Capítulo 4 - Mudança de Planos
Por: Rosalie
O cheiro da manhã começou a invadir a casa lentamente. Após os poucos dias ali, tinha descoberto que o melhor lugar para se passar uma noite insone era a cozinha. De onde estava sentada, tinha uma visão direta da janela que ficava acima da pia e uma boa visão da tevê que ficava sobre a pia, um pouco mais à direita. Levantei os olhos para admirar os primeiros raios da manhã que começavam a despontar no horizonte. Passar a madrugada em claro naquela casa minúscula e silenciosa era uma experiência torturante. Por mais detestável e inconveniente que a presença de Jacob fosse, esperava ansiosamente por ter algo o que fazer, alguém com quem conversar (ou implicar)... movimento pela casa. Barulho. Os únicos sons que quebravam o silêncio aterrador da casa eram a respiração suave e coordenada de Renesmee, que dormia no meu quarto, e o ronco forte e pesado de Jacob, na sala ao lado. Parecia que ele havia engolido um trator. Era algo realmente impressionante. Mas era aquela sinfonia desajeitada e absurdamente humana que servia de fundo para as minhas noites insones. Ouso dizer que já estava me acostumando com aquele som desagradável, que não deixava de ser uma forma de companhia. Era melhor do que nada.
O ronco de trator cessou, sendo substituído por um longo suspiro. Já sabia o que aconteceria logo em seguir... os humanos eram terrivelmente previsíveis. Logo ouvi o pés tocarem pesadamente o chão e os passos sonolentos guiarem o corpo pesado e barulhento até a cozinha.
- Só vou tomar um banho... antes de sair. – ele disse, de uma forma tão educada que me surpreendeu. Me virei instintivamente. Ele estava encostado no vão da porta. Os braços musculosos cruzados sobre o peito nu. A única coisa que usava era uma calça de moletom velha e surrada. Senti uma raiva momentânea e me virei novamente. Jacob era muito bonito. Se ele simplesmente soubesse se arrumar ou se portar como gente... e fosse mudo... e não fosse um lobo fedorento, claro...
Percebi que ele não se moveu um centímetro. Ainda podia sentir os olhos cravados nas minhas costas. Me virei novamente e notei algo que não havia notado antes; os olhos, negros e opacos, estavam murchos e levemente inchados. O semblante dele era terrível. Era como se ele não dormisse ou comesse há dias.
- Não acha melhor fazer isso amanhã?
Perguntei, depois de um minuto de hesitação. Jacob já havia percorrido grande parte do Alasca correndo... sem descanso. Parecia que o tal do Horace havia evaporado no ar.
- Não temos tempo.
- Mas não temos pistas. – retruquei. – Não adianta correr por aí como uma barata tonta... é perder mais tempo ainda.
Ele permaneceu em silêncio, ponderando. Ouvi os passos pesados marcharem para dentro da cozinha e a enorme silhueta aparecer na minha frente. Até para mim, Jacob era muito alto.
- O que você tem em mente, sanguessuga? – ele sorriu ironicamente, cruzando os braços. Lancei-lhe um olhar fulminante. Cachorro idiota. – Não tenho medo de você, mas se te incomoda tanto... O que tem em mente, Rosalie?
Não sei porque aquilo pareceu um ultraje ainda maior. Pude me imaginar torcendo o pescoço dele até desgrudar do resto do corpo... aquilo pareceu maravilhosamente apropriado.
- Não me incomoda, imbecil. – respondi, friamente. Ele alargou o sorriso sarcástico, mas não disse nada. Um silêncio constrangedor tomou conta da cozinha. Por um momento havia me esquecido do motivo dele estar ali, mas o sorriso irônico incansável repousado sobre mim me fez voltar à realidade. Jacob era a espécie de pessoa que tinha o dom de levar alguém à loucura. Conseguia ser tão irritante a ponto de ser intragável. E fazia aquilo de forma consciente. – Estive pensando... não pegaremos Horace. – Ele me encarou, perplexo. – Não percebe? Ele é vidente, está fugindo de nós... talvez esteja nos testando. Sabe que vamos atrás dele, e não está facilitando as coisas.
Ele não disse nada, ficou pensando, absorto.
- Se ele não quer que o peguemos...
- Não o pegaremos.
- Mas então...
- Ele já sabe que nós estamos procurando por ele. Não adianta persegui-lo, ele sempre estará a nossa frente. Não é assim...
- Que se captura um vidente. – ele completou dessa vez, pensativo. Arregalei os olhos, surpresa, mas ele pareceu não notar. – Mas então o que faremos?
- Não sei. – respondi, com sinceridade. – Mas eu estive pensando... se ele realmente não quisesse que o pegássemos...
- Não ficaria se movimentando em círculos pelo Alasca. Também pensei nisso.
Permitimos que o silêncio se impusesse. Os olhos perdidos, encarando o vazio, enquanto centenas de pensamentos passavam zunindo pelas nossas cabeças. Era uma sensação de completa impotência, estar acorrentado a uma situação da qual você não pode fazer absolutamente nada. Chegava a ser desesperador. Jacob levantou os olhos, que agora atravessavam o vazio e focalizavam em mim.
- O que foi? – perguntei, percebendo que ele não falaria nada a não ser que eu perguntasse.
- Não posso ficar aqui parado.
- Não vai adiantar nada ir atrás dele... A não ser...
- A não ser...
- Bom... eu não sei se realmente vai dar certo. Na verdade, eu não acho que vá dar certo.
Ele me encarou, impaciente.
- Se fossemos os dois...
- Não.
Arqueei a sobrancelha, admirada.
- Vai me deixar terminar, idiota? Eu não sei se você percebeu, mas eu não estava pedindo a sua permissão.
- Mas Nessie...
- Eu pensei nisso. Ela pode ficar na casa de Victor por algumas horas, talvez um ou dois dias. Tenho certeza que Mary não se importaria de cuidar dela.
Percebi o rosto dele se contorcer lentamente numa expressão... maníaca. Achei que ele explodiria em risadas histéricas a qualquer segundo.
- De jeito nenhum! – ele murmurou, socando a bancada da mesa.
- Tudo bem, cachorro. – respondi, vencida, empurrando a cadeira para longe da bancada e me levantando. - Eu não ia falar nada mesmo. Como eu disse, acho que isso não daria certo.
- Talvez... – ele disse em voz alta, fazendo com que eu me virasse antes de sair da cozinha. – Talvez dê... mas eu não quero Ness na casa daquele sanguessuga. – ele falou a última frase tão rápido que eu quase não entendi. – Você pode ficar aqui com ela. Leah e Seth estão a caminho mesmo... eles podem...
- De jeito nenhum!
Foi a minha vez de protestar, irritada. Eu tinha as idéias e ele saía pra pôr tudo em prática enquanto eu ficava presa dentro daquela casa?! Ele me encarou, confuso. Percebeu que eu não mudaria de idéia, e não mudaria mesmo.
- Talvez Leah e Seth possam ficar com ela...
- Não. Nunca. Além do mais, é muito mais seguro com Victor.
- Seguro com um sanguessuga? Um Volturi? Você só pode estar brincando...
- Deixa de ser um imbecil por um segundo, e pensa. Ninguém ousaria atravessar os muros de Victor para pôr as mãos em Ness. E ninguém suspeitaria que ela estaria lá.
- Mesmo assim... Não confio num Volturi.
- Então confia em mim. – percebi um pouco atrasado que essas palavras não haviam soado muito bem. – Olha, eu jamais meteria Nessie numa enrascada. Perderia o meu pescoço antes disso. Então você precisa confiar em mim nisso.
Ele permaneceu me encarando, surpreso. Percebi que eu nunca havia trocado muitas palavras com ele, e também me surpreendi por ter perdido o controle com tanta facilidade.
- Se acontecer algu...
- Eu já disse que não vai acontecer nada. – respondi, irritada.
Ele silenciou. Os olhos castanhos, grandes, me fitando. Eram os olhos mais fáceis de ler que eu já encontrara em todos esses anos. E eles estavam indecisos. Ele suspirou pesadamente e os olhos ficaram duros e decididos.
- Tudo bem. Eu vou tomar banho e nós podemos levar Ness... lá. Leah e Seth deverão chegar em algumas horas, até lá já devemos ter voltado.
- Eu acho melhor você ficar. Eu levo Ness. – ele abriu a boca pra protestar, mas eu fui mais rápida. – Você vai fazer o que lá? Ameaçar Victor, criar confusão... é melhor eu ir resolver isso.
Demorei mais alguns minutos para convencê-lo da idéia, mas acabou dando certo. Arrumei as poucas coisas de Nessie tão rápido que em alguns minutos ela já estava apertando o cinto de segurança no banco traseiro enquanto eu dava a partida. Jacob parecia um pai desolado, acompanhando o carro com os olhos até ele desaparecer na esquina. A viagem até a casa de Victor passou mais rápido que da última vez. Estava tão preocupada e ansiosa que, quando percebi, já estava estacionando o carro na frente da mansão. A conversa com Victor foi ainda mais rápida. Não passei do Hall de entrada, e logo Mary veio pegar Ness – que dormia – dos meus braços. Já havia explicado o que ela precisava saber no caminho, então não vi qualquer necessidade de acordá-la. Ver Mary leva-la me fez ter vontade de desistir de tudo e arranca-la dos braços da mulher. Percebi que não confiava tanto em deixá-la com outra pessoa quanto pensava, mas também sabia que aquilo era ridículo. Sabia que Nessie estaria bem e segura.
Suspirei, resignada. Victor percebeu o meu desânimo repentino e me deu mais uma vez a sua palavra de que não tiraria os olhos dela.
Quando me aproximei da casa percebi que algo estava diferente. O cheiro repugnante de pêlo de cachorro mofado estava incrivelmente forte e desagradável. Percebi que, de certa forma, conviver com o cheiro de Jacob estava mais suportável. Meu corpo já de adaptara e o cheiro ficara bem mais suportável.
"Era só o que me faltava!"
Ouvi a voz chata e irritante. Senti o meu sangue ferver imediatamente. Odiava todos aqueles lobos fedorentos, mas aquela, em especial, me causava puro asco. Fechei a porta do carro e entrei na casa, que estava vazia. Pela porta de vidro, podia ver os três reunidos no quintal.
"Leah, eu não vou mais discutir isso."
A voz de Jacob foi forte e incisiva, fazendo-a rosnar como um leão enjaulado. Tive que me controlar para não rir. Coloquei as chaves na mesa e me apoiei numa posição confortável para apreciar a situação de camarote mas, como eu já previa, não demorou muito a me notarem. Seth e Leah torceram os narizes, se virando para onde eu estava. Ela me encarou com tanto ódio que eu não pude evitar um sorrisinho irônico.
"Rosalie, pode vir aqui, por favor?"
A voz de Jacob era baixa e serena, apesar de ser mais do que óbvio que ele estava extremamente ansioso. Ouvi os protestos indignados de Leah, enquanto caminhava até o lado de fora da casa.
- Era só isso que faltava mesmo, trabalhar com uma sanguessuga. Por que não a convida para a matilha, Jacob?
Dessa vez não pude evitar uma risada sarcástica. Ela me encarou. Tive a impressão de que a qualquer momento veria fumaças saindo das suas orelhas desproporcionais.
- Não tenho medo de cara feia, vira-lata.
O corpo dela começou a tremer. Eu já sabia o que viria a seguir, e para falar a verdade estava louca para que isso acontecesse. Quem aquela cadela imunda pensava que era?
- Leah!
A voz de Jacob era tão forte que eu me assuntei. Leah também. Antes que pudesse se transformar.
- Chega. Se você não for ajudar, pode voltar para Forks.
Todos ficaram em silêncio. Leah e Seth se viraram para Jacob. Percebi que havia um mapa do Alaska todo riscado em cima da mesa que estava entre os três, e me aproximei para olhar.
- Então, é muito simples.
N.A.:
Oi, gente! Espero que não tenham desistido... eu não desisti!
Fevereiro foi um mês difícil e, além de tudo, eu comecei ooooutra fic (J/R, claaaaro)! Aí fica complicado. Não tenho tempo nem capacidade pra UMA fic, e vou escrever duas.
Mas ao que parece não haverão mais grandes esperas pelos próximos capítulos.
Esse capítulo não teve muita informação, foi pequeno, mas teve muito Jacob/Rosalie. Um começo promissor, eu diria. O próximo capítulo deve vir logo, já está quase na metade.
Reviews, por favor! =*
