Olá. Espero que todos estejam bem.

Sinto que minha fic está descendo em doses homeopáticas. Espero que não esteja desagradando demais essa forma de postagem. Ainda preciso me acostumar. Tenho uma grande ânsia de escrever capítulos enormes de novo, mas talvez seja melhor assim.

Bem. Aqui vêm menos esclarecimentos do que seria necessário, espero que não venham a me odiar por enquanto. Continuo me arriscando, porém lembrando a todos que se trata totalmente de uma ficção, sem grandes pretensões de se encaixar na obra do professor.

Para esse capítulo não tenho muito a acrescentar. A não ser o fato de que a cena que Elrond descreve a Legolas quando conversam sobre a escuridão e o frio é uma outra alusão à VIDAS E ESPÍRITOS, uma cena na qual Elrond liberta Legolas que fora preso em uma masmorra. Quem precisar de algum esclarecimento maior, por favor me escreva.

Termino então com os incansáveis, porém repetitivos agradecimentos àqueles que me motivam demais a continuar. Espero que todos gostem do novo capítulo. Gostaria muito de continuar recebendo a opinião de vocês, nem que fosse apenas uma linha. Se a atualização está muito rápida é só dizer.

Obrigada à:

NANDA – GIBY – KIANNAH – NIMRODEL – PITYBE – TELPË – AKAI – LELE – TENIRA – MYRIARA – CAUINHA – LENE – JURUBY – LYTA – LARWEN – GREYHAWKSLASH – GIOZINHA – KARINA – LEKA – BOT – TRIX – IDRIL ANARION – THAISSI – PRI -


"A inconsciência é uma pátria; a consciência, um exílio."

Emile Cioran (filósofo romeno-francês)


CAPÍTULO 4 – MISTÉRIOS

Elrond hesitou por um momento, depois apoiou a mão no ombro do arqueiro e, ao ver que não era reprimido, passou a massagear-lhe novamente as costas em movimentos circulares. Legolas aceitou o afago que Elrond lhe oferecia, mas ergueu-se repentinamente ao sentir o curador puxá-lo para mais perto de si.

"Legolas." Elrond ergueu-se também, mas franziu o cenho ao ver o rapaz afastar-se de costas, ambas as mãos erguidas em sua defesa.

"Não me toque mais, por favor, mestre!" Ele disse. O rosto ainda brilhava pelo pranto derramado. Em seguida voltou a cobrir a cabeça. "Não me toque mais..." Ele repetiu com a voz embargada.

Elrond soltou os braços e um suspiro contido pelos lábios trancados. Depois ficou alguns instantes pensando no que fazer naquela situação, que parecia fugir-lhe do controle sempre que a julgava enfim em suas mãos.

"Diga-me por que tanto se cobre com esse capuz, menino."

"Sinto frio." Legolas respondeu, abraçando o corpo, como se tentasse provar assim suas palavras.

"Sente dor."

Aquilo não foi uma indagação.

"Sinto frio." O rapaz repetiu, estremecendo.

"Desde quando criança?" Elrond tentou dar alguns passos, mas parou ao ver que Legolas parecia perceber seus movimentos e os retribuía com outros exatamente contrários.

"Não sei... Está... Está frio..."

"É primavera menino. Sua estação favorita. Não faz frio nem calor aqui em Valfenda. Nunca fez, você sabe disso."

O peito do rapaz voltou a arfar e Elrond balançou levemente a cabeça em algo que mais se aproximava de indignação agora.

"Não posso deixar de me sentir ofendido por sua atitude, menino. Depois de todos os anos que ocupou mais do que um lugar de hóspede nessa casa, sua atitude me soa como se estivéssemos acabando de nos conhecer. Diga-me de uma vez por todas o que se passa, criança minha."

Legolas ergueu a cabeça, girando-a como vinha fazendo todas as vezes que queria captar algum som importante. Elrond apertou os lábios. Aquela era uma atitude com a qual ele agora precisava se acostumar, pois traduzia que o príncipe estava tentando prestar atenção no que ouvia.

"Não tenho a intenção de ofendê-lo, mestre." O rapaz finalmente se defendeu.

"E nem eu a de atacá-lo ou fazer-lhe qualquer mal. Por que não dá a mim um pouco da compreensão que espera que eu tenha para com você, menino? Não mereço sua consideração mais?"

Legolas soltou os braços e sacudiu nervoso a cabeça. Parecia estar diante de um grande conflito e agia tal qual ouvisse centenas de vozes acusadoras e mortais. Talvez as ouvisse de fato. O que se passava com aquele menino?

"Não devia ter vindo." Ele se lamentou amargamente. "Se a situação da Floresta não fosse tão... Se eu... Eu não teria vindo aqui... Não viria nunca mais..."

Elrond deixou dolorosamente o peito encher-se dos sentimentos despertados naquela confissão e Legolas leu mais do que desapontamento naquele silêncio que acompanhou sua infeliz sentença. O rapaz desprendeu os lábios em um ensaio de defesa ou correção que não foi além disso, por fim cerrou-os fortemente, transmutando-se em um triste retrato da desistência.

"Elbereth." Foi a única palavra que lhe escapou, antes dele soltar novamente os braços e passar a dar passos desnorteados pelo quarto. Enfim, entontecido pelo sentimento que parecia inundá-lo, acabou colidindo acidentalmente com uma pequena mesa e derrubando a jarra e tigela de água que estavam sobre ela. A louça se espatifou no chão de madeira dura, mas Legolas sequer sobressaltou-se, ele apenas fechou os olhos e apertou-os com força, como se soubesse o que fizeram antes mesmo do fato se consumar. Depois se abaixou e pôs-se a recolher os cacos.

"Idiota inútil." Ele resmungou para si mesmo e Elrond, que já se agachara a seu lado para ajudá-lo, sentiu-se novamente intrigado. Ele voltou a observar o rapaz, agora ajoelhado diante dele, unindo sem qualquer problema cada pedaço espalhado da colorida louça. Elrond intrigou-se mais diante da habilidade que via. Se o rosto do arqueiro não contivesse um olhar totalmente perdido que sequer se aproximava do que suas mãos executavam, ele chegaria a questionar a veracidade da história contada até então.

"Nunca o vi tratando-se por tais termos, criança." Ele disse, segurando agora uma das mãos do jovem elfo e tomando-lhe os estilhaços que apanhara. "Dê-me, vai acabar cortando-se com essa peça infeliz."

O arqueiro puxou o braço novamente, recusando-se a dar ao mestre o conteúdo que trazia na outra mão. Ele levantou-se então e sozinho apoiou os cacos por sobre a mesa.

"Posso fazê-lo." Afirmou com veemência.

"Pode. Mas não quero que faça." Elrond respondeu duramente. "Não precisa tomar todas as atitudes que estão a seu alcance apenas para provar-se capaz, menino!"

"O senhor é quem assim o julga." Legolas ergueu o queixo e apertou o maxilar e Elrond voltou a sacudir a cabeça.

"Acho que seja lá o que tenha lhe acontecido, roubou-lhe mais do que o dom da visão de seus arredores. Roubou-lhe qualquer visão." O curador constatou e voltou a preocupar-se quando a reação de Legolas foi apertar os punhos com força.

"Isso é fato senhor, já devia ter visto o quão vazio estou. Por que insiste em ficar aqui? Quanta insensatez ainda quer ouvir de mim até que saia?" O arqueiro afastou-se dele então, palmas ligeiramente erguidas, tentando sentir o que estava a sua volta para que não colidisse com mais nada.

Dúvidas.

Um reino inteiro delas.

Era o que Elrond estava sentindo converter-se tudo no que até então se apoiara.

"Quer que eu saia, menino?"

Silêncio.

"Se é o que deseja o farei nesse instante. Mas quero ouvi-lo de você."

Legolas voltou a baixar a cabeça e suas palmas cobriram novamente o rosto escondido sobre o capuz, esfregando-o com tanta força que a impressão transmitida era de que seu desejo fosse desfazer os traços do próprio rosto.

"Não... não há nada que possa fazer aqui, meu mestre." Ele respondeu em tom abatido, a voz quase desaparecida por trás das firmes palmas.

Elrond suspirou, em seguida deu alguns passos que, apesar de silenciosos, foram ouvidos pelo rapaz, que voltou a se afastar.

"Não o tocarei mais, acalme-se." Assegurou o mestre, continuando seu trajeto na direção do arqueiro, que deixou de esquivar-se, parecendo tranqüilizado pela garantia do curador.

"Perdoe-me, mestre..." Legolas pediu, baixando mais o rosto. "Por favor... Vá agora antes... antes que eu o decepcione mais..."

"Não posso..." Elrond respondeu em um tom diverso.

"Mestre..."

"Estou aqui porque me sinto como quando desci a longa e escura escada. Mas temo repetir alguns erros..." Elrond completou antes que as insistências do arqueiro se convertessem em mais palavras vazias, e então esperou. Em momentos a reação se fez e um intrigado Legolas voltava-se com aquele girar de rosto o qual o curador estranhamente passara a apreciar. Tinha sua atenção novamente.

"O que disse, mestre?"

"Era um lugar frio." Continuou o curador, ignorando a questão. "Uma pesada porta de madeira negra foi fechada atrás de mim agora e eu desci gelados degraus de pedra úmida."

Legolas franziu as sobrancelhas, os lábios soltos indicavam sua tentativa de concentrar-se no que ouvia.

"Alguém a quem eu quero bem estava lá embaixo."

"Onde? Quem? Do que está falando, mestre?"

"Do lugar escuro. Alguém a quem eu amo estava preso em uma das masmorras. Está ainda... preso mas... não quer sair."

Legolas abriu muito os olhos, embora isso naquele instante se resumisse apenas a uma reação instintiva. Elrond deu então mais um passo, dois e conseguiu enfim estar perto o bastante do jovem elfo, que já se envolvia novamente com os braços.

"Está preso em uma das celas, sozinho... Está muito escuro e frio." A voz do mestre fez soar como se tudo fosse um sonho. Legolas estremeceu, totalmente envolvido por aquela recordação. Ele então sacudiu a cabeça e sem que houvesse tempo para que o curador fizesse qualquer coisa, dobrou os joelhos e foi ao chão. Elrond acompanhou-o, mas reservou as mãos ao perceber que o rapaz ainda envolvia o corpo com força e não parecia querer ser tocado.

"É como se sente... não é menino?" Elrond finalmente colocou devagar as palavras que queria, associando-as a realidade. "Sente-se sozinho, de volta àquele lugar... Não é?"

"Faz... faz frio mestre..." Legolas apertou os olhos algumas vezes, mas Elrond não viu sua reação, encoberta pelo largo capuz, em seguida voltou a abri-los, como se tentasse despertar de um pesadelo, um pesadelo ao qual parecia estar irremediavelmente preso. "Está... tão... está tão... tão escuro aqui... Estou... tão... estou tão sozinho, mestre..."

"Legolas..." Elrond ergueu novamente a mão, mas o arqueiro voltou a encolher-se.

"Por que, mestre? Por que fui castigado mais uma vez? Por quais outras culpas ainda tenho que pagar?"

"Que culpas, menino?" O curador espantou-se e dessa vez pouco se importou com os gestos de rejeição do jovem elfo, ele segurou-lhe fortemente uma das mãos e apoiou a outra no rosto frio que estava ainda por sob o capuz. "Você não carrega culpa alguma. Responsabilidade alguma pelo que te aconteceu."

"Então... então por que... por que tenho que passar por mais essa prova? Tenho que trazer mais sofrimento aos que estão a minha volta, mais do que sempre sofrem por minha causa?"

"Menino..."

"Até... Até quando, mestre? Quanto até todos me odiarem do fundo de seus corações?"

Incrédulo, Elrond balançou a cabeça. Então ali estava mais uma de suas respostas e quão difícil fora conseguí-la.

"Mesmo que você passe todos os dias de sua imortalidade envolvido com os problemas que te afligem, jamais conseguirá semear ódio no coração de alguém, Legolas."

O príncipe baixou os olhos e seu rosto nunca esteve tão triste.

"Isso é o que seu coração bondoso pensa, meu mestre, cuja consideração nunca mereci. Em minha terra, muitos já têm por mim tal sentimento."

"O que quer dizer?"

Legolas voltou a tremer, seu nervosismo brotava-lhe à pele, por mais que tentasse contê-lo. Elrond segurou-lhe ambas as mãos, ao perceber que ele pretendia levantar-se.

"Calma, criança. Calma..." Ele pediu com brandura, massageando as costas das mãos do rapaz com os polegares. "Eu não vou lhe fazer mal. Eu prometo, ion-nin. Por favor, confie em mim."

O príncipe baixou os olhos, mas não conseguia mais conter sua aflição, sentia-se perdido novamente como quando acordara naquela manhã, sentindo o frio envolvê-lo de todas as formas possíveis. Era como se houvesse se enganado em um antigo e conhecido trajeto e agora estivesse completamente sem idéia de qual rumo seguir. Elrond ergueu lentamente uma das mãos e a apoiou no ombro direito do rapaz, que estremeceu ainda mais.

"Vai ficar tudo bem, confie em mim."

"Sinto... dor, senhor." Ele admitiu enfim. "Por favor, não me toque..."

Elrond franziu a testa com o pedido. Legolas não era o tipo de pessoa que temia qualquer dor a ponto de fazer um apelo desses. Ele afastou devagar a mão que apoiara e intrigou-se ao ver o menino apanhá-la e voltar a segurá-la como estava fazendo há pouco.

"Que dor e essa?"

"Minha... Minha cabeça..." Informou o jovem elfo. "Minha cabeça dói muito quando chega o anoitecer, mestre. Eu não quero ser rude... mas... se tocar em um fio sequer de meus cabelos já será... já será uma grande dor."

Elrond sentiu o queixo fraquejar, surpreso. Ele então apertou ligeiramente as mãos que segurava.

"Está ferido?" Indagou e Legolas balançou a cabeça.

"Não... Não há ferimento. Apenas dói... Certas vezes... Muito mais do que outras."

Elrond voltou a acariciar as mãos que segurava e Legolas soltou um suspiro de alívio, parecendo finalmente sentir-se seguro. A verdade trazia seus benefícios.

"Bateu a cabeça, rapaz? Bateu a cabeça em algum lugar quando..."

"Não, senhor. Nada sofri. Acordei e tudo era o que é hoje. Sem explicação alguma que fizesse sentido."

"Mas caiu do cavalo?"

Legolas voltou a sacudir negativamente a cabeça.

"Meu bom Faer foi quem me trouxe de volta. Assim me relataram quando despertei."

"Precisa me deixar examiná-lo melhor, menino. Não crê que possa ajudá-lo?"

"Se alguém nessa terra toda que é nosso mundo confuso pudesse de fato me ajudar... seria o senhor, meu mestre amado... mas..." Ele ia prosseguir, entretanto temia cair em uma das inúmeras arapucas da descrença em um momento no qual se sentia enfraquecido. "Sempre... sempre há a arma poderosa sobre a qual conversamos." Ele completou então, seguindo o caminho oposto, mas havia descrença em sua voz, mesmo que procurasse disfarçá-la.

Mesmo assim Elrond sorriu, aquilo era um começo.

"Peço apenas que o senhor reserve esse exame que pretende fazer para... para um outro momento... por que... por que agora..." Ele tentou explicar, voltando a apoiar a mão no rosto.

"Não farei nada que não me autorize, criança. Tem minha palavra."

"Então... por favor mestre... deixe que a noite se vá antes... antes de pousar em mim seus hábeis olhos e mãos de curador..."

O lorde elfo silenciou-se. Digerindo devagar tão intrincadas informações. Ele enfim encheu o peito.

"Está bem, ion-nin." Ele concordou e Legolas soltou os ombros aliviado. "Mas preciso saber se... se houve outros feridos no dia desse seu infortúnio... Diga-me, menino. Quantos além de você estavam lá?"

E o silêncio favoreceu ao príncipe então, que voltou a baixar a cabeça. Elrond soltou-lhe as mãos.

"Tire o capuz, criança minha. Deixe-me olhar para você." Ele pediu e sorriu com tristeza ao ver o rapaz atendê-lo mansamente. Mas Legolas não reergueu o rosto, apenas uniu os dedos das mãos que lhe escapavam das grandes mangas e manteve os olhos estranhamente voltados para eles, como se de fato os visse. O curador agora se ocupava em olhar, reflexo por reflexo, aquela bela cascata de dourados cabelos, ainda firme e impecavelmente presos em uma larga trança nas costas da cabeça e em duas pequenas por sobre as orelhas. As tranças dos guerreiros de Eryn Galen.

"Quantos além de você, ion-nin?"

"Apenas eu regressei." Legolas enfim ofereceu a mais amarga das respostas.

"E os demais?"

"Mandos os tem sob sua gentil guarda."

Elrond apoiou a mão no peito.

"Encontraram os corpos então?" Ele indagou e a resposta foi um quase imperceptível aceno de cabeça. "Como estavam? Que tipo de armas os abateu?"

Silêncio.

"Legolas?"

"Encontramos apenas... partes deles... corpos mutilados e irreconhecíveis." Disse o rapaz com pesar, em um tom de dor que chegava a ser contagioso.

"Elbereth." Elrond clamou quase para si mesmo, mas o arqueiro levou a mão ao peito, como se o tivesse ouvido bem.

"Não me lembro de seus rostos..." O príncipe divagou.

"O que julgam os sábios de sua terra, menino?" Inquiriu um inconformado Elrond agora, e intrigou-se mais ao ver o rapaz balançar a cabeça em um ar de conformismo disfarçado.

"Os antigos sindar ou os silvestres?" Veio a indagação do príncipe, seu tom em muito condizia com o ar expresso em seu rosto.

"Ambos."

"Têm opiniões diferentes... O que não é de todo uma surpresa"

"Conte-me."

"O povo da floresta... acha que as árvores se revoltaram... que atacam ou coordenam os animais para que o façam a todos indiscriminadamente. Já o povo de meu avô..." Ele parou alguns instantes, ponderando suas palavras. "Já os sindar, julgam que seja mais um dos truques do Lorde do Escuro."

Elrond deixou a mente vagar por alguns momentos, depois olhou novamente para o arqueiro, ainda sentado sobre as pernas, dedos fortemente laçados, o olhar perdido novamente em pensamentos divididos em margens muito opostas. Ele esticou a mão e segurou a do príncipe, que se sobressaltou, mas dessa vez não reagiu.

"E você, ion-nin? O que o Príncipe Mestiço da Floresta Escura pensa a respeito?"

Legolas estremeceu completamente então, depois enrubesceu com a conotação que Elrond adicionava habilmente àquelas palavras.

"Somos sempre meio algo do qual gostamos e meio outro algo que temos que tolerar..." Ele disse com tristeza e Elrond sentiu-se finalmente capaz de sorrir, nem que fosse um pequeno sorriso de compreensão.

"Ambos os lados são bons para nós... só é preciso conter os conflitos." Ele observou, depois apertou um pouco a mão que segurava. "Acredite-me, eu sei do que falo."

Legolas então sorriu timidamente, mas mesmo assim aquele sorriso tirou do mestre uma parte do grande peso que estava entre eles.

"Qual é a sua opinião, Legolas? O que você julga estar acontecendo?" Ele resgatou sua questão a contragosto, sabendo que esta roubaria rapidamente aquele breve momento.

E roubou.

"Eu não sei, mestre." O príncipe respondeu, bastante sério novamente.

"O que seu coração diz?"

"Não sei..."

"Não minta, menino. Sei das impressões que só você tem sobre aquele pedaço de chão."

Legolas soltou os lábios e suas órbitas voltaram a percorrer aqueles estranhos caminhos, seu rosto mudou novamente de tom e as mãos ganharam um calor incompreensível. Elrond franziu o cenho ao vê-lo fechar os olhos e sacudir levemente a cabeça.

"Nada me povoa a lembrança..." Admitiu o príncipe vagamente, como se conversasse agora consigo mesmo. "Nem sequer com quais das patrulhas estava... Porém..."

O silenciou surgiu dos lábios entreabertos.

"Porém o quê, menino?"

"Às vezes... o rio... o rio que vejo se torna... torna-se muito vermelho."

Elrond uniu as sobrancelhas.

"O rio que vê?"

"Como se todo o sangue estivesse lá... correndo em direção ao mar..."

"Todo o sangue?"

Legolas pressionou os lábios fechados.

"Todo o sangue roubado... Sempre acho que foi roubado... porque o vejo correr pelo rio... pelo rio vermelho."

Elrond sentiu o coração perder estranhamente um compasso.

"Ilúvatar, minha criança. A que sangue está se referindo."

Legolas suspirou. Sacudindo um pouco a cabeça.

"Mestre..."

"Diga, menino."

"Não... Não havia sangue... sangue algum nos... nos... meus... meus amigos... no que restou..."

Ele apertou novamente os olhos e cobriu o lado esquerdo do rosto com uma das mãos, pressionando-o, parecendo tentar apaziguar alguma dor.

"Então acho que corre para o mar... O sangue do meu povo..."

Elrond pendeu a cabeça. As sobrancelhas contraídas buscando compreensão. Não havia como negar a falta absurda de sentido nas palavras que o arqueiro agora proferia.

"Legolas? Diga-me o que está sentindo?" Indagou, colocando instintivamente a mão no rosto do rapaz, que voltou a desviar-se com rapidez. "Está febril..."

"Nada... nada, mestre... É noite... As noites são... Eu... Eu... só estou muito... muito cansado... Tenho... tenho sonhos estranhos desde que o mundo escureceu... E quando estou cansado... o senhor sabe que tudo se agrava e... Às vezes... digo coisas sem sentido. É... difícil separar o real daquilo que apenas nos assusta..."

Elrond ainda o olhou com desconfiança por um tempo, depois suspirou.

"É normal sentir medo, menino." Ele comentou, aceitando a explicação, embora a sentisse incompleta. "Muito parece ter acontecido... Muito precisa de explicação e... Ainda há também muito com o que você precisa se habituar. Acredito que as imagens de sua mente estejam lhe pregando algumas peças, não é?" Ele ofereceu uma hipótese na qual não acreditava de forma alguma, mas tentou sorrir ao ver o rapaz fazer o mesmo.

"Sim... Mestre Faernestal disse que tenho sonhos assim, porque nunca ouvi seus conselhos quando elfinho. Ele sempre me dizia para optar pelos livros de poesia ao invés dos de dragões... O que fazer..." Ele deu de ombros com um sorriso triste que não condizia com a brincadeira que fazia. "Sempre achei os dragões bem mais emocionantes do que palavras parecidas colocadas lado a lado..."

Elrond riu então, sacudindo a cabeça. Era muito triste ver o rapaz naquele estado, mas ouvi-lo tentar, por conta própria, elevar os ânimos, era bastante motivador.

"Aqui em casa apenas eu e Undómiel parecemos ver alguma graça nos versos de nossos antepassados." Ele também brincou. "Às vezes lemos juntos no jardim."

Legolas sorriu, apoiando a mão no peito ao se lembrar da Estrela Vespertina.

"Eu também leria quantos versos fosse possível ao lado de Undómiel. Na verdade acredito que nenhum verso seja necessário se o cenário for ela por sob o céu estrelado de Valfenda."

O sorriso de Elrond intensificou-se.

"Ela também o tem em grande estima, criança. Ficará muito triste em saber do desencontro de vocês."

O rapaz não respondeu. Nem precisava fazê-lo, pois Elrond podia ler bem em seu semblante triste que Legolas criava a cena de um suposto encontro com a amiga em sua mente e não parecia estar sentindo prazer algum com o que via.

"Há males que vêm para bem..." Ele enfim respondeu.

E o ar saiu pesadamente dos pulmões do curador.

"Vai me permitir auxiliá-lo em seu banho, criança? Prometo ajudá-lo apenas no que for preciso e no que tiver seu consentimento."

Outro pesado silêncio foi a resposta do rapaz. Ele então apoiou o joelho no chão e dispôs-se a se erguer sem ajuda. Elrond acompanhou-o de perto, para qualquer eventualidade. Ficaram ambos então frente a frente por um tempo impreciso, mas o lorde elfo preferiu aguardar a tomar qualquer outra atitude que desagradasse o jovem elfo. Legolas enfim respirou profundamente.

"Essa... essa capa tem... uns laços difíceis..." Ele comentou com um sorriso tímido. "Nunca consigo achar as pontas deles..."

Elrond sorriu aliviado.

ion-nin. Coisas da modernidade que a qualquer elfo silvestre desagrada." Ele provocou, apenas para ver o rapaz sorrir com mais vontade. E foi feliz, pois pôde ouvir um pouco de um riso que lhe fazia muita falta, enquanto auxiliava o príncipe nos complicados nós e sentia mais prazer do que imaginava por poder ver o jovem elfo livre daquele capuz.

&&&

Quando Elladan e Elrohir entraram vagarosamente no quarto escuro, depois de muito tempo de espera sem qualquer resposta, encontraram Elrond colocando cuidadosamente uma manta por sobre um adormecido elfo silvestre. Eles sorriram e o pai retribuiu.

"Tantos travesseiros." Comentou o mais velho, aproximando-se.

"Ele não está muito bem." Elrond informou com pesar. "Coloquei-o para dormir assim pois me disse que a cabeça o incomoda demais. Entretanto não estou bem certo se não o incomodará mesmo assim. Seu rosto não parece relaxado, mesmo em sono profundo."

Elladan uniu preocupado as sobrancelhas.

"Qual o problema, ada?"

"Ainda não estou bem certo. Está febril, mas não é uma temperatura preocupante. Estive observando-o e agora que adormeceu atrevi-me a soltar-lhe as tranças devagar, mas nada vi que comprovasse qualquer teoria. Essa dor é proveniente de algum fator interno, sobre isso não me resta dúvida... mas infelizmente ainda é o pouco que sei."

"Ele bateu a cabeça? Por isso perdeu a visão?" Elrohir indagou preocupado.

"Não, ion-nin. Segundo Legolas não houve qualquer acidente. O que faz dessa uma história cujos poucos detalhes não parecem de fato partes de um mesmo quebra-cabeça."

Elladan suspirou, olhando também atentamente o arqueiro que dormia com os olhos entreabertos.

"Ainda bem que aceitou que alguém o acompanhasse no banho. Pensei que não fosse fazê-lo. Estava preocupado."

Elrond sorriu.

"Sim, sem as ervas que adicionou na banheira não o teria conseguido fazer dormir, ion-nin. Foi muito astuto de sua parte, criança. Vejo que meu filho curador tem uma visão de futuro próximo muito útil."

Elladan sorriu, ligeiramente encabulado e por fim enrubesceu ao ser provocado um pouco mais pelo irmão, que lhe enlaçou os ombros com um olhar adornado por irônicas sobrancelhas arqueadas, assim que o pai ofereceu-lhe o elogio.

"Sei o que uma noite de sono pode fazer por ele. Tenha esse sono a qualidade que for." Comentou o gêmeo com um suspiro triste. "Mas ainda temos muito no que pensar." Ele completou enfim, voltando a observar o amigo no leito. O pai acompanhou seu olhar e seu pensamento igualmente.

Nisso alguém bateu a porta, sobressaltando os três elfos. Elrohir caminhou rapidamente para atendê-la, antes que o som desfizesse todo o trabalho do pai e do irmão. Assim que abriu, surgiu o rosto preocupado do conselheiro do pai.

"Elrond!" Erestor chamou com gravidade. "Venha! Trouxeram o jovem Estel e ele está ferido!"