Capitulo 3 – O tempo passa...

" O tempo passa. Mesmo quando isso parece impossível. Mesmo quando cada tique do relógio faz sua cabeça doer como se fosse um fluxo de sangue passando por uma ferida" – Bella, New Moon.

Quatorze anos se passaram para aquelas duas crianças e seus novos pais, mas pra mim? O tempo não fazia diferença. Mas, os cinco primeiros meses foram o que marcaram meu peito – ou algo que pulsasse dentro dele – a fogo. Para sempre, diria.

Edward, apesar de ainda ter apenas 6 anos, amadurecera como nenhuma criança de sua idade pode fazer. Apesar de todo carinho e atenção vindo de seus padrinhos, eu poderia afirmar com certeza que seu coração corroia toda noite de magoa ao lembrar-se dos gritos agoniados de sua mãe dando a luz a Alice ou os lamentos de seu pai. Esses sim, o torturava com todo o furor.

Todas as noites era a mesma rotina, porem naquela, em que a lua cheia estava coberta de nuvens e a casa estranhamente silenciosa, algo mudou. As luzes já tinham sido apagadas quando eu comecei a sentir a dor que me envolvia todas as noites da cadeira de balanço que costumava ficar no escritório de Carlisle enquanto ele estudava ou simplesmente lia algum romance.

De uma forma – se é capaz de alguma palavra humana descrever – quase que latejante, as ondas de tristezas me atingiram vindo diretamente de Edward. Pus-me de pé em um pulo deixando rapidamente a imensa biblioteca do térreo e subindo as escadas rapidamente até o quarto dele.

-Edward. – eu o chamei assim que entrei no cômodo e aquela ânsia típica me atingiu como uma bala. Seus olhos apertados e seus lábios comprimidos não se alteraram com minha presença, não ainda.

-Edward. – insisti como se ele apenas me ignorasse. – Seja forte, amigo.

Ele maneava a cabeça enquanto a dor de seu peito aumentava. As mãos presas na ponta do travesseiro mostravam a força que ele exercia pra afastar aquelas imagens.

Acariciei os cabelos cor de cobre, sentado ao seu lado na cama.

-Fique calmo. – continuei a sussurrar. – Vamos, você consegue. – incentivei.

Eu ainda sentia aquele embrulho em meu abdômen e o imenso nó em minha garganta. Intensifiquei as ondas de energia que eu acreditava ser capaz de emanar, tentando a todo custo lhe tirar daquele pesadelo.

Aos poucos, os nós de seus dedos esbranquiçados voltavam ao tom normal de sua pele, soltando assim a fronha do travesseiro. Os olhos, antes apertados, se suavizaram.

-Muito bem, Edward. – sorri. – É incrível... – disse encantado.

Era interessante como aquele garoto em especial parecia me ouvir. Todos os que eu tentava influenciar com a espécie de dom que eu tinha - o efeito se não suave, era quase nulo – nada se comparava com ele. Era como se ele absorvesse cada onda de tranqüilidade que eu emanava para ele com total sede e desespero.

Edward parecia ter entrado em um sono profundo, como sempre. Porem a dor ainda chegava a mim em ondas – mesmo suaves – de tristeza.

Eu por alguns segundo fiquei confuso, até me virar e ver o berço da pequena Alice ali, a poucos metros de distancia da cama de Edward. Aproximei-me devagar do berço e ao debruçar-me sobre ele, a imagem que se seguiu realmente foi arrepiante.

A pequena criança estava com o olhar fixo em mim. Seus olhos, carregado de sofrimento me fitavam intensamente, como jamais vira em minha existência entre os humanos. Suas bochechas delicadas escorriam lagrimas, caladas e solitárias.

-O que foi? – perguntei me apoiando no berço e passando meu indicador pela lagrima que escorria por sua bochecha rosada. Em vão, diria.

Meus dedos tocaram a pele macia da criança, porem nenhuma mudança. Nenhuma alteração. Nenhuma resposta. Apesar dela olhar intensamente em meus olhos, eu não existia.

A imensidão verde contida ali, nos pequenos olhos, se assemelhava aos olhos de Edward. Tão delicada.

O que se seguiu porem, me aliviou. Assim como eu senti a magoa que ela emana, tão suave e tênue, Esme também sentiu. Com seu hobbie amarrando no torso, ela entrou pela porta com uma expressão preocupada e se debruçou ao meu lado no berço.

Esme limpou as lagrimas com os dedos delicados e aconchegando-a em seus braços. Ali, naquele momento, estabeleci a ligação mais estranha com um humano.

Eu tinha minhas mãos apoiadas nos ombros delicados de Esme enquanto ela cantarolava para Alice em uma cadeira ao lado do berço rosado. A menina, que resistia bravamente ao sono, me olhava.

Era como se ela realmente me enxergasse. Ou talvez, era o que eu gostaria de acreditar naquele momento, em que quase adormecendo, ela sorriu em minha direção.

-Eu irei te proteger. – sussurrei ao lado do pescoço de Esme, próximo do ouvido de Alice. – Você não ira sofrer... Eu prometo, Alice!

O tempo passou por mim como uma brisa. Imperceptível, se não fosse pelas mudanças notáveis dos humanos.

Edward agora, com vinte anos completos, estava noivo. Conheceu Isabella Swan, ou Bella como gosta de ser chamada, aos dezessete. A jovem moça de cabelo castanho e olhos cor de chocolate trouxe a ele a alegria de viver. Diante de toda a magoa imposta a Edward pela vida, Bella foi exatamente o que ele precisava pra superar a perda de seus pais. Estudando medicina, assim como seu padrinho, ele finalmente compreende os motivos da morte. O que eu ainda não compreendi.

Era engraçado o jeito dos dois. Bella era tímida, apesar de chamar bastante atenção por onde passa. Talvez seja isso o que encantou Edward. As bochechas constantemente coradas realmente faziam seus olhos verdes brilharem. Finalmente ele estava feliz.

Alice também crescera. Agora com quatorze anos, estudava literatura com Esme nas horas vagas do colégio. Sua beleza, apesar de infantil, era estonteante. Os cabelos negros não passavam do ombro e apontavam por todos os lados. A face pálida contrastava com as delicadas esmeraldas que lhe ornamentava o rosto. Seus lábios eram avermelhados e cheios, proporcionais ao seu semblante. Alice era agitada. Inquieta. E extremamente engraçada. A energia que lhe envolvia era tranqüila, alegre. Eu gostava da companhia dela. Claro, nosso laço só cresceu através dos anos.

Edward também era muito ligado a Alice e, às vezes era mais fácil, através dele, protegê-la.

Após ciente do que aconteceu com os pais, Alice pareceu aceitar melhor minha presença. Assim como aquela noite em que seus olhos ficaram fixos em mim, eu fiquei marcado em sua memória.