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[6,1 bilhões de anos atrás]

Na parte da galáxia que, no futuro, seria denominada pelos humanos como quadrante Delta, um sistema solar quase formado será o berço do planeta que dará início à saga borg. O segundo planeta desse sistema.

Nenhuma molécula orgânica no planeta, ainda. A proximidade com sua estrela tornou seus primeiros estágios muito turbulentos. O planeta está no limite interno da faixa de órbita onde surgir a vida é possível. Ainda serão necessários milhões de anos até se formar um campo magnético que bloqueie o efeito nocivo das partículas arremessadas pela estrela no seu processo de fusão nuclear. O calor gerado pelas colisões dos planetesimais que o formaram e seu núcleo radioativo manterão o planeta vulcanicamente ativo, de forma violenta, no seu primeiro bilhão de anos.

Tão rico em ferro eram os planetesimais que o formaram, que as erupções vulcânicas farão jorrar o metal líquido na superfície. As áreas cobertas por ferro só virão a se oxidar quando os primeiros seres fotossintetizadores produzirem oxigênio. Essa abundância de metal será de total importância para a evolução tecnológica no planeta. A superfície oxidada dará o tom vermelho à superfície. E essa cor dará o nome ao planeta. O nome do deus da guerra adorado pela terceira civilização do Continente Primeiro. Deus Anuyáh. Planeta Anuyáh. Civilização Káh. Para facilitar, vamos chamar as civilizações do planeta de preborgs.

[4,3 bilhões de anos atrás]

O planeta Anuyáh fervilhava com bactérias e outros seres unicelulares em seus lagos quentes. O Oceano Segundo, como será chamado pela civilização Káh, estava quase formado. Bactérias formavam colônias nele, processando o gás carbônico da atmosfera e retornando oxigênio. A morte dessas bactérias, durante os próximos seiscentos milhões de anos, formará camadas com quilômetros de largura no fundo do oceano, que serão cobertas por outras camadas de detritos, formando outros tantos quilômetros de largura. Essas camadas de bactérias serão o combustível fóssil do qual se utilizará a sétima e a oitava civilizações por um longo período de sua existência.

[2667 a.C.]

Liton e Bonu correram o quanto puderam, gritando a plenos pulmões. Pulmões duplos, como os humanos. A manada de caluns assustou-se e correu na direção oposta. Bastaria um trio de caluns para destroçar facilmente os dois preborgs, mas a inteligência desses animais estava longe de permitir-lhes que percebessem isso.

A manada se aproximou da Planície Altina. Era a vez de Zeta, Menis e Banis fazerem quanto barulho conseguissem. Os animais mudaram ligeiramente de direção, até que mais de vinte caluns despencaram na Depressão Verga.

Os cinco preborgs aguardaram o restante da manada fugir para outra direção e aproximaram-se da Depressão. Comemoraram o sucesso da caçada. Atividades conjuntas eram o padrão de comportamento entre os preborgs e prevaleceria por toda a duração daquela civilização. Trabalhavam em grupo desde quando seus longínquos ancestrais herbívoros coletavam frutas e arrancavam raízes; achavam isso tão natural que lhes parecia estranho trabalhar individualmente. Na primeira viagem tripulada ao satélite do planeta, daqui a centenas de anos, os três tripulantes pisarão ao mesmo tempo na superfície (no segundo passo, comicamente, tropeçarão uns nos outros e cairão; mas essa imagem não será transmitida ao restante da civilização).

[1914 a.C.]

Meiuk caminhava com cuidado na região vulcânica. O problema não era o calor, os grossos cascos naturais em seus pés os protegiam, como protegiam também os pés de seus companheiros que vinham logo atrás. Esse era o motivo porque eram escalados como coletores de ferro líquido: tinham os maiores cascos. O problema eram os gases que poderiam emanar da terra. As áreas com bolsões de gases tóxicos estavam demarcadas, mas poderiam surgir novos bolsões. Diante do perigo que a coleta representava, Meiuk e seus companheiros de trabalho gozavam de posição de destaque naquela sociedade guerreira. O metal, coletado em recipientes pré-moldados, permitia a criação de armas e escudos, dando grande vantagem nas batalhas. Valia a pena o risco. Mas, dessa vez, não para Meiuk, que tombou antes da coleta. Entrara num bolsão de gás ainda não detectado e sinalizado. Seus companheiros o carregaram de volta, mas ele morreu no dia seguinte.

Em diversas áreas rochosas, ocorreu a formação de pontos permanentes de escape do calor interno do planeta. Quando a temperatura interna do planeta era muito maior, esses canais que ligavam camadas internas ao exterior acabaram naturalmente ganhando um revestimento metálico de cantidium. Isso manteve a estrutura desses milhões de canais de saída, evitando o colapso de suas paredes, de onde fluíam ferro líquido, ou água aquecida, ou vapores, ou gases tóxicos.

Tanto metal no planeta, o que lhe dava um alta densidade média, gerava uma forte gravidade, dificultando a formação de animais de grande porte. A maioria das espécies era atarracada, de tronco forte, ossos resistentes. A evolução das espécies ocorreu muito devagar por causa do campo magnético potente: poucas partículas nucleares conseguiam passar pela atmosfera, causando menos mutações no código genético dos seres do planeta. Mas, ao mesmo tempo, protegeu a vida no planeta da perigosa proximidade de sua estrela.

A pouca inclinação no eixo do planeta gerou uma baixa variação de temperatura entre as latitudes. Com isso, os ventos eram fracos, ocasionando a quase impossibilidade da navegação entre os continentes até que a civilização atingisse a fase de industrialização. As temperaturas mais amenas faziam com que as calotas polares fossem pequenas, havendo mais água em estado líquido e com os níveis dos mares elevados, quase não permitindo migrações entre os continentes. Assim, o contato com povos de outros continentes somente ocorreu quando atingiram alguma maturidade. Ocorreram as primeiras guerras de conquista, os primeiros genocídios. Ao final, venceu a civilização que tinha mais ferro à disposição: a Civilização Mantiss do Continente Segundo.

[1630 a.C]

Jin sentou-se na grama para descansar. A cova para o corpo de sua mãe já estava escavada. Com suas próprias mãos, de acordo com a tradição. Não levou mais que duas horas, graças ao enorme esforço de Jin. Até descobrirem o processo de refrigeração, não existiam velórios, pois os corpos precisavam ser descartados rapidamente. No corpo da mãe de Jim, quase três horas após a morte, já se via a adiantada ação das bactérias decompositoras existentes no estômago de todo vertebrado do planeta. Após quatro horas da morte, mal se conseguia transportar um morto sem que seu corpo se desmembrasse.

Isso criou a rotina dos enterros rápidos. A rápida atuação das bactérias decompositoras, no passado do planeta, gerou reservas do equivalente ao petróleo dos humanos em quase todo o planeta. Da época de Jin, ainda passariam dois séculos até que a energia desse combustível fosse aproveitada, inicialmente, como fonte de luz com a sua queima.

[37 d.C.]

Primeira Grande Batalha, como foi denominada pelos historiadores. Colina de Toradi, lado leste. Mais de duzentos mil mortos espalhados. Não é uma visão agradável; para os humanos, seria mais desagradável ainda ver partes de corpos se movendo entre os mortos. Todos os vertebrados do planeta possuíam o sistema nervoso distribuído e dois ou quatro corações. Não era diferente com os seres inteligentes do planeta. Um braço decepado ainda ficava vivo por trinta minutos, vinte dos quais se debatendo. Parte das memórias de uma pessoa ia com o braço arrancado. É como se o cérebro fosse distribuído por todo o corpo, mantendo-se apenas um centro de controle na cabeça. Por isso a cabeça era pequena. O soldado que tivesse a cabeça destroçada por um tiro, ainda conseguia viver por dois ou três dias, com alguma consciência do que estava acontecendo. Não morreria nem de hemorragia, pois os vasos sanguíneos tinham o recurso de fecharem-se quando seccionados. Uma pessoa só morreria de imediato num ataque quando seus oito centros nervosos fossem atingidos.

[284 d.C.]

Silas, Antoc, Merevas e Menazi. Serão reconhecidos como os cientistas precursores da modernidade, mas hoje estão juntos numa cela, seminus, com hematomas e cortes pelo corpo. Passaram por duas semanas de interrogatório pelo poder clerical. Nenhum deles voltou atrás em suas afirmações. Silas e Antoc continuavam defendendo a evolução das espécies por seleção natural. Todos seus escritos, os que foram encontrados, já haviam sido lançados na boca de um vulcão, assim como as centenas de fósseis coletados em décadas de pesquisa. Merevas e Menazi, irmãos, defendiam que o planeta girava em torno de sua estrela, que havia outros planetas em outras estrelas e que o planeta preborg não era o centro do universo. Seus livros publicados foram confiscados, os aparelhos de observação que eles mesmos criaram em anos de pesquisa foram destruídos. Tudo lançado também na boca de um vulcão, numa cerimônia luxuosa, cheia de pompa, como o clero apreciava.

Mantinham os prisioneiros numa mesma cela. Eles conversavam entre si; era a única atividade que tinham para se distrair. Dessa vez, pelo tema levantado, a conversa não era tão agradável.

— Já marcaram a execução, será daqui a dois dias, disse Menazi.

— Eu já desconfiava que estava perto. Dá para ver o cubo daqui desse canto, disse Merevas.

Antoc foi para a pequena janela e viu também a área de execução. Um enorme cubo de ferro estava para ser içado a 20 metros do solo, onde havia uma plataforma também de ferro.

— Espero morrer rápido, disse.

Merevas e Menazi ficaram em silêncio.

— Pelo menos essa é a vantagem dessa pena. A morte é instantânea. O peso do cubo esmaga todos os centros nervosos ao mesmo tempo, disse Silas.

— Será que se sente alguma dor?

— Nunca ninguém sobreviveu a uma execução desse tipo para deixar um relato.

— Eu não quero morrer, há tanto ainda a ser descoberto.

— E ninguém irá descobrir se o poder clerical eliminar todos os cientistas e pesquisadores que forem contra seus ensinamentos.

— Há a esperança de sermos perdoados.

— Dizem que a esperança é a última coisa que se vai. Mas para mim ela já foi embora faz tempo.

A execução por esmagamento era a condenação comum da época, mas nunca um cubo tão grande como aquele havia sido construído com essa finalidade.

Silas aproximou-se da janela, teve que ficar nas pontas dos pés para enxergar lá fora.

— Olha o tamanho disso! Cabemos nós quatro na plataforma.

— Será que seremos executados juntos? Vão fazer disso um espetáculo, como sempre.

— E uma lição àqueles que pensam em ir contra o poder da igreja.

Sim, foram executados juntos. O perdão não chegara. A execução atrasou em dois dias, até conseguirem animais suficientes para erguer o cubo. O barulho do impacto contra a plataforma, esmagando os cientistas, parecia que ainda ecoava pelo vale.

Esse cubo fora mantido no lugar, como exemplo. Passados os séculos, foi restaurado e o que sobrara dos corpos dos cientistas foi enterrado num monumento erguido ao lado. Alguns exemplares das obras dos cientistas haviam escapado da destruição. Influenciaram gerações, até irem parar em museus.

O poder clerical nunca assumiu seu erro na execução de tantos inocentes. Enfraqueceu-se aos poucos, quase se extinguindo nos trezentos anos seguintes, devido principalmente ao Conflito de Nauda. É muito difícil explicar o que foi esse conflito; até os historiadores preborgs atrapalhavam-se quando perguntados a respeito, pois requeria expor uma série de detalhes da história daquela civilização.