O DESAFIO 2010 do Tolkien Group - confraria que reúne gente tão fascinada pela obra de Tolkien que, após devorar filmes, livros e todo material disponível sobre o assunto, continua com fome de histórias relacionadas ao universo que o grande Professor nos legou - segue com uma fic de:

Myri no TG

"Myri no Tolkien Group é o nome que prefiro assumir quando estou criando no âmbito d'O Grupo e – ao contrário de quando sou Myriara – me volto para temáticas mais inocentes e geralmente alegres, preferencialmente protagonizadas por hobbits ou pelos membros da comitiva do Anel quando crianças.

É verdade que não foi isso que aconteceu aqui ... mas, talvez, escrever seja como sair de casa "É perigoso sair porta afora, Frodo" como dizia Bilbo. "Você pisa na Estrada, e, se não controlar seus pés, não há como saber onde pode ser levado... "*

Hopeless (sem esperança): Devem haver várias fics com esse plot, tão óbvio ele sempre me pareceu, mas nunca encontrei nenhuma: eis aqui então, uma das possíveis versões sobre o porquê Gilraen perdeu toda esperança ...

Disclaimer: JRR Tolkien é o autor ao qual pertencem os personagens, o próprio universo em torno dos quais giram as histórias desenvolvidas pelos membros do Tolkien Group, portanto não temos nenhum direito sobre elas ou sobre eles – exceto, talvez, aqueles nascidos do amor talvez não de todo sensato que lhes devotamos, como diria Sadie Sil ...


HOPELESS (SEM ESPERANÇA)

A risada infantil que chegava pela janela debruçada sobre o jardim era um bálsamo poderoso vibrando pelos ouvidos do grande senhor élfico sentado à escrivaninha, e Elrond sorriu.

O elfo empertigou-se na cadeira, virando o rosto e esticando o pescoço para completar a cena que o riso constituíra em sua mente, e seu próprio sorriso se abriu mais quando seus olhos encontraram o menino a brincar.

Logo, contudo, a consciência da brevidade daqueles momentos anuviou aquele sorriso ...

"Não". Repreendeu-se silenciosamente o senhor de Imladris. Não se podia entregar à nostalgia élfica. Fora dele mesmo a escolha de permanecer enquanto tudo passava.

A escolha que apenas a outro além dele fora dada.

Elrond suspirou, preparando-se para levantar. "Não e não". O papel que precisava desempenhar agora como nos anos vindouros não lhe permitia o luxo da melancolia, refletiu mais uma vez, dirigindo-se ao alpendre. A sombra que lançava sobre os corações era uma das armas da escuridão, e cabia a ele ser como o sol que ilumina e aquece as almas para aqueles que precisavam resistir.

Devia isso ao irmão. Devia ao pai. Devia-o a Gil-galad e Elendil. Devia-o a...

A luz do sol do jardim tirou-o finalmente das própria sombras, e quando o menino correu para os seus braços, Elrond cuidou de mergulhar apenas no que de bom aquele momento lhe trazia.

O tipo de momento que motivaria qualquer membro dos povos livres da Terra Média a lutar por ela...

O menino logo soltou-se do abraço, correndo para um novo interesse, mas tendo deixado o elfo pleno do efeito benfazejo que inconscientemente propiciava.

Com a alma ensolarada, Elrond voltou-se para a outra criança.

Se devia a tantos, devia duplamente àquela menina; tanto porque ela precisava, quanto porque, afinal, fora ela quem lhes proporcionara toda esperança que tinham agora: o menino.

Um menino filho de uma menina ... Que dera a Arador para permitir que tal sucedesse? Perguntava-se mais de uma vez, ao se avizinhar da mocinha de olhos perdidos, incongruente em seus trajes de viúva.

- Gilraen. – Cumprimentou-a.

Fitara-o sem o enxergar, por certo distraída, e agora, embaraçada, tencionava dirigir-lhe uma reverência:

- Meu senhor...

- Não, criança, não – acalmou-a o elfo, interrompendo-lhe o cumprimento formal ao segurar-lhe o cotovelo, fazendo-a sentar-se de novo e tomando assento ao seu lado.

- Senhor, sua hospitalidade ... – e Gilraen não soube como completar a frase.

Tímida, isolada, Elrond percebia-lhe claramente o sentimento de inadequação.

- Não é minha hospede, criança – e levantou-lhe o queixo com a ponta dos dedos. – É parte de minha família, agora mais que nunca, ou não sabe que somos parentes? – perguntou-lhe o senhor daquelas terras e daqueles palácios com seu ar cálido.

Conseguira. Finalmente a criança esboçara um sorriso após tanto tempo ... Não havia nem mesmo em sua biblioteca registros que fizessem jus ao poder curativo da gentileza, da simpatia, da afetividade.

- Sim – prosseguiu Elrond. – Minha parenta, e excessos de mesuras e solenidades me parecem desnecessários quando se está naquela que, espero, já considere como sua própria casa.

A beleza de Valfenda já seria por si só patente ao mais negro dos corações, a mais decaída das criaturas, mas aquilo que os elfos lá haviam amoldado ao longo do tempo era algo tão além das possibilidades humanas – a não ser, talvez, a própria Númenor – que Gilraen, vinda de uma Arnor que há muito já vivera a própria decadência, não tinha a mais remota idéia do que dizer ou pensar.

Onde estava o sorriso que ele esperara?

Elrond tomou as mãos da garota nas suas:

- Sua casa, criança, sua casa, certo?

- ...

- Certo?

- Sim ... Sim, claro, senhor.

- Assim está melhor. – O sorriso voltara, acompanhado de um rubor de timidez, ao rosto da menina que mal falava a maior parte do tempo.

Se Arwen estivesse ali poderia cultivar-lhe a amizade, mas as estações sucediam-se sem que a filha retornasse, enquanto seus palácios cada vez mais eram abrigo de conselheiros e capitães que de mães ou jovens que pudessem ser companhia aquela pobre criaturinha de olhos grandes e solitários.

- E, como minha mais próxima parente residente no momento, espero que passe a me dar a honra de fazer as refeições comigo de agora em diante.


Eram preciosos para Gilraen, os momentos que passava com o senhor Elrond.

Tudo se lhe aproveitava: a gentileza com que lhe oferecia o lugar, a elegância de cada gesto, a graciosidade no manusear dos talheres, os ensinamentos sobre o apreciar dos vinhos e dos alimentos ...

O entrelaçar dos dedos indicando-lhe a preciosa atenção, o impagável franzir dos sobrolhos e, maravilha das maravilhas, a gargalhada por vezes obtida ao final da narrativa de alguma das traquinagens do filho.

A simples proximidade dele já era para ela toda a essência do bem, mas fazê-lo divertir-se genuinamente, rir até as lágrimas como na vez em que lhe descrevera a estupefação de Erestor quando surpreendera Estel no topo das prateleiras da despensa em busca de compotas e este caíra sobre os fardos de farinha no chão, levantando uma nuvem de farinha na cozinha e saindo a correr como um fantasminha pelos corredores de Imladris...

Apenas com ela ele ria desta forma.

Quando a refeição incluia o senhor Glorfindel ou os taciturnos gêmeos, ninguém sequer sorria.

A filha dele estivera longe todos esses anos.

E a esposa já se fora há várias vidas de homem.

Ela, Gilraen, não se teria ido...

Acolhera prontamente a sugestão do senhor Elrond para abrir o luto. Não podia passar a vida como uma velha à espera da morte, era muito jovem.

E cheia de vida.

De planos.

De esperança.

E Gilraen sorriu encorajadoramente para a própria imagem no espelho, antes de dirigir-se à sala de jantar.

...

Já ouvia seus passos suaves pelo corredor, e Elrond sentiu-se feliz.

Fazendo o bem a ela, fizera-o a si mesmo, tornando-se-lhe extremamente prazenteiras ocasiões como aquela, em que jantavam só os dois e, na intimidade cúmplice ela se revelava uma menina alegre, distraindo-o de tal forma a deixar-se roubar das preocupações por uma hora ou duas.

Ao vê-la, Elrond alteou as sobrancelhas e susteve a respiração, sem saber se apenas surpreendido, ou se tomado pelo flash de alguma visão.

Se visão houvera, fora breve demais para ser apreendida.

- Está muito bonita, Gilraen. – Declarou tomando-lhe a mão para conduzi-la ao assento.

Não havia como negar: a sensação de presciência acorreu-lhe de novo ao tocá-la.

Não uma visão, não a consciência de uma fato, apenas uma sensação.

Pobre jovem, destinada a sina dos edain.

Pobre e bela jovem.

- Está diferente.

- Prendi o cabelo, o senhor gostou?

Elrond sorriu. Uma menina, ainda apenas uma menina.

Ele notara.

Ele notara!

Ele notara, e o vinho élfico de Imladris nunca fora mais doce ou mais inebriante para Gilraen.

Contudo, as taças sempre cheias não aliviavam a vaga sensação de desconforto de Elrond.


- ... e ao final, Erestor apenas declarou "Esse menino é capaz de fazer traquinagens mais rápido do que os mesmo os sentidos élficos podem perceber".

Mas Elrond apenas sorriu ao final da narrativa, trazendo um certo ar de desapontamento ao rosto que o fitava inclinado de lado.

- Ah sim, eu já contei essa história antes – endireitou-se Gilraen na cadeira.

Na verdade, já a contara vezes inumeráveis ... Estel já não era mais um menininho, produzindo gracinhas com cuja narrativa encantar o senhor Elrond todas as noites. Era um rapaz ... Um rapaz a quem, cheio de orgulho, como um verdadeiro pai, Elrond por fim revelara a verdadeira origem.

Que tolice a dela, buscar por uma situação que já passara para entabular conversa.

Não devia olhar para o passado, era no futuro que estavam suas esperanças.

Estel era agora Aragorn, um homem – se bem que ainda fosse crescer no corpo e na mente.

De qualquer forma, chegara o tempo do filho voltar-se para o próprio destino.

E ela mesma, não mais uma menina, agora sem dúvida uma mulher em sua plenitude, também.

- A comida parece deliciosa – Gilraen voltou sua atenção para o prato, à procura de um assunto novo.

- De fato. – Concordou Elrond, sem ter a certeza do porquê, aliviado de vê-la dirigir o olhar em outra direção que não a sua, ainda que apenas por um momento.

- Ao contrário de minhas histórias, que frequentemente se repetem, parece que em todos esses anos nunca comi duas vezes do mesmo alimento em Imladris ... Esse assado, por exemplo, é semelhante a vários dos quais posso ter me servido, mas não absolutamente igual.

-Sob esse prisma, Gilraen, talvez não existam mesmo dois pratos iguais: mais sal, menos sal, uma pitada a mais ou a menos daquela erva ... Nenhum segundo de nossa existência será jamais igual a outro que passou.

Olhava para ela, agora sem ressalvas ... Era assim, nas mais banais e naturais conversas, que a amizade de tantos anos entre eles se reafirmava, tranquilizadora.

Ela ouvia-lhe com atenção o filosofar ... adorava escutá-lo.

Os anos, haviam-nos passado assim, debruçados sobre a mesa, escutando um ao outro.

Escutando, escutando ...

Conversando ... E, se nada mais houvesse entre eles, ainda assim, poderia ter sido o bastante ...

Mas a entrada deu vez ao prato principal, este à sobremesa e esta aos licores.

Há tempos que não conversavam tanto, Gilraen nem saberia dizer sobre o que, viajando nas palavras dele, na sonoridade de sua voz, em sua inteligência e conhecimento fascinantes.

Era ela que ria agora, escutando uma história muito divertida, sobre como Elrond acabara engasgado, quando o velho Gandalf tentara introduzi-lo nos prazeres da erva do Condado.

Suas mãos estavam sobre a mesa, enquanto reclinavam-se um para o outro, ele compartilhando com ela aquela lembrança que jamais tivera oportunidade de contar a alguém, e que apenas verbalizada revelara-se a ele mesmo em todo seu potencial cômico.

Quando perceberam, seus dedos já estavam entrelaçados.

E Elrond viu, ambos viram, tudo que poderia ser, e em seus olhos, Gilraen revelou-se toda a ele, seus sonhos, seus desejos, seu amor, suas esperanças...

E, por um momento, Elrond considerou tudo aquilo.

Até que seus dedos lentamente separaram-se dos dedos de Gilraen e ele se levantou.

Para nunca mais voltar a sentar-se a sós com ela.

...

"Depois de alguns anos, Gilraen despediu-se de Elrond e retornou para o seio de seu próprio povo em Eriador, e viveu sozinha; raras vezes viu o filho de novo, pois ele passava muito anos em terras distantes. Mas uma vez, quando Aragorn tinha retornado do norte, ele foi vê-la, e ela lhe disse antes de sua partida:

- Esta é a nossa última despedida, Estel, meu filho. Estou envelhecida mesmo para uma pessoa pertencente à raça dos homens inferiores; e, agora que se aproxima, não posso enfrentar a escuridão do nosso tempo, adensando-se sobre a Terra-média. Deixarei este lugar em breve.

Aragorn tentou consolá-la, dizendo:

- Apesar disso, ainda pode haver uma luz na escuridão; se for assim, eu gostaria que a senhora a visse e se alegrasse.

Mas ela respondeu:

- Dei esperança aos homens, mas não guardei nenhuma para mim"**

FIM


* A Sociedade do Anel – Três não é demais

** O Retorno do Rei – Apêndices (da história de Arwen e Aragorn).