Após a descoberta da existência de Lis, Henry fez questão de passar a visitá-las uma vez a cada quinze dias e transferiu-as para uma casinha em um bairro um pouco melhor de Bath. Além disso, passou a trazer roupas e brinquedos para a menina, que se tornou decidida a adorá-lo.

Thérèse e Laura não queriam que Henry tivesse muito contato com Lis, mas era por causa dela (e não da chantagem) que o médico lhes fornecia dinheiro, suprimentos e confortos, então não afastavam pai e filha. Compactuavam com a adoração cada vez maior que Lis tinha por seu pai e com as histórias que Henry inventava sobre sua relação prévia com Laura. Thérèse lidava friamente com a derrota parcial no cabo-de-guerra com Henry, visto que ganhava em condição de vida. Laura definhava.

Os períodos de melancolia tornavam-se mais longos e com intervalos cada vez mais reduzidos entre eles. Na presença de Henry, Laura tornava-se calada e arisca, vigiando cada gesto e palavra que ele lançava para seu pequeno tesouro. "Não vai machucá-la também" murmurava ela pelos cantos da casa, como se ninguém pudesse ouvir. A cada passo que Laura dava em direção à insanidade, Thérèse tornava-se mais apreensiva. Gostava dela como nunca gostara de ninguém e precisava dela viva para que Henry continuasse a bancá-la. As coisas fugiam ao controle.

A depressão de Laura chegou a um nível tão preocupante que a jovem francesa cogitou abrir mão de tudo.

"Vamos embora." Sussurrou Thérèse para Laura no meio da noite. Ela se mexeu nas cobertas e encarou a companheira, com seus olhos violáceos brilhando no escuro. "Vamos para o sul da França. Eu tenho uma tia boa que mora lá. Henry nunca vai nos encontrar. Lis vai ter amigos… Nós temos algum dinheiro guardado, dá para fugir. Vamos ser felizes, Laurie, longe desse homem. De todos os homens."

"Vamos." Concordou Laura, sorrindo e enfiando seu rosto no colo farto de Thérèse, enroscando seu corpo no dela. A morena apertou-a em retribuição e, enquanto beijava seus cabelos, rosto e todo o corpo, pensava quão louca Laura tinha deixado-a para fazer com que quisesse abrir mão da mina de ouro que Henry lhes ofertava em troca apenas de ter algumas horas de vez em quando com Lis.

.

Ficou sozinha com Lis pela primeira vez em suas vidas logo depois que Thérèse partiu para ajeitar as coisas em Carcassone, para que mãe e filha encontrassem tudo pronto ao chegar a sua nova casa. Brincaram durante quatro dias seguidos, sem que Laura ficasse infeliz. Era inverno e fazia pouco mais de um mês que Lis completara três anos. Como chovera muito na quarta-feira e na quinta o quintal estava cheio de lama, Laura não viu problema em deixá-la brincar do lado de fora. Fazia bolinhos de lama enquanto a mãe preparava torradas.

Laura ouviu-a conversar com alguém. Ninguém tinha a chave do portão exceto… Correu em pânico para fora. Henry. E estava sozinha ali com a menina.

"O que faz aqui? Só o esperávamos para a outra semana, já que veio no sábado." Ele a olhou como se soubesse de todos os seus segredos – e devia saber mesmo, já que Laura não era boa em esconder as coisas, desviando os olhos da menina gargalhante de alegria por um minuto.

"Onde está a outra?"

"V-viajou." Laura começou a se sentir fraca. Como os olhos dele podiam ter a mesma cor de Lis? Queria agarrar a menina e fugir naquele instante.

"Está com medo de que, Laurie?" Conforme Henry se aproximava dela, Laura andava para trás, até bater na parede da cozinha e escorregar para o chão. Não podia enfrentá-lo. Nem por Terry, nem por Lilly, nem por ela. Henry iria machucá-las de novo e de novo e Laura não faria nada. Porque merecia, porque precisava do dinheiro. Lis foi entrando assustada atrás do pai, que seguira para dentro da casa, deixando Laura prostrada no chão da cozinha. Certamente já tinha identificado a expressão de afogamento no rosto da mãe.

"Mamãe, ele está indo para o quarto. Auntie Terry disse que não podia deixar. Pare ele, mamãe." A menina sentou no seu colo, imunda do barro vermelho, sabendo que Laura não iria impedir Henry. Sabendo que tudo o que Laura podia fazer era abraçá-la.

Enroscada como uma bolinha ao redor de Lis, Laura cantou baixinho com a filha e a balançou para frente e para trás. Lilly brincou com os cachos ruivos da mãe, sujando-a toda de barro.

"Eu te amo, florzinha." Ela sussurrou em seu ouvido pouco antes de escutarem os passos desabalados de Henry no corredor.

"Por que não há nenhuma roupa da francesa aqui?!" Laura apertou mais a filha no colo e Lis escondeu o rosto nos seios pequenos da mãe. Não gostava quando papai gritava com mamãe.

"Já disse: ela viajou." Sussurrou sem muita convicção.

"E por que as roupas de vocês estão em malas?! O que fizeram com os quadros que eu dei?! Me responda, Laura!" Ele parou de gritar e ficou bufando, olhando Laura enterrar o rosto nos cachos loiros da filha. "Elisabeth." Posto que a menina também não respondeu, adocicou a voz. "Lizzie," Ela tirou o rosto dos seios da mãe e o olhou, com medo. "para onde mamãe vai levar você? Para que suas roupas estão em malas?" Elisabeth – o nome da mãe de Henry, com o qual ele a registrara seis meses antes e que Laura e Thérèse se recusavam a usar – olhou para a mãe e viu-a fazendo que não com a cabeça. Permaneceu em silêncio. "Se você não contar, vou castigar a mamãe na sua frente." As duas começaram a chorar e Laura a apertou com mais força. Henry começou a desafivelar o cinto.

"Embora! Vamos embora para sempre e você nunca mais vai machucar ela!" Ele fechou o cinto e a expressão suavizou. Elisabeth relaxou, mas Laura começou a tremer; ela conhecia bem o bom doutor.

Watson deu uns passos para frente e, com a mão aberta, deu um tapa na orelha de Laura, que tombou para o lado e não conseguiu segurar sua Lis. Lilly começou a gritar e Henry agarrou-a pelo braço, agachando-se na sua altura para olhá-la nos olhos.

"Sua mãe é uma puta traidora e você vai embora sim, mas junto comigo. Depois que eu terminar de castigá-la."

"Você mentiu! Disse que, se eu falasse, não ia castigá-la!"

"Pare de gritar ou eu vou te dar uns tapas também. Eu disse que ia castigá-la se você não falasse, não disse nada de não puni-la pela sua conspiração com a vagabunda escurinha."

"Você não pode falar assim! Eu odeio você!" Lis ia socar o rosto do pai com seu diminuto punho quando Henry agarrou seu rosto pelo maxilar, suspendendo-a uns centímetros do chão.

"Você parece mais com sua mãe do que eu pensei…"

"Não! Não! Deixe-a em paz!" Pela primeira vez na vida, Laura enfrentou Henry. "Sou eu quem merece castigo! Eu!" Henry colocou a filha no chão e se ergueu. Laura ainda estava caída, pronta para não levantar nunca mais. "Vai para o quarto, bebê. Vai ficar tudo bem, obedeça ao papai." Lis hesitou em ir embora, impressionada com as lágrimas da mãe. "Vai logo!" Quando a filha saiu correndo, Laura se comprimiu contra a parede, como uma bolinha, tentando pensar em coisas boas, em campos cheios de macela como Terry havia prometido. Foi quando Henry a ergueu pelos cabelos.