N/A: Nao me matem
Capitulo 4
Ben deitou-se no chão da sala das Mil Cachoeiras, mãos cruzando-se atrás da cabeça e olhos fechados. Nunca pensou que um dia voltaria a essa sala. Mas mesmo que tivesse conseguido entrar, a sensação de desconforto não o deixava descansar, nada mudaria isso. Melhor não pensar nisso. Abriu os olhos assustando-se ao ver a lâmina azul de um sabre perigosamente perto de seu nariz. Rolou para o lado e se levantou.
- Garoto. - Reconheceu seu "eu adolescente" parado em frente a ele.
- Não... - Obi-Wan estava tremendo incontrolavelmente. - Você não sou eu... Não... Não pode ser.
Merda, era isso que Ben queria evitar. Com certeza agora o garoto ia ter um colapso nervoso ou algo do tipo.
- Olha, garoto... eu...
- Eu tentei tão desesperadamente... pra...pra você estragar tudo... - O padawan cuspia as palavras rapidamente, emendando uma frase na outra. - Não pode... não
- Eu sei que tentou. Mas... não é suficiente... um dia...
Obi-Wan parara de ouvir no "suficiente". Nunca é suficiente, não importava o quanto ele se esforçasse, o quanto ele treinasse e estudasse, nunca, nunca era suficiente. A expressão de desapontamento no rosto de Qui Gon durante da reunião do Conselho não deixava-lhe em paz por um minuto sequer. Desde o minuto que ele o aceitara como padawan, ele lutou tanto para ser digno da confiança de seu mestre, para provar que valia a pena treiná-lo, que ele não iria para o lado negro como Xanatos... que ele ia ser perfeito, o padawan que Qui Gon tanto desejara e merecia. Ele abriria mão de sair com os amigos e até de suas noites de sono para meditar, praticar katas e até resolver todos os exercícios de seus professores, tudo para receber a mão do mestre em seu ombro, num gesto de aprovação... tudo para ouvir as palavras tão desejadas: "Estou orgulhoso de você, padawan"... tudo... para nada. Tanto trabalho e tanta dedicação despedaçados em poucos segundos e sem a menor misericórdia pelo sarcasmo e desprezo de Ben. Não, não, não, não. Não podia ser, simplesmente não era possível.
- Você...Não...Sou...EU! - Gritando a última palavra, Obi-Wan girou seu sabre de luz, atacando o outro, que conseguiu desviar no último instante.
Ben conseguiu conter o próximo ataque ao segurar-lhe as mãos do adolescente com as suas, impedindo que fosse cortado ao meio.
- Pare com isso! - Gritou, tentando conter o golpe. Vendo que de uma maneira totalmente inexplicável, suas forças se igualavam, Ben saltou pra trás. Mal chegou a tocar o chão e Obi-Wan apareceu de novo em sua frente, agarrando-lhe o pescoço e tacando-a contra a parede.
Ele estava matando a si próprio, literalmente. Ben pensou na maldita ironia de tudo isso e com uma das mãos tremendo alcançou seu sabre de luz, ativando-o. Foi a vez do jovem recuar. Isso estava errado, tão bizarramente errado que o Jedi não sabia por onde começar. Bom, que tal pelo fato de que nessa época ele não possuía toda essa força nem essa velocidade? E tinha algo terrivelmente diferente, errado na Força ao redor do garoto. As pessoas dizem que forma uma espécie de aura em volta a pessoa, adquirindo uma cor característica que tem a ver com a sua personalidade. A de Qui Gon falam que é verde, de Mace, azul, de Yoda, um amarelo fortíssimo mas verdade seja dita, Ben nunca ligou para essas coisas. Mas hoje a que rodeava seu "eu adolescente" era escura, preta. Quase como... OH, MERDA!
- PARE! - Gritou outra vez em vão.
Medo leva a raiva, que leva ao ódio, que leva a escuridão. Simples assim. Então por que mesmo que ele não tinha pensado que poderia acabar traumatizando a si próprio com seu jeito de ser? Voltara ao passado simplesmente para fazer-se ir para o lado negro? E pelo jeito como as coisas estavam indo, não demoraria muito para alguém sentir uma perturbação na Força e descobrir o que estava acontecendo. Ele tinha que acabar logo com isso. Mas como, era uma boa pergunta. O lado negro te fornece poder de uma maneira rápida e fácil. Xingando a tudo e a todos, Ben girou em um pé só e pulou com o sabre de luz na mão, partindo para o ataque, sendo bloqueados todas as vezes. Seus sabres se chocaram de frente outra vez. Ben recusava-se a olhá-lo nas olhos com medo do que poderia captar neles. O sabre de um bloqueava o do outro e os movimentos de ambos os dois estavam restritos. Obi-Wan parecia estar usando apenas a força física nesse momento e Ben tiraria proveito disso. Ele o faria ouvir.
- Então Qui Gon estava certo o tempo todo, huh?
- Você não sabe nada sobre o Qui Gon. - A resposta foi rápida e saiu entre os dentes.
- Ele estava certo, você é que nem o Xanatos.
- Não. - Obi-Wan balançou a cabeça, olhos todos vermelhos.
- Você o decepcionou.
- Não... - Ele apertou os olhos quando as lágrimas ameaçaram cair.
- Dois padawan que foram para o lado negro da Força, eu sinto pena dele. - Ben sabia que era uma estratégia arriscada, podia acabar deixando-o com ainda mais raiva mas ele tinha que tentar.
- NÃO! - Obi-Wan gritou e Ben pensou que seria atacado com mais força nesse momento mas o adolescente deixou-se cair no chão. Cobriu os olhos com os dois punhos cerrados, soluçando e depois abraçou as duas pernas.
Ben mordeu os lábios até sentir gosto de sangue. As emoções que Obi-Wan procurava desesperadamente liberar na Força eram sufocantes, agonizantes. Mas o que ele poderia fazer agora?
- E-eu...usei o...o... - Obi-Wan começou, mas foi interrompido pelo outro, que procurava esconder a sua incredulidade.
- É...
- Então eu sou... e-eu...eu sou...
- Humano. - Ben levou uma das mãos aos cabelos. - E como tal você está sujeito a ter emoções... boas e más.
- Mas...não, não Jedis. Jedis controlam-nas.
- Controlar significa lidar com elas, não retê-las do jeito que você estava fazendo... porque um dia elas explodem, como aconteceu hoje.
- Eu não posso ser um Jedi. - Obi-Wan afundou mais ainda a cabeça nos joelhos e cerrou as mãos.
- Você pode e se tornará. Eu sou a prova. - Ben estendeu a mão para seu "eu adolescente" - Hey. - Estalou os dedos, chamando-lhe a atenção.
O padawan levantou a cabeça relutantemente e olhou com estranheza para o gesto do outro.
- Você nunca... nunca fica...hum...tentado?
- Sempre.
- Mas então...
- Olha, garoto. Usar o lado negro não significa ir para o lado negro.
- Eu podia ter te matado.
- Mas não matou.
- Você me parou.
- Não me lembro de ter te desarmado.
- Tudo o que você falou...
- Não teria a menor importância se você não conseguisse se controlar.
- Eu posso fazer de novo.
- Mas não vai.
- Como pode ter tanta certeza?
- Você sabe que é errado.
Agora Obi-Wan soltou uma risada, mas graças aos soluços, ela se pareceu mais com uma tosse.
- Saber não me impediu de usar.
- Claro que impediu. Você parou.
- Mas eu poderia não ter parado.
- Mas você parou! Concentre-se no aqui e agora! - Ben gritou as palavras repetidas por Qui Gon inúmeras vezes nos anos que passou ao lado do mestre. - Como você está se sentindo agora?
- Envergonhado.
- Isso é bom.
- Frustrado, com raiva... - Ele continuaria a dissertar se não tivesse sido interrompido pelo jedi a sua frente.
- As mesmas emoções que você estava sentindo a pouco, não?
Obi-Wan assentiu com a cabeça.
- Nós não podemos controlar as emoções, garoto, mas podemos controlar os nossos atos. Nós nascemos com um lado bom e um ruim, mas também com o poder de escolher qual caminho seguir. É isso que nos diferencia de um robô.
- Mas Jedis não...
- O que seriam dos Jedis sem misericórdia, compaixão, desejo de proteger...? - Mudou rapidamente a linha de raciocínio. - Por que você luta?
- Para defender a República.
- E por que você quer defender?
- Porque... - Obi-Wan abriu a boca para responder, era tão óbvia a resposta, mas mesmo assim... ele não conseguia encontrá-la.
- Nós protegemos a República porque queremos paz. - Ben respondeu. - Paz não só para as pessoas que conhecemos, mas para todos os outros da galáxia. Queremos que elas vivam para desfrutar de felicidade e saúde. Se isso não é amor, eu gostaria muito de saber o que é.
O padawan engoliu a seco.
- Mesmo assim eu vou ter que reportar ao Conselho.
- Claro que não. Por que iria?
- Eu... eu fui para... - Corrigiu-se imediatamente ao receber um olhar de reprovação de Ben. - Eu usei o lado negro. Você viu.
- Não, não vi.
- Mas...
- Eu não vi você fazer nada. - Ele respondeu, pronunciando cada palavra vagarosamente. - Agora vai aceitar a minha mão ou não? Ela já está ficando dormente. - Fez uma careta procurando suavizar o clima.
- Eu ainda não confio em você. - O padawan desviou o olhar.
Ben suspirou fundo e passou uma das mãos pelos cabelos, desembaraçando-os.
Do lado de fora da Sala das Mil Cachoeiras, dois mestres Jedi estavam parados, atentos a conversa.
- Ir, nós devemos. Resolvido, tudo está. - Yoda virou-se de costas e começou a andar, mas Mace o interrompeu.
- Mestre Yoda... Padawan Kenobi, ele... Nós precisamos conversar com ele. O que aconteceu foi muito sério.
- Repetir minhas palavras, não me faça.
Mace Windu suspirou fundo. O assunto estava longe de estar encerrado. Ben podia não ligar para o que o Conselho pensava mas isso não tornava a atitude que Obi-Wan tivera a minutos atrás menos preocupante. Previdências deviam ser tomadas. E ninguém, principalmente o Mestre Yoda deveria ignorar tais fatos sem fornecer uma boa explicação. Escutar charadas de seu amigo já se tornara um hábito, mas não o tornava menos irritante.
- Tenho que discordar, mestre... - Windu começou a falar, já entre os dentes. Ele faria Yoda ouví-lo.
- Como, nesse momento, você se sente?
A pergunta o pegou todo desprevenido.
- O...o quê?
- Frustrado por achar que nunca é ouvido, com raiva pelo mesmo motivo e... - O mestre Jedi fechou os olhos. - E cortar a minha cabeça com seu sabre de luz, você quer?
Mace foi pego de surpresa pelas afirmações do outro, que parecia ter lido sua alma completamente. Procurando esconder o embaraço, ele respondeu:
- Eu não faria...
- Assim como Padawan Kenobi. - E com essas exatas palavras, Yoda retomou seu caminho, distanciando-se cada vez mais de Windu, que suspirou fundo, procurando acalmar-se.
A vida é uma jornada por conhecimento. Os Jedi ainda têm muito que aprender, começando por ele mesmo, pensou enquanto caminhava para seu quarto. Olhou para o céu cheio de estrelas de Coruscant. Estava uma ótima noite para meditar.
Continua...
N/A: Ok, não me matem. Eu tive que fazer isso, primeiramente porque, sim, o Obi-Wan ia surtar, não tinha como não. Mas eu concordo com o Ben nessa interpretação. Fazer algo de ruim não o torna uma pessoa ruim. Afinal somos humanos e sujeitos a erros, mas também devemos aprender com eles para não repeti-los. O Obi-Wan na minha humilde opinião é uma pessoa de caráter muito forte e, uma vez aprendida a lição... nunca mais. Mas sintam-se livres para discordar comigo. Adoro filosofar sobre o código Jedi. Quer dizer, acho que ele está terrivelmente certo e errado ao mesmo tempo. Tipo, eu entendo porque o amor não é encorajado, realmente entendo, mas não é possível reprimi-lo! Como você pode chegar a uma pessoa e falar que ela está proibida de amar seu amigo, ou seu padawan/mestre? E além do mais, por que uma pessoa arriscaria a própria vida se não for por amor (a justiça, a paz...)? Entendem o que eu digo? Acho que para ser um Jedi você precisa considerar todas essas possibilidades e ter coragem e força para tomar a decisão correta e não a mais fácil. É... complexo, é preciso muita meditação. Tá vendo, o besta do Anakin foi transar com a Padmé ao invés de meditar e deu nisso ¬¬ Tá, parei
Próximo capítulo teremos mais interação entre o Obi-Wan e Ben, que está tentando convencer o primeiro de que eles são realmente a mesma pessoa. Algo me diz que não vai ser fácil. E Qui Gon? O que acontece se ele pegar os dois juntos conversando? Eu tenho pena dos meus Obi-Wans (sim, estou incluindo o Ben). Mas eu sou sádica, acostumem-se. ;D
