A/N: Mais um capítulo! Desculpa a demora, galera! Mais uma vez, agradeço minha adorável beta!
Capítulo 4
No dia seguinte Mitsue acordou extremamente cedo, não queria se atrasar. Ao chegar ao prédio do Kazekage sentiu-se pela primeira vez um pouco nervosa. Mas o nervosismo logo passou, pois, ao entrar no prédio, a primeira pessoa que viu foi Kankurou.
— Ei, garota! Que bom te ver por aqui! Gaara me disse que ia te chamar para o cargo, mas esqueceu de dizer se você tinha aceitado!
— Acho engraçado que as pessoas parecem achar que eu não aceitaria! Como eu recusaria uma posição dessas? — Mitsue respondeu no mesmo tom descontraído.
— Bem, é um trabalho um tanto mais chato do que o que estamos acostumados a fazer... Sabe... Sem aventuras, sem nada.
— Chato! — Mitsue riu. — Eu vou definir as aventuras que você viverá! — Depois acrescentou brincalhona: — A partir de hoje eu controlo sua vida, é bom você começar a fazer tudo o que eu quiser!
Kankurou riu alto.
— Que bom que a guerra não te transformou em sushi! Precisávamos de alguém alegre por aqui!
Mitsue sorriu. "Sim, que bom que a guerra não foi o fim de nossas relações." Não conseguiu evitar de pensar. Afinal, tivera certeza de que seus caminhos nunca mais se cruzariam.
— Mas você trabalha no escritório, Kankurou-san?
— Primeiro, tira esse san do meu nome. Segundo, é claro que não! Acho que eu não suportaria um dia sentado em uma mesa! — ele respondeu com uma cara de desgosto. — Mas meu irmão trabalha e vai por mim, — ele piscou o olho. — ele precisa de um pouco de alegria.
As noites de Suna são tão frias quanto seus dias são quentes. Mitsue enrolou-se com mais força em seu casaco. "Por que eu esqueci a droga do documento no escritório?" pensou, brava consigo mesma por sua distração. Agora ela tinha de andar até o prédio no meio da madrugada, para pegar os papéis.
Ao se aproximar da construção estacou. Havia uma luz ligada no prédio. "Não pode ser que tenha alguém trabalhando até essa hora", pensou. Lentamente, ela entrou no escritório, e se dirigiu à sala de reuniões. Ao chegar ao fim do corredor, percebeu que a luz vinha do andar de cima, da sala do Kazekage. Resolveu descobrir o que estava acontecendo. Subiu as escadas devagar, tentando não chamar atenção para sua presença. Parou perto da porta e escutou.
— Entre — A voz do Kazekage se fez ouvir.
Quando ela abriu a porta, se surpreendeu com o que viu. Ao contrário do que esperava, o Kazekage não estava sentado em sua mesa resolvendo algo urgente.
Gaara se encontrava deitado no sofá, um prato de biscoitos em seu colo e alguns papéis em sua mão. Não usava suas roupas de Kazekage, na verdade parecia estar de pijamas. Quando ele a viu sentou-se imediatamente, um olhar alerta em seu rosto.
— Mitsue, aconteceu alguma coisa? — ele perguntou em um tom sério.
Percebendo que de fato sua visita ao escritório durante a alta madrugada era estranha, Mitsue balançou a cabeça.
— Não, eu só vim pegar uns documentos que esqueci aqui, vi a luz ligada e resolvi averiguar.
Ele respondeu com um aceno de cabeça. Sempre de poucas palavras. Depois, olhando para baixo, pareceu tomar consciência de suas roupas pela primeira vez. Mitsue pensou ter visto um leve rubor subir-lhe às faces, mas quando olhou novamente, ele já não estava lá.
— Me desculpe por não estar apropriadamente vestido para recebê-la. Pensei que fosse minha irmã — ele disse baixo.
Foi a vez de Mitsue de responder com um aceno de cabeça. Um silêncio constrangido se fez no recinto. A garota não sabia muito bem o que fazer agora, deveria sair sem dizer nada? Pedir desculpas por não ter se anunciado? Mas afinal das contas, ele que dissera para entrar...
— Resolveram fazer uma festa do pijama no escritório e não me convidaram? — brincou.
O silêncio se estendeu por alguns segundos antes que o Kazekage respondesse com a voz inexpressiva de sempre:
— Infelizmente, não é esse o caso.
Mitsue mordeu a própria língua. Será que ela fora irreverente demais? Desejou que o Kazekage não estivesse irritado o suficiente para demiti-la, ela gostava de seu trabalho. Como membro do conselho ela trabalhava menos do que costumava trabalhar nas missões. Obviamente isso só acontecia porque eram tempos pacíficos.
Todos os dias atendia a uma reunião com o resto do conselho e o Kazekage. E, apesar da seriedade das reuniões, ela percebeu que se divertia enquanto trabalhava. Afinal, era a primeira vez que ela não se sentia em falta com o resto da "equipe" por ser fraca. Apenas as faculdades mentais contavam, e nesse aspecto ela era a melhor.
Outro fator que ela gostava muito era a companhia. Kushio passava pelo escritório todos os dias, e Kankurou sempre aparecia se não estivesse em alguma missão. Temari também vinha visitá-los bastante, e ela descobrira na ninja uma grande amiga. Agora, com duas semanas de trabalho, ela seria afastada do cargo. Bem, de fato combinava a mais jovem conselheira já nomeada ser a que menos tempo permaneceu no cargo, ela pensou amargurada.
— Mitsue? — a voz detrás da garota a tirou de seus pensamentos. Virando-se para ver quem a chamara, viu Temari, com um copo de leite em uma das mãos e um saco de biscoitos na outra.
— Oi Temari! Eu já estou de saída, só vim pegar uns documentos! — ela disse apressada enquanto começava a descer as escadas, tomando cuidado para desviar da ninja.
Antes de chegar ao pé da escada pôde ouvir Temari repreendendo seu irmão:
— O que você fez para assustar a garota assim?
— Não faço ideia — foi a resposta baixa e levemente confusa.
Conforme o tempo foi passando, Mitsue entendeu que o problema não era ela, que não tinha ultrapassado nenhum limite ou algo assim. Esse simplesmente era o jeito do Kazekage. Ele raramente falava, e quando dizia algo, era sempre curto, objetivo e sem emoção. Lembrando-se das palavras de Kankurou no seu primeiro dia de trabalho, decidiu que algumas piadinhas não fariam mal ao Kazekage.
A resposta dele variava entre acenos de cabeça, que serviam para mostrar que ele reconhecera a piada, e frases curtas, que não acompanhavam a brincadeira. Se ela fosse qualquer outra pessoa, desistiria de seu objetivo, mas ela não era alguém de abandonar um plano. E, certo dia, um pequeno curvar de lábios, quase imperceptível, lhe deu a certeza de que estava no caminho certo. Então ela continuou a brincar com o Kazekage, obviamente sempre tomando cuidado para não ser desrespeitosa nem nada, e Kushio comentou que admirava sua coragem.
Gaara observou a garota trabalhando. Nunca se arrependera de sua decisão de colocá-la no conselho, ela se entrosara facilmente com a equipe e ele precisava confessar que trouxera uma vivacidade muito bem-vinda para o escritório. Voltou a olhar para o documento em sua frente, as letras miúdas se confundindo em seus olhos cansados. "Daqui a alguns dias vou dormir", pensou consigo mesmo. Em algum canto de sua mente cansada registrou o término da reunião. Acenou maquinalmente para todos os seus conselheiros e começou a recolher seus pertences.
Quando estava prestes a sair da sala, ouviu um leve gritinho de felicidade. Olhando para um dos lados, viu Mitsue e Kushio abraçados apertado. Ele acabara de retornar de uma missão e apresentava um curativo na testa.
De volta a sua sala, ele refletiu sobre a garota. Mitsue possuía uma personalidade forte e extremamente fácil de gostar. Era admirável como ela conseguia se mostrar extremamente séria nas reuniões e no exato momento em que elas acabavam voltar a seu modo brincalhão e sorrir de orelha a orelha enquanto fazia alguma piada. Todos no escritório pareciam gostar da garota. Kushio simplesmente a adorava, ele podia ver no jeito que conversavam, nas brincadeiras que trocavam.
E não era apenas ele. Toda vez que seu irmão gêmeo, que era o chefe do hospital de Suna, aparecia para dar algum relatório, ele abraçava Mitsue forte e passava bons momentos rindo com a ninja. No começo ele pensou que talvez o médico estivesse apaixonado pela garota, mas depois percebeu que era outro tipo de amor: o amor fraternal. Os dois eram como irmãos dela. Ela, que nunca tivera nenhum irmão, achara quem gostasse dela dessa forma, encontrara em seus companheiros de equipe uma verdadeira família. Enquanto ele, que tinha irmãos de sangue, não podia dizer que tal afeto crescera entre eles.
E ele sabia que era o culpado. Sabia porque via Mitsue com seus irmãos. Kankurou a adorava. Toda vez que se viam entravam em uma eterna troca de provocações e risadas. Ele comentava sobre ela no jantar, lembrando-se de histórias e piadas. Gaara percebeu que nunca vira seu irmão tão alegre.
Temari era mais discreta, mas ele podia ver a admiração que Mitsue causava em sua irmã, e ela não era fácil de impressionar. O respeito e amizade que crescera entre elas eram tais que Temari se dispusera a ajudar Mitsue a treinar e aprimorar suas habilidades ninjas, e ela nunca fora conhecida pela sua paciência. Gaara percebeu que sentia uma pontada de inveja de Mitsue. Inveja da facilidade com que ela se relacionava com as pessoas e com que conquistava a todos. Inveja do carinho que via crescer entre seus irmãos e a garota.
Era hora do jantar na casa do Kazekage e o cheiro de sopa impregnava todos os cômodos. Gaara resmungou algo sob sua respiração. Ele estava com tanto sono... Mas também estava com fome, e o cheiro da sopa estava realmente delicioso. Resmungando novamente, levantou-se de sua cama e colocou a primeira roupa que viu. Por que Temari atrasara tanto para preparar o jantar? "Não seja ingrato, Gaara, ela já faz mais do que precisava por preparar o jantar." Ao abrir a porta de seu quarto o cheiro intensificou-se. Desceu as escadas rapidamente, mas estacou ao chegar ao térreo. Temari estava pondo os pratos na mesa, enquanto Kankurou e Mitsue se engajavam em um jogo de Shougi.
— Ah, Gaara, que bom que você estava acordado! — Temari exclamou vindo em sua direção. Quando chegou ao seu lado completou baixinho: — O treino de hoje demorou muito para terminar e eu acabei convidando Mitsue para o jantar, espero que você não se importe.
— Sem problema — ele respondeu no mesmo tom.
— Ganhei! — Mitsue gritou.
— Não, não ganhou! — Kankurou protestou incrédulo.
— Ganhei sim!
— Não! Olha aqui!
— Estou olhando, eu ganhei!
— Claro que não!
— Ah, Kankurou, aprende a perder!
— Mas eu NÃO perdi!
Temari riu baixinho.
— Parece que o Kankurou conheceu alguém ainda mais cabeça dura do que ele — Piscou um olho para Gaara e foi pegar mais um prato para colocar na mesa.
O jantar foi muito mais animado do que de costume na casa do líder da vila. Kankurou, ajudado por uma garrafa de saquê, ria alto e falava besteiras. Temari também tomou algumas doses e estava mais alegre do que o normal, rindo mais abertamente e até deixando passar algumas das provocações do irmão. Vez ou outra lançava um olhar preocupado para Gaara. Ele sabia que ela estava esperando que ele estourasse a qualquer momento.
Temari era a única pessoa que conhecia seu ciclo de sono tão bem quanto ele, e ambos sabiam que quando ele estava assim, perto de seu limite, ficava profundamente mal-humorado. Mas nessa noite ele estava se divertindo e, em vez de se retirar após o jantar, se reuniu a eles na sala de estar.
Ele não participou das brincadeiras e gozações que rolavam soltas, apenas observou. Observou e tentou entender o sentimento que crescia no fundo de seu estômago.
Gaara estava ciente que sentia inveja de Mitsue por sua relação com seus irmãos. O que ele não sabia até então, e começava a perceber agora, é que ele tinha inveja de seus irmãos por sua relação com Mitsue.
Ele queria que ela risse assim com ele. Que se sentisse à vontade o suficiente para brincar dessa forma com ele. Que eles fossem amigos.
— Sabe, se você deixar ela se aproximar, tenho certeza de que ela vai adorar. — Temari disse ao se sentar ao seu lado. Gaara a olhou confuso. — Você só precisa demonstrar isso pra ela, sabe, que você gostaria de se aproximar dela. Um pequeno incentivo e tenho certeza de que ela faz o resto sozinha. Parece que esse é meio que um instinto natural dela, ser amiga das pessoas.
Gaara permaneceu em silêncio.
Temari terminou de lavar a louça e subiu as escadas resmungando, era muito tarde e amanhã seria um longo dia. Gaara já se retirara e Kankurou se oferecera para levar Mitsue até sua casa. Temari achava que seu irmão estava começando a se interessar demais pela garota. "Bom para ele" pensou consigo mesma. "Pelo menos ela mora na mesma vila..." Balançou a cabeça e pensou que estava se tornando uma velha amargurada.
Chegou ao fim da escada e se dirigiu para seu quarto, mas parou no meio do caminho. A porta do quarto de Gaara estava entreaberta. Ao aproximar-se pode ouvir a respiração lenta e pesada de seu irmão. Cuidadosamente, afastou a porta e espiou dentro do quarto. Gaara dormia profundamente, ainda vestido. Ele nem se dera o trabalho de entrar debaixo das cobertas.
Sorrindo levemente Temari foi até o armário do corredor e pegou um cobertor extra. Entrou com passos leves no quarto, sabendo que o menor barulho podia acordá-lo. Com muito cuidado, cobriu seu irmão mais novo. Em vez de sair em seguida, parou por um momento para observá-lo dormindo.
Às vezes ela se esquecia, mas Gaara ainda era uma criança. Bem, criança propriamente não, mas ele era tão jovem! Ela sentiu um calor subir em seu peito e percebeu que esta provavelmente era a primeira vez que alguém cobria seu irmão na hora de dormir. É verdade que ele nunca dormira quando criança, mas o fato de que mesmo que ele pudesse dormir, não haveria ninguém para cobri-lo, deixou Temari subitamente triste.
Ele nunca conhecera o carinho de uma mãe. Não sabia o que era ser ninado. Não sabia o que significava ter alguém para protegê-lo. Temari se lembrou da sensação que teve ao segurar em seus braços o corpo de seu irmão mais novo, dos gritos que ouvia em algumas noites de lua cheia, quando os pesadelos atormentavam a cabeça do ex-demônio. Sim, até mesmo o Kazekage precisava ser protegido de alguma forma.
E era essa proteção que Temari queria lhe dar. Ela sabia que nunca poderia substituir a mãe deles, mas tinha feito uma promessa a si mesma quando vira seu irmão abrir os olhos e estender os músculos, recuperando-se do rigor post mortem. Ela prometera que não deixaria Gaara morrer sem conhecer o carinho e a segurança tão característicos de um lar de verdade. Um lar como eles nunca tiveram. Gaara merecia isso, ele estava se esforçando tanto para se tornar uma pessoa melhor quando nada disso era culpa dele.
E agora ela percebia que nunca fizera melhor escolha em sua vida. As brigas com Kankurou para desenvolverem uma rotina familiar valeram a pena, pois ela podia entrar no quarto de seu irmãozinho e cobri-lo.
Temari saiu do quarto lentamente e fechou a porta com cuidado, um sorriso em seu rosto. "Da próxima vez", pensou "vou dar um beijo em sua testa". Riu consigo mesma. "Preciso lembrar-me de passar no escritório amanhã e avisar que ele não aparecerá pelos próximos dias."
Gaara respirou fundo e soltou um leve gemido. Por mais que ele gostasse de dormir, odiava as consequências. A pilha de documentos em sua mesa atingia proporções gigantescas. "Bem, não tem problema, vou passar o próximo mês trabalhando durante as madrugadas mesmo." Bufou de leve diante da perspectiva de noites insones à sua frente. Ele nunca admitiria, mas adorava quando Temari acordava no meio da noite e vinha lhe trazer biscoitos e fazer companhia no escritório. Mesmo que ela passasse o tempo inteiro dormindo, era bom não estar sozinho.
Ele ouviu a porta abrindo e levantou o olhar para ver Mitsue parada indecisa no batente.
— Kazekage-sama? Sinto muito por abrir sem bater, não sabia que estava de volta.
— Não tem problema, Mitsue — Gaara respondeu por detrás das pilhas de papel em sua mesa.
Ele olhou para a garota e percebeu que ela parecia com pena dele. Pena? Quem sentiria pena dele? Olhando para a quantidade de coisas que tinha que ler sentiu pena de si mesmo.
— Bem, espero que você goste de ler, e tenha uma paixão secreta por burocracias — ela deu um sorrisinho e se virou para sair.
Lembrando-se do que Temari disse, Gaara resolveu arriscar. Agora ele só precisava saber o que falar. Contra todas as probabilidades, a resposta surgiu facilmente em sua cabeça.
— Na verdade, eu estava pensando em queimar tudo e fingir que nunca recebi nada — respondeu com a voz inflexível. Ele quase fechou os olhos em seguida, com medo de ter estragado tudo.
Um grande sorriso se espalhou pelo rosto de Mitsue.
— Vou pegar o álcool, Gaara-sama — ela piscou um olho e saiu.
