Capítulo 4 – Um dia o sol não vai brilhar para você
Mia procurou Severus com os olhos no café da manhã. Eles tentavam trocar sinais daquele jeito. Mas, naquela manhã, ele não olhou para ela.
Mais tarde, antes do almoço, ela esperou por Severus num dos esconderijos preferidos dos dois. Ele não apareceu. Ela foi ao almoço, frustrada, e, mais uma vez, ele não olhou para ela.
Mia pediu ajuda de Lily, que não esperou nem o almoço terminar. Ela e Mia ficaram na porta do salão, e quando o grupo de sonserinos passou, foi Lily quem chamou:
– Oi! Severus, oi! Você está indo para aula?
Ele não parou para responder:
– Que mais estaria fazendo, Evans?
Mia perguntou:
– Sev, vamos à biblioteca antes do jantar?
Ele finalmente parou, e Mia pôde ver que todo o corpo dele ficou tenso. Então ele se virou para Lily e disse, a voz pingando ódio:
– Evans, sua amiga tem muita coragem de tentar falar comigo depois do que ela fez. Por favor, diga a ela que nunca mais chegarei perto dela de novo. Ah, eu também agradeceria se ela evitasse me dirigir a palavra. Assim não terei que agir como um mal-educado. Com licença.
E foi embora, a passos duros.
Mia não entendeu coisa alguma. O que acontecera? O que ela tinha feito?
Severus passou a evitá-la o tempo todo. Ele saía de seu caminho, mudando de corredores, trocando trajetos por onde passava. Mia estava esperando em todos, mas ele não aparecia. Isso durou uns dois dias, e a jovem estava confusa, cada vez mais atordoada. Como as coisas tinham mudado de um dia para o outro?
Por isso, ela resolveu esperá-lo depois do jantar na porta do Salão Comunal de Sonserina, nas masmorras de Hogwarts. Ele teria que aparecer uma hora para dormir, não era verdade?
Mia ficou ali durante horas. Não se importou com os olhares maliciosos, nem com os comentários irônicos dos alunos que entravam na sua casa. Só o que ela queria era uma explicação.
Quando Severus apareceu, ele estava com os amigos de sempre, incluindo o irmão mais novo de Sirius, Regulus, que estudava no sexto ano. Mia foi em direção ao grupo. Ao vê-la, os garotos tentaram se afastar, mas Severus pediu:
– Não, podem ficar. Isso não vai demorar.
Mia tentou chegar perto, mas ele a interrompeu:
– Pode parar aí mesmo, Byington. Não se aproxime mais.
– Severus, eu preciso...
– O que você quer? Depois do que você me disse, depois do que você fez comigo, o que mais você quer? Quer me matar, é isso?
– Mas eu não sei do que está falando!
– Bom, então saiba disso: agora sou eu que ordeno que você não chegue mais perto de mim. Fique longe! Aprendi a não confiar mais, a não acreditar. Você é igual a seus amigos; merece mesmo a companhia deles. Agora me deixe passar.
Severus entrou, seguido de seus amigos. Mia ficou parada, em choque.
Ela ainda saboreava sua bebida quente no café de Madame Pudifoot, enquanto se lembrava daqueles dias de confusão e dor. Na verdade, ela admitia que tudo parecia um borrão na sua mente. Mais tarde, ela soube que efetivamente ficou em choque. Mal comia, mal bebia, não entendia o que tinha acontecido. Só o que ela sabia que Severus a rejeitara de maneira veemente.
Sirius tentou se aproximar, tentou fazê-la ver que Severus não era confiável nem gostava mesmo dela. Mia hoje sabia que ele tinha tentando conquistá-la. Ela não queria piedade de ninguém, mesmo de seus amigos. Talvez ela precisasse de uma distração. Então, ela simplesmente enfiou-se nos estudos, enquanto tentava carregar a dor de um amor não-correspondido.
O ano terminou em Hogwarts, ela deixou a escola e passou a tratar de sua vida, tentando esquecer a dor. Tia Blossom morrera pouco antes da graduação, e essa tinha sido outra perda difícil. As notas dos N.I.E.M.s permitiram a Mia uma colocação em St. Mungo's. Lá ela trabalhou durante dois anos até que se abriu uma oportunidade ímpar: uma especialização em Psicocura Mágica no Asklepion, o local de cura onde Hipócrates em pessoa começara seus estudos, na Antiguidade. O local fica, desde aqueles tempos, na estrada para Pérgamo, na Turquia, antiga Magna Grécia.
Estar num local com tanta tradição bruxa era excitante para Mia, mas ela carregava a dor em seu coração. Ela não tinha se entregado à depressão nem deixava de se divertir, mas parecia que faltava um pedaço de seu peito, como uma ferida aberta que parecia jamais ter cura. Os anos estavam passando, mas Mia não se esquecia de Severus.
Para complementar seus estudos, Mia também se voltou para a parte Muggle: entrou na Universidade Hipócrita, em Atenas, e aproveitou para estagiar no próprio Hospital Universitário. Lá conheceu Dimitrios Papadimitriadis Stoklos, um pediatra bruxo que também vivia entre Muggles, como ela.
Dimitri (como gostava de ser chamado) conseguiu fazê-la se sentir acolhida na Grécia. Ele queria ainda mais, e Mia explicou que carregava uma grande mágoa. O rapaz dizia que não importava, que ele queria acolhê-la em seu país. Depois de relativamente pouco tempo, ela começou a se sentir mais do que acolhida, e, mesmo que não estivesse apaixonada, eles eram bons amigos e se davam muito bem.
Mia nunca escondeu de Dimitri que não o amava, mas também nunca deixou de ser carinhosa com ele. Ele aceitou isso de bom grado. Não demorou quase nada para que os dois se casassem, e Mia se viu dentro de um casamento grego, com direito a sogros e tudo isso. Gregos eram estranhos e adoráveis, pensou ela, assoberbada diante da riqueza daquele povo.
Logo o casal se estabeleceu ali mesmo, na famosa cidade das sete colinas. Primeiro eles moraram perto do Porto de Piraeus, mas logo Dimitri reclamou do trânsito de Atenas, e então eles se mudaram para uma casa em Plaka, perto da Acrópole, do Antigo Mercado (Ágora) e Monastirakium lugar muito romântico na Velha Cidade. Foi quando Mia engravidou. Ela conseguiu tirar dois títulos antes de seu bebê nascer, o pequeno Heitor – um respeitável nome grego que agradou Dimitri.
Durante dois anos ela se dedicou a Heitor, mas logo quis voltar à ativa. Ela aparatava até o Asklepion bruxo na Turquia, e deixava Heitor numa creche no pé da Acrópole. O menino crescia feliz e saudável, com seu cabelo bem pretinho e olhos muito grandes, pretos e profundos. Bem cedo ele revelou suas aptidões bruxas. Várias vezes Mia se pegou imaginando como Heitor seria, se fosse filho de Severus.
A ferida não cicatrizava. "Cura-te a ti mesmo, doutor", pensava ela, amarga.
Foi um pouco depois do aniversário de oito anos de Heitor que a tragédia se abateu sobre a família Stoklos. Dimitri morreu num acidente em plena Praça Syntgma, atropelado em frente ao Parlamento grego, berço da democracia. Enterrar seu marido foi terrível para Mia. O pequeno Heitor viu a mãe se entristecer, e os avós ficaram mais presentes em sua vida, mas a vida continuou. De novo, Mia ficou diante de uma perda absolutamente sem sentido, tendo que continuar em frente.
Com Heitor um pouco mais independente, ela resolveu abrir uma clínica própria. Atendia bruxos e Muggles procurando tratamento psiquiátrico e psicológico – ela também tinha se formado nas duas áreas. Tratar bruxos era um desafio, pois a psicocura era uma área que tinha mais preconceito entre os bruxos do que Medicina Muggle.
Aos 11 anos, Heitor começou a freqüentar uma escola bruxa. Ele ficou muito chateado por separar-se de seus amiguinhos, mas foi incentivado pelas palavras de Mia sobre o mundo novo da magia. Felizmente, para Mia, as escolas bruxas da Grécia não eram internatos como Hogwarts, e sim semi-internato. Pelo menos, pensou ela, Heitor não estava fora de casa, e ela não estava tão sozinha.
Os anos de Heitor na escola voaram, e de repente ele se formou, decidido a seguir a carreira de desfazedor de maldições. Na verdade, ele até tinha um emprego em vista, na vizinha Macedônia. Havia até uma namorada na parada. Mia estava orgulhosa do filho, mas sabia o que viria agora. Heitor iria começar sua própria vida, e ela não podia podar-lhe o vôo nem cortar suas asas. O passarinho ia deixar o ninho.
Sem seu filho, Mia começou a se sentir inquieta. Fazia muito tempo que não ia à Inglaterra, e começou a se pegar sentindo saudades, pensando em velhos amigos. Havia a ferida, claro, mas a saudade foi maior.
Tirou umas férias, voltou às velhas ilhas e reviu algumas pessoas. Voltou à Grécia apenas para tratar dos aspectos práticos da mudança: a venda da casinha de Plaka, palavras com os sogros, visita ao túmulo de Dimitri, coisas assim.
Em menos de dois meses, ela estava de volta à Inglaterra bruxa. E outros dois meses depois disso, ela estava de volta a Hogwarts.
Mia tomou o último gole de sua bebida e agradeceu a Madame Puddiffot, o coração disparado.
Agora ela iria a Hogwarts, e provavelmente teria que encarar Severus.
