Os olhos da mulher retornavam à sua tonalidade lavanda habitual, as veias, antes estufadas ao redor das orbes já não eram mais aparentes. Restava o filete de sangue que lhe escorria pelo nariz e a respiração descompassada. As palavras antes proferidas por ela, agora já não lhe faziam sentido. Desabou no chão, em meio aos tecidos azuis escuros. O mármore gelado contra sua pele doía.
À sua frente, o Imperador a encarava furioso. Uma veia lhe saltava a testa e os punhos e dentes cerrados. A profecia de Hinata, desta vez, não lhe agradava, uma vez que as palavras desconexas que ela dizia versavam apenas sobre caos e perda de poder.
- O que você quer dizer com isso?! – As mãos agora apertavam fortemente o pescoço alvo da sacerdotisa.
Hinata agonizava sob a fúria de Gaara, tentava afastar as mãos dele de seu pescoço, mas não tinha forças. Tentava pedir que ele parasse, porém não conseguia nem respirar.
-Imperador! – a voz grave de Neji se fez ouvir pelo ambiente.
O homem de cabelos escarlates jogou a mulher com violência na cama, que chorava aterrorizada.
- Da próxima vez, faça-se mais útil, Hinata. – Ameaçou, antes de sair, ainda furioso.
Neji correu até a mulher e a acolheu num abraço para que ela se acalmasse.
- O que você disse a ele?
- A primeira visão que tive, foi sobre a colheita, era próspera. – Ela soluçou, em meio as lágrimas. – Mas antes que ele deixasse a sala, eu tive outra visão, e essa era horrível, Neji. Sangue, fumaça, gritos... Eu não tive controle sobre o que dizer... Ele ouviu tudo.
Hinata continuava aos prantos nos braços de Neji. Apesar de viverem sob o teto do palácio, ainda não eram donos de suas vidas. E, por mais que a mulher estivesse amedrontada, a premonição da desgraça do império fez um sorriso discreto brotar em seus lábios.
-Acha que ele está morto?
Shikamaru ainda não abrira os olhos, apesar de escutar e entender toda a discussão dos seus companheiros de cela. Não conhecia nenhuma das vozes, ainda assim, não se sentiu ameaçado.
-Não... Ele está apenas desmaiado.
-Não é o primeiro, nem o único.
Tomando ciência de sua condição, ele abriu os olhos e sentou-se. Olhou para as figuras à sua frente. Havia um homem de cabelos dourados e olhos azuis, um ruivo de bochechas rosadas e olhos castanhos, e um moreno de cabelos e olhos castanhos.
Apesar de serem-lhe completamente estranhos, não sentiu-se ameaçado. Afinal, eles estavam na mesma situação que a sua. Escravos. Nada mais que isso. Um turbilhão de pensamentos ainda lhe assombravam, as lembranças daquele inferno: o dia em que as tropas de Gaara invadiram sua vila, os dias que se passaram desde então. Ele estava atordoado.
Naruto, Chouji e Kiba, esses eram os nomes de seus novos companheiros. Mas antes que pudesse memorizar os nomes com sucesso um estrondo fez-se ouvir e tremeu levemente as estruturas do abrigo. Logo, as grades de metal se levantavam e os homens se posicionavam em fila. O sol ainda não raiara.
Ino acordou mais uma vez sozinha. Agradeceu mentalmente por isso. As imagens da pobre mulher servindo como mesa, numa escultura bizarra, ainda não lhe abandonavam.
Assim que terminou de vestir-se, uma das amas adentrou os aposentos dizendo-lhe para ir ao encontro do marido e que não demorasse. Ela atendeu.
Gaara encontrava-se sentado da maneira mais esdruxula possível. A túnica preta mal cobria sua intimidade. Sorriu ao vê-la entrar na sala do trono e fez um sinal para que ela se aproximasse.
- Minha imperatriz! – Ele disse antes de beijá-la violentamente quase rompendo os lábios de ambos. – Teremos um grande dia hoje!
Um arrepio correu pela espinha da mulher. Gaara era sádico. Aquela animação não habitual teria algum motivo cruel.
-Já tomou seu dejejum? – Ele perguntou, voltando a se sentar.
-Não...
O imperador fez um sinal para que os servos trouxessem-lhes a refeição e foi prontamente atendido.
-Então... o que temos para hoje? – As palavras saíram de sua boca sem que conseguisse represa-las.
Recebeu apenas um sorriso como resposta e um brilho quase que felino faiscou nos olhos verdes dele.
-Logo você vai descobrir... Agora, termine de comer, sim?
O trabalho ao qual fora incumbido consistia em carregar sacos e mais sacos de pedras que sobravam da mineração. Ele já havia perdido as contas de quantas vezes repetira o mesmo caminho naquelas horas. Só sentia uma dor insuportável nos pés descalços e no ombro que já começara a esfolar. O estômago reclamava de fome e uma leve tremura tomava conta de suas mãos. Não demoraria muito a sucumbir, assim como muitos outros o fizeram e foram castigados pelos chicotes dos feitores.
E ainda sofria aquele calor insuportável, sem trégua, cada vez pior. Diferente de sua terra, ali o vento só trazia mais calor e poeira.
Deram-lhe, como refeição, um mingau insípido, um copo com água e um pequeno pedaço de carne, e, sem reclamar, engoliu tudo.
Assim que terminou de comer, uma movimentação estranha lhe chamou a atenção: uma comitiva de soldados se aproximava e o trabalho fora interrompido: foram solicitados ao pátio do palácio para que fossem marcados, efetivando sua condição de animais.
Como era esperado, o Imperador estava pronto para ser espectador da cena de horrores. Ele, sua imperatriz e a irmã. Todos vestidos com roupas nobres e protegidos por uma tenda do sol.
O ferro em brasa queimando sua pele não doera tanto quanto a raiva que sentia. Ver o sorriso de escárnio de Gaara era como veneno percorrendo suas veias e apertando seu coração. O grito de dor no momento que sentira o calor marcando para sempre seu destino foi contido. Por mais que a dor fosse insuportável, ele não daria ao imperador o prazer da sua dor. Seu interior, pelo contrario, chorava, gritava e se corroía. Não havia nenhum bálsamo capaz de curar aquilo.
-Chegou a hora. - Gaara segurou a mão da imperatriz, roubando-lhe a atenção. –Os deuses precisam ser agradados! – ele anunciou em voz alta, quase gritanto. –Treze terão a honra de dar suas vidas a eles... A imperatriz fará a seleção. –ele a fez levantar, guiando-lhe até os escravos.
Então aquele era o motivo da excitação de Gaara. Fazê-la escolher treze pessoas para derramar seu sangue em favor de deuses que eles não acreditavam. Ela caminhou por entre as filas, sem olhar nos olhos de nenhum dos que ela escolhera. Era covarde, ela sabia disso. Quando sua conta chegou ao número doze, esperou pela sensação de alívio pelo dever cumprido, mas seu coração estava cada vez mais em pedaços. Assim, começou a percorrer a última fileira de homens. O cheiro de suor e carne queimada não lhe incomodava tanto quanto o que estava fazendo.
A mulher de vestido púrpura caminhava lentamente entre seus companheiros, aqueles que eram tocados por ela eram arrastados para longe dali. Apesar da postura ereta, fazia sua escolha friamente, sem que encarasse nenhum daqueles que condenava.
E, então, ela se aproximava dele. Sua respiração estava cada vez mais agitada e o coração acelerado. No entanto, sentiu falhar um batimento quando a mão gelada e macia tocou sua pele. Os olhos azuis mantinham-se fixos no nada. Mas ela teria que encará-lo. Pelo menos o peso de sua vida ela iria carregar.
Repousou sua mão fumegante e calejada sobre a dela. Calmamente, para que ninguém percebesse e ela se assustasse.
Ela foi obrigada a sair de seus devaneios quando o calor em sua mão a fez despertar. De repente, seus olhos azuis estavam perdidos num infinito que era os olhos negros daquele que ela escolhera para morrer.
-Que seja feito o sacrifício! – Gaara a despertou do transe.
Ah-rá! Dessa vez eu não demorei muito! E esse capítulo foi um pouquinho mais decisivo do que o anterior... Agradeço pelos reviews, seguidores e favoritos! Obrigada pelo apoio e espero que gostem!
