Drabble feita para a I Ship War - fórum Ledo Engano.

Tema: choro.


Acontece

por Luna Fortunato


Inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, tortuoso, quebrado, tua alma pronta para se quebrar em tantos pedaços que mal conseguiria juntá-los novamente. Quebra-cabeças sem as peças. Era como espelho sem vidro, apenas a moldura decorando o vazio. Era Tom e isso era tudo o que ele era. Um demônio com traços de anjo.

(então porque fixava seus olhos em Tom dessa maneira?)

Em algum mundo que existia ruas londrinas úmidas e escuras, ele estaria lá, com cigarro e vazio e seus olhos engolfando qualquer um, negrume nada aquecedor. Às vezes o procurava, às vezes não, mas não importava. Sempre se esbarravam por aí. Ruas londrinas sendo o palco para a dança do qual só ambos conheciam os passos. Réplicas, tréplicas, ameaças, juras, promessas, falatório sem fim. Um dia um mataria o outro e seria literalmente. Um escolhera a arma, outro queria estrangulá-lo mesmo de tanta raiva.

(então porque ainda se perdia em algum ponto enquanto ouvia a voz do outro?)

Como acontecera mesmo? Não conseguia lembrar. As sombras caíram sobre as ruas, essas ruas, e então seu vulto apareceu. Contorno de arrogância e prepotência, sorriso de gente que sabe das coisas, cigarro dependurado, charme trivial. Outra réplica, outra ameaça, e quem feriu quem primeiro? Então alguém começou a soluçar.

(e por que eu desabei diante do meu algoz?)

Sangue e veneno, maldade combatida com maldade, seu sorriso perverso brilhando no escuro, com todos os dentes, e o sorriso se desfez. Desfez por quê, meu Deus, por quê aquele homem não quis mais sorrir? Diz a sábia voz das ruas, então, que é a voz conjunta pelas vozinhas finas e viciadas das crianças que vivem nas ruas, vozes mandonas das mães trabalhando vinte em vinte e quatro horas, vozes bêbadas dos homens perdidos. A voz da rua disse que Tom, aquele mesmo Tom que não lembrava o que era piedade e o que era amor, aquele Tom mesmo, aquele bonito com cigarro e charme, então ele matou sem querer matar.

Matou sem querer? Não, responde alguém. Você pode matar alguém de propósito, sem querer matar ela, não pode? Então. Foi isso que aconteceu. Ele o matou, em meio ao sangue e lágrimas. O choro do arrependido. O pranto do moribundo.

Mas acontece. Você pode matar alguém sem querer mata-la.

(assim como você pode amar alguém sem querer amá-la)