Saint Seiya não me pertence. Eu só escrevo para ganhar o meu dia e, eventualmente, o de outras pessoas também.

1) Cá estou eu, com outra atualização no meio da semana, aproveitando uns minutos livres... Posto outra pequena side-story, que também tinha pronta há algum tempo, dessa vez com o menino Aldebaran como protagonista! Na verdade, em vista do atraso considerável que Ieró Sanctuary School está sofrendo, pode-se dizer que estou tentando comprar os leitores com a postagem de outras fics (tentando desviar a atenção de você...).

2) Devo dizer que tomei várias liberdades nessa fic (como assumir as cores originais dos cabelos dos cavaleiros, além de lhes atribuir algumas peculiaridades). Por favor, considerem licença poética a esses fatos diferentes que encontrarem na fic.

3) De todas as pessoas que acompanham minhas publicações, espero que esta agrade um pouco mais a Orphelin's, já que envolve alguns dos personagens que ele tanto gosta! Agradeço especialmente a você e aos seus comentários sempre construtivos e gentis sobre as minhas fics! Espero que esta sirva pra trazer um sorrisinho bobo ao seu rosto quando puder lê-la (infelizmente, não seria um sorriso sacana, de quem está lendo sacanagem, não dessa vez).

Mais uma side-story, espero que gostem!

Enjoy your flight!

oOo

Lemurianos e chocolates

Aldebaran decidira passar o seu dia de folga longe de seus companheiros irrequietos do Santuário. Não que ele preferisse evitá-los – muito pelo contrário: Aldebaran era um garoto completamente sociável, e lhe agradava estar sempre entre as pessoas que gostava. Só que, de vez em quando, seus amigos aspirantes a cavaleiros de ouro conseguiam ser extenuantemente hiperativos, e, nesses momentos, o jovem taurino optava por se afastar para fazer o que lhe aprouvesse sozinho. Eram em horas como aquelas que Aldebaran trocava o Santuário pelas sempre movimentadas feiras matinais de Atenas.

Não havia planejado exatamente o que fazer uma vez na agitada feira daquela manhã de domingo. Simplesmente fugira do Santuário, antes que seus amigos o encontrassem, para aproveitar o céu azul que prometia durar o dia inteiro, vagando a esmo pelas ruas da cidadela. Ele observou algumas barracas de frutas e especiarias locais na rua principal da feira, as vozes emaranhadas dos vendedores e dos passantes se misturando ao seu redor animadas.

Vários vendedores acenavam divertidos para o jovem quando o avistavam passando por suas barracas e lojas. Aldebaran era deveras popular entre os comerciantes, já que tinha por hábito frequentar suas lojas quando possuía algum tempo livre, mas, além disso, nunca haviam conhecido um garoto tão simpático como ele. Geralmente, na opinião geral dos moradores locais, os misteriosos garotos estrangeiros que frequentavam as redondezas não pareciam gostar de se imiscuir: sequer lhes sorriam, ou paravam para trocar cumprimentos no dia a dia. Aldebaran não podia ser mais diferente. Tinha sempre um sorriso no rosto, e gostava de saber as novidades que os vendedores traziam às suas lojas, já que tinha um fraco por suvenires.

Ele parou interessado na frente de uma das barracas de artesanato que mais lhe agradava. O senhor dono da bancada logo reconheceu o menino e começou a lhe mostrar os novos apetrechos que confeccionara: penduricalhos feitos de contas de vidro colorido, talismãs, pedras semipreciosas e olhos-turcos, tapeçarias feitas à mão, vasos com motivos gregos tradicionais e pequenos modelos de guerreiros antigos feitos em chumbo. Em poucos minutos, o homem se engajava numa barganha astuta com o menino por alguns exemplares dos últimos itens, e soltou uma gargalhada quando, irredutível, Aldebaran convenceu-o a aceitar o preço que lhe sugerira.

- Espere um minuto aí, vou pegar algo pra você – o homem lhe disse, entrando numa loja vizinha a sua barraca.

Aldebaran sorriu satisfeito para um modelo em miniatura da estátua de Atena que acabara de comprar, e esperou pelo retorno do velho vendedor. O garoto era um tanto alto para sua idade, ainda que estivesse longe de ser tão grande e forte quanto viria a se tornar no futuro. Os cabelos, penteados para trás, tocavam-lhe os ombros e eram levemente descoloridos pelo sol e pelas águas do mar, da época em que tinha de se sujeitar aos treinos de resiliência em sua terra natal. Seu antigo mestre já lhe explicara que qualquer aspirante a cavaleiro dourado de touro deveria ser particularmente durão e obrigatoriamente imponente – tanto em termos de força quanto em termos de porte físico – para ter alguma chance de se tornar um membro da confraria mais poderosa da ordem. Embora tivesse resistido a um pré-treino particularmente pesado, entretanto, Aldebaran discordava da maioria de seus concorrentes no Brasil, que buscavam se impor pela força bruta, ao invés de se fazerem respeitar por quem realmente eram. Talvez fosse por essa razão que fora ele, entre todos os candidatos, o único escolhido para concorrer à urna de ouro do signo de touro na Grécia. Aldebaran jamais deixara de lado a gentileza, ainda que a mesma não se encaixasse no perfil de um cavaleiro normalmente conhecido pelo seu poder físico.

- Tome aqui – o velho voltou, oferecendo um pequeno saco de papel pardo para o garoto, que o tomou nas mãos, curioso – É um presente pra você, por sempre vir aqui comprar das minhas coisas. Vem visitar a minha barraca de novo, nem que seja só pra conversar, viu, moleque?

O taurino agradeceu prontamente pelo regalo, e caminhou para o fim da rua, onde havia menos movimento. Parou na calçada, vasculhando o interior do pacote com uma mão, e descobriu, com uma pequena exclamação de satisfação, que ganhara um pacote de bombons de chocolate.

- Essa marca é cara – ele se impressionou, ao observar, sobre o alumínio dourado que envolvia cada um dos pequenos discos de chocolate, um selo em que se lia "Theobroma".

Feliz com a sua sorte, logo no início do dia, Aldebaran começou a abrir um dos pequenos bombons, quando um estampido curioso se fez ouvir ao seu lado e, como que por mágica, ali se materializou um garoto pequeno, de longos cabelos platinados.

Por maior que fosse o seu susto, o taurino agiu rápido quando o outro menino pareceu se desequilibrar, apanhando-o pelo antebraço, antes que caísse de cara na calçada.

- Mu! – o taurino se espantou quando percebeu quem era o garoto que tentava colocar em pé – Que tá fazendo aqui? Você tá bem?

O jovem ariano tossiu como alguém que inalara muita poeira, afirmando com um aceno. Um tanto impressionado, Aldebaran fitou por mais alguns instantes o seu amigo, que recobrava o fôlego e olhava ao redor, antes de se abaixar e apanhar do chão o pacote que deixara cair com o susto. Felizmente, os passantes pareciam distraídos o suficiente com os próprios afazeres para notar a repentina aparição do aspirante a cavaleiro de Áries entre eles.

- Não é bom você se teletransportar aqui na cidade, as pessoas vão estranhar – Aldebaran comentou sereno com o ariano, inclinando a cabeça para o lado – Que aconteceu?

- Eu – Mu começou a explicar, mas quase foi jogado ao chão novamente, quando um cabrito passou correndo rente às suas pernas, seguido de perto por um homem apressado que gritava para o animal parar.

Com jeito, Aldebaran puxou o amigo pelo braço, guiando-o até uma pequena escadaria que dava acesso à rua, antes que Mu se desequilibrasse outra vez. Os dois se sentaram nos primeiros degraus, tomando fôlego e olhando para os lados: pelo menos parecia que não havia tantas pessoas lá naquela extremidade da rua.

- Você não tá dando sorte – Aldebaran riu, ao se dirigir ao amigo, pensando, ironicamente, no ótimo dia que vinha tendo ele próprio – Então, o que aconteceu pra você vir parar aqui a essa hora?

Aldebaran notou a expressão um tanto perturbada do amigo que, apesar da aparente tranquilidade, lançava alguns olhares esquivos às pessoas que por acaso passavam perto deles.

- Eu estava precisando sair do Santuário um pouco – ele respondeu, encolhendo os ombros de leve – Eles ficam me importunando por causa das sobrancelhas.

O taurino levantou as suas próprias ao ouvir o comentário do tibetano – que falou quase para si mesmo, a voz quieta – e suspirou em compreensão. Ele deveria estar se referindo aos incansáveis Milo e Aiolia, que apesar de bem intencionados e companheiros, juntos se tornavam praticamente insuportáveis, tal era a tendência da dupla a se meter onde não era chamada. Não por acaso, o mesmo Aldebaran fora à feira para fugir do assédio dos dois menores que, ultimamente, vinham tentando interrogar Mu desde que o garoto chegara à Grécia há poucos dias.

- Eu sei como você se sente, acredite – ele lhe disse, com um sorriso solidário – Mas não os leve a mal, eles são legais. Só precisa dizer quando é pra eles pararem, que eles não vão ficar em cima de você. Quer dizer... Também ajuda muito se você for maior que eles e tudo mais...

Mu sorriu de canto, parecendo meio culpado por se irritar com os novos colegas, não obstante, meio frustrado por conta do comportamento invasivo dos mesmos. Aldebaran ficou com pena do garoto: estava curioso para conhecer melhor aquele que talvez viesse a se tornar seu vizinho zodiacal, mas entendia que o ariano precisaria de espaço até se habituar ao Santuário. Por tudo que soubera, Aldebaran imaginava que o tibetano estivesse encontrando alguma dificuldade em se adaptar à rotina movimentada em Atenas e aos seus agitados novos companheiros. O taurino enfrentara os mesmo obstáculos, mas pelo menos viera de um país em que a convivência com as pessoas era constante e não havia tempo para se estar sozinho, ao contrário do que devia acontecer em Jamiel.

- Eu tava esquecendo – Aldebaran exclamou instantes depois, reabrindo o pacote pardo que vinha carregando – Acabei de ganhar isso. Você quer?

O lemuriano furtou um olhar ao pacote de bombons que Aldebaran lhe estendera, levantando os olhos para os do taurino em seguida, a curiosidade estampada no rosto.

- Que é isso?

Bom, não era todo mundo que sabia o que eram "Theobromas", Aldebaran pensou. Afinal, vindo de onde viera, o brasileiro desde cedo se familiarizara com o termo, visto que sua terra natal costumava cultivar grandes quantidades de cacau.

- Significa "comida dos deuses" em grego – ele explicou, tirando um dos bombons do pacote para colocá-lo na mão do amigo – Mas é só chocolate, na verdade. O normal, que nós comemos em qualquer lugar.

Mu, entretanto, não deu sinal de ter acatado ao que disse o outro.

- Chocolate? – ele indagou, analisando o rótulo do bombom, para a confusão do taurino – Nunca experimentei. Com que se parece?

Aldebaran estava perplexo.

- É, bem... É difícil de explicar: doce, eu suponho – ele se viu dizendo, diante da inacreditável revelação de que a iguaria era estranha ao ariano – Tá me dizendo que nunca comeu chocolate?

Mu franziu o queixo em concordância, ainda estudando o pequeno embrulho entre os dedos. O taurino arregalou os olhos castanhos para o amigo. Será que o tibetano estava falando sério?

- Bom, então... então por que não experimenta?

Levantando as sobrancelhas – ou assim pareceu a Aldebaran -, o ariano começou a abrir o papel laminado cuidadosamente, e depois de mirar o pedaço de chocolate entre os dedos, ele o mordeu.

O taurino riu inconformado diante do deslumbramento no rosto de Mu quando ele saboreou o doce, ao que parecia, pela primeira vez em sua vida. Era como se os olhos esmeraldas do menor brilhassem em arrebatamento, enquanto terminava de mastigar o doce e lambia os resquícios de chocolate dos dedos.

- É tão bom! – ele levantou ainda mais as marcas que faziam as vezes de sobrancelhas para um Aldebaran sorridente.

"Posso pegar outro?" era a pergunta implícita nos olhos verdes do ariano, ao que o outro garoto sorriu, estendendo-lhe o pacote de doces outra vez. O taurino assistiu o amigo desembrulhar um segundo bombom e saboreá-lo, de olhos fechados.

- Como pode? – Aldebaran não conseguiu conter a curiosidade – Como é que você nunca comeu isso antes?

O garoto terminou de mastigar e olhou para o taurino, considerando seriamente a pergunta.

- Acho que é coisa do meu mestre – Mu explicou, dobrando os papeis e enfiando-os no bolso em seguida – Ele nunca me deixaria comer mais do que o necessário em Jamiel. Era difícil eu experimentar coisas diferentes, principalmente doces.

Por um momento, Aldebaran ponderou se Mu não estaria brincando com ele, mas pensando melhor, o garoto não parecia ser do tipo que mentiria sobre coisas triviais apenas para se divertir. Ele se limitou a lançar um olhar incrédulo e um tanto horrorizado ao ariano, que riu, perguntando se ele podia, por favor, pegar outro bombom. Aldebaran retribuiu com uma risada sincera, entregando todo o pacote ao ariano, com a ressalva de que comesse pouco para não passar mal depois.

Entrementes, os dois meninos se levantaram para voltar ao Santuário, a conversa brotando naturalmente entre eles, como se fossem amigos de longa data. O taurino se considerou duplamente sortudo naquele dia: primeiro porque fazia ainda uma bela manhã para se aproveitar; e segundo porque finalmente tivera a chance de se aproximar do novo inquilino do Santuário.

Mas acima de tudo, o encontro com Mu finalmente fizera Aldebaran entender o quão difícil e extenuante podia ser o caminho para se tornar um cavaleiro de Atena. Jamais, durante todo o período de pré-treinamento, pensara o taurino seriamente nas consequências de suas escolhas até então. Nem mesmo quando era obrigado a treinar por dias seguidos, cansado, realizando todas as provas que lhe incumbia o rigoroso mestre: jamais aquele garoto gentil havia sequer cogitado a dimensão dos sacrifícios que ele próprio tivera de fazer para chegar onde chegara. Até então, pensava que qualquer esforço compensava pelo fato de que o propósito final era a imensurável honra de servir à deusa Atena.

"Mas pensar que alguns de nós chegaram aqui sem nem conhecer o sabor do chocolate...", ele cogitou, olhando de canto para Muu, que voltara a enfiar uma mão no pacote de bombons.

De fato, ser um cavaleiro de ouro parecia exigir muito mais do que ele imaginara inicialmente.