar tudo o que eu perdi e mais um pouco nos próximos cinco meses."
"Você vai ficar linda." As palavras saíram da sua boca antes que ele pudesse se deter.
Brennan enrubesceu.
"Todas as mulheres ficam lindas na gravidez." Ele acrescentou rápido. "É um milagre o que acontece dentro de seus corpos."
"Na verdade, uma gravidez ocorre como resultado da união do óvulo com o espermatozóide e então formação de um embrião, que é implantado no revestimento endometrial do útero da mulher." Brennan explicou.
"Nas palavras de uma pessoa normal, um milagre." Booth sorriu.
"Milagres não-" Ela começou. "Esquece." Era inútil tentar argumentar com ele quando ele começava a falar de suas crenças absurdas. "O que você trouxe para jantarmos?"
Ela pegou a sacola e abriu para olhar.
"Frango grelhado, arroz branco e batata-frita. Não é a comida mais saudável para se trazer para uma grávida, mas eu sei que você tem uma quedinha por batata-frita. Espero que elas te deixem de bom humor para a nossa conversinha." Ele lhe lançou um sorrisinho e abriu a segunda gaveta para pegar a toalha de mesa.
Isso o fez perceber o quão natural as coisas pareciam para ele. Quantas vezes eles jantaram daquela forma na casa da Bones? Centenas. Mas essa noite era diferente. Eles não estavam ali para falar de trabalho ou comemorar o sucesso de um caso. Eles estavam ali para falar de algo muito mais importante. E muito mais pessoal.
"Hmmm... batata-frita realmente parece uma boa idéia." Ela disse sentindo o estômago roncar. Com toda a preocupação sobre a bendita conversa que eles teriam, ela se esqueceu completamente de comer. Só agora que ela sentiu o cheiro de comida que ela percebeu o quanto ela estava faminta. "Obrigada por trazer o jantar. Eu estava mesmo morrendo de fome."
"Eu imaginei. Você tem essa tendência de pular refeições." Ele colocou os pratos e talheres na mesa enquanto ela tirava o suco e o refrigerante da geladeira. "Mas você vai ter que ser mais cuidadosa agora, Bones. O squintzinho vai precisar de todos os nutrientes que ele puder para crescer forte e saudável."
"Squintzinho?" Brennan arqueou uma sobrancelha.
"Você, squint." Ele apontou para ela e então para a barriga ainda lisa. "Ele, squintzinho."
"Eu ainda não sei se é 'ele' ou 'ela', Booth." Ela lhe disse.
"Como você quer que eu chame o bebê? Não posso chamá-lo de 'coisinha'." Booth disse.
"Chamá-lo de 'ele' é uma generalização e sugere que vai ser do sexo masculino. Isso subestima o fato que o bebê pode ser do sexo feminino e o faz parecer menos importante. As chances de ser um ou outro são iguais." Brennan explicou enquanto eles se sentavam à mesa. Ela deu uma mordida na comida e se sentiu no paraíso (metaforicamente falando, é claro). Ele se sentiu ainda mais acordada e viva depois que o sal penetrou seu organismo.
"Eu sei, Bones, mas eu vou chamar o bebê de 'ele' como em 'um ser que faz parte da espécie humana', tá bom? Chamar o beber de 'coisinha' faz parecer que ele é apenas um objeto. Eu não vou chamar meu bebê de 'coisinha'." Ele defendeu seu ponto de vista.
Brennan congelou quando ouviu as palavras 'meu bebê' saindo da boca dele. Ele nem mesmo havia hesitado quando disse isso. Na sua cabeça, aquele bebê era dele e ninguém podia fazer nada para mudar isso.
"Você quer mesmo fazer parte da vida deste bebê, não quer?" Ela suspirou.
"Eu já faço, Bones." Ele apoiou o queixo na mão, olhando nos olhos muito azuis dela. "A pobre criança provavelmente estava berrando de fome antes de eu chegar aqui trazendo esse jantar elegante e delicioso."
"Fetos não conseguem reproduzir sons nesse estágio e dentro do útero, Booth." Brennan disse e pegou uma batata. "E, embora isto esteja bem longe de ser um jantar elegante, está realmente delicioso."
"Fico feliz que tenha gostado." Ele olhou para ela apaixonadamente e sorriu.
Por um momento, Brennan se esqueceu de como respirar, completamente perdida naqueles olhos castanhos.
"Eu estive pensando no que você me disse o dia todo." Ela decidiu que era melhor ir direto ao ponto e parar de evitar o que eles realmente tinham que conversar. "Eu tomei uma decisão."
