O que será do amanhã?
Betas: Ana Ackles e Mary SPN. Sem elas, não tem história. Simples assim. Mil beijos, lindinhas!
Capítulo 4
J pensando em J
"Eu só quero que você saiba que eu estou pensando em você, agora e sempre mais..."
Sintomas de saudade - Marisa Monte
- Jay, cara, me desculpa... – Devin tentava se desculpar com Jared, enquanto caminhavam de volta ao acampamento. Sabia que tinha pisado muito feio na bola. - Eu juro que não queria te ferrar. Eu só achei que dava pra trazer umas frutas pra gente, tinham tantas lá... pensei que nem iam dar falta, mas aquele cara tava comprando umas coisas, e eu nem sabia que ele era da polícia...me desculpa vai...poxa, bateu o maior alívio quando eu te vi na delegacia, e desculpa aí também por ter te chamado de otário e zoado com teu nome, foi só pra manter a fama de mau...
Jared, calado, ouvia o menino. O que Devin sabia não ser um bom sinal,, já que o grandão era sempre muito falante. Na verdade, Jared estava pensando no que dizer. Queria achar as palavras certas, para fazer um adolescente cabeça dura entender o real perigo que havia corrido e como uma atitude daquelas poderia separá-lo para sempre de suas irmãs.
- Devin, isso não pode mais acontecer...
- Não vai cara, eu juro. Eu nunca mais vou deixar me pegarem...
- Não Devin! Não é disso que estou falando. – Jared passou a mão nos cabelos e parou de andar, encarando o garoto. – Olha, o problema não está em você ser pego. O erro é você estar roubando, pegando algo que não é seu, que pertence a outra pessoa. Consegue entender isso?
- Mas Jay, eram só frutas... – O menino teimou.
- Mas tinham dono, Devin! E isso não se faz, não é certo! Poxa, não é a primeira vez que a gente tem essa conversa. Caramba! – Jared se zangou.
- Eu só queria fazer alguma coisa. A gente tá quase a zero. E se você desmaiar de novo como naquele dia? Você diz que foi cansaço, mas eu sei que foi porque você não comeu quase nada. Você não me engana, eu não sou mais criança! Então eu pensei que... eram só frutas... – Devin falou amuado.
- Eu sei cara. – Jared tentou abrandar o tom de voz – Mas não importa. As frutas não eram suas e nem foram dadas a você. Eu sei que a gente tá precisando reforçar a alimentação, sei que você quer ajudar, mas nós não somos ladrões, certo? Somos mosqueteiros, ora! – Jared falou e deu um leve tapa na cabeça de menino como a lembrá-lo daquele detalhe. Devin sorriu um pouquinho mais animado – Enfrentamos as dificuldades juntos, de cabeça erguida e quando um dia a sorte virar para o nosso lado, porque ela vai virar, nós vamos agarrá-la, trabalhar duro, comprar uma casa só nossa e ter toda comida que podermos comer!
- E sorvete? – Devin perguntou como se tivesse cinco anos de idade.
- E sorvete! – Jared fez o melhor que pode naquele momento. Do que adiantaria uma briga? – Agora prometa, nada de roubar coisa alguma e nada de aprontar.
- Prometo. – O adolescente ousado, agora era só um menino com quem a vida tinha sido bastante dura. – Pode confiar, cara.
- Ótimo. E só pra você não se esquecer da promessa, uma semana vindo da escola direto para o acampamento. Di-re-to. Sem parar em lugar nenhum.
- Ah, Jared, poxa! – Devin reclamou, Jared ignorou e os dois continuaram andando em direção ao acampamento. Nem sequer perceberam o policial que os seguia.
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Depois de falar de suas desconfianças sobre o rapaz para o capitão, Jensen voltou ao trabalho e só saiu da delegacia tarde da noite. Na verdade, nem precisava ficar até tão tarde mas, apesar de gostar da tranquilidade de sua casa, algumas vezes ele preferia estar no trabalho, que era uma forma de preencher o vazio de sua vida.
Como Jensen sempre fora muito detalhista, quando morava com Ty, era ele quem se ocupava com decoração da casa. Escolhia as cortinas, os quadros, os vasos de plantas, a cor das paredes. Nada em excesso, tudo com a cara dos dois homens que moravam ali, mas feito com muito carinho. Seu companheiro não tinha muito jeito para essas coisas, mas gostava desses detalhes que deixavam o cantinho dos dois tão aconchegante e era todo elogios para seu loiro.
Mas há tempo perdera o gosto por cuidar da casa. Morava num apartamento confortável, porém bem simples. As paredes eram brancas e nuas. As cortinas eram cinza, escuras o suficiente, para os dias em que não queria ver luz do sol. Os móveis eram poucos e práticos de limpar. Sequer um vaso de planta, um castiçal ou mesmo um porta-retratos. O lugar onde Jensen morava agora, refletia a sua alma desabitada.
Também não gostava mais de ouvir música, pois todas elas, de alguma forma, o lembravam de Ty, que sempre cantava desafinadamente no chuveiro qualquer música que estivesse tocando e volta e meia pedia para Jensen cantar para ele e tocar violão. Instrumento esse, que estava guardado a sete chaves pois, o loiro que cantava e tocava tão bem, nem mesmo queria vê-lo. Desde que perdera a metade do seu coração, ansiava pelo silêncio, sentia-se melhor na quietude.
Naquela noite, porém, o silêncio de seu apartamento o estava deixando desassossegado. No momento em que fechou a porta, teve a sensação de estranhamento do lugar em que estava, como se a casa não fosse sua ou como se a calmaria que ele tanto apreciava, o estivesse incomodando.
Abriu a janela da sala e ficou observando a rua. Na cabeça, maquinava a informação que o policial havia lhe trazido, sobre o menino que ele tinha pego roubando frutas naquela manhã. A imagem do rapaz muito alto, de olhos doces e sorriso bonito foi se formando lentamente e ocupou todo o seu pensamento. Jensen se pegou torcendo, para que ele não fosse um criminoso explorador de crianças, e que tivesse um motivo justo para ter mentido. Tiraria aquela história a limpo no dia seguinte.
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Jared chegou ao acampamento e encontrou sua amiga, Loretta Devine, tomando conta das meninas. Ela era a uma boa pessoa. Jared e as crianças a conheceram há um ano na fila de uma instituição que, todas as noites, servia sopa para os desabrigados. Foram dias muito difíceis para eles, pois dormir na rua já era uma das piores coisas da vida porém, no inverno, onde as temperaturas ficavam facilmente abaixo de zero e ainda nevava, era simplesmente desumano.
Os abrigos municipais, não davam conta de acolher a todos que precisavam de ajuda e Jared já havia visto, mais de uma vez, companheiros de infortúnio não resistirem ao frio extremo.
Loretta e seus três netos, que ela criava sozinha após a morte da filha, já haviam passado por dois acampamentos, mas a prefeitura havia despejado a todos. Ficou na rua por cinco meses e estava agora acampada, mais distante do centro da cidade, num lugar onde havia cerca de cinquenta pessoas. Assim que conheceu Jared e as crianças, se propôs a ajudá-los a conseguir um espaço no acampamento onde estava. Demorou algum tempo, mas até o dinheiro para que o rapaz comprasse uma pequena barraca, ela conseguiu. Pediu um pouquinho a cada um no lugar onde morava e dividiu com ele, o pouco que conseguia, trabalhando como faxineira em algumas casas. Jared lhe era muito grato e as crianças e os netos de Loretta se tornaram muito amigos.
Naquele final de tarde, Jared e Loretta ficaram conversando um pouco sobre o que havia acontecido e ele buscava se aconselhar com ela, sobre qual atitude tomar para que Devin não seguisse por um caminho errado. Ela sempre tinha boas palavras, para momentos difíceis ou complicados e quase sempre acertava a direção que a vida iria tomar. Loretta dizia que isso era só experiência de vida, mas Jared achava que havia algo mais, como um sexto sentido, que ela não queria que os outros soubessem. Especialmente, nesta tarde, ficou impossível esconder de Jared este dom.
A conversa entre os dois, aos poucos, foi deixando de ser sobre o adolescente rebelde. A mulher afirmava que Devin, ainda ia dar muito trabalho, mas que não seria uma pessoa do mal e Jared se acalmou um pouco. A conversa então, passou a ser sobre um certo rapaz, muito gentil, que também precisava direcionar sua vida e encontrar seu caminho.
Jared prometera as crianças que cuidaria delas e cumpria à risca a promessa, fazendo tudo que podia por elas. E fazia tudo com amor e boa vontade, mas como o tempo sempre cobra um preço por tudo, ele havia perdido há muito o caminho de sua própria vida. Às vezes, ele nem lembrava que ainda era tão jovem. As responsabilidades e dificuldades do dia a dia furtavam de Jared o tempo que ele precisava para si mesmo.
- Querido, você precisa cuidar um pouco mais de você. – Loretta dizia a Jared enquanto segurava carinhosamente sua mão. – Se ficar doente não poderá cuidar das crianças. E seu corpo precisa estar forte, para que sua mente esteja sã e você possa tomar decisões importantes, para coisas que vão lhe acontecer em breve.
- Que coisas, Loretta? Você fica sempre falando que minha vida vai mudar e que eu vou ter que tomar decisões difíceis. Que decisões são essas? Como você sabe? – Jared estava apreensivo e com muitas preocupações.
- Olha, grandão, eu nem sei lhe dizer como sei, mas eu olho pra você e consigo ver que tem uma linda estrada à sua frente, só que ela não está livre para você passar. Há muitos obstáculos e você vai ter que saber como contorná-los, para poder seguir seu caminho. Um único passo errado e tudo pode retroceder ao que está hoje e isso seria uma lástima. Você merece muito ser feliz! E cada decisão tomada não irá atingir somente a você. Fique atento. Não vai ser fácil, mas tenha fé em você mesmo. – Jared ficou pensativo. Afinal, ele sabia que já havia coisas que precisava resolver.
Loretta se levantou do banco improvisado em que estavam sentados e olhou com carinho para Jared. – Não quero me meter na sua intimidade, meu bem, mas já não está na hora de você encarar a sua sexualidade de um modo mais verdadeiro? Saber com quem se sente realmente satisfeito é o primeiro passo para ser feliz no amor. Até porque, você não parou de pensar neste lindo loiro dos olhos de esmeralda, nem por um minuto, durante todo o tempo em que estamos conversando. – Loretta sorriu, piscou para Jared e foi andando para sua barraca cantarolando uma música antiga. Enquanto ele, completamente atônito e surpreso, não conseguiu esboçar uma reação.
Naquela noite, Jared deitou-se em sua barraca ao lado das crianças, que dormiam à sono solto, e ficou pensando em tudo que Loretta havia lhe dito. Estava frio e seu cobertor era curto e surrado, não tinha espaço para esticar suas longas pernas, suas costas doíam, e como ele gostaria de beber uma boa caneca de chocolate quente! Porém, nada disso o estava incomodando tanto, quanto a lembrança de um certo detetive loiro. Jared se pegou pensando que seria legal se houvesse um modo de vê-lo novamente, sem que estivesse em apuros ou resolvendo alguma confusão de Devin. Pensando bem, talvez fosse melhor não. Ainda nem sabia se deveria dar vazão a esse tipo de desejo. Já tinha tantos problemas...
Jared achava que ficar com as garotas até que era fácil e, assim, ia tentando suprir as necessidades de seu corpo, sem pensar muito se realmente sentia-se saciado ou não. Gostava de ficar com elas, pois era um dos poucos momentos em que conseguia relaxar da vida insólita que levava.
Contudo, admitia que já havia se sentido atraído por um ou outro cara. A princípio, foi difícil assumir, mesmo que só para si, esse interesse por homens. Não por preconceito, mas porque sentia-se um pouco perdido, sem muita noção de como agir. Crescera rodeado de pessoas mas, ao mesmo tempo, muito só. As crianças em abrigos, não têm individualidade e são, na maioria das vezes, vistas como um grupo. Jared nunca tivera ninguém para conversar sobre esses assuntos. Tudo que sabia, tinha aprendido sozinho. Amadureceu na marra, vivendo nas ruas, trabalhando sem descanso para cuidar de si mesmo e de mais três crianças. Apesar de tudo, não era de reclamar da vida, tinha uma certa leveza na alma. O que faltava a Jared, era oportunidade de se conhecer melhor e tempo para encaminhar a própria vida.
O fato de Loretta ter tocado neste assunto, despertara nele uma vontade de saber mais e de matar sua curiosidade. Havia tantas coisas que gostaria de saber... Será que beijar um cara seria muito diferente de beijar uma garota? Muitos pensamentos passeavam por sua cabeça sem que nenhum, de fato o ajudasse a chegar a alguma conclusão. A única coisa que sabia, de verdade, é que tinha achado aquele detetive o homem mais bonito que já vira.
Nesse momento, Devin se esticou e quase bateu com o pé na barriga de Jared, que então, voltou seus pensamentos para implacável realidade: precisava urgentemente conseguir dinheiro para comprar uma barraca maior. Ainda não sabia como ia fazer, talvez conseguisse comprar uma de segunda mão... ou então arranjar um trabalho na parte da noite... tinha tanta coisa para resolver que, às vezes, era difícil decidir o que era prioridade.
Cobriu-se o melhor que pode e fechou os olhos. Na mente, a imagem de Jensen. Duvidava que aquele homem tão atraente fosse gay. E também, se fosse, nunca iria querer nada com um cara como ele, que não tinha nem onde cair morto. Na verdade, não tinha nem mesmo onde cair vivo. Não ia mais vê-lo, afinal, então, melhor esquecer.
E como diabos Loretta sabia de tudo aquilo? Foi o último pensamento de Jared antes de adormecer, vencido pelo cansaço.
Continua...
Nota: Loretta Devine é o nome da atriz que fez a Missouri no episódio 9 da 1ª temporada. Ela seria a pessoa que ajudaria Sam e Dean no final da temporada, mas a atriz ficou indisponível por causa de outro trabalho então, criaram o Bobby Singer. Aqui nesta fic, ela não será uma vidente, mas será uma boa amiga para Jared.
