A história se chama A Noiva Raptada e pertence a Barbara Cartland bem como os personagens utilizados pertencem a Naoko Takeuchi

De repente, um pano grosso foi atirado sobre a cabeça de Usagi. Mal podendo respirar, percebeu que estava sendo raptada. Só podia ser por ordem do Rei dos Demônios, o fantástico homem que viera do Extremo Oriente... Sentiu que braços fortes a carregavam por uma escada tosca e íngreme. Gritos de marinheiros, velas sendo enfunadas, barulho e cheiro de mar...Passos se aproximaram e o pano que cobria seu rosto foi retirado. Usagi abriu os olhos e viu à sua frente um homem muito diferente do que esperava!

CAPÍTULO IV

Usagi estava tão certa de que Mamoru Chiba era um homem idoso, que ficou atônita ao verificar que, embora não fosse muito jovem, não se tratava de um velho.

Ele era alto, extremamente bem-apessoado, de ombros largos e muito esbelto.

Embora estivesse vestido de acordo com a moda, suas roupas eram confortáveis, e ele não parecia dar grande importância ao vestuário.

Quando olhou para ele, Usagi viu que Mamoru Chiba a fitava com uma expressão de raiva e desdém.

Ele não falou, e ela caminhou na sua direção firmemente, apesar dos movimentos da embarcação.

Quando chegou bem perto dele, fez-lhe uma reverência e ficou esperando.

Os movimentos do navio continuavam fortes, e ela teve de segurar-se no espaldar de uma cadeira. De repente, ele disse, abruptamente:

— Sente-se.

Ela obedeceu, movendo-se bem devagar, para mostrar a sua independência.

A cadeira era confortável, e ela sentou-se na beirada, colocando as mãos no colo, olhando para ele e pensando que, dentro de poucos minutos, ele estaria se desculpando por tê-la tomado por Minako.

Sentiu o coração bater violentamente, o que indicava que estava atemorizada.

— Imagino, srta. Tsukino — começou Mamoru Chiba num tom de voz brusco —, que esteja surpresa por encontrar-se a bordo do meu iate, mas estou determinado a impedi-la de arruinar a vida de meu sobrinho.

Ele parou, esperando uma resposta, mas Usagi estava decidida a ficar quieta. Então, ele prosseguiu:

— Quando fiquei sabendo, hoje de manhã bem cedo, que tinha conseguido convencê-lo a fugir com a senhorita, fiquei estarrecido, e só através de uma ação imediata pude impedi-los de fazerem algo tão ultrajante.

Falava numa voz dura, agressiva, que devia ser seu tom habitual ao se dirigir aos inferiores.

Usagi viu que estava certa quando o classificara como ditador e tirano, e sentiu seu ódio crescer.

Mamoru Chiba continuou:

— Logo que cheguei do Oriente, fui informado de que a senhorita e meu sobrinho estavam vivendo juntos na casa de seu pai. Imagino que sir Kenji não esteja a par desse seu comportamento, e se houver algum resultado dessa atitude imoral, quero lhe avisar aqui e agora que não permitirei que meu sobrinho seja responsabilizado por isso.

A princípio, Usagi não entendeu o que ele estava dizendo.

Depois, como se atingida por um raio, percebeu que ele estava insinuando que Minako podia ter um bebê.

Tal idéia nunca tinha lhe passado pela cabeça, mas agora, diante do impacto das palavras de Mamoru Chiba, sentia que podia desmaiar de horror.

Apertou as mãos de tal forma que as juntas ficaram pálidas.

Ia protestar, dizer que isso nunca aconteceria, quando se deu conta de que a única coisa que importava agora era que Minako desposasse lorde Furuhata.

De repente, como uma luz que brilhasse no meio da escuridão em que se encontrava, compreendeu que era uma sorte que ela tivesse sido capturada no lugar de Minako.

Nesse momento, enquanto Mamoru Chiba acusava Minako de alguma coisa que Usagi não podia crer que ela tivesse feito, sua irmã e lorde Furuhata estavam a caminho do exterior.

Se não tivessem se casado antes de sair da Inglaterra, eles o fariam assim que chegassem a solo estrangeiro.

Ocorreu-lhe que a situação estava completamente diferente agora, e que, acontecesse o que acontecesse, o importante era não impedir o casamento de Minako.

Ainda não podia acreditar que a irmã mais nova tivesse feito algo tão errado como permitir que um homem que ainda não fosse seu marido fizesse amor com ela.

E, o que é pior, não previra as conseqüências de uma atitude tão imprudente.

Mas Minako amava Motoki Furuhata, e ele estava apaixonado por ela. Usagi sabia que eles tinham estado juntos na noite anterior. Tudo o que podia pedir a Deus é que sua irmã não fosse estigmatizada por toda a vida por ter uma criança ilegítima.

"Eles têm que se casar, é claro que eles têm que se casar", desejou Usagi do fundo do seu coração.

A única coisa que poderia garantir a realização desse casamento era ela se fazer passar pela irmã até que o matrimônio fosse anunciado. Então não haveria mais nada que Mamoru Chiba pudesse fazer.

Ela tremia, assustada com sua descoberta. Teve que apertar as unhas na pele para forçar-se a permanecer sentada, em posição ereta, de olhos baixos.

— Portanto, entenda — continuou ele — que pretendo mantê-la afastada até que meu sobrinho volte à razão e se case com sua noiva.

Quando Mamoru Chiba terminou de falar, Usagi notou que ele olhava para ela, curioso, como se estivesse surpreso pelo seu silêncio.

Usagi achou que devia defender Minako das acusações dele, e disse:

— Suponho, sr. Chiba, que não esteja preocupado com a felicidade de seu sobrinho.

— Felicidade! — exclamou ele. — Creio que quer dizer que, porque ele é jovem e inexperiente, pensa que vai encontrar felicidade a seu lado.

Fez uma pausa, esperando que ela replicasse. Como ela não dissesse nada, acrescentou:

— Resolvi investigar o seu passado, srta. Tsukino. Não é um passado muito longo, mas está cheio de incidentes que não estão a seu favor.

Usagi ergueu o queixo.

— Não sei por que está dizendo isso, sr. Chiba.

— Quer mesmo saber? — perguntou ele sarcástico. — Muito bem. Fiquei sabendo como perseguiu o marquês de Gazebrooke, até que ele foi obrigado a se refugiar no campo. Também se envolveu com vários rapazes, até que suas famílias ou o bom senso deles os impedissem de fazer-lhe a proposta de casamento que buscava.

Emitiu uma exclamação de deboche e continuou:

— Posso lhe assegurar que tem uma péssima reputação para uma pessoa tão jovem, e depois desta última leviandade, creio que todas as portas da sociedade serão fechadas para a senhorita.

Ele falava com satisfação na voz, o que só contribuía para aumentar a raiva que Usagi sentia dele.

No entanto, sabia que não ia adiantar nada dizer que quem propusera casamento a Minako fora o marquês, e que ela o recusara.

Acreditava na irmã, mas tinha certeza de que o mesmo não acontecia com ele, e tinha que admitir que deveria haver algum fundo de verdade nas acusações que ele lhe fazia.

Achou que devia mais uma vez tentar defender Minako.

— Creio, sr. Chiba, que não acreditaria em mim se eu lhe dissesse que amo seu sobrinho de todo o meu coração, assim como ele me ama.

— O verdadeiro amor, srta. Tsukino, é algo que está além da sua compreensão. Creio mesmo que nada sabe a esse respeito.

— É aí que o senhor se engana — respondeu Usagi. — E, uma vez que está me condenando com base em boatos, acho que tenho o direito de lhe perguntar se o senhor sabe alguma coisa a respeito do amor.

Ele ficou surpreso, e levantou as sobrancelhas, como se achasse que ela estivesse sendo impertinente.

— Estamos falando da senhorita, e creio que não se casaria com meu sobrinho se ele não fosse rico, não tivesse um título de nobreza e não fosse o que se chama popularmente de "um bom partido".

— Garanto-lhe que isso é completamente falso — disse Usagi com firmeza. — Eu me casaria com ele mesmo que não tivesse um tostão e nós tivéssemos que morar numa choupana e mendigar por comida.

Havia sinceridade em sua voz, porque sabia que o amor que a irmã tinha por Motoki Furuhata era o mesmo tipo de amor que sua mãe tivera por seu pai quando eles tinham fugido juntos.

Mamoru Chiba ficou surpreso, por um momento, e depois disse:

— Bonitas palavras, fáceis de dizer quando não se está nessa situação.

Ele estava escarnecendo, e ela continuou:

— O amor é algo que não pode ser comprado, e ilude muitas pessoas. Mas quando alguém encontra o verdadeiro amor, ele é irresistível. Ninguém é forte o suficiente para fugir dele.

Notou que, enquanto falava, ele tinha uma expressão cada vez mais cínica, e acrescentou, com raiva:

— O que o senhor está fazendo é condenar duas pessoas que realmente se amam a uma vida de infelicidade e solidão. E, o que é pior de tudo, cego pelas convenções sociais, está obrigando seu sobrinho a um casamento que só poderá ser desastroso.

— Se quer saber a verdade — replicou Mamoru Chiba —, não posso imaginar nada mais desastroso para ele do que casar-se com a senhorita.

Ele foi tão rude que Usagi achou difícil acreditar que um cavalheiro pudesse falar daquela maneira.

Ela levantou-se, apoiou-se no espaldar da cadeira e disse:

— Depois de tudo o que ouvi do senhor, só posso esperar que continue sendo preconceituoso, considerando-se totalmente investido da posição de juiz e júri ao mesmo tempo. Tudo o que posso dizer é que está sendo injusto e muito cruel.

Virou-se e saiu o mais rapidamente possível, indo refugiar-se na sua cabine.

Lá, sentou-se na cama e não pôde conter as lágrimas.

"Como é que, alguém pode ser tão horrível e tão vingativo com Minako?", perguntava-se.

Embora estivesse profundamente chocada e aborrecida com o comportamento da irmã, sabia que a razão para isso era simples: Minako estava apaixonada — total e completamente apaixonada.

Começou a rezar, com desespero na voz: "Por favor, Senhor Deus, não permita que ele consiga separá-los. Minako tem que desposar Motoki! Uma vez que eles estejam casados e felizes juntos, nada mais importará".

Por outro lado, temia que, mesmo depois de casados, Mamoru Chiba antagonizasse tanto com a irmã, que acabasse encontrando uma forma de separá-la do marido.

Mas estava se preocupando desnecessariamente, pois sabia que, se o casamento fosse oficializado, não haveria nada que ele pudesse fazer contra o fato consumado.

Talvez pudesse haver alguma base para invalidar o casamento, uma vez que Minako era menor de idade e precisava da autorização do pai.

Mas Usagi estava certa de que seu pai, que adorava Minako, não só se recusaria a interferir na decisão dela, como também seria solidário, porque ele mesmo tinha fugido com a mãe delas. "Tudo dará certo", pensou, "se eles tiverem tempo de se casar e ficarem no exterior, onde Mamoru Chiba não possa encontrá-los".

Sabia que Motoki Furuhata faria isso para evitar represálias por parte do duque de Dorset e de sua filha.

Usagi convenceu-se de que tinha de representar o papel de Minako até que ela estivesse segura.

Esse pensamento fez seu coração bater mais forte, porque Mamoru Chiba era a pessoa mais temível que ela já conhecera. Lembrou-se de que Umino Gurio tinha dito que lutaria por ela, bastando que lhe pedisse ajuda.

Mas isso certamente não seria fácil, pois não tinha a menor idéia de onde encontrá-lo, e ela mesma não sabia para onde a levavam.

De qualquer modo, pressentia que a viagem seria desagradável.

Não sabia por quanto tempo seria capaz de suportar a companhia de Mamoru Chiba, ouvindo-o acusá-lá dos pecados que Minako pudesse ou não ter cometido.

De uma coisa tinha certeza: Minako nunca havia precisado correr atrás dos homens, como ele insinuara.

Eles é que corriam atrás dela desde que ela era pouco mais do que uma criança. Sabia também que Minako tinha dito a verdade quando lhe contara que considerava todos os homens que lhe tinham proposto casamento completamente destituídos de interesse.

Sabia quando a irmã tentava enganá-la. Aliás, seu pai e sua mãe nunca haviam gostado de mentiras, e sempre tinham ensinado as filhas a dizer a verdade.

"Mamoru Chiba nunca viu Minako, assim, não imagina o quanto ela é encantadora", pensou Usagi. "O melhor que tenho a fazer é ser agradável e bem-educada, por mais rude que ele seja. Talvez, através de mim, ele tenha uma idéia diferente do caráter de Minako".

Achou que esse era um plano de ação sensato, pela simples razão de que, gostasse ele ou não, Minako ia se casar com seu sobrinho, e inevitavelmente eles teriam muitas oportunidades de se encontrar no futuro.

Sabia também que, embora Motoki Furuhata já fosse um homem rico, tendo herdado a propriedade do pai, esperava herdar também do tio, que era milionário.

Mas era provável que Mamoru Chiba vivesse ainda muito tempo.

Ela ainda estava admirada em ver que ele era um homem jovem, pois tinha esperado um velho, de cabelos brancos. A julgar por sua aparência, ele não podia ter mais que trinta e cinco anos.

"Suponho que ele deve ter sido muito esperto para ter atingido essa posição tão cedo na vida. Mas as coisas são diferentes no Oriente. Um inglês tem poderes lá que não teria na Inglaterra".

Esquecera-se de perguntar à irmã, mas estava claro que a mãe de Motoki devia ser irmã de Mamoru Chiba, mas bem mais velha que ele.

"Eu devia ter feito mais perguntas", disse para si mesma.

Por outro lado, nunca poderia imaginar que se encontraria na posição em que estava, sabendo que a felicidade de Minako estava em suas mãos, dependendo de como desempenhasse o seu papel.

"Nunca fui uma boa atriz, mesmo nas brincadeiras que fazíamos em casa".

Tinha que esperar até que Minako estivesse casada para revelar sua identidade.

De que valia ter sempre acreditado que era inteligente, se fosse incapaz de enganar Mamoru Chiba?

Passou-lhe pela cabeça a desconfortável idéia de que ele deveria ser uma pessoa perspicaz, porque nenhum homem podia ter tanto sucesso na vida se não tivesse o raro sexto sentido, essencial para lidar com os seres humanos de qualquer credo ou cor.

"Espero que ele não use sua perspicácia comigo", pensou. Mas tinha que ser agradável, pois, se pudesse mudar a impressão errônea que ele tinha de Minako, que só podia ter-se originado das mulheres que não gostavam da irmã ou a invejavam, as coisas poderiam ser muito melhores no futuro.

De repente, ocorreu-lhe que, se ela ia ficar no navio, iria precisar de roupas. Assim, era ótimo que seus raptores tenham se lembrado de trazer uma das malas de Minako.

Abriu-a e verificou que, além de estar repleta de belos vestidos, continha algo de que ela necessitava muito no momento: um casaco de inverno. Ela nunca tinha visto aquele casaco, e percebeu que se destinava a ocasiões importantes, pois era feito de cetim, todo debruado de pele.

Era uma pele muito cara, e Usagi nem tentou imaginar quanto custara.

Como era o único casaco que havia na mala, teria que usá-lo, a menos que quisesse ficar o tempo todo da viagem trancada na cabine.

Ele não combinava com o vestido que ela colocara para ir à igreja. Então, procurou na mala e encontrou um que certamente se destinava a ser usado com o casaco.

Felizmente, Minako e ela tinham mais ou menos o mesmo tamanho. Quando se olhou no espelho, não pôde deixar de rir de sua aparência, pois estava muito elegante para ser a prisioneira de Mamoru Chiba a caminho de alguma prisão.

Seu único chapéu tinha se estragado na viagem, mas ela encontrou uma longa écharpe de chiffon azul, que colocou na cabeça, dando a volta em torno do pescoço.

Esse turbante improvisado emoldurava seu rosto miúdo, dominado por olhos que agora pareciam muito grandes, porque ela estava muito magra e abatida.

Mas, na verdade, estava encantadora e um tanto etérea, embora não pensasse assim a respeito de si mesma.

Sempre fora de opinião que Minako era tão mais bonita, que não havia comparação possível entre elas.

Quando ficou pronta, saiu decididamente da cabine e foi para o convés.

Sabia que devia ficar a favor do vento, onde o sol e a frescura do ar pudessem fazer sumir não só seu cansaço, como também seu medo.

Fazia uns quinze minutos que estava no convés, quando surgiu uma sombra entre ela e o brilho do sol.

Olhou para cima e viu que Mamoru Chiba a fitava, surpreso.

Ele tinha trocado as roupas de viagem e estava usando agora uma jaqueta esportiva e um boné na cabeça.

Disse-lhe, numa voz bem diferente da que usara na entrevista anterior:

— Está confortável, srta. Tsukino? Usagi sorriu.

— O que está realmente me perguntando é se estou enjoada. A resposta é não. Sou uma boa marinheira. Adoro o mar.

Mamoru Chiba sentou-se a seu lado.

— Isso me surpreende. Pensei que a maioria das mulheres enjoassem com a primeira onda e ficassem deitadas na cabine, lamentando-se até, atingirem a terra.

— Já velejei com meu pai com tempo muito ruim — replicou Usagi. — E devo cumprimentá-lo, sr. Chiba, por seu novo iate. É muito bonito, e nunca viajei tão velozmente no mar como estamos fazendo agora.

Pensou, com um sorriso divertido, que eles estavam conversando como duas pessoas que tivessem acabado de ser apresentadas numa regata social, em vez de como capturador e cativa.

— Eu mesmo estou muito contente com o iate, e, se estiver interessada, gostaria de lhe mostrar a embarcação. Introduzi muitas inovações desconhecidas dos armadores ingleses.

— Gostaria de ver. Acho também que Leão Marinho é um nome muito apropriado.

Quando se sentaram para o almoço, Usagi teve vontade de rir da maneira como ambos estavam se comportando.

Pressentia que ele tinha raciocinado e concluído, como ela mesma, que era um absurdo continuarem discutindo, já que deviam permanecer juntos por algum tempo.

Ele a tratava agora como se ela fosse uma convidada, e Usagi agia da forma mais agradável possível, não se esquecendo de elogiar tudo o que ele lhe mostrava.

Tinha o cuidado, no entanto, de não olhar diretamente para ele mais do que o necessário.

Se o fizesse, ele poderia perceber que ela não gostava dele, e morria de medo de que descobrisse que estava fingindo.

Se Mamoru Chiba tivesse um sexto sentido, como ela temia, seria muito fácil para ele ler seus pensamentos, bastando-lhe para isso olhá-la nos olhos.

"Uma pessoa pode disfarçar seu tom de voz e torná-la impessoal", pensava. "Mas creio que é difícil impedir que a verdade brilhe no fundo do olhar".

Durante o almoço, pediu a Mamoru Chiba que falasse sobre o Oriente.

— Lembro-me de que Motoki me disse que o senhor esteve na índia — disse ela.

— Foi onde comecei, quando tinha menos idade do que meu sobrinho tem agora. Primeiro, estive na Companhia das índias Orientais, depois fiquei por conta própria.

— Como se tornou tão rico e poderoso?

— Admito que seja rico, mas não necessariamente poderoso — replicou ele com um sorriso.

— Está sendo modesto. Todos me assustaram dizendo-me que era muito poderoso.

— Tem medo de mim? Não demonstra isso.

— O que queria que eu fizesse? Que me ajoelhasse aos seus pés e pedisse a sua clemência?

Falou em tom de brincadeira, como se estivesse falando com Minako, e notou a surpresa nos olhos dele.

Então, como estava ansiosa para não lhe desagradar, disse depressa:

— Poderia comportar-me como uma penitente, se é isso o que quer, mas tenho certeza de que, depois do primeiro momento de satisfação, ficaria aborrecido.

Mamoru Chiba não se conteve e riu.

— A senhorita é imprevisível.

— É um alívio ouvi-lo dizer isso, e ao mesmo tempo um elogio, porque para mim não existe nada mais monótono do que saber exatamente o que as pessoas vão fazer ou dizer, e acho que pensa como eu.

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, deu-um suspiro e continuou:

— O senhor é um felizardo, um grande felizardo! Já viajou pelo mundo todo, coisa que eu adoraria fazer. Conheceu pessoas de todas as nacionalidades e conviveu com elas, enquanto eu simplesmente li a respeito disso.

Mais uma vez Mamoru Chiba ficou admirado.

— Nos meus anais não consta que a senhorita seja uma leitora.

— Agora já sabe que sou. E espero que tenha alguns livros a bordo,

— A propósito, tenho alguns na minha cabine, mas duvido que sejam do seu gosto.

— Mais uma vez está se deixando levar por ouvir falar, ao invés de confiar na sua própria observação — disse Usagi sem pensar.

Depois achou que tinha cometido um erro, pois estava se revelando demais.

Mas ele riu e respondeu:

— Se está interessada na Índia, tenho um bom número de livros sobre esse país misterioso e, para mim, muito interessante.

Ela tinha feito perguntas inteligentes, e assim o almoço decorreu de forma muito mais agradável do que esperava, e pensava que ele sentia o mesmo.

Quando eles terminaram a excelente refeição, que fora servida por dois camareiros, Mamoru Chiba disse:

— Terei muito prazer, em lhe mostrar a minha biblioteca, mas para onde estamos indo existe uma muito maior, embora eu desconfie que alguns livros estão ultrapassados.

— O senhor não me disse ainda para onde estamos indo — replicou Usagi. — Estava com medo que fosse a ilha do Diabo, ou alguma prisão de onde não se possa fugir.

— Não haverá fuga — assegurou Mamoru Chiba firmemente. — Mas creio que a senhorita não a descreveria como a ilha do Diabo.

Levantaram-se da mesa, desceram a escada do convés e passaram pela cabine de Usagi, dirigindo-se à popa da embarcação.

Chegaram à suite principal, que era, como ela esperava, muito luxuosa.

Era uma cabine grande, que continha a tradicional cama de quatro colunas do capitão, e lindas cortinas de veludo vermelho. Era uma característica de Mamoru Chiba a combinação de luxo com bom gosto.

Ao lado da cabine, havia uma saleta, com valiosos quadros de grandes mestres, representando navios. Uma das paredes estava inteiramente coberta de livros.

O sofá e as poltronas eram revestidos de couro vermelho, para combinar com as cortinas das vigias. No chão, havia um tapete grosso.

Como se estivesse respondendo a uma pergunta dela, Mamoru Chiba disse:

— Habituei-me às cores vivas, e sinto falta delas quando não as tenho por perto.

— Posso entender isso, pois sempre acreditei que a cor estimula a mente e pode nos trazer energia espiritual.

Depois de falar assim, ela se virou instintivamente na direção da prateleira de livros, por isso, não viu o olhar de admiração que ele lhe lançara.

Havia um grande número de livros, e Usagi gostaria de ter tempo para ler todos.

Eram livros sobre a índia e outros países do Oriente.

Havia também livros de filosofia, que ela tinha certeza de que apreciaria, e também um bom número de livros de poesia, para sua surpresa.

Lendo os pensamentos dela mais uma vez, Mamoru Chiba se adiantou:

— Se está comparando o amor sobre o qual falamos esta manhã com o amor cantado pelos poetas, vai ver que está enganada.

— Por quê?

— Porque os poetas falam de um amor idealizado, que alguns de nós procuram mas nunca encontram. É uma emoção que não se encontra nos salões de baile, nem entre aqueles que só se importam com posição e dinheiro.

Ele voltara a falar naquele tom de desprezo agressivo, que usara na primeira conversa que tinham tido a bordo.

Usagi não respondeu, preferindo tirar um livro da prateleira e abri-lo.

Era A Canção do Ultimo Menestrel, de sir Walter Scott, e ela virou as páginas até encontrar o que procurava. Então leu, pausadamente:

"O amor rege a corte, o campo, as matas E os homens na terra e os santos no céu Pois o amor é o paraíso, e o paraíso é o amor".

Mamoru Chiba ficou em silêncio.

Afastou-se dela e parou diante da vigia para olhar o mar. Usagi fechou o livro e colocou-o debaixo do braço. Depois pegou outro sobre a índia.

— Posso levar estes dois? — perguntou. — Prometo cuidar bem deles.

— Sim, é claro — respondeu ele.

Ele não olhou para ela, e Usagi percebeu que estava pensando em outra coisa.

Ficou olhando na direção dele por alguns instantes e depois disse:

— Imagino que queira ir para a ponte, a fim de comandar o navio. Devo ir para minha cabine para não atrapalhá-lo?

— Pensei que quisesse ficar no convés.

— Eu gostaria, se isso não lhe causasse problemas.

Ele não respondeu, e ela concluiu que ele concordara. Assim, não deixou o salão sozinha.

Quando colocou os livros sobre a cama, disse a si mesma com um sorriso que ao menos tinha conseguido fazê-lo pensar em Minako de outra maneira.

Tinha certeza de que ele esperava uma explosão temperamental, ou então lágrimas, amuos ou frenéticos apelos para que ele a devolvesse ao lar.

"O que tenho de fazer", disse Usagi a si mesma, "é garantir que, quando ele finalmente ficar sabendo que não sou Minako, já tenha mudado completamente de idéia em relação a ela".

No momento, isso lhe parecia muito difícil.

Não se esquecera do modo como Mamoru Chiba a acusara quando se haviam defrontado pela primeira vez, e sabia que não era o tipo de homem que mudasse de opinião de uma hora para outra.

"Ele é inflexível, implacável e duro como o granito", pensou ela.

Mas, por incrível que parecesse, lia poesia e falara de "um amor ideal que alguns de nós procuram".

Era uma coisa estranha, a menos que tivesse procurado o amor e nunca o tivesse encontrado, ou o tivesse encontrado para depois perdê-lo.

Talvez fosse essa a chave para o enigma de Mamoru Chiba.

"Creio que amor ideal é o que Minako sente por Motoki Furuhata".

A tarefa que tinha diante de si era convencer, não a si mesma, mas a Mamoru Chiba, desse fato.

No almoço, eles conversaram sobre vários assuntos impessoais. Na hora do jantar, o mar estava bem mais violento.

— Fico contente de que não seja marinheira de primeira viagem, senão teria que ficar instruindo-a para não cair e se machucar — disse ele quando terminaram a refeição.

— Não pretendo contar vantagem, mas já vi um mar bem mais revolto do que este.

— No entanto, creio que seria prudente ir para a cama e ler seus livros. Devemos chegar amanhã em torno do meio-dia, e o mar deve se acalmar só no final da viagem.

Usagi ficou quieta, esperando por maiores informações, mas ele se calou, e ela se levantou, balançando um pouco, e deixou o salão.

Ele era tão autoconfiante, tão completamente controlado, que constituía um enigma difícil de decifrar.

Estava muito elegante no jantar, com suas roupas de noite.

Mas, embora elegante, vestia-se de forma descontraída, muito diferente dos homens que Usagi encontrara na festa de Minako, cujos colarinhos eram tão altos que dificultavam o movimento do pescoço.

Ele era tão bonito, tão imponente, que inegavelmente se sobressairia entre os outros homens, em qualquer lugar onde estivesse.

"Talvez seja a sua personalidade", raciocinou ela.

Recordou-se de uma vez em que conversara com o pai sobre essa qualidade magnética da liderança.

— O que leva os homens a seguirem um general como o duque de Wellington ou um almirante como lorde Nelson? — perguntara ela.

— Eles têm uma aura em torno de si — respondera sir Kenji. — E também uma força, um poder difícil de ser descrito, algo que emana deles e que atrai irresistivelmente os outros.

Agora, pensando em Mamoru Chiba, sabia que ele tinha o mesmo poder, e era por esse motivo que as pessoas tinham medo dele ou o consideravam o Rei dos Demônios ou o Bicho-Papão.

Depois, com um sorriso, abriu o livro que ele lhe emprestara, pensando que, pôr mais estranha e assustadora que fosse a sua atual situação, tinha os seus momentos de divertimento.