Eu ainda tomava meu banho quando papai bateu a porta do banheiro, dizendo que Kurt estava na TV. Ele acabara de salvar duas pessoas de um incêndio no centro da cidade. Nada surpreendente para mim, mas para meu pai, foi como um soco na cara. Aquele garoto que antes chamara de demônio era um herói, tinha um bom coração. Nenhuma novidade para mim. Eu conhecia Kurt muito bem, sabia muito bem o tipo de homem que ele era. Talvez, se alguém escutasse antes tudo aquilo que queria dizer, as coisas poderiam estar melhores hoje.
Naquele instante, a campainha tocou. Era Kurt. Meu Deus, ele já chegou e eu ainda estava dentro do banheiro, enrolada em uma toalha, pensando na vida. Corri para o quarto o mais depressa que minhas pernas conseguiam.
...
Foi um sacrifício me livrar daqueles repórteres todos. Pareciam querer me devorar. O demônio que virou herói, alguns chegaram a dizer. Aquilo realmente me aborrecia. Queria estar com Amanda o mais rápido que pudesse.
Naquele momento, só uma coisa poderia me salvar. Agarrei o volante do carro o mais firme que pude, e teleportei-me.
Com um tom de ligeira surpresa, consegui o que queria. Estava parado de fronte a casa de Amanda. Acreditava até aquele momento que não conseguiria levar comigo algo tão grande como um carro. Fiquei orgulhoso e ansioso ao mesmo tempo. Estava na hora de reencontrar aquela que tanto amo.
Olhei-me no espelho retrovisor. Meu cabelo estava coberto por fuligem. Minhas roupas estavam do mesmo jeito. Podia sentir cheiro de pelo chamuscado. Que vergonha. Depois de tanto tempo sem vê-la, iria encontrá-la assim.
...
Enquanto me trocava, vi Kurt "brotando do chão" pela janela. Eu terminava de me vestir, quando ele tocou a campainha. Desci correndo as escadas, enquanto terminava de prender meu cabelo num rabo de cavalo. Papai estava indo até a porta, quando gritei:
"Deixa que eu atendo!".
Ele olhou pra mim, com um sorriso gentil.
...
Toquei a campainha, mas parece que ninguém estava ali. Aquela espera era interminável.
Enfim, eu ouvia passos. Passos apressados. Seria Amanda? Pude ouvir alguém abrindo a fenda do olho mágico. Estava ainda mais apreensivo.
A porta abriu-se logo. Amanda pulou em meus braços, derrubando a nós dois. Ela chorava naquele momento, enquanto repetia meu nome seguidas vezes.
E então me beijou. Nunca havia me beijado tão intensamente como agora. Seu beijo era profundo, eu podia sentir até mesmo seu coração pulsando naquele instante.
"Nicht weinen, mein Engel (não chore, meu anjo)."
Naquele momento, a única coisa que poderia fazer era acariciar aqueles longos cabelos negros, e tentar secar aquele rosto inundado pelas lágrimas. Eu estava feliz por tê-la de volta, e parece que meu pequeno anjo também.
...
Eu estava tão feliz naquele momento, que mal conseguia segurar as lágrimas. Como era bom sentir seu calor, seu gosto. Sentia também um leve cheiro de fumaça. Soube pelo meu pai o que acontecera minutos antes, e felizmente ele estava bem.
Criei coragem e então levantei-me, estendendo-lhe a mão logo em seguida.
Não tinha palavras para dizer-lhe naquele momento. Queria apenas estar junto dele. Junto dele por todos os dias da minha vida.
