Rotina
Acordou dessa vez com a claridade do dia entrando pela fresta da cortina e atingindo insistentemente o seu rosto. Ângela piscou algumas vezes, concluindo que havia conseguido dormir pelo menos algumas horas. Espreguiçou-se e focou seus olhos nos móveis do quarto. Foi quando percebeu que não estava sozinha ali dentro.
Bella estava sentada em uma poltrona que ficava ao lado do armário principal, a postura perfeita deixava-a ainda mais bonita, as costas estavam retas e as pernas esguias estavam cruzadas de uma forma elegante. Os cabelos estavam soltos, emoldurando o rosto perfeito. O rosto dela foi percorrido por um pequeno sorriso, e naquele momento, a garota conseguiu encontrar um pouco mais da Bella que ela conhecia. Bella nunca sorria abertamente.
- Bom dia. Dormiu bem?
A vampira perguntou, no qual Ângela respondeu com um dar de ombros despreocupado e emburrado.
- Como ia conseguir dormir bem com aquela coisa dentro do meu apartamento?
Dessa vez o sorriso de Bella foi mais aberto, mais genuíno. Arsene conseguia ser um vampiro extremamente sedutor. Quando queria. Quando não tinha esse desejo, ele podia ser muito assustador. Julgando pelo modo como a amiga a olhava, ela concluiu que o ruivo não havia mostrado muito do seu charme para Ângela.
- Você não gosta dele, não é mesmo?
- Ele não me deu muitos motivos para gostar dele.
Bella ouviu a resposta óbvia na mente de Ângela antes mesmo da garota dizê-la em voz alta. A vampira continuava sorrindo da reação da humana, mas de repente seu sorriso desapareceu, e ela ficou extremamente séria.
- Não somos coisas, Ângela.
A garota ficou um pouco sem graça com a repreensão da amiga.
- Me desculpe. Mas ainda não consigo acreditar que vampiros existem. Aquela história que você me contou... Eu preciso de tempo para processar todas as informações. Vampiros existem apenas em livros, Bella!
Bella sorriu de forma cúmplice. Antigamente, quando Edward havia lhe contado da existência de vampiros, ela não tivera uma reação tão diferente da de Ângela. Era quase impossível crer que o mundo sobrenatural era tão real, e ficava tão próximo das pessoas. Mas depois de alguns dias, ela passou a aceitar a ideia melhor, e percebeu que vampiros existiam sim. Era apenas uma questão de aceitação. Ângela iria passar por tudo isso.
- Termine de acordar e vá comer algo. Posso te contar a minha história mais tarde.
Ângela assentiu, sentindo-se animada no mesmo momento e com a expectativa de ouvir algo de uma amiga diferente de logaritmos e teses de mestrado. Andou até o banheiro, ligando o chuveiro e se despindo rapidamente. Não sabia se havia tomado banho, e estremeceu com a ideia de que aquele homem estranho tivesse lhe banhado. De repente, lembrou-se de que estava com a mesma roupa do acampamento quando havia acordado na madrugada para beber água, e sentiu-se mais aliviada.
Desligou o chuveiro e enrolou-se na toalha, escovando os dentes rapidamente e voltando para o quarto. Bella não estava mais lá, e Ângela julgou que ela havia saído para lhe dar privacidade. Vestiu uma roupa mais confortável e penteou os longos cabelos, colocando os óculos. Seu estômago roncou e decidiu por fazer um café rápido.
Ao entrar na cozinha, percebeu que Bella estava de pé em frente à bancada que o ruivo havia estado na noite anterior. Olhou-a rapidamente e caminhou até a cafeteira, preparando tudo para fazer uma boa caneca de café.
Foi quando Arsene entrou na cozinha rapidamente, fazendo nada mais que um mínimo barulho de sapatos batendo na cerâmica do chão. Ângela o olhou com repulsa. Ele estava com a mesma roupa da noite anterior, mas essa não parecia amassada e ele não parecia cansado. Na verdade, o maldito parecia ter acabado de sair de um banho.
- Ele ainda está aqui?
Ângela perguntou para Bella, que lhe respondeu com um pequeno sorriso. Arsene nem se incomodou em fitar a humana, passou por ela como se ela fizesse parte da decoração da cozinha. Pegou o paletó do seu terno negro que estava pendurado na bancada e jogou-o no corpo com um movimento gracioso.
Andou até a porta do apartamento. Foi quando a voz de Bella cortou o silêncio do local.
- Arsene?
A mão do vampiro parou de girar a maçaneta no mesmo momento e ele se virou. O cabelo alaranjado fez um movimento para o lado, espalhando-se pelo terno negro e contrastando com a cor escura do tecido.
- Aro ainda quer você em Viena.
Ângela poderia jurar que o ruivo iria pular no pescoço de Bella, mas ele a surpreendeu com um sorriso malicioso e um piscar extremamente zombeteiro com o olho direito.
- Não se preocupe, estarei por aí.
Ele não parecia estar disposto a falar mais nada, mas algo lhe dizia que Bella havia captado mais alguma mensagem, como se estivessem conversando de outra forma diferente da fala. Ele saiu rapidamente, fechando com delicadeza a porta atrás de si. Nesse momento, Ângela fitou a amiga.
- Ele realmente precisa ficar por aqui?
Bella assentiu vagarosamente com a cabeça e gesticulou para que Ângela sentasse na cadeira que estava mais afastada da mesa. Ela fez o que a amiga pediu, pousando a caneca de café em frente a ela e olhando a vampira com atenção.
- Acalme-se, Ângela. Vou lhe explicar tudo. Mas vamos começar quando eu cheguei a Forks.
Duas horas se passaram até Bella contar toda a sua história de vida mortal e imortal desde o momento que pisou em Forks até o momento em que decidiu ir para Volterra, se iniciando como um membro da guarda Volturi e sendo enviada para o sul dos Estados Unidos logo depois. Ângela estava impressionada com aquela história. Aquilo parecia ter acabado de sair de um livro, ela só estava decidindo se tal história pertencia a um livro de contos de fadas ou um livro de terror.
De qualquer maneira, era uma história fascinante.
- Você se abdicou de tudo para virar vampira?
Bella gesticulou negativamente com a cabeça. Os olhos vermelhos estavam determinados a esclarecer tudo enquanto ela conversava com Ângela.
- Não posso dizer que me abdiquei de tudo. Eu ainda vejo o meu pai, quando posso. A primeira vez que ele me viu desse modo foi um choque. Mas Charlie nunca foi de fazer muitas perguntas. Infelizmente, a imortalidade tem seu preço. Todos que eu conheço estarão mortos um dia, fatalmente. Então a solidão pode ser algo presente em sua vida. A menos que você consiga achar alguém como companheiro.
- Alguém como Demetri?
Bella assentiu com a cabeça, um sorriso bobo passando pelos seus lábios cheios. De repente, ela pareceu novamente uma adolescente. O amor pregava essas peças, deixando qualquer tipo de pessoa de uma forma sonhadora e avoada. Ângela percebeu que isso se aplicava a outras espécies, mas depois ficou um pouco pensativa.
- Se um vampiro precisa achar um companheiro eterno para não se sentir só... – analisou com cuidado. – A vida de um vampiro deve ser muito triste.
Bella sabia que aquele tipo de observação só poderia vir de uma pessoa delicada como Ângela. Alguém que tivesse a sensibilidade de perceber certas coisas que estão à sua frente, mas que ninguém as enxerga.
- Eu discordo de você. – respondeu.
- Você tem amigos?
- Tenho os Volturi... Mas reconheço que possuo poucos amigos. De qualquer forma, nunca tive muitos amigos mesmo quando era humana.
Ela sorriu e Ângela percebeu que já não tinha mais perguntas a fazer. Bocejou sem conseguir se conter, sendo observada por Bella, que a olhava de uma forma fascinada, como se estivesse se recordando de como era sentir sono.
- Estou com sono ainda. Acho que vou dormir mais um pouco. Preciso estudar mais tarde.
- As faculdade e escolas de Viena não estão de férias?
Ângela sorriu. Realmente a vampira não convivia com ela há tempos. Não fazia ideia da rotina dela.
- Sim, mas preciso estudar de todas as formas. Estou desenvolvendo um projeto e uma tese para meu mestrado.
- Mas você estuda até nos sábados?
- Sim, eu...
De repente ela parou, caindo na real.
- Espere, hoje é sábado?
- Sim.
Ângela se levantou rapidamente da cadeira, esquecendo-se no mesmo momento da caneca de café que estava na mesa e caminhando para o quarto de forma determinada. Bella colocou a caneca na pia e a seguiu. A garota olhou para o relógio no quarto e percebeu que se não se apressasse, estaria atrasada. Ela retirou as roupas, não se incomodando com a vampira que estava a observando.
- Aonde você vai?
- Tenho um compromisso inadiável aos sábados.
Bella assentiu, olhando para um relógio de pulso de aspecto caro.
- Eu preciso resolver alguns problemas.
- Eu não tenho horário para chegar. Mas devo voltar no final do dia.
- Tudo bem... Qualquer coisa, alguém estará aqui, caso precise.
Ângela gesticulou afirmativamente com a cabeça no momento em que enrolava o cachecol no pescoço. Segundos depois, Bella não estava mais lá. Ela teria que se acostumar com a rapidez dos vampiros e a ausência de barulho em relação a eles, sem contar a velocidade para desaparecer em questão de um piscar de olhos.
Ângela saiu para as ruas de Viena dez minutos depois. O vento frio bateu em seu rosto, saudando-a de forma familiar como sempre a saudava quando ela saía para trabalhar. As pessoas a cumprimentavam, os vizinhos acenavam para ela enquanto ela andava pela calçada.
Ela adorava seu bairro. Mesmo que morasse em uma metrópole, ao escolher seu apartamento ali, ela fez questão de optar por um bairro um pouco mais afastado de tudo. Não havia trânsito nas ruas, ela conseguia ver as pessoas passeando com os cachorros. Katy veio em sua direção, cumprimentando-a animadamente no mesmo momento que o labrador claro dela se aproximava, abanando o rabo como um chicote como sempre fazia quando a via. Ângela agachou-se para acarinhá-lo. Estava um pouco em cima da hora, mas nunca recusava atenção a Pipy. Ela adorava animais. Infelizmente não tinha tempo nem para si, muito menos para ter um. Katy e Pipy se afastaram e ela voltou a andar apressadamente.
Seus olhos escuros passeavam pelo bairro. Havia até mesmo uma floricultura, que ficava sempre fechada para que as flores não morressem por causa do clima frio. O Sr. Kupffer e sua mulher estavam lá dentro, ao julgar pelas silhuetas. Atendendo um ou dois clientes. Ângela passou pelo bistrô que visitava quase toda noite. Joan cumprimentou-a.
- Bom dia, Ângela! Indo para a ONG?
- Bom dia, Sr. Joan! Estou sim, volto mais tarde.
- Vou separar o seu pão com chocolate!
Ângela agradeceu. Joan sempre guardava para ela um pão com chocolate, seu vício. Chocolate era sempre bem vindo. Principalmente no final de um dia estressante da faculdade ou da escola. O que não era o caso naquele sábado. Mas o pão com chocolate era bom de todas as formas.
Chegou ao local desejado, entrando rapidamente. O lugar estava quente, Sra. Bertha devia ter ligado o aquecedor antes mesmo de o dia começar. Ângela pendurou seu cachecol em um cabideiro que estava ali, retirando a jaqueta pesada e pendurando no mesmo lugar.
Ao passar pelos corredores, diversas pessoas acenavam para ela, dando-lhe bom dia e ficando visivelmente mais felizes ao vê-la. O dia de Ângela estava ganho apenas em ver aqueles sorrisos.
Estava em uma ONG que ajudava mulheres vítimas de estupros. Eram mulheres de todos os lugares do mundo e de classes sociais diversas. Religiosas, mães de família, donas de empresa, mas que tinham algo em comum: haviam conhecido um homem sedento por sexo e que pensavam que mulheres não tinham vontade própria.
Ângela estremecia às vezes ao ouvir as histórias, agradecendo mentalmente a Deus por ele ter colocado apenas homens legais em sua vida. Ela não era mais virgem, mas também nunca havia saído com qualquer um. De qualquer modo, ela sabia que ali aquilo não era uma regra. Havia mulheres que tinham sido estupradas pelos próprios maridos depois de anos de casados.
O trabalho de Ângela ali não poderia ser considerado nem um trabalho. Ia ali apenas para conversar com as mulheres, que eram extremamente carentes disso e de alguns minutos de atenção. Sem julgamentos, apenas trocas de palavras.
Particularmente, ela gostava de ficar na cozinha, preparando doces e massas, algo que ela amava fazer. Na cozinha, ficava Sophia, uma mulher na casa dos quarenta anos, que trabalhara a vida inteira em uma padaria e que fora vítima de estupro de seu próprio chefe. Ângela entrou, fazendo com que Sophia sorrisse para ela e gesticulasse para o monte de massa que estava à sua frente.
- Pensei que não viria.
Ângela arregaçou as mangas e prendeu os cabelos longos.
- Eu nunca perderia a chance de aprender com você a fazer doces cada vez mais deliciosos.
Sophia sorriu, indicando a receita que estava seguindo. Dentro de vinte minutos, estavam trabalhando. Os diversos bolos, biscoitos doces e pães estavam prontos uma hora depois. Ângela e Sophia arrumavam a mesa.
- Você cozinha muito bem, Ângela.
Ela sorriu para Sophia, no mesmo momento em que decorava um bolo de chocolate com calda.
- Eu amo cozinhar. Principalmente doces assim. Aprendo muito com você, Sophia.
O assunto estupro nunca era mencionado dentro daquele lugar. E ali, Sophia poderia ser apenas Sophia. E não mais uma vítima.
Minutos depois, todas ali comiam e conversavam, as risadas das mulheres reverberavam pelos corredores da ONG. Ângela estava apoiada em uma parede próxima à mesa, observando todas ali com afeição. Mais um sábado. Sua mãe iria ficar orgulhosa dela, sabendo do trabalho voluntário que estava fazendo e da alegria que proporcionava àquelas mulheres. Ao menos era algo que sua mãe poderia se orgulhar.
Infelizmente, os pais de Ângela nunca haviam concordado com o afastamento dela de Forks. Achavam que a filha iria voltar para a pequena cidade no momento em que concluísse seus estudos. Mas ela os decepcionou nesse ponto. Queria alcançar postos mais altos. Sonhava com seu nome publicado em revistas e jornais, sonhava com os matemáticos renomados dizendo seu nome com admiração.
Seus pensamentos foram cortados pela voz da diretora.
- Você fez um ótimo trabalho hoje, Ângela. Sophia está cada dia melhor.
Ela virou-se para a mulher que se aproximara. Era uma mulher bonita, na casa dos quarenta anos, cabelos castanhos escuros que sempre estavam presos. Mas seu rosto era amável.
- Apenas converso com ela.
- E isso é de extrema importância. As mulheres que vêm aqui procuram apenas um ombro amigo, alguém que as distraia de todo o terror que elas passaram.
Ângela assentiu, observando as mulheres conversarem. No canto da mesa, Sophia levantou o rosto e sorriu para a garota.
Arsene estava olhando para uma jaqueta de couro negro dentro de uma loja. Tinha noção dos olhares curiosos em volta de si. Alguns femininos, outros masculinos. De qualquer maneira, estava acostumado com aquilo. E não gostava muito de entrar em lugares que possuíam aglomerações de humanos. Mas era necessário.
Algo lhe dizia que Aro iria querê-lo ali por mais tempo.
Vigiando a humana.
Arsene ainda não acreditava que Bella insistia naquilo. Por ele, já teriam a matado há muito tempo. Humanos sabendo da existência de vampiros nunca acabava bem, e sempre gerava confusão atrás de confusão.
Ele lembrou-se de Demetri e Bella. Confusão. Demetri viajou centenas de quilômetros para vigiar Bella em Forks. E agora eles estavam presos em Viena pelo mesmo motivo. Aquilo já estava virando um carma para os Volturi. Poderia até rir, se não fosse tão trágico.
Não gostava daquilo. Não confiava na decisão de Bella. E ela sabia exatamente que já era difícil de ele confiar em alguém. Muito menos em uma humana como aquela.
Estava pegando a jaqueta escolhida quando sentiu o celular vibrar dentro do bolso do seu paletó. Era Bella.
- Diga.
- Arsene, volte para o apartamento de Ângela.
- E por qual motivo?
Já sabia o motivo, estava depositando todas as roupas escolhidas no balcão do caixa quando Bella lhe respondeu, confirmando suas suspeitas de que teria que passar mais dias ali.
- Aro quer Ângela sob vistas de alguém dos Volturi. Apenas por precaução... Arsene, você terá que entrar pela janela, então se certifique de não ser visto.
A mulher que estava no caixa passava a roupa de forma tão devagar no leitor de código de barras que ele estava começando a ficar impaciente. Ela o olhava com fascínio, algo que ele fazia questão de ignorar no momento. Dedicou mais a sua atenção para as ordens de Bella. Estava quase de noite, e a humana morava no quinto andar. Não ser visto e subir pela janela seria fácil. Mas aquilo não fazia sentido.
- Ela não pode abrir a porta para mim?
- Ângela não está em casa.
- E qual o propósito de eu vigiá-la se você a deixa sair de casa quando ela quer?
Bella bufou do outro lado da linha.
- Não é para levar isso tão a sério, Arsene. Não quero ninguém perseguindo Ângela!
Arsene deu um sorriso maroto, que fez com que a mulher do caixa deixasse escorregar algumas sacolas. Ele pagou à vista, saindo daquele lugar. Bella já havia desligado. Ele lembrou-se da raiva que ela tinha em ser perseguida quando era humana, mas isso triplicou quando ela se transformou em vampira.
Ele saiu da loja, observando as pessoas andarem pelas ruas apinhadas de gente. Ao julgar a roupa que vestiam, a noite estava fria. Ele perguntou-se se seria inteligente pegar um táxi, depois correu os olhos pela rua, observando uma concessionária de carros bem próxima dali.
Sorriu de forma astuta. Estava na hora de começar a se divertir ali.
