Já era noite quando Hachiko resolveu parar de observar o mar. Já estava mais calma, e qualquer pensamento sobre suas preocupações estavam tão longe que nem a incomodavam mais. Só esperava que as coisas continuassem assim, embora isso fosse bastante improvável:
-Maninhaaaa! – Acatsume aproximou-se com uma expressão exagerada de desespero.
-O que foi? – perguntou um tanto preocupada.
-Esqueci de trazer a comida!
Ao escutar a barriga do irmão roncar, começou a perceber o quanto estava com fome também. O rapaz esperou uma bronca ou algo assim, mas a garota apenas suspirou e falou com calma:
-Veja se consegue pescar... – disse enquanto procurava pelo navio uma vara de pescar ou algo que servisse para esse propósito.
-Tá bem! – e começou a procurar também, com um sorriso no rosto, sabia que uma aventura iria ajuda-la a se soltar, embora fosse um tanto assustador vê-la desse jeito numa situação tão crítica.
No final das contas, não havia nada naquele navio que os ajudasse com a pesca, e Acatsume começou a notar que a irmã já não estava mais com a calma anterior:
-Vou ser acerto alguma coisa no céu! – o garoto falou alegre, enquanto corria para a cozinha e pegava um monte de facas antigas e mirava o céu escuro à espera de alguma ave.
-Vou ver se pego alguma coisa! – disse enquanto tirava o casaco e se preparava para pular na água.
Uma hora depois...
-Peguei! – Acatsume balançava uma ave morta para que Hachiko, que estava pulando a grade do navio, visse.
-Também peguei! – mostrou a espada cheia de peixes enfileirados com um sorriso radiante – Mas... E agora?
-A gente faz fogo e coloca para assar!
-Com penas?
O rapaz olhou a ave atentamente e começou a arrancar as penas uma por uma, o que fez com a jovem arqueasse uma sobrancelha:
-E você? Sabe limpar peixe? – o garoto retorquiu
-Não... – disse desviando o olhar - Vamos morrer de fome!
- Ayami-San – ouvir a minha avó chamar – Não se afaste muito de mim tudo bem?
Lembro-me de ter ficado emburrada. Eu queria andar livremente pelo mercado, queria escolher os melhores tipos de carne, vegetais e verduras, queria retribuir os sorrisos que as pessoas jogavam pra mim, queria sentir-me livre! Mas a cidade estava ficando "muito perigosa para pobres crianças indefesas" como a minha avó me dizia.
- Mas vó, eu estou treinando o dia todo! E os meus chutes estão ficando cada vez melhores! – Disse ainda não entendendo, ou não querendo entender o que a minha avó sempre dizia.
- Você não está treinando muito! – Um garoto me falou, eu sabia quem era, mas seu nome ficou esquecido no fundo de minha cabeça – Não consegue nem me acertar!
- Estou sim! E eu posso te acertar agora se você quiser! – Falei num tom desafiador
- Não briguem crianças! – Minha avó disse nos separando enquanto eu tentava dar um chute na cara do menino.
- Eu não vou ficar aqui "lutando" com fracotes como você! Eu vou procurar alguém no nível de minhas habilidades – Então o menino virou de costa e foi embora.
- Ayami-San! Acorde – Ouvi minha avó chamar – Hoje nós temos mercado! E quanto mais tarde chegarmos menos coisa boa pegaremos! Você sabe que a nossa concorrência é alta!
Continuei deitada na cama pensando no sonho que acabara de ter, vinha tendo esses pesadelos desde aquele dia. Eu já tinha tentado tudo para eles pararem, mas no máximo eles davam uma pausa de uma semana para logo depois aparecerem por duas semanas. Minha avó já tinha me levado ao médico, ele disse que era trauma e que eu devia superá-lo, então eu conclui que eu ia ter esses sonhos a vida inteira.
- Mais um pesadelo? – Minha avó perguntou entrando no quarto
- Sim. – Respondi me levantando – Mas não foi nada de mais, então não se preocupe.
Tentei sorrir pra minha avó, mas ela já sabia que a maioria dos meus sorrisos eram falsos, por isso ela se limitou a balançar a cabeça de forma negativa e deixar eu me arrumar
Desci as escadas e vi minha avó cozinhando. Lembrei-me que quando era menor eu amava vê-la cozinhar e ainda tentava imitar, isso sempre ocasionava explosões e outras coisas.
- Já esta pronta, minha querida? – Vovó me perguntou
- Sim – levantei da cadeira e fui em direção à porta, minha avó me acompanhou e fomos em direção ao mercado.
Como sempre o mercado estava cheio de gente e com diversos produtos muito bons, compramos um jornal e fomos escolher os melhores tipos de comida. Quando estava na metade das compras, senti alguém esbarrar em mim.
- Desculpa – disse um menino sorridente e com um casaco da marinha – Meu nome Tsuminaki Acatsume e essa é minha irmã Tsuminaki Hachiko. Seu nome é...?
- Ayami – disse sem emoção – Ayami Keiko.
- Foi um prazer te conhecer, Ayami – Acatsume disse – Você poderia responder uma pergunta?
- Claro – disse revirando os olhos
- Estou procurando um cozinheiro para minha tripulação – ele disse rindo – Você sabe onde eu encontro um?
- Não sabia que marinheiros procuravam cozinheiros por cidadezinhas qualquer.
- Mas eu não sou um marinheiro! Sou um pirata!
Arregalei os olhos por um momento antes de continuar a falar com o menino.
- Não sabia que piratas usavam casacos da marinha... – eu disse rindo ironicamente – Pode procurar em qualquer lugar. Essa é uma ilha onde a maioria das pessoas é cozinheiro.
- Gostei de você – disse o menino – Você é uma cozinheira?
Pensei por alguns segundos o que eu responderia.
- Se eu fosse uma cozinheira eu não entraria para a sua tripulação – disse enquanto tentava alcançar a minha avó
- Onde estava Ayami? – Ela me perguntou assim que eu a alcancei
- Falando com algumas pessoas...
- Esta conseguindo amigos, minha querida?
- Definitivamente não!
Minha avó riu enquanto eu revirava os olhos.
- Enquanto você socializava, eu fiquei sabendo que um navio Pirata aportou hoje de manhã aqui na ilha – ela me olhou seriamente – Você já os viu?
- Não. – menti.
- Ótimo! – ela me olhou aliviada – Mas tome cuidado com eles! Nós não sabemos quem eles são!
- Tudo bem. – sorri – Tomarei bastante cuidado.
Chegamos a casa e fomos para a cozinha preparar o menu, pois logo o restaurante abriria.
- Bom dia Tsuki-chan e Ayami-Chan – Katsumoto, nosso ajudante, falou.
- Bom dia Katsumoto-Kun – eu respondi educadamente.
Eu gostava muito de Katsumoto. Desde que os meus pais morreram ele me tratava como uma filha, então era muito apegada a ele.
- Vocês sabem que piratas aportaram hoje aqui, não é? – Katsumoto falou.
- Sim – eu e minha avó respondemos em uníssono.
- Eu esbarrei com um deles. – Katsumoto disse – Eles estavam procurando por um cozinheiro e eu os mandei vir aqui.
Falhei no corte por um segundo e acabei por cortar meu dedo.
- Ayami-San! Você esta bem? – Katsumoto se levantou e foi ate mim.
- Estou! – disse enquanto procurava alguma bandagem – Por que você os mandou vir aqui?
- Por que eles parecem ser piratas legais e seria bom você sair dessa cidade!
- Eu não acredito que você os chamou para me oferecer para ser cozinheira do navio pirata deles!
- Fiz algo de errado?
- Claro que fez! Eu não quero ser pirata!
- Eu acho que o Katsumoto fez bem, Ayami – minha avó se intrometeu na discussão – Você tem sonhos e você não pode realizá-los se continuar aqui!
- Então você concorda com ele? – perguntei a minha avó – Cadê o papo de "Tome cuidado"?
- Concordo! – ela respondeu – Se o Katsumoto os mandou vir aqui é por que eles são piratas bons!
- E vocês não ligam para o que eu penso?
- Nos só queremos o melhor pra você, Minha querida – Katsumoto respondeu.
Eu sabia que não adiantava discutir com eles, então fui para o meu quarto esperar até o momento do restaurante abrir.
- Ayami-San! O Restaurante já vai abrir e eu preciso de você na cozinha! – minha avó chamou
- Já estou indo! – falei, levantando.
Quando desci as escadas, o restaurante já estava aberto, mas não tinha nenhum sinal dos piratas. Suspirei aliviada e fui ate a cozinha ajudar a minha avó. Depois de algum tempo, Katsumoto entrou na cozinha.
- Ayami-Chan! Tsuki-Chan! Temos um pedido especial! – Katsumoto falou.
- O que o cliente pediu? – Eu perguntei.
- Paella Valenciana – Katsumoto respondeu.
- Que bom que nós compramos frutos do Mar! – vovó falou – Você pode fazer, Ayami-san?
- Vai dar um pouco de trabalho e vai demorar um pouco, mas faço – respondi e fui pegar os peixes no aquário.
Algum tempo depois, eu finalmente consegui acabar de fazer o prato e fui procurar Katsumoto para levar o prato ao Cliente, mas não consegui achá-lo por algum motivo.
- Que droga! – disse em voz alta – Onde o Katsumoto se meteu?
- Você não ouviu quando ele disse que ia sair? – minha avó perguntou.
- Não! – disse assustada – E desde quando ele pode sair a esse horário?
- Desde que ele quiser, minha querida – minha avó sorriu – O jeito é você ir entregar o pedido.
Como não tinha outro jeito, fui entregar o pedido, mas parei ao ver quem estava na mesa que eu deveria entregar o pedido.
- Eu não acredito que você fez isso, Katsumoto! – Sussurrei enquanto chegava à mesa
Sorri enquanto via a garota, Hachiko, como o garoto havia falado, sussurrando para o garoto alguma coisa.
- Aqui esta o seu pedido de vocês. – sorri e entreguei a comida.
- Olha! Você não é a garota de antes? – o garoto, Acatsume como havia se identificado, perguntou – O que faz aqui?
- Sou cozinheira desse restaurante... – respondi sorrindo.
- Mas você não disse que não era cozinheira? – Hachiko perguntou, já que Acatsume estava ocupado demais comendo.
- Eu não disse que eu não era. – respondi.
- Mas também não disse que era! – Hachiko disse.
- Uma pequena omissão dos fatos. – sorri mais ainda.
- Você cozinha bem! – Acatsume disse – Venha comigo na viagem!
- Muito obrigado, mas...
- Ela vai adorar ir com vocês! – minha avó interrompeu.
Olhei para ela com um olhar de descrença.
- O que a senhora está dizendo? O meu lugar é aqui! Com vocês! – Disse um pouco desesperada.
- Mas não dá para realizar seus sonhos ficando aqui, minha querida! – minha avó sorriu pra mim – Você sabe que a sua mãe ficaria orgulhosa de você quando fosse para o mar atrás de seus sonhos. Ela sempre quis que você fosse feliz, e a sua felicidade não é mais aqui e sim no mar!
- Vocês vão perder uma ótima cozinheira – disse abaixando a cabeça pra esconder as lágrimas, ela sabia que a minha mãe era o meu ponto fraco – Eu vou arrumar as minhas coisas.
- Não precisa Ayami-chan – vovó sorriu – Katsumoto já arrumou tudo! Só falta levá-la até o navio. Então não se preocupe, vamos aproveitar os seus últimos momentos aqui!
Nós sentamos a mesa de Hachiko e Acatsume e começamos a conversar enquanto eles comiam.
- Eba! Uma nova companheira! – Acatsume disse – Vamos comemorar Hachiko!
- Pelo menos agora não morreremos de fome nessa viagem! – Hachiko falou.
- Então, só tem vocês dois nesse bando? – perguntei confusa.
- Sim, não que eu realmente quisesse ser do bando! – Hachiko disse.
- E por que você é? – Perguntei mais confusa ainda.
- Longa historia. – ela suspirou – Te explico no navio, querida.
- Tudo bem. – sorri.
Passamos a tarde toda conversando e quando a noite ia caindo, eles decidiram partir. Katsumoto levou as minhas coisas, enquanto minha avó levava todas as coisas que julgava ser necessário para nós comermos bem até chegar à próxima ilha.
- Esse é o nosso barco. – Acatsume disse sorrindo.
- Ele é seguro para navegar? – Perguntei e ouvi uma corda batendo na madeira fazendo um barulho parecido com um chicote.
- Ele é bastante seguro! – Acatsume sorriu mais ainda.
- Só espero que ele goste de você! – Hachiko disse.
- Por quê? - Perguntei amedrontada.
- Por que se ele não gostar ele vai te jogar para fora. – Hachiko disse subindo no barco.
Olhei para o navio e pedi a Deus para que ele gostasse de mim, não estava a fim de ser jogada em alto mar em plena noite. Despedi-me rapidamente de vovó e Katsumoto e subi no navio. Por sorte nenhuma corda fez menção de me agarrar e me jogar pra fora.
- Tchau Vovó, Tchau Katsumoto! Obrigado por terem cuidado de mim! – gritei enquanto o barco se afastava.
- Ah, Ayami! Esqueci de lhe dar! – Vovó jogou um pergaminho enrolado e com um laço o prendendo – Dê isso a ele caso vocês se encontrem!
Analisei o pergaminho por algum tempo e me lembrei de quem era "Ele". Guardei o pergaminho em minha bolsa, dei um ultimo tchauzinho para as pessoas que me criaram e fui para cozinha pensar em como tinha parado em um navio pirata e em que tipo de aventuras eu ia me meter.
To Be Continued ;D
Autora: Sandy Pimental
Co-autora: Bruna Galrão
Revisora: Rukia
