Título: Mensagens ao Mar

Beta: Bibis Black

Observação: contém spoillers do sexto livro.

Nota: resolvi por ser essa a última parte da fic, então ela será longa como podem notar. Espero que esclareça as dúvidas e as situações que deixei pendente até então. Obrigada a todos que me acompanharam nessa fanfiction e principalmente àqueles que me deixaram comentários desde O Mensageiro.

Para quem pediu amigos para o Draco, aqui eu estou explicando muitas coisas e só não me aprofundei na vida do loiro para não entregar o final. Boa leitura.


Parte 4

Como dito, assim que Hermione deixou o Salão Comunal e baixou as escadas para a ronda de monitores, encontrou um Draco Malfoy a aguardando tranqüilamente encostado na parede do corredor, com os olhos fechados e provavelmente pensando.

A primeira coisa que fez foi observa-lo, coisa que nunca chegou a se ater em fazer antes.

Malfoy era, sem dúvida alguma, muito atraente e bonito. Tinha um ar sensual e inspirava paixões. Não era à toa que muitas garotas se derretiam quando ele passava pelos corredores com seu ar imponente, perfeito e convencido.

Mas isso não explicava o que Harry, um rapaz tão bonito e viril como esse sonserino, viu de tão fascinante.

Malfoy não era como uma garota, longe disso, sua postura e seu porte o tornava um símbolo sexual com muitos dotes incontestáveis. De aparência física, até ela o enquadrava na lista dos mais belos estudantes das últimas décadas em Hogwarts, isso porque já havia visto todos os livros oficiais dos formandos desde a época em que Severus Snape era um estudante.

O fato era que estava descartada a possibilidade de Harry levar em consideração essas coisas e muito menos pensar como uma garota, ou então, ele já estaria gostando de Malfoy desde o quinto ano, quando as feições do loiro deixaram de ser infantis para tomar um matiz mais maduro e definido.

Não. Tinha certeza que Harry não gostava de Malfoy nessa época, e que foi se apaixonar por ele fazia poucos meses.

- Está me analisando... – a voz de Malfoy pareceu mais tolerável do que pensou – Não gosto muito quando as pessoas tentam me deduzir.

- Estava tentando saber o que Harry viu em você, mas acho que nunca saberei vendo por fora – com determinação desceu os últimos degraus que faltavam e parando frente a frente a Malfoy, lhe apontou no peito. – Então quero saber o que ele viu aí dentro.

Draco sorriu de canto pendendo a cabeça para o lado e sem se desviar dos olhos da garota. – Você é bem direta, acho que é por isso que eu te aturo.

- Isso foi um elogio? – Granger riu um pouco, passando a caminhar pelo corredor, afinal, estava cumprindo com suas obrigações.

- Leve da forma que achar melhor...

- Isso foi um elogio – declarou solene antes de mudar de assunto. – Precisamos percorrer o primeiro e o segundo andar.

Draco parou de caminhar sendo logo notado por Hermione que também cessou os passos e girou para trás, para saber por que exatamente. O sonserino parecia analisa-la por sua vez.

- O que foi?

- Você está sendo complacente por qual motivo? – ergueu a sobrancelha em desconfiança.

Isso fez Hermione sorrir discretamente. Malfoy sempre seria minucioso e precavido, era um instinto que sempre notara nele.

- Conversar. Quero conversar com você.

- A respeito do Harry eu suponho – estreitou os olhos.

- Exatamente. – ela suspirou. – Ele é como um irmão mais novo. Me dói feri-lo e eu... Eu...

- Você o feriu sem pensar porque estava mais preocupada em não deixa-lo fazer uma grande bobagem que saísse machucado no final – Draco completou sem alterar a forma que falava, mantendo-se neutro e um pouco desgostoso pelo assunto.

- É. – Granger manteve o olhar nesse loiro, desconhecendo o Draco Malfoy que conhecia em todos esses anos.

O silêncio fez o ambiente ficar ainda mais tenso. Ninguém se atrevia a falar, até que o sonserino quebrou o silencio, lançando um olhar ao Salão Principal onde precisariam fazer a ronda.

- Pelo Harry – Hermione lhe dedicou um olhar inquiridor, numa pergunta muda para entender direito o significado dessas duas palavras. – O salão está vazio, podemos conversar nele sem que os outros monitores nos interrompa já que a vistoria dessa parte do castelo cabe a nós.

E ali estava a resposta. Malfoy deixaria de lado seu orgulho e sua superioridade para conversar amigavelmente (ou o mais próximo a isso), com uma grifinória e de sangue impuro como ele mesmo fazia questão de grifar - por Harry.

Era uma proposta única, tinha certeza de que não conseguiria uma audiência particular e sem hostilidade por parte desse loiro durante o resto da vida, mas eram monitores e precisavam cumprir com o regulamento. Estava confusa, dividida entre a amizade e o dever.

Por um lado queria corrigir o que fizera magoando a Harry e ali estava a tentadora oferta vinda diretamente da boca de Malfoy, por outro, tinha as normas, a responsabilidade e o dever de um cargo que mereceu por mérito.

Draco manteve silêncio, deduzindo o que se passava na mente da garota. Ela levava as normas ao pé da letra, ou talvez nem tanto assim. Notou isso quando Granger o olhou nos olhos com uma indescritível determinação.

- Por hoje, esquecerei os deveres de monitora. Acho que a amizade é muito mais importante que o resto – declarou por fim, entrando no Grande Salão e sendo acompanhada por um divertido Malfoy.

Assim que adentraram pelas portas, a figura entristecida e cabisbaixa da Murta foi a primeira coisa que Hermione notou. O fantasma estava sentado sobre a mesa dos professores e fitando desolada ao piso, como se fosse de suma importância. E isso era uma surpresa, pois o fantasma da garota só rondava os banheiros e poucas vezes se aventurou por um que não fosse o seu preferido, no final do corredor.

Draco sorriu com certa pena da pobre menina, que de tão imersa em suas lamentações, mal notou que estavam ali. Caminhou decidido, passando ao lado de uma ainda mais confusa Hermione e parou frente à Murta.

Quando a chorona garota notou um par inconfundível de sapatos em seu campo de visão, ergueu a cabeça e sorriu maravilhada dando um salto de seu acento e rodeando ansiosamente ao rapaz.

- Menino bonito veio falar com a Murta! – se agitou nervosamente antes de parar frente a Malfoy e perguntar – Está zangado comigo? Por eu ter dito ao moreno de olhos verdes que você estava triste?

- Não estou zangado – negou com a cabeça, mantendo os braços para trás segurando a varinha.

Hermione via tudo com muita surpresa e diversão.

- Então... Por que não veio mais? – soou magoada e entristecida – Pensei que esqueceu da Murta como todos os outros...

Granger parou de sorrir, notando pela primeira vez como aquele fantasma sentia-se solitário e desprezado. E o que se sucedeu, lhe deu a certeza do porquê Harry se enamorou por Malfoy.

- Estou tendo problemas e não pude vir.

- Fará magia para a Murta? – bateu palmas, ansiosa em ver mais feitiços.

- Hoje não, mas na próxima vez que eu fizer ronda com a monitora Granger – camuflou um sorriso assim que a Murta esticou o pescoço para encarar a castanha.

Hermione franziu o cenho, um pouco incomodada quando o fantasma se aproximou de si e a analisou de perto, com interesse.

- Lembro de você, chorando no banheiro... – sussurrou, encostando as pontas dos dedos no cabelo acastanhado e cheio, como se pudesse tocar nos fios. – Nunca entendi porque uma garota tão linda e com dois grandes amigos, estava chorando num banheiro abandonado... – depois se afastou num longo suspiro, voltando para perto de Malfoy, mas com o olhar vago, como se pensasse seriamente no que dizia. – Amigos que arriscaram as vidas sem se importar com nada, apenas porque você estava em perigo e que certamente não se importariam em te salvar, se você não fosse assim como é, mas fosse esquisita como eu...

Aquelas palavras ressonaram tão profundamente e gritante no coração de Hermione, que não conseguiu se conter e seus olhos encheram de lágrimas e reteve a respiração.

Como era egoísta!

Sentiu raiva de si mesma, pois a Murta indiretamente lhe fez enxergar algo que nunca chegou a pensar. Harry nunca se importou em como era, uma pessoa individualista, crítica e auto-suficiente, nesses aspectos, até se parecia com esse loiro que se mantinha calado em seu canto, enquanto a Murta interagia consigo. Boa parte dessa personalidade foi forjada por seus familiares, pois era de descendência trouxa e a única na família que possuía magia. Sofria esse preconceito, por ser diferente (ou esquisita, como bem a Murta havia citado), e isso a tornou mais dura consigo mesma e com os outros, tentando manter seu espaço e adquirir respeito.

Detestava o preconceito por sua nacionalidade não ser dentro do mundo mágico, então tentou acabar com o sofrimento alheio, o mesmo que sentia na pele, começando com os elfos domésticos e a escravidão que tinham, tratados como inferiores.

E ali estava ela, fazendo o mesmo com seu melhor amigo...

Draco percebeu que Hermione finalmente enxergou o que estava fazendo de errado. Voltou-se para a Murta e retirou do bolso algo em miniatura, o qual fez voltar ao tamanho normal com o uso de um feitiço.

- Engordio – sussurrou e a miniatura se fez uma bela boneca de porcelana vestida de época com um largo e florido chapéu, o cabelo longo descia em cachos louros, rosto redondo, boquinha vermelha e grandes olhos azuis de vidro – Esta era uma boneca de minha mãe. – comentou com uma imperceptível tristeza enquanto apreciava a boneca – Era uma de suas favoritas, mas acabou no porão de minha casa, esquecida com o resto dos objetos de sobrenome Black. Eu a trouxe quando regressamos das férias. Achei que ia gostar.

A Murta arregalou tanto os olhos inicialmente sem saber o que dizer, até que encontrou uma palavra – É linda!

- É sua agora – não pôde deixar de rir, quando a Murta se pôs a chorar, escondendo o rosto nas mãos trêmulas. Sabia que ela não tinha nenhuma boneca, e a única que conseguiu, havia se esfarrapado tanto devido o tempo, que Filch a jogou fora quando a encontrou na pia do banheiro em que o fantasma residia. – O quê? Não a quer?

Hermione tentou um sorriso, ao notar como Malfoy tratava a garota. Era nítido que a menina chorava de felicidade por ganhar uma boneca tão linda como aquela.

- É a... Primeira vez que alguém me dá um presente desde que entrei em Hogwarts... – soluçou – Obrigada...

- Depois eu a levo ao banheiro e a deixarei sobre a pia – concluiu, deixando a boneca sentada sobre a mesa dos professores, onde anteriormente a Murta estava sentada. – Agora pediria que se fosse, pois preciso tratar de um assunto muito importante com Granger.

A Murta sorriu e fez que sim com a cabeça, deixando o salão alegremente. Malfoy manteve o ar debochado o tempo todo, mas no fundo, estava dando aquela boneca à Murta porque essa seria a última vez que falaria com ela.

A sós, sentaram-se na mesa da Corvinal, a que estava mais perto deles.

Hermione tossiu um pouco, tentando assim dissipar o incômodo.

- O que queria conversar?

- Bem... Você não está brincando com os sentimentos do Harry?

Draco ponderou numa resposta. – Pareço estar?

Hermione refletiu consigo. Não. Mesmo o antigo Malfoy (ou talvez seja exatamente isso), nunca passaria pelo que estava passando apenas por uma tonta brincadeira de mau gosto. Viu carinho refletido nos olhos desse sonserino quando ele se propusera a sentar-se ao lado de Harry na aula de Defesa Contra as Artes das Trevas. E nos decorrentes dias, quando andavam de mãos dadas ou sentavam juntos para conversarem no tempo livre. Era uma pergunta boba, mas como sempre, tinha que ter certeza.

- Desculpe, é o costume de ouvir da própria pessoa e olhando nos olhos para ter total certeza de que fala a verdade. Percebe-se claramente que vocês se gostam.

- Então qual o fundamento específico para nossa conversa? – inquiriu com interesse.

- Entender... – sussurrou com vergonha – Eu somente sei o que me dizem e já cheguei a conhecer superficialmente relacionamentos como o de vocês, mas tudo de longe, com críticas e apontamentos de terceiros. Acho que é exatamente isso que me fez tão preconceituosa.

- Eu te entendo – Malfoy sorriu um pouco pela surpresa da garota. Era estranho um sangue-puro dizer semelhante coisa a um sangue-sujo. – A sociedade em que nascemos e crescemos nos molda mesmo que dizemos o contrário. Também tenho preconceito com os nascidos trouxas, coisa que foi incutido em minha cabeça desde que tive consciência. Você é uma das que sofreram por esses meus conceitos distorcidos. Assim como tenho preconceito de pessoas de nível econômico mais baixo que o meu.

- Me sinto culpada... – ela confessou baixinho. De todas as pessoas, nunca pudera imaginar que se abriria e se mostrasse vulnerável a Malfoy.

- Todos cometemos injustiças e erramos... Veja por esse ângulo. Apenas damos valor ou compreendemos as coisas quando temos a chance de estar no meio, vivendo e sentindo. O que acabou acontecendo com você e comigo. Harry é mestiço e um rapaz, alguém que pelos meus conceitos anteriores, eu jurava que nunca me envolveria. – fez uma pausa, pensativo – Mas me apaixonei por ele porque eu não o vi com o véu pré-moldado que todos temos nos olhos... Eu conheci o Harry que é sentimento e esse Harry era maravilhoso. Deixei de lado se era homem ou mulher, ignorei se era sangue-puro ou não e apenas absorvi o que ele estava me passando... Amor. – sorriu ao notar um sorriso nos lábios da garota. – Pode imaginar como uma pessoa que nunca recebeu tanto afeto senão o materno reagiria se de repente soubesse que alguém está te oferecendo algo tão importante como esse sentimento tão raro? É indescritível...

- E foi por isso que você se apaixonou?

- Não... Não algo tão vago como isso. A primeira carta que recebi foi a porta de entrada e o interesse. Depois as que se seguiram foram mais intensas, então eu desconfiei que era ele... Confesso que eu gostava do que ele me dizia. Me trazia um sentimento tão bom que passei a ansiar ler as próximas palavras e também escrevia o que ele me fazia sentir, assim, esse novo sentimento e a perspectiva que era ele me fizeram esquecer todas as brigas e os motivos delas, assim como todos os defeitos que eu enumerava que ele possuía. Descobri então que ele tinha incontáveis qualidades que eu já sabia e admirava, mas que meu preconceito por ele me fazia cego a elas...

Hermione prestava atenção em cada palavra e em cada gesto de Malfoy. Sua forma de pensar e raciocinar, seus sorrisos, mesmo que estes eram tão curtos ou tímidos para serem demonstrados para os outros e imaginou como seria com Harry. Sabia que Malfoy deveria sorrir abertamente como ninguém jamais chegou a apreciar. Se surpreendeu em como seus olhos brilhavam ao falar em Harry, e que parecia nunca cansar em qualifica-lo. E Malfoy era compreensivo e paciente. Mostrava o que sentia e aclarava numa invejável desenvoltura o que queria passar...

E sabia consolar...

Era até estranho dizer isso de Draco Malfoy, mas da forma como ele interagia, era nítida que quando ele percebia que estava ficando frustrada ou triste, ele mudava a forma de falar, tornando o assunto menos sério e mais descontraído, chegava até a fazer alguns comentários pertinentes tipicamente sonserinos para quebrar esse clima fúnebre.

Foi uma das melhores conversas que já havia tido em todos esses anos. Malfoy era um dos poucos que chegava a sua altura em questão de raciocínio e conhecimento. Ele era tão bom aconselhando como ela sempre havia sido para a turma da Grifinória.

Sua educação era exímia e havia carinho também. Determinação e certeza em cada palavra, o que era incontestável a veracidade delas.

Estar na companhia de Malfoy não era mais tolerável, passou a ser fascinante. Era uma troca constante de conhecimentos e sentimentos que jamais alguém conseguira despertar em si.

Descobriu que passaria a noite inteira conversando se assim fosse possível e que ele a agradava consideravelmente.

Quando retornou aquela noite ao seu Salão Comunal, estava com outra mente e sabia que não importa quem, nem como ou porquê, o amor era igual para com todos, um sentimento que simplesmente acontece sem a nossa permissão, nos envolve de tal forma irreparável e é tão puro como a própria magia o era.

Assim que passou pelo retrato, notou que a lareira ainda estava acesa mesmo todos já estarem dormindo, ou quase todos.

Harry estava sentado numa poltrona frente ao fogo.

- Está sem sono? – perguntou suavemente ao se aproximar do amigo e se sentar a seu lado.

O moreno a olhou por um segundo, estranhando a repentina mudança em suas feições. Hermione estava mais comovente, tranqüila e carinhosa.

- Eu estava te esperando... – começou, intranqüilo – Rony me disse que você faria dupla com Draco hoje... – aguardou qualquer reação adversa, mas nada disso aconteceu.

- Ah, sim – Hermione sorriu amplamente – Ele é muito gentil e educado... E sabe conversar como ninguém. Fascinante, devo concordar com você.

Harry piscou várias vezes, ainda mais estranhado. – Não brigaram? Não se ofenderam?

- Claro que não – rolou os olhos ainda sorrindo pela preocupação do amigo, mas logo se fez séria e o segurou pelos ombros, ficando olhos nos olhos. – Harry... Peço perdão pelo modo que tratei seu namoro com Malfoy. Fui egoísta e tola. Queria remediar minhas palavras e meu modo de agir. Eu conheci Malfoy o pouco que você o conhece e confesso que me surpreendeu. Agora entendo que as pessoas estão erradas e que de fato, quando se gosta de alguém, é verdadeiro e certo. Leve em consideração que eu nunca gostei de alguém, não sei como é sentir isso por uma pessoa... Mas se pedir perdão não for o suficiente eu-

- Mione – Harry sussurrou em voz quebrada – Oh, cala essa boca e me dá um abraço ok?

Não foi preciso pedir outra vez, logo estavam tão apertados um no braço do outro em meio ao Salão Comunal vazio e frente a lareira durante longos minutos e sem se importarem de passarem ali o restante da noite.

Mas havia coisas mais importantes a tratar.

- Pois bem... – Hermione se separou enxugando as lágrimas. Quase perdera uma preciosa amizade por um preconceito que nem ao menos possuía. Percebeu que não sentia repulsa nem outro tipo de sensação adversa ao relacionamento deles, havia dito tudo aquilo mais por uma distorcida diplomacia do que pelo que sentia em si. – Conte como aconteceu e o que você está sentindo – incentivou, mas acrescentou com rapidez – De bom.

Harry sorriu amplamente. Precisava dessa Hermione e sentiu muita falta. Seu sorriso se ampliou mais ao notar som de passos vindo da escada e ver Rony junto com Neville baixando até eles.

O ruivo coçava os olhos ainda sonolento e Neville bocejava com o cabelo alvoroçado pelo travesseiro.

- Você não estava dormindo e me preocupei – Rony aclarou sua repentina aparição.

- E me chamou para procura-lo – Neville concluiu, olhando em seguida para o companheiro de quarto – Eu disse que ele estava bem.

- E em ótima companhia – Harry acrescentou, sorrindo para a amiga.

- Que bom que estão aqui – Hermione mostrou-se mais animada – Harry estava a ponto de contar como tudo começou e como acabou namorando nosso querido sonserino.

Neville sorriu e se sentou na ponta do sofá, pronto para ouvir.

Rony ocupou o lugar ao lado com uma careta de desagrado. – Contando que não tenha informações altamente íntimas e constrangedoras daquele furão – exteriorizou seu receio torcendo o nariz.

Todos riram muito enquanto Harry se ruborizava – Oh céus, não! Claro que não!

Passaram horas conversando sobre os rolos que o moreno fizera desde Susan até acabar por se apaixonar pelo sonserino.


Os dias seguintes foram mais amenos, porém ainda mantinham-se afastados. Hermione passou a prestar atenção em Malfoy e por várias vezes se pegava sorrindo por alguma atitude desse sonserino, ou nos olhares e códigos que os dois rapazes deram de treinar para se comunicarem à distância.

- Fui eu quem deu essa idéia ao Draco – ouviu-se uma voz a suas costa.

Hermione girou a cabeça para ver de quem se tratava. Estavam no Grande Salão para o jantar e a maioria já se encontravam em suas mesas. Seu espanto foi grande.

Blaise Zabinni sorriu-lhe prepotente e não esperou resposta ao seu comentário, seguindo diretamente à sua mesa.

De fato, o sonserino moreno era um dos que andavam com Malfoy, mas ele era mais que um simples colega de interesses, ele era seu melhor amigo.

Como o bom observador que era, Blaise percebeu que eles precisavam de uma forma discreta para se falarem em aula e optou pelos sinais e gestos. As expressões do corpo falavam mais que palavras e resolveu por utilizar esse truque no relacionamento dos dois.

Se divertia 'traduzindo' as briguinhas dos ex-rivais, afinal, foi ele que elaborou os diversos códigos e significados o qual Draco passou para Potter poder ensaiar.

A primeira vez que utilizaram esse meio de conversa foi uma comédia, não se entenderam muito bem e trocaram muitos dos códigos, pois ainda não haviam decorado todos. Era aula de História da Magia e riu tanto que acabou por ser expulso da sala pelo professor que se irritara em ser constantemente atrapalhado por suas risadas.

Quando chegou à sua mesa se sentou em seu lugar de sempre, frente a Malfoy, o que o deixava de costa para o resto das mesas. Também passou a conversar dessa forma com o loiro, para que ninguém se inteirasse do que falavam e por saber que muitos de seus colegas de Casa não eram de confiança.

Hermione ficou curiosa. – Harry, você sabia que foi Zabinni quem ensinou essa forma peculiar e modificada do código Morse ao Malfoy?

- Ah é? – o moreno respondeu evasivo, pois estava sorrindo para certo loiro que nesse exato momento lhe dizia algo.

O sonserino o olhava nos olhos com possessão, o que significava que ele queria algo, depois mordeu o lábio inferior.

Essa Harry sabia de letra. Draco queria beija-lo. Quando foi assentir, um novo gesto mudou radicalmente a mensagem. Com discrição Malfoy deslizou a mão do pescoço até a altura da virilha e sorriu com provocação.

Dessa vez Harry arregalou os olhos e se engasgou com o purê de batatas, tossindo muito.

Se não estava errado, Draco acabara de dizer-lhe que queria fazer sexo oral.

E para piorar sua situação, Hermione teve que dar o golpe de misericórdia.

- Se foi Zabinni quem ensinou esses códigos, isso quer dizer que ele sabe o que vocês ficam confidenciando.

- Quê? – gritou, antes de ter outra crise de tosse, seu rosto tomando uma coloração avermelhada. Lançou um olhar para a mesa da Sonserina só para comprovar que o moreno mencionado se acabava de tanto rir, dando tapinhas na mão de Malfoy, como se essa fosse a piada do ano. – Oh... Que vergonha... Como o Draco pode insinuar uma coisa dessas se mais alguém sabe o que estamos falando?

- O que ele te insinuou? – três cabeças se uniram à sua, prontos para saber. Rony, Neville e Seamus.

- Q-que? Uh... Bem... Coisas...Ele insinuou coisas... – desconversou afundando no banco e ouvindo a risadinha de Hermione.

- Até que vocês dois são fofos juntos – ela sorriu mais uma vez perante o olhar incrédulo de Harry antes de se levantar da mesa e o arrastar dali pela manga da blusa. – Venha, tenho algo para falar com você em particular.

Voltaram para o Salão Comunal da Grifinória e como todos ainda estavam jantando, se encontraram a sós.

- O que queria conversar? – estava curioso.

- Vá ver o Malfoy hoje à noite. Ele ficou de monitorar a parte das masmorras, o que significa que voltará mais cedo para o dormitório do que quando precisa vasculhar alguma torre longe de sua Casa.

- Mas Mione... Ele está num quarto comunitário agora. Lembra? – fez bico, decepcionado. Bem que queria passar a noite em companhia dele, mas as regras foram mudadas e não havia mais privacidade para namorarem.

Hermione rolou os olhos dando um tapa na testa do amigo. – Esqueceu de sua genialidade Potter? Não acredito!

- Que genialidade? – esfregou a testa.

- A poção Animalle! Harry, céus! Você tem um alto grau de criatividade e raciocínio, mas esquece de utiliza-lo nas horas mais apropriadas! – se exasperou.

- Ah! – estalou os dedos como que lembrando. – Verdade, eu havia me esquecido totalmente da poção.

- Com ela será fácil entrar no dormitório do Malfoy e espera-lo em sua cama – cochichou com um pouco de malícia.

Harry corou e assentiu com a cabeça. Hermione sempre salvando o dia.


A ronda dessa noite não foi tão cansativa e teve a sorte de regressar mais cedo para o seu Salão Comunal. Todos já se encontravam dormindo e o silêncio reinava em todos os dormitórios.

Ao entrar em seu dormitório, a primeira coisa que fez foi tomar um banho e vestir um pijama. Instantes depois já estava listo para dormir.

Sentou-se em sua cama e fechou o dossel. Sua mente vagava na conversa que teve com Granger, mas o que ela perguntou antes de se despedirem lhe fizera pensar.

O que Harry é para você?

Sorriu.

Harry é como seu mundo, um mundo como sempre sonhou na vida e que lhe trazia conforto e esquecimento momentâneo. Quando estava com Harry não sofria, nem se angustiava com suas obrigações de herdeiro sangue-puro...

O simples fato de olhar para ele era reconfortante e se sentia bem.

Sentia-se feliz...

Queria, desejava com todas as forças viver dessa forma, mas sabia que era um sonho distante e que dificilmente se tornaria realidade.

Sentiu algo correr por sua coxa esquerda e levantou o lençol, confuso. Estava escuro e não pôde ver nada, apenas sentia que algo se encontrava ali, perto de sua virilha.

Buscou sua varinha e com um 'lumus' a claridade quebrou a escuridão e sorriu sem acreditar.

Sua 'aranha' estava confortavelmente aconchegada em sua coxa, as patinhas a acariciar-lhe superficialmente a pele sobre o tecido de seda de seu pijama.

Descoberta, a aranha subiu lentamente por seu corpo, passando pelo ventre, barriga e abdômen. Draco deitou a cabeça no travesseiro, ainda rindo.

- Sempre tarada – brincou, sentindo ela passar por seu peito e pescoço, até se acomodar no travesseiro a seu lado.

No minuto seguinte viu como a aranha se transformava em Harry. Ficou o olhando até que estivesse inteiramente ao normal.

Harry abriu os olhos depois da tontura passar e focalizou o rosto de Malfoy. Sorriu, sem conter a alegria de estarem juntos depois de um dia inteiro sem quase se falarem.

- Olá... – sussurrou.

- Adorei a surpresa – Draco também sussurrou, preso nessa mirada esverdeada.

Então os orbes verdes se dirigiram para as roupas do loiro. – Não pensei que tivesse um pijama.

- Acha que eu dormiria ao natural num dormitório coletivo? – inquiriu arqueando uma sobrancelha.

- Acho que eu não suportaria outras pessoas te olhando ao natural – sorriu novamente antes de se curvar e tomar os lábios que tanto desejava. Depois de alguns minutos se beijando e se sentindo, separou-se. – Não agüentava mais e Hermione me recordou em usar esse pequeno truque pra passar a noite com você.

- Ótima idéia, vinda da cabeça de uma grifinória. Apesar de que ela é a sabe-tudo – debochou e se protegeu como pôde das cócegas que Harry lhe dedicou como castigo.

Sua mão deslizou pelo peito de Harry involuntariamente, fazendo com que o moreno se arrepiasse inteiro.

Ambos pararam e se encararam por alguns segundos, até que decidido Draco abriu a coberta e Harry se enfiou debaixo dela, colando seu corpo nu ao corpo de Malfoy.

Com poucos movimentos de braços e pernas, o loiro estava igualmente nu e voltaram a colarem seus corpos, tendo outra sensação quando suas peles se juntaram.

Sorriram cúmplices e voltaram aos beijos e carícias, sem o medo como da primeira vez que se tocaram, mas mesmo assim, com certo receio de avançarem para algo mais íntimo.

- Eu quero... – Draco sussurrou quando seus lábios deram uma trégua para que respirassem. Estava excitado e queria fazer.

- Eu também... – Harry ofegou, sentindo seu corpo ferver debaixo da coberta e formigar com o contato com o sonserino. Também desejava algo mais, porém tinha medo de se machucar e machucar seu namorado.

- Está nervoso? – o moreno confirmou com a cabeça. – Eu também...

- E se... Deixarmos acontecer? – Harry propôs sem ao menos saber se funcionaria.

- Certo... – Draco sorriu, passando a mão pelo cabelo negro e voltando a puxa-lo para um outro beijo.

Entre um e outro beijo, arriscavam, como da primeira vez, a se tocarem. Harry deslizou cuidadosamente sua mão direita sobre o peito de Draco, passando com suavidade por seus mamilos até alcançar os bíceps e a trêmula musculatura de seu ventre.

O loiro era entrega pura e confiante, assim comprovou, ao abrir levemente as pálpebras para contemplar sua fisionomia, com medo de que não estivesse preparado.

Era estranho, mas sentia-se com o dever de ser paciente e cuidadoso com esse rapaz e não outro qualquer, mas Draco Malfoy. Era estranho dizer isso, mas com ele tinha que ser mil vezes mais perfeito e prazeroso do que um dia havia imaginado que seria quando fizesse amor com a pessoa que arrebataria seu coração.

E entre toques, murmúrios e suspiros, se consumaram tão lenta e cuidadosamente quanto poderia ter deixado suas inexperiências.

Foi bom e sabia que a próxima vez seria melhor ainda.

Ter ele sob si, tremendo e gemendo foi o melhor presente que a vida poderia ter-lhe dado, ainda mais sabendo que ele estava em êxtase pelo prazer que lhe dava. Entretanto, com a felicidade vieram outros sentimentos, como a preocupação e o medo, quando via dor em sua face ou ouvia uma queixa mínima onde só deveria existir satisfação plena. E soube que faria isso mil vezes, não apenas para seu prazer, mas para proporcionar prazer, ter a chance de contemplar essa entrega, essas sensações e sorrir no final, como sorriam agora um para o outro.

- Está bem? – perguntou num sopro de voz, como se qualquer elevação de seu timbre pudesse perturbar o momento mágico que ainda estavam imersos.

Draco apenas ronronou uma afirmação e se aconchegou em seu corpo para dormir. Estava esgotado e adormeceu rapidamente, ainda sentindo o corpo torpe e relaxado, o que foi mais fácil de conciliar o sono.

Já Harry manteve-se acordado, apreciando o pouco que podia enxergar desse loiro através da escuridão do dossel e de seus olhos sem suas lentes. Acariciou a têmpora para afastar os fios platinados que ali grudavam e aproveitou para sentir as gotinhas de suor em pele macia.

E descobriu que queria viver assim pelo resto da vida...

Compartilhar momentos, alegrias e tristezas, conversas casuais, trabalhar e ter que suportar a distância para no final do dia, se entregarem mais apaixonados e exigentes ao outro, ter uma gostosa noite de amor e adormecer juntos na cama... E na manhã seguinte acordar com esse calor ao seu lado, repleto de carinho e da certeza de que não era apenas mais um dia de tarefas, e sim, mais um dia que Merlin, ou Deus, lhe presenteara para viver ao lado dele...

Uma realidade distante e incerta...

Com um longo suspiro, para afastar pensamentos tristes, se desprendeu cuidadosamente dos braços de Draco, que o envolvia pela cintura e de sua cabeça, apoiada em seu peito. Precisava deixar o dormitório da Sonserina antes que os companheiros de quarto de Draco acordassem.

Buscou pelo tato o frasquinho que Hermione lhe prendera ao corpo antes de sair do Salão Comunal da Grifinória e que continha uma dose da poção para que pudesse voltar à forma de aranha e regressar tranqüilamente, mas não encontrou em parte alguma da cama, nem entre o lençol e os travesseiros.

Ficou horrorizado. E se tivesse perdido? Impossível. Havia se livrado do frasco quando estava sobre a cama de Draco, isso se lembrava perfeitamente. Talvez deveria ter rolado depois de tanto se moverem se amando e não percebeu.

Respirou fundo para acalmar os nervos e voltar a procurar, quando uma mão adentrou pela fresta da cortina e tampou-lhe a boca. Mal tivera tempo de reagir, quando uma pessoa adentrou pelo dossel e se acomodou aos pés da cama fazendo um "shii" para que ficasse quieto.

- Sou eu Zabinni – o vulto se identificou – Fique quieto se não quer que Draco desperte.

Com cuidado Harry teve a boca destampada. Piscou algumas vezes antes de cair na real.

- O que faz aqui? – perguntou com receio. Não conhecia esse sonserino e não sabia o quanto estavam encrencados por ele saber que passaram a noite juntos.

- Não se preocupe – Zabinni sussurrou – Sou amigo do Draco e não o prejudicaria. Aliás, fui eu quem lançou um feitiço silenciador, já que de tão ocupados que estavam, acabaram se esquecendo – sorriu com malícia.

Harry ficou vermelho de vergonha. Tinha se esquecido completamente de usar qualquer tipo de feitiço, mas agora era tarde para lamentar sua falta de raciocínio quando tinha um loiro fogoso a seu lado. Buscou a camisa de Draco e a vestiu com pressa.

- Preciso sair daqui – disse com cuidado.

- Te levo até a saída, ainda é madrugada e todos estão dormindo – o sonserino moreno disse antes de sair da cama.

Harry fez o mesmo e ao deixar o dossel, notou que as demais camas estavam abertas e que todos, sem exceção, estavam acordados e o encarando. Seu rosto ardeu ao notar que eles sabiam que estava ali.

- Mmm... Zabinni... – gaguejou, tentando fazer a camisa de Draco ficar mais longa enquanto puxava a barra com nervosismo – Você não disse que todos estavam dormindo?

- Todos os demais estudantes – Blaise se corrigiu com uma expressão inocente.

- Vocês gemem como se mundo fosse acabar amanhã – Nott debochou com maldade. Seguido pelas risadas de Crabbe e Goyle.

- Mmm... Zabinni... Você não disse que lançou um feitiço silenciador? – voltou a gaguejar entre dentes, tomando mais uma camada de cor em suas bochechas.

- Na porta – Blaise voltou a esclarecer, agora sem esconder o sorriso de malícia.

- Não se preocupe, não diremos nada se perguntarem porque sua voz está tão rouca – Nott voltou a debochar, causando um remoinho de sentimento no grifinório que se lembrou perfeitamente que o viu discutindo com Draco nos últimos dias.

Esquecendo-se de sua posição em meio aos sonserinos e de sua situação quase nua, Harry estreitou os olhos e se aproximou de Theodore Nott a poucas passadas parando frente a si, que estava sentado displicente em sua cama que ficava na parede ao extremo da cama de Draco.

- Sei que não é da minha conta, mas... – começou com cautela e firmeza na voz – Por que estava atormentando o Draco nesses dias?

O quarto caiu num silencio supremo enquanto Harry aguardava qualquer resposta e Nott o analisava lentamente. Pegou a varinha e lançou um feitiço dando tempo apenas de Harry se sobressaltar de susto.

O feitiço que Theodore lançou atingiu o dossel ainda fechado da cama de Malfoy, o envolvendo num silenciador. Somente assim esse sonserino misterioso se pronunciou, não para Harry, mas para Zabinni.

- Acha que devemos confiar nele?

Blaise deu de ombros, analisando por sua vez a Harry. – Ele é o Potter, o alvo principal de Você-está-cansado-de-saber-quem, é namorado do Draco, está aqui e terá que lutar queira ou não...

- Se Draco confia nele, nós também confiamos – intervieram Crabbe e Goyle, com uma surpreendente seriedade nos olhos.

- Acho que ele pode amenizar a situação que Draco se encontra – começou Goyle. – Mas apenas amenizar... Não creio que o livre dessa...

- Do que estão falando? – Harry se sentia confuso e angustiado ao mesmo tempo.

- Draco não te contou? – Nott sorriu prepotente.

- O Draco nunca contaria nada a ele – Crabbe se levantou da cama e passou a caminhar pelo quarto, aparentando um leve incômodo pelo assunto que tratavam – Ele nunca arriscaria a Potter num assunto tão delicado e com mínima chance de sair ileso. Draco é sensato demais.

- O que está acontecendo com Draco? – Harry começou a se frustrar e desesperar. Era informações demais numa única vez e tudo tão confuso que não conseguia entender o que diziam, nem se acreditava neles por serem o que eram, sonserinos burlões e maliciosos. Seus olhos caíram então sobre Nott, quem tudo teve início.

Por sua vez, Theo deu uma olhada em Blaise como se perguntasse algo, o que foi incentivado pelo sonserino moreno, que afirmou com um aceno de cabeça para que contestasse a exigente mirada de Potter.

- Há algumas semanas, Você-sabe-quem soube que um relacionamento entre o filho de Lucius Malfoy e o garoto-que-ele-não-conseguiu-matar estava acontecendo e convocou um conselho onde meu pai também foi chamado...

- A questão é – Zabinni se intrometeu – Draco está entre a espada e a parede e cabe a você ajuda-lo. Não precisa saber o que aconteceu ou como aconteceu, só pedimos que corra para não deixar o pior acontecer.

Depois de extrair tudo que conseguiu dos colegas de Malfoy, Harry não sabia descrever o que sentia. Draco era tão discreto e se fazia de indiferente a maior parte do tempo, sendo que estava a mando de Voldemort, como um dos Comensais da Morte, indiretamente seguindo os passos do pai, preso em Azkaben e com alguma missão que ninguém soube ao certo qual era.

Apenas Nott sabia, por ser ele o mensageiro dos planos de Voldemort, mas havia dado sua palavra ao loiro de que não comentaria sobre isso a ninguém, nem mesmo a Blaise, e como todo sangue-puro, levava a sério sua palavra, então, não disse nada.

Harry tivera de se controlar o máximo para não ir até a cama de Draco e o sacudir e esbofetear até que ele abrisse o jogo e dissesse o que aquele demente o obrigou a fazer.

Por um lado, se sentia magoado por ele estar lhe escondendo coisas tão importantes. Acaso não confiava? Por outro, tinha respeito e admiração pela maturidade com que esse loiro vivia, separando seus problemas pessoais do namoro e dos estudos.

Não tinha idéia como ele conseguia gerenciar tão bem cada assunto, como se não fosse seus problemas, como se não sobrecarregasse sua mente adolescente.

Tinha certeza que até mesmo Mione iria pirar caso estivesse na pele de Draco, talvez, qualquer um enlouqueceria.

Agora entendia um pouco da vida de Malfoy, aristocrata, sangue-puro e tradicionalista.

Draco pagava pelo que sua família escolheu em gerações. Servir à Magia Negra era como uma maldição que estava em seu sangue e que não conseguia se livrar dela, mesmo querendo. Sabia que se não estivessem juntos, se não existisse esse sentimento que os unia... Seria muito mais fácil para o sonserino escolher, agir e principalmente, viver.

Harry voltou ao seu dormitório com um novo objetivo em mente e uma nova forma de enxergar suas vidas. Sempre seria o causador da desgraça alheira e a derrota daqueles que amava...

Foi assim com seus pais, seu padrinho e estava acontecendo agora com Draco...

Essa madrugada não dormiu. Chorou por vários motivos e por nenhum em especial... Chorou pelo mero fato de existir.


Muitas coisas aconteceram na vida de Draco e ele as suportava com cabeça erguida e sem se queixar de nada. Apenas para não envolver Harry em seus problemas.

E se esquecia que ele era Harry Potter, e mais envolvido do que estava nessa guerra, impossível. Talvez o fato de querer protege-lo o fez omitir assuntos tão importantes e derradeiros.

Na manhã em que Potter e Malfoy oficializaram seu namoro frente a toda Hogwarts, muitos comentários logo se espalharam por todo o castelo.

Muitos levaram como uma ofensa e outros como uma revolução. Mas dentre toda essa gente, havia uma que não estava nada satisfeita com o que soube e que tomada pelo ciúme e rancor, decidira-se afogar suas mágoas da forma mais cruel que poderia ter imaginado.

Naquela mesma noite, Susan Bones escreveu uma carta contando o que acontecia em Hogwarts e sobre a relação entre Malfoy e Potter. Se encaminhou decidida ao Corujal e enviou a carta através de uma das inúmeras corujas à Mansão Malfoy.

Seu único objetivo era terminar com o namoro dos dois. Queria que Harry sentisse na pele como era ficar só, vendo a quem se ama e não podendo toca-lo.

Sofrimento puro...

Mas nada saiu como Harry, Draco ou Susan havia pensado...

A carta chegara na Mansão Malfoy, mas ao invés de Narcissa ler, quem se apoderou primeiro do pergaminho de tonalidade rosa foi sua irmã, Bellatrix.

Narcissa não chegou a conhecer esse relacionamento do filho, mas Voldemort sim.

Um conselho foi chamado para que os principais Comensais da Morte comparecessem. Voldemort tratou sobre o assunto com suma importância, levando em conta que Draco Malfoy era herdeiro e representante legal de todos os descendentes de sua linhagem e que, conseqüentemente, pertencia ao Ciclo de seus aliados.

No dia seguinte, em Hogwarts, Nott recebeu uma carta de seu pai, previamente enfeitiçada para não cair em conhecimento alheio e que o incutia a convencer Malfoy do plano de Voldemort.

Assassinar a Harry Potter.

Theo sentiu o mundo girar a sua volta. Como convencer seu amigo a matar a pessoa que estava apaixonado? Era irracional. Sabia perfeitamente que Draco jamais faria isso.

Conseqüentemente tivera de comunicar as pretensões de Voldemort, o que não foi nada bem para o sonserino loiro.

Draco se recusou a obedecer ao Lorde e acabou sofrendo as conseqüências. Por ser filho de um Comensal, e ser de menor de idade, tudo o que seu pai propunha era recatado como ordem, e Lucius havia entregue o filho aos mandados do Ciclo num juramento de sangue. Mesmo não tendo a Marca, Draco fazia parte dos aliados às trevas e era obrigado a obedecer a Voldemort até cumprir a maioridade, quando receberia a Marca. E para não haver recusas, envolveram Narcissa na trama, e como vítima de qualquer fracasso de sua parte.

Com a mãe ameaçada de morte, o único amor que recebera até Harry entrar em sua vida, era incapaz de se decidir a agir.

O amor de Narcissa era distinto, vago e peculiar à sua maneira. Mulher dedicada ao marido rígido e imperioso, não conhecera a arte de expressar sentimentos, mas fazia o possível para colocar amor no pouco que dedicava ao filho. E Draco sabia muito bem a extensão desse amor oculto por sua fibra de mulher tradicionalista.

E estar com a vida da mãe em mãos era pior do que estar à beira da morte... Foi um golpe cruel e bem ministrado por Voldemort.

Para Draco, que nunca havia findado com a vida de nada nem ninguém, agora teria de escolher qual deles matar – a Harry ou a sua mãe – as duas únicas pessoas que amava nessa vida e que jamais conseguiria ferir.

Foi então que Blaise Zabinni, confidente e melhor amigo de Draco descobriu o que se passava.

Havia encontrado Malfoy num canto escuro que levava às masmorras. Ele estava arrasado, sentado no chão sujo e tremendo. Essa foi a primeira vez que falavam sobre a guerra, pois estavam envolvidos nela e não apenas espectadores que acompanhavam do lado de fora dos acontecimentos.

Sentados lado a lado e com Draco soluçando em seu ombro, Blaise chegara em uma triste decisão – contar a Dumbledore.

Zabinni era um dos poucos que adorou saber que os dois inimigos de escola estavam se dando pra lá de bem, mas foi por sua boca que tudo começou a complicar para os namorados.

Sem perder tempo e sem ninguém saber, foi falar com Dumbledore sobre o que se passava bem debaixo do seu grande e batatudo nariz.

Albus Dumbledore então chegou à conclusão de separa-los, assim, não poderiam exigir que Draco fizesse nada em relação a Potter, pois passaram a ser constantemente vigiados pelos professores e demais funcionários. Como segurança, Dumbledore também mudou regras, passando a deixar os monitores ao qual Malfoy pertencia, junto com outros estudantes, cabendo a Blaise, Vincent, Gregory e Theodore o dever de vigiar a Draco. As rondas, antes individuais, agora passaram a ser em dupla e com representantes dediferentes Casas, o que dificultava o plano de seguidores de Comensais que ali estavam estudando.

Ninguém, exceto Zabinni e Snape sabiam os motivos ao qual levaram ao velho diretor a mudar tantas normas, nem mesmo McGonagall ficara a par desses acontecimentos.

Blaise se sentiu culpado pelo que aconteceu e por ser o causador dessa separação de ambos, então, decidiu ajuda-los a se interagirem à distância, como forma de desculpas. Suas conversas com Draco eram constantes, mas em lugar privado e fora do conhecimento de qualquer aluno, por isso ninguém os viam trocar confidências, nem mesmo Harry Potter.

Com a nova perspectiva e a separação forçada dos dois, Nott enviou uma carta a seu pai contando o sucedido. Com os planos comprometidos pela marcação dos professores em cima desse relacionamento, o olhar de Voldemort mudou de direção.

Queria fazer sofrer aos dois rapazes, já que se encontrava frustrado em matar ao garoto Potter.

Foi com pesar que Severus Snape ficou sabendo através de Narcissa o que Draco deveria fazer – matar Dumbledore.

Era insano...

Sem poder se recusar dessa vez e com a vida da mãe em jogo, não foi difícil de Snape deduzir o que o jovem Malfoy faria.

Quando Harry presenciou Nott e Malfoy discutindo no corredor, era por um motivo bem oposto ao que chegou a pensar aquela hora.

Nott tentava fazer Draco aceitar uma troca. Ele mataria Dumbledore em seu lugar e ninguém ficaria sabendo. Theodore não tinha apreço pelo diretor, nem estava atado sentimentalmente por ninguém. Era sozinho e seus pais, ao contrario de Draco, eram ambos seguidores de Voldemort, não possuía ponto fraco, não dependia de ninguém...

Mas conhecendo Malfoy como conhecia, ele nunca chegou a concordar com esse absurdo. Era seu dever, mesmo sendo sob ameaça, acabar com a vida de Dumbledore. Cabia apenas a si mesmo fazer isso e não envolveria qualquer outra pessoa em meio, muito menos um amigo ou, a Harry.

Se pereceria, que fosse uma queda só, sem levar ninguém junto consigo ao abismo.

E estava decidido.

Cada personagem sabia de um ponto crucial da história e ninguém, além de Dumbledore, sabia o contexto em sua totalidade, o que dificultava para Harry prever os acontecimentos.


Depois dessa conversa reveladora que tivera com os sonserinos, Harry se via preso num mar de intrigas. Para todo lado que olhava, era pura desconfiança.

Passou a seguir os passos de Draco às escondidas, afinal, o loiro não sabia que chegou a descobrir o que lhe acontecia e a cada dia que passava, apenas podia constatar que seu arrogante sonserino se decaía.

Conversar com Malfoy a respeito era suicídio. Não tinham certeza de quantos espiões estavam entre eles, quantos espalhariam qualquer palavra sobre o que ocorreria ou a que ponto estavam atolados nessa guerra.

Não podia fazer muito a não ser esperar e impedi-lo.


Hermione passou a conversar com Malfoy em suas rondas e a cada vez que ficavam a sós, mais presa nesse brilho de Draco parecia estar.

A última noite que fizeram ronda juntos, para sua aflição, Hermione se pegou de forma estranha.

Caminhavam pelos corredores e conversavam sobre as aulas de Criaturas Mágicas. Como sempre, Malfoy era um poço de conhecimentos infindáveis e seus comentários e críticas sobre as aulas eram construtivas e interessantes.

Discutiam sobre o perigo de algumas criaturas quando Draco perguntou:

- Como classificar uma criatura maldosa de uma pacífica?

- Bem... Existem criaturas venenosas que atacam qualquer coisa que se mova e outras que só reagem se fizermos danos a sua vida – deu de ombros, como se fosse óbvio.

Draco parou de caminhar e ficou observando por uma das janelas do corredor. A lua podia ser vista à distância e o céu estava repleto de pontos luminosos.

- Existem criaturas que atacam por medo de serem atacadas... É um instinto de sobrevivência, atacar antes de ser atacado. E há aqueles que são induzidos a atacarem, mesmo sua natureza sendo pacífica. Não pode se considerar maligna uma criatura que apenas está tentando viver...

- A maldade está dentro... – Hermione refletiu consigo – Independente do grau de veneno ou agressividade da criatura. Como você mesmo disse, não se pode julgar pelo instinto de sobrevivência... Acho que a criatura mais maligna que existe é o ser humano, mesmo sendo cem vezes mais fraco que algumas espécies de criaturas...

Hermione recostou a cabeça no vidro frio da janela e recordou o pobre basilisco que Harry enfrentara na Câmara Secreta. A criatura em si era de um poder gigantesco e um veneno mortal, além de ser agressiva. Entretanto, havia lealdade naquela criatura, pois era fiel e acatava as ordens de Tom Riddle como um animalzinho de estimação. Nesse ponto, Malfoy estava certo. Não era justo classificar as criaturas em malignas e pacíficas, cada qual agiam influenciadas pelo meio e situações que se encontravam.

- A mais ameaçadora das criaturas pode se tornar dócil dependendo como se é tratada e a mais inofensiva das criaturas podem se tornar más conforme forem induzidas... – Hermione focalizou com assombro ao rosto de Draco, tão próximo ao seu já que também se encostara ao vidro da janela, sua voz era infinitamente suave e harmoniosa enquanto dizia – Não existe o mal completo e o bem absoluto, sempre existem parcelas desses dois lados dentro de cada ser vivo...

- Acha que... – murmurou, impossível de se livrar da mirada prateada – Você-sabe-quem tem um lado bom?

- Até o mais cruel dos atos acaba por beneficiar algo ou alguém num futuro... É como as peças de dominó enfileiradas uma frente a outra... Quando você fizer o primeiro movimento, as peças começam a desencadear umas a outras e isso sem parar, até a última peça em questão, cair...

- Está dizendo que... Desde a primeira guerra, as peças estão tombando e não podemos retê-las?

- Apenas podemos acrescentar mais peças, tanto para o bem, como para o mal, dependendo da que cair primeiro... – tocou no vidro com as pontas dos dedos – Pagamos pelos atos dos que nos antecederam e a próxima geração pagará pelo que fizermos agora...

Hermione piscou algumas vezes, vendo o perfil pálido e suave do rosto de Malfoy. Ele era melancólico e ao mesmo tempo profundo. Suas pálpebras semi-fechadas e a boca levemente aberta lhe dava ganas de querer tocar. Sua postura era imbatível, mas com um quê de pesar e cansaço que lhe fazia sentir vontade de abraça-lo e conforta-lo, dar apoio e dizer, mesmo que hipocritamente "ficará tudo bem, confie em mim".

O assunto das criaturas, do mal e do bem, dos atos e das influências que estavam tratando agora, não era em vão. Sabia, ou melhor, tinha certeza de que ele queria dizer algo à sua maneira, queria que entendesse ou refletisse sobre essas questões em relação à guerra.

Então Hermione se perguntou até que ponto Draco Malfoy estava envolvido nisso.

Enquanto ele falava, os olhos agora fechados e a respiração tão profunda, Hermione deixou de escutar, como se entrasse dentro de uma bolha d'água, apenas conseguia vê-lo, admira-lo e...

Senti-lo...

Seu rosto queimava, sua respiração era difícil e seu coração...

- Oh Deus... – a garota fechou os olhos com força.

Um toque em seu ombro a fez despertar, como que lançada de volta ao tempo real. Draco colocara a mão em seu ombro e a olhava estranhado, com um pouco de preocupação nos olhos.

- Está bem?

- Não – sussurrou sem mentir. Estava mal, estava muito mal.

- Melhor voltar á Grifinória, você está pálida. - Hermione apenas concordou com a cabeça, sem conseguir encara-lo. – Venha, eu te acompanho até a escada.

- Não... Não precisa, eu consigo ir sozinha – desconversou já tomando caminho pelo corredor e desaparecendo das vistas do sonserino.

Correu até as escadarias. Estava péssima, agora sabia o que Harry havia sentido, sabia como ele havia se enamorado e como Malfoy conseguia deixar os outros desse jeito.

Quando foi subir os degraus, tropeçou em alguém, sentado perto da abertura que dava para o Salão Principal.

Buscou quem era com o olhar arregalado e a culpa se refletindo em seu rosto, mas ao invés de encontrar Harry, a quem julgou estar ali, encontrou-se com Susan.

A lufaniana estava encolhida e abraçava os joelhos de forma tensa e triste.

Estranhou vê-la ali e tão arrasada. Seu rosto estava rosado e os olhos inchados, delatando que havia chorado durante muito tempo.

- Bones? – seu instinto solidário falou mais alto, deixando de lado seus próprios problemas e sentimentos para tentar ajudar a garota. – O que aconteceu?

- Isso... Dói... – ela soluçou, voltando aos prantos. – Ele não é maravilhoso? Você estava com ele, eu vi vocês falando com a Murta... Ele não é como um anjo?

Hermione franziu o cenho e reteve a vontade de chorar. – Sim... Malfoy é maravilhoso...

- Por quê? – Susan gritou, voltando-se para olha-la nos olhos enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto – Fui eu quem descobriu esse Draco fascinante. Eu! – voltou o rosto para a abertura, vendo a escuridão do Grande Salão. – Eu o amo desde o quarto ano... E não é um sentimento de momento, não... É um sentimento verdadeiro, tão real e tão profundo que dói tanto que... Acho que vou enlouquecer... – fungou várias vezes, tentando parar os soluços – Potter nem saberia que ele existe se não fosse por mim! – apertou as mãos na barra da camisola – Por que Merlin permitiu que ele me deixasse para ficar com alguém que nunca chegou a enxerga-lo como ele é e apenas o insultava e desprezava desde sempre? Odeio vê-los juntos...

Hermione pousou uma mão ao ombro da garota, tal como Malfoy havia feito consigo instantes antes.

- Às vezes amamos a pessoa errada... Não sei se destino existe, mas... Acredito que tem pessoas que não é pra gente mesmo que nosso coração queira que fosse... – sussurrou consoladora.

- E o que você sabe sobre sentir isso? – Susan voltou a olha-la nos olhos, buscando verdade nessas palavras.

- Eu sei porque eu sinto isso... – suspirou profundamente, tentando conter a vontade de chorar. Agora podia falar com firmeza, pois sentia e sofria por culpa dele... Por culpa desse sentimento que não escolhemos e que simplesmente acontece...

Susan sofria por ter o amor não correspondido. Hermione sofria por ter um amor equivocado e Harry sofria por ter um amor proibido...

- Mandarei outra carta para a senhora Malfoy. Ela deve estar achando que eles não estão mais juntos, mas eu os vejo se encontrando escondido. Quero que ela tire o Draco de Hogwarts e que Potter fique só – a lufaniana confessou com raiva, apertando os lábios – Quero que ele sinta o que estou sentindo, que ele sofra como está me fazendo sofrer...

- Harry não te roubou o Draco... – Granger foi determinada e rígida ao pronunciar. Viu como Bones ficou na defensiva, se afastando de si e a olhando como uma inimiga. – Escute... Malfoy escolheu ao Harry e não você.

A garota tampou os ouvidos. – Não quero saber! Você diz isso porque é amiga dele!

- É difícil aceitar isso porque você é sentimental demais, sonhadora e se iludiu com um amor de conto de fadas! – agarrando os pulsos de Susan, Hermione a fez escutar – Você não tem culpa, Harry não tem culpa e o Draco não tem culpa! Amar é ganhar e perder. A vida é ganhar e perder! Não faça nada que se arrependa futuramente Susan. Você pode prejudicar não só ao Harry, mas ao Draco também, a mim, aos estudantes e até a você mesma... Hoje você está sofrendo, mas com o tempo se supera tudo e quem ama, sempre amará novamente... Você é tão nova e nem chegou a conhecer o que é viver com quem se ama, então, esquecer e amar outra pessoa será mais fácil.

- Eu não acho justo estar sofrendo sozinha! – se debateu para soltar os braços.

Hermione a soltou com um severo olhar. – Você é egoísta, então deveria saber muito bem porque Harry foi egoísta. - Susan arregalou os olhos frente esse comentário – Se você estivesse no lugar dele, o que você faria? Arriscava um relacionamento com Draco que te escolheu e sente o mesmo por você, ou o rejeitaria por causa dos sentimentos de outra pessoa?

- Ficaria com ele – murmurou envergonhada. – Mas é que... O Harry apareceu depois nessa história... Me magoa... Me machuca... – com os olhos novamente embargados de lágrimas, Susan voltou a olhar pela abertura na parede – Você não entende...

- Não, não entendo porque você poderia e ele não pode.

- Por que ele é Harry Potter! O que ajuda a todos, o que se sacrifica por todos...

Hermione ponderou por um tempo. Susan era egoísta e levava o sentimento ao extremo, por ser uma lufaniana, era regida pela emoção, não pela razão. E seu emocional estava destroçado, sentindo-se traída.

- Se isso te consola... – apertou os lábios com certa raiva do que ia dizer – Harry não tem vida, seu futuro é incerto, e pode morrer hoje ou amanhã... Por isso ele foi egoísta uma vez nessa droga de vida sem manhã e pensou nele e em viver o momento, porque o momento pra ele pode ser uma hora, um minuto ou um segundo! Ele não é um mártir e sabe, por Merlin, você não faz idéia de como ele sabe que pode morrer, que vai morrer!

O silencio reinou no lugar enquanto Hermione tampava o rosto com as mãos e soluçava baixinho enquanto Susan estava tensa, o lábio inferior tremendo e a respiração alterada.

Mal sabiam elas que alguns metros acima, um moreno de olhos verde estava sentado no chão, as mãos apertando o cabelo baixo a capa de invisibilidade e os olhos fechados, para que as lágrimas não rolassem por seu rosto. Estava buscando a Draco e por acaso acabou topando com essa cena que nunca desejou presenciar.

E no Salão Principal, encoberto pelas sombras, um sonserino loiro estava encostado na parede, as mãos nos bolsos da calça e olhar vago, sem vida. Havia ido atrás de Granger por ela não aparentar estar nada bem, e foi inevitável não ouvir a conversa entre as garotas. Depois das palavras de Hermione, pensar em Harry estava sendo tão doloroso quanto imaginar sua mãe sem vida caso falhasse.

- Não quero que Harry morra... – a voz chorosa e falha de Susan rompeu o silencio. Logo, ela começou a chorar mais desesperadamente, abraçando a Hermione.

Hermione retribuiu o abraço afagando as costas da garota – Eu também não... – ficou um instante pensativa, para depois consola-la melhor – Sabe... Malfoy havia me dito uma vez que... No momento de raiva ou desespero, pensamos e agimos de uma forma, mas não paramos para ponderar melhor no que estamos fazendo ou falando. Às vezes dissemos coisas horríveis, mas quando o pior acontece, percebemos que não era aquilo que queríamos... Harry não teve culpa de amar a mesma pessoa que você ama.

Susan suspirou, finalmente aceitando. – O Harry não estaria com o Draco se o Draco não gostasse dele... Tem razão, agi como uma tola infantil... – se afastou com calma e deixou que Hermione enxugasse suas lágrimas – Tenho que me conformar que perdi e... Continuar vivendo.

Granger sorriu – Porque a vida continua.

Susan fez que sim com a cabeça e também sorriu, mesmo um sorriso ainda repleto de tristeza e sofrimento. Ergueu-se e subiu os degraus, desaparecendo pelo corredor em direção a sua Casa.

Sozinha, Hermione também se incorporou e olhou para a abertura a qual Susan sempre olhava. Via o Grande Salão à penumbra. Essa conversa só fez refletir sobre sua própria condição e esse novo e assustador sentimento que tomava seu coração ao se lembrar de Malfoy.

Agora entendia porque Harry manteve segredo, estava assustado e confuso com tudo.

Se ao menos tivesse acontecido como aconteceu com Bones... Seu sentimento não seria recriminador, apenas seria um amor não correspondido e poderia se conformar facilmente com isso. Mas enamorar-se pela pessoa que seu melhor amigo amava...

Era um amor culpado.

Por mais que soubesse que esse sentimento simplesmente acontecia, não deixava de sentir essa culpa.

Sorriu com ironia. Como Susan acabara de dizer, acontecia o mesmo consigo. Não estava atraída por Malfoy. Se fosse atração, seria mais sexual do que emotivo. Prestaria mais atenção em sua beleza e sua masculinidade do que no seu jeito, no seu modo de pensar e em como era profundo o seu olhar.

Sabia que passar as horas na companhia desse sonserino estava sendo muito gratificante e chegava a se alegrar quando seu nome saía junto com o dele para as rondas dos monitores. Só não sabia que era por estar se apaixonando que reagia dessa forma...

A questão que lhe perturbava agora era... Contaria para Harry sobre seus sentimentos? Ou deixava em segredo até ser esquecido?

Essa noite tinha certeza de que não dormiria...


Harry manteve-se imóvel até que as duas garotas deixaram o corredor e teve a certeza de que não o veriam ali.

Ergueu-se e quitou a capa de invisibilidade com a mão esquerda enquanto com a direita limpava uma gota fugitiva por detrás das lentes.

Respirou fundo e desceu os degraus parando frente à abertura da parede olhou a escuridão do Salão, onde tudo teve início...

Era um completo idiota e canalha, pois agradecia infinitamente à Susan Bones por ter-lhe apresentado a Draco. Não ao Malfoy, ao sonserino ou ao sangue-puro que conhecia durante todos esses anos... Não ao muro de gelo e incógnitas obscuras... Mas ao sentimento, ao ser humano, ao coração que pulsava dentro do estereótipo chamado Draco Malfoy... Susan havia lhe apresentado ao verdadeiro e único e estava eternamente grato a ela por isso...

A sombra de alguém do outro lado da parede se apresentou, para sua surpresa. Quando essa pessoa se aproximou da abertura em baixo a pouca claridade da tocha que iluminava a escada, não evitou sorrir, um sorriso triste.

- Eu sempre causo problemas... – Draco ironizou, com um curto sorriso de angustia.

- Acho que essa frase é minha – Harry retrucou, causando um outro sorriso no sonserino, dessa vez de graça e divertimento, então sentou no degrau onde Susan e Hermione haviam estado até agora pouco e bateu de leve a seu lado – Sente aqui comigo.

Draco obedeceu sentando-se no lugar indicado e ambos se recostaram ao corpo do outro, sentindo o calor de suas peles e amenizando esses sentimentos tristes e frustrantes. Com cuidado o moreno envolveu os ombros do loiro e este escondeu o rosto na curvatura de seu pescoço.

- Queria que não tivesse amanhã... Que o mundo parasse de girar, que a areia congelasse dentro da ampulheta e os ponteiros do relógio da vida não se movessem nunca mais. Só para ficar assim... – a voz de Draco se ouviu abafada e não tinha como saber se ele estava chorando ou não.

Harry o atraiu mais em seu abraço, apertando seu corpo de encontro ao seu como se estando agarrados, tudo melhoraria e achariam uma solução.

- Eu também meu amor... – sussurrou baixinho no ouvido de Draco.

- Meu amor – o loiro repetiu com um sorriso verdadeiro, mas que infelizmente, em sua posição, Harry não podia ver. Reparando em como o havia tratado, o moreno também sorriu, dando alguns beijos no cabelo platinado. – Lembra do livro que estávamos lendo?

- Romeu e Julieta de Shakespeare – claro que Harry lembrava, e sentia uma profunda tristeza por não terem terminado de lerem juntos, por mais que conhecessem o desfecho da trama e o final da história.

Haviam escolhido aquele título por pura falta de opção na livraria de Hogsmeade e no pequeno acervo de Malfoy. Como queriam manter o hábito da leitura noturna e gostavam de ficarem juntos aconchegados sob as cobertas, optaram por um romance que conheciam, mas que fazia tempo que haviam lido. Para Harry, nunca havia propriamente lido, mas conhecia por ser muito popular.

- Eu faria o mesmo se você morresse... – Draco murmurou com suavidade.

O corpo de Harry se enrijeceu inteiro e com rudeza que no momento desconsiderou, tomou o rosto do sonserino entre as mãos e o obrigou a olha-lo nos olhos. Draco fez uma careta de desagrado, mas enfrentou o olhar verde.

- Nunca. Mais. Diga. Isso. – Harry recriminou com dureza. – Nunca mais diga que se mataria caso eu morresse, pois se eu morrer, a única coisa que eu desejo é que você viva.

Pela primeira vez Harry presenciou aqueles olhos prateados turvarem de lágrimas, inundarem e transbordarem dolorosamente. Nesse momento reteve o ar na garanta afogando a própria dor, sentia seus olhos arderem e sua vista ameaçava se turvar também.

- Se você também morrer, eu não terei mais ninguém... – quando Harry ouviu essas palavras acabar de deixar os lábios de Draco, não teve tempo de contestar, pois esses mesmos lábios já tomavam os seus com desespero.

A única coisa que fez foi deslizar as mãos pelo corpo esguio e envolve-lo pela cintura. Sentia como Draco se desmoronava pela primeira vez e se mostrava vulnerável e perdido.

Se uniram num beijo infinito de amor e entrega...

Draco o provava como se fosse a última vez que teria essa boca contra a sua e conseqüentemente deixava sua marca gravada nos sentidos do grifinório.

Quando se afastaram minimamente, apenas o suficiente para respirarem, ouviu o loiro sussurrar de encontro a sua boca.

- Te amo, Harry...

Harry sentiu um pergaminho sendo forçado de encontro a sua mão e apenas segurou. Draco então se ergueu e sem olha-lo, desceu os poucos degraus que faltavam e desapareceu na escuridão de onde havia vindo.

Preocupado, o moreno não esperou chegar em sua Sala Comunal para ler. Rompeu o lacre e abriu o papel.

"H."

Se eu pudesse escolher, queria ter nascido em outra família, com outro sobrenome e tradição...

Não me importaria em ter nascido pobre ou trouxa... Não me importaria mais nada, contanto que eu o encontrasse e não haveria nada que nos separasse...

Você fez meu mundo diferente... Modificou o que eu julgava imutável...

Talvez... Seja meu espírito revoltado, querendo contrariar as ordens de meu senhor, e esses sentimentos inconseqüentes tenham surgido dentro de meu corpo... Um corpo estranho que desconheço cada vez mais...

Olho-me no espelho e não sei quem sou...

Não sei de mais nada, tudo me é tão confuso...

E quando te vejo sei quem você é... Sei que eu te quero e te necessito...

Mas é tão complicado...

Talvez você um dia me entenda, talvez você nunca venha a entender...

Sou como um bobo da corte, que sorri enquanto chora...

Que se cala enquanto murmura...

Sou como um pássaro que lhe cortaram as asas...

Que clama por socorro em mãos inimigas...

E hei de ignorar-te todavia...

Serei como a noite e você o dia...

Serei o vazio e você o mar...

Ignorar-te-ei, mas nunca deixarei de te amar...

"D."

Quando mal havia acabado de ler a última frase, um estrondo pôde ser ouvido em todo castelo. Ergueu-se assustado e com os olhos, buscou o que acontecia e notou, para seu horror, que Hogwarts estava sendo atacada.

Alunos e professores logo se tumultuaram e em meio a essa confusão, Harry só logrou procurar a Draco. Correu entre a multidão, sem saber onde exatamente estava sendo invadido e dando pouco caso aos chamados de McGonagall, foi em direção às masmorras. No caminho cruzou com Zabinni que o vendo passar a seu lado sem nota-lo o deteve pelo braço.

- Potter! É Dumbledore. Corre! – gritou o sonserino para em seguida empurra-lo para longe.

Harry nem conseguiu dizer uma palavra, assim que foi solto, correu o máximo que suas pernas conseguiam rumo a sala do diretor.

Blaise voltou a ajudar Parkinson com os primeiro e segundo anos, os conduzindo para um local seguro. Havia avistado Draco rondando o lado do escritório do diretor e ainda há pouco, enquanto o esperava voltar da ronda de monitores, o viu seguir para lá. Só esperava que estivesse equivocado ou que ao menos, Potter chegasse a tempo.

Enquanto Harry percorria os corredores, um turbilhão de pensamentos se embolava em sua cabeça. Queria ter o dom de se multiplicar para ajudar na luta contra os Comensais, para estar ao lado de seus amigos e defende-los, para estar com Draco e o impedir de cometer qualquer loucura, salva-lo de si mesmo, de seu sangue ou o que quer que ele havia lhe dito naquele pergaminho, já não importava, o que importava era que queria, necessitava ser o herói que todos esperavam que ele fosse.

E mais uma vez se odiou por não ser esse herói.

O restante dos acontecimentos passou como num flash, sua chegada ao escritório, a conversa entre Dumbledore e Draco, seu corpo imóvel, sua voz sumida no fundo da garganta, Snape, lágrimas, sofrimento, cumplicidade, respeito, tristeza, angustia, a magia, a morte, os olhos do diretor aos seus, a fuga, o desespero de Malfoy e a firmeza de Snape...

Era como se a rotação da Terra havia diminuído em alguns trechos e acelerado em outros, quando por fim teve domínio do próprio corpo, não tinha cabeça para refletir em mais nada, nem no que fazer.

Não sabia se ia atrás de Snape, se ficava para tentar reanimar o velho diretor ou se corria para pedir ajuda e ver se o resto estava bem.

A única coisa que conseguiu fazer em seu estado catatônico, foi se encolher num canto em modo fetal, apertar os olhos enquanto as lágrimas caíam e cantar baixinho para enganar a si mesmo e ao caos que se formou em seu interior.

Estava desmoronando...

Sua mente se negava a processar o que tinha acontecido, o que acontecia e o que certamente viria a acontecer.

A única coisa que inundava sua mente e fazia seu coração sangrar era: Draco não estaria mais com ele...


"D."

Minha sina...

Como uma chaga que se espalha em meu corpo e afeta minha mente.

Tento em vão esquecer-te, mas como tatuagem em carne e sangue,

Torna-se impossível.

Às vezes me pergunto o quão importante parece ser em minha vida,

Como um regente que ordena quando e como devo agir.

Racionar não me é mais uma faculdade,

Perco a sensatez,

Quero ferir-te, mas no fundo...

Quero algo além de minha própria compreensão...

Como um desejo que você não sabe com exatidão o que seja,

Mas que se encontra ali e te incomoda...

O que você é para mim?

Não sei,

Ódio? Raiva? Desprezo?

Obsessão?

Creio que não...

É amor.

"H."


Hermione viu as últimas carruagens deixarem Hogwarts levando embora o restante dos estudantes dos primeiros, segundos e terceiros anos.

Havia corrido quase três meses depois que o castelo havia sido atacado e a perda de Dumbledore...

Nesse meio tempo estavam preparando-se para a guerra definitiva e como Hogwarts não era mais a fortaleza segura, aos poucos os professores foram enviando os alunos para suas casas ou refúgios secretos para não correrem perigo.

Vagou com os olhos à procura de seu amigo, e como esperado, foi encontra-lo na beira do lago, com os olhos fitos na extensão das águas plácidas em busca do horizonte inalcançável...

Harry não era o mesmo. Ele não havia ficado assim nem com a perda de Sírius. Estava como num mundo paralelo, acatava as ordens como uma máquina sem emoção e treinava feitiços como haviam lhe aconselhado, mas... Não vivia...

Quando se aproximou da beira do lago, notou que Rony estava sentado a seu lado, cabisbaixo e arrancava as gramas para se distrair, ou descontar sua frustração de não conseguir reanimar o amigo.

Ela se sentou do outro lado de Harry, sem pronunciar uma palavra, ficou ali, fazendo-lhe companhia e olhando também para o horizonte.

Era sempre assim, o silencio enquanto estavam juntos, apenas o barulho do vento e da água para quebrar a angustia que sentiam.

Rony foi tão maduro e compreensivo ao ignorar qualquer comentário contra Malfoy, ao menos se mostrou contra a atitude do sonserino, talvez longe dos ouvidos de Harry ele criticasse e xingasse, mas perto dele, nunca...

Ela aspirou o ar e notou o cheiro da chuva, e como estava abafado, notou que seria um temporal. Passou a mão pelo cabelo vasto e voltou a olhar para a água, dessa vez para ver os três refletidos nela.

Pensou que Harry não diria nada como sempre, mas o som de sua voz atraiu sua atenção, assim como a de Rony.

- Mandei outra carta pra ele, mas ainda não obtive retorno... – não precisava pensar muito para saber que "ele" se tratava de Malfoy.

Hermione mordeu o canto da boca e sentiu seus olhos arderem. Também sentia falta dele, mas esse era um sentimento que cabia por direito apenas para Harry.

- Oh Harry... Sinto tanto! – Hermione o abraçou carinhosamente. – Sei como é difícil suportar isso...

Rony apertou os lábios e estreitou os olhos antes de se manifestar, apoiando uma mão amiga e firme no ombro do moreno. – Ele te responderá, não se preocupe irmão.

Susan estava parada não muito longe dos três amigos e observava a cena com pesar. Havia desejado tanto ver Harry sofrendo como o via agora, mas ali, tão arrasado, sabia que Draco deveria estar na mesma situação ou pior, por estar longe de tudo que conhecia e de todos os amigos que tinha.

Já não desejava sofrimento para nenhum deles.

Olhou para o lago e se recordou das vezes em que viu Harry enviando corujas para que alguma de suas cartas chegasse até o sonserino, mas isso já fazia quase três meses, e Harry ficava ali sentado, esperando uma resposta que nunca veio...

Teve vontade de consola-lo, o que foi uma surpresa para si mesma. Talvez Hermione tivesse razão aquele dia em que conversaram. Por mais que amava a Malfoy, não chegou a viver esse amor com ele e sofrer, não era tanto como era para Harry. Não gostou de ver os dois juntos, mas não tinha sangue frio o suficiente para sentir prazer pela desgraça deles, agora sabia disso.

Aquele dia foi como os decorrentes. Harry ficou ali até anoitecer e não recebeu nenhuma resposta. Nenhuma das corujas que havia enviado havia retornado, o que o frustrava ainda mais.

Se alguma delas tivesse regressado com a carta, saberia que Draco não foi encontrado. Se alguma tivesse regressado sem a carta, sabia que ele a recebeu, mas não quis responder.

Mas nenhuma voltou, o que levava ao pior. Foram mortas, ou quem sabe, Draco quem estivesse...

Negou com a cabeça. Não. Não tomaria conclusões apreçadas a menos se tivesse certeza de que algo de trágico aconteceu.

E assim passou-se mais um mês... A guerra cada vez mais drástica, os acontecimentos se agravando dia após dia e a hora derradeira prestes a acontecer...

Soube-se que encontraram o corpo de Narcissa, que alguns Comensais haviam perecido, que Snape nem dera sinal de vida e muito menos Malfoy.

- Harry... – Hermione atraiu sua atenção, quando foi busca-lo na beira do lago. – Você vai continuar aqui até quando? Olhe para você, está perdido, não se alimenta direito, não conversa com a gente, não faz nada, apenas fica aqui – ela passou a mão pelo cabelo, angustiada. – Estamos preocupados... Volte pra gente Harry...

- Você não tem mais esperanças? – o moreno contestou, o olhar perdido no horizonte.

Hermione negou com a cabeça, a tristeza nítida em seus olhos. – Não... Suas cartas são como mensagens dentro de garrafas, lançadas ao mar... Não se sabe se algum dia alguém irá encontrá-las... Não se sabe se algum dia alguém dará valor a elas... – ela olhou para o céu, vendo o vermelho do entardecer dando espaço ao negror da noite. – Lamento tanto... Mas não se pode viver esperando, terá de lutar, terá de vencer e quem sabe, vocês não se encontrem na guerra... Ainda há esperança para voltar a vê-lo, mas não para esperar que ele te envie uma resposta...

Harry se levantou do gramado e bateu nas roupas para tirar a terra. Sorriu tristemente quanto seus olhos encontraram os olhos da amiga.

- Sabe o que eu descobri, quando eu tive certeza de que estava enamorado do Draco? – Hermione apenas negou com a cabeça – Descobrir que dói viver longe dele... Que a falta é tão grande que sinto que perdi uma parte do coração e que... Eu ficaria feliz apenas se eu soubesse que ele está bem e que... Está vivendo... – apertou as mãos, com indignação – A maioria foram contra... A maioria ainda é contra, mas nunca chegaram a pensar em como sentimos. E que é a nossa vida! Eles querem que eu lute para salvar quem eles amam e eu sou forçado a me separar de quem amo porque eles acham errado! Estou farto desse egoísmo todo e quando eu sou egoísta, eles me acusam, me recriminam!

Hermione baixou a cabeça, sem saber o que dizer. Os alunos e os professores que coletavam àquela hora o máximo de ingredientes curativos para fazer as poções que necessitariam na guerra pararam o que faziam para ouvi-lo. Ninguém retrucou, ninguém ousou a dizer uma única palavra a respeito.

- São poucos os que ligam para o que vier a acontecer com Draco. A maioria o julga, o incrimina e o condena, mas garanto com certeza absoluta que ninguém aqui é mais santo que ele. Somos todos hipócritas e não suportamos a hipocrisia dos outros. – Harry se conteve, limpou bruscamente os olhos e respirou fundo – Sinto por estar te atirando essas coisas horríveis, mas eu precisava desabafar... Não contra você...

- Eu também merecia ouvir isso... – Hermione sorriu, sem ressentimentos. – Eu realmente merecia ouvir isso desde o começo e estava pensando que você nunca fosse me dizer.

Mas ao notar o sorriso desiludido e o olhar sem brilho no rosto do amigo, Hermione perdeu a fala e a vontade de sorrir - Harry perdera a esperança... Ele não sabia mais o motivo de vencer...

Solidária, a castanha o abraçou pela cintura e estavam para retornar, quando do meio das pessoas que ali estavam, Blaise apontou para o lago.

- Veja Potter!

Harry girou o corpo e viu, sem acreditar, um bando de aves se aproximando. Elas sobrevoavam rasteiras sobre as plácidas águas do lago, vindas do horizonte. Ao se aproximarem, pôde notar que eram todas corujas, várias e muitas reconhecia que era as que havia enviado durante todos esses meses. O mais peculiar era que elas não voavam em desordem, mas em fila indiana.

A primeira a alcançá-lo, soltou no ar um pedaço de papel vermelho que antes de chegar em suas mãos, se abriu sozinha. Era um berrador, mas ao invés da voz estridente que gritava, ouviu-se uma voz suave, que cantava.

Cada coruja trazia um trecho da música e no final, todos, principalmente Harry, ouviu a seguinte canção, conforme os papéis se abriam no ar:

No matter what they tell us / Não importa o que eles nos digam,

No matter what they do / Não importa o que eles façam,

No matter what they teach us / Não importa o que eles nos ensinem,

What we believe is true / O que nós acreditamos é verdadeiro.

No matter what they call us / Não importa do que eles nos chamem,

However they attack / De qualquer forma que eles ataquem,

No matter where they take us / Não importa onde eles nos levem,

We'll find our own way back / Nós encontraremos nosso próprio caminho de volta.

I can't deny what I believe / Eu não posso negar o que acredito,

I can't be what I'm not / Eu não posso ser o que não sou,

I know I'll love forever / Eu sei que amarei eternamente,

I know, no matter what / Eu sei, não importa o quê.

Harry sorria como nunca, seus olhos voltaram a turvarem, mas sentindo a felicidade arrebatar seu coração, enquanto via maravilhado as corujas voarem ao seu encontro e os pergaminhos enfeitiçados pairarem incontáveis sobre sua cabeça.

If only tears were laughter / Se somente lágrimas fossem risos,

If only night was day / Se somente noite fosse dia,

If only prayers were answered / Se somente orações fossem respondidas,

Then we would hear God say / Então nós ouviríamos Deus dizer:

No matter what they tell you / Não importa o que eles te digam,

No matter what they do / Não importa o que eles façam,

No matter what they teach you / Não importa o que eles te ensinem,

What you believe is true / O que você acredita é verdadeiro.

A noite havia caído e na escura paisagem à beira do lago, onde a pouca claridade da lua crescente chegava e as pessoas se aglomeravam para se maravilharem com a canção, os papéis tornaram-se fluorescentes, como se as estrelas houvessem descidos para a terra e adornava um belo e fascinado moreno de olhos verdes, soltando faíscas como se fossem vaga-lumes a brincar no ar.

Tudo originário da mente, criatividade e magia de Draco, como Harry via nas noites de ronda desse sonserino, a enfeitar o Salão Principal, mas muito mais intenso e apaixonante...

Porque era para Harry... Porque era para quem amava...

E as corujas continuavam chegando, misturando suas plumas nesse enredo único e que ficaria gravado na memória, para sempre...

And I will keep you safe and strong / E eu manterei você seguro e firme,

And sheltered from the storm / E protegido da chuva,

No matter where it's barren / Não importa onde for árido,

A dream is being born / Um sonho está nascendo.

No matter who they follow / Não importa quem eles sigam,

No matter where they lead / Não importa quem eles liderem,

No matter how they judge us / Não importa como eles nos julguem,

I'll be everyone you need / Eu serei todos de quem você precisa.

No matter if the sun don't shine / Não importa se o sol não brilhar,

Or if the skies are blue / Ou se os céus forem azuis,

No matter what the end is / Não importa qual seja o final,

My life began with you / Minha vida começou com você.

Nesse instante Harry reteve respiração e fechou os olhos por um instante. Queria absorver essas palavras para levar até o fim da vida, queria imaginar elas sendo soltas pelos lábios de Draco após um longo e apaixonado beijo...

I can't deny what I believe / Eu não posso negar o que acredito,

I can't be what I'm not / Eu não posso ser o que não sou,

I know, I know / Eu sei, Eu sei,

I know this love's forever / Eu sei que este amor é para sempre,

That's all that matters now / Isso é tudo que importa agora.

No matter what… / Não importa o quê...

No matter what (no, no matter, no) / Não importa o quê (não, não importa, não),

No, no matter / Não, não importa

E o ultimo pergaminho foi solto, se abrindo como os demais, para a última frase ser dita ao invés de cantada, e pelo inconfundível timbre da voz de Draco...

That's all that matter to me / Isso é tudo que importa para mim.

Quando a magia estava no fim, todos os pergaminhos se uniram em ordem e baixaram lentamente nas mãos de Harry, quem segurou firme e trouxe de encontro ao peito.

O que antes sempre foi dúvida, passou a ser certeza.

Harry ergueu a cabeça com determinação, seus olhos brilhando como nunca e a esperança quase apagada ressurgindo com força dobrada. Lembrou-se da última conversa com Draco:

"Se você também morrer, eu não terei mais ninguém...".

Malfoy sabia que sua mãe morreria e tinha medo que ele também morresse. Antes tinha essa expectativa, mas depois dessas palavras, tinha certeza que venceria e viveria...

Tinha que viver...

Não por um motivo confuso ou puramente altruísta, mas por um motivo muito além, e que era parte de si...

Todos que presenciaram aquela sublime declaração sorriam e aos poucos e silenciosamente, como forma de respeito, deixaram o jardim e adentraram ao castelo.

Quando foi guardar os pergaminhos no bolso, sentiu uma caixinha. Era o primeiro presente que havia ganhado de Draco. Sorriu abrindo a tampa para ver a borboleta, e para sua surpresa, não havia apenas uma, mas duas. Elas bateram as asas e tomaram o ar, brincando entre si, como numa dança alegre e cheia de vida, deixando rastros de luz por onde passavam...

Hermione e Rony sorriram quando Harry os olhou radiante e disse:

- Estou de volta... Desculpe a demora, mas eu tinha perdido parte de minha alma... Agora ela está voltando e... – sorriu como nunca havia sorrido antes – Jamais deixarei ir embora novamente...

Porque amava a Draco com todas as forças e sentia sua falta, seu coração sangrava a cada batida e acreditava que terminariam juntos...

Porque esse amor é tudo que importa...


N/A: e chega ao fim mais uma fic... espero que tenham gostado. Final pela metade? Não exatamente. Eu estava em dúvida como seria o desfecho final, então pensei... Porque não deixar que cada um imagine como terminou essa estória? Assim, cabe a vocês imaginarem o melhor final aos dois, que seja feliz, triste ou trágico, será o que vocês gostariam que fossem.

Queria dedicar esse final para Bibis Black, por ser a primeira fic que ela me faz o imenso favor de betar. Obrigada de coração, não sei como agradecer!

E queria me desculpar a todos pela minha ausência. Ando péssima, querendo arrancar os miolos e espremer pra ver se consigo extrair alguma inspiração para continuar as outras fics, é por esse motivo que ando atrasada nas atualizações!

N/B: Aiai...Sanae que não sabe, mas agradecimento melhor que esse capítulo não existe ! A fic terminou de forma imprevisível mas completamente plausível com os acontecimentos. Instigou minha imaginação e espero que estimulem a de vocês também. E tenho certeza que nós sempre perdoaremos os atrasos se sempre vierem capítulos lindos como esse. Beijos a todos e um especial a autora dessa fic apaixonante.

Agradecimentos à:

Bela Youkai – olá, eu quis colocar alguns pensamentos que já ouvi as pessoas dizerem, como por exemplo que a homossexualidade é doença, ou que a pessoa tem distúrbios mentais ou que faz isso porque gosta de "ir contra" as normas "corretas" da sociedade (um absurdo!), então quis passar também as várias facetas de se apaixonar por alguém, como por exemplo a Susan, que gosta de quem não gosta dela, ou da Hermione, que foi gostar do namorado do amigo (que no caso acontece muito com as amizades, uma pessoas acabar gostando do namorado (a) de uma colega ou amiga (o) e suas reações). A fic terminou no ar, achei que seria melhor para o leitor imaginar o que gostaria que acontecesse, ficar juntos, separados, algum deles morrer... Era tantas alternativas para um final angst, mas decidi deixar a imaginação de vocês falar pelo final que cada um achar melhor. Espero que não tenha ficado brava comigo por terminar assim puppy eyes. Bjs!

Augustus Black – olá, desculpe não ter atualizado antes, mas estava sem inspiração e não queria matar a fic decaindo sua qualidade. Obrigada por achar que escrevo bem! Isso eleva meu ego XP, adorei seu review! Bjs!

Bibis Black – olá, minha beta querida! (possessividade a minha:P). Bem, a Hermione foi uma vítima minha, talvez eu quis fazer uma Hermione diferente das que todos escrevem, mas também era uma personagem fundamental para passar o que eu queria. Concorda do Ron ser cabeça-dura e amigo fiel? Realmente achei que ele passava isso Da relação Harry Draco, não quis algo mil maravilhas, queria conflitos também, e pelo que vc me diz, acho que consegui:) Espero que tenha esclarecido a relação do Nott nessa trama, não foi o vilão, mas queria encucar vcs (risos XD). E pedido realizado, acho que deu para curtir um pouquinho sobre os amigos do Draco, também fiéis à amizade, como os grifinórios e pasmem! Crabbe e Goyle tem cérebro nessa fic! (tadinhos...). Eu é que fiquei empolgada com seu coment! E convencida! XD. E eu queria pedir desculpas, esse é o primeiro cap que você betou e eu já abusando por ter mais de 30 páginas! Bjs!

Mira-chan – olá, err... (Sanae sem saber onde enfiar a cara), você me cumprimentando pela regularidade das atualizações e eu levo uma eternidade para postar esse capítulo, te decepcionei feio né? Sorry! Sorry! Sorry! (cai de joelhos e implora perdão) Sem brincadeira, queria pedir desculpas por ter demorado tanto, mas sem inspiração, sem atualizações ou acabo decaindo na qualidade da fic e estragando ela inteira. Se eu pudesse postava toda semana, mas não tenho a mente fértil nesse ponto. Espero que não tenha ficado chateada com a minha longa demora. Acho que você é uma das únicas que gostaram da Hermione (a Bibis tbm), e não foi bem uma briga de mulheres como você queria, mas a Hermione deu uma lição de moral na garota bem ao seu estilo racional, espero que tenha gostado. Ron e Nev ficaram fiel até o final e o Draco... Espero não ter estragado ele nesse final, depois de tantos elogiando o loirão, fiquei com receio. Não me aprofundei no Dumb porque ele era uma personagem de segundo plano mesmo, mais para dar recheio à trama, espero que deu para entender sua relação nos acontecimentos, foi escrito de forma rápida, mas para esclarecer mesmo, sem detalhes profundos. Pedido realizado, o Draco realmente tem amigos e muito fiéis! Gostou do Nott? Acho que ninguém esperava essa né? (risos). Ah sim, o Blaise o melhor amigo e confidente do Draco não poderia faltar! Espero que tenha gostado da aparição dele. Bjs!

Felton Blackthorn – olá, oba! Outra pessoa que entende a Hermione! O Nott não era tão mau assim e o Nev continuou apoiando. A Susan tinha que aparecer para levar uma na cara e o amor supera barreiras, no final, continuaram se amando, coisa que ninguém poderá separar mesmo que separem os dois, o sentimento fica. Adorei seu coment, bjs!

Fabi – olá, bem acabou, essa parte eu dividiria em três, mas estava demorando tanto para atualizar que resolvi fazer um só e terminar a fic. É angst e teve esse final para que vocês imaginem um fim que acharem melhor, eles juntos, separado, um morre, não sei... Achei que seria melhor deixar por conta do leitor imaginar um final para essa fic e que fosse de seu agrado. Espero que tenha gostado, um grande bjo!

Scheila Potter – olá, espero não ter judiado tanto dos seus fofuchos, e a Susan levou a dela, e pela Mione! No final, o amor continuou no ar até o fim Adoro seus coments! Bjs!

Rafael9692 – olá, agradeço todos os seus reviews, em todas as fics e fico feliz que goste de minhas loucas criações :P É ótimo saber que não agrado somente em uma ou duas estórias! O Harry não está tão sozinho, apenas os amigos não sabem como consola-lo devidamente, a questão do coração é complicado e muitos tem medo de dizer bobagens que piorem as coisas, mas Rony e Nev estavam lá, assim como Mione se redimiu e quis ajudar no que podia. O mesmo vale para o Draco, os amigos estavam lá, mas não puderam fazer muito, infelizmente. O Dumb eu expliquei seus motivos, talvez não tão os melhores que poderia ter feito, mas tentou melhorar à sua maneira. Espero que tenha gostado do final. Amei seu coment, bjs!

Aleera Black – olá, seus coments são sempre maravilhosos e inspiradores! Oh Merlin! Agora estou com os olhos cheios de lágrimas! Jura que gostou? Eu quis passar esse preconceito, a dificuldade e o que é amar. O amor não é um conto de fadas, tem que aceitar a separação, a rejeição e às vezes, temos que nos conformar que amamos a pessoa errada. E quanto ao preconceito, queria passar que ele existe não apenas para os homossexuais, mas para tudo e que os próprios que sofrem preconceito, também são preconceituosos e nem se dão conta disso! No caso da fic, eu fiz isso com a Mione e o Draco (ele tem preconceito ao nível social e à nacionalidade das pessoas, os sangue-sujos. Não seria como um preconceito racial?) e agora sentiu na pele o que é sofrer o preconceito. Não sei se é Limme que se escreve, mas eu tbm escrevo assim XD, teve mais nesse final e a parte da "aranha" eu criei especialmente porque você pediu! Tem pessoas que ainda não mandam reviews para os autores, e tem tanta idéia legal para melhorar a fic, como vocês que sempre me acompanham e deixam comentários me dão dicas e eu as incorporo na fic. É uma forma de agradar quem lê e melhorar na estória. Fiquei feliz que tenha opinado. Não havia reconhecido quando li seu nick, mas quando li sua review, percebi um pouco de familiaridade com as outras que vc me enviou (os comentários mostram um pouco da personalidade de quem escreve). Bjs!

Obrigada a todos que comentaram e a todos que acompanharam essa fic! Um grande abraço!

E bem, a Bibis me lembrou que não dei créditos a musica. Aqui vai:

No Matter What do grupo Boyzone.

Que vocês podem pegar no site que disponho no meu profile, caso queiram.