III - Niccolò

Ele havia acabado de retornar de Roma, após levar os herdeiros à escola, quando Giuseppe pediu que o acompanhasse. Niccolò ajeitou os óculos, colocando-se ao lado de sua companhia e sem saber se aquele inusitado convite deveria fazê-lo sentir alegria ou ansiedade. Ele quer falar alguma coisa que não pode ser dita na frente dos demais empregados. Sua mente tentou se lembrar de qualquer descuido em seu trabalho que pudesse ter acarretado aquela conversa, mas nada encontrou.

"Aqui está bom," eles deram a volta na mansão e pararam na entrada lateral do jardim. Giuseppe correu os olhos ao redor antes de continuar. "Sábado Ivan e Francesco irão a uma exposição de arte. Eu irei no lugar de Mario e sugeri que você nos acompanhasse, mas sequer perguntei se estaria disponível..." O louro parecia envergonhado. "Existe algum trabalho que seja inadiável?"

"Eu estarei livre," Niccolò precisava abaixar os olhos para encarar os do louro e nunca aquela diferença de altura pareceu tão adorável. Aquela atitude, no entanto, não era exclusiva para Giuseppe, visto que, com exceção do Chefe dos Cavallone, a maioria das pessoas de seu convívio era mais baixa do que os seus 1,90m.

"Ótimo, então eu deixarei que escolha mais três subordinados para nos acompanharem. Eles precisam estar misturados às pessoas."

"Certo."

"E meu irmão não pode saber!" Giuseppe tornou-se sério e colocou as mãos na cintura. "Eu acho esse passeio absurdo e arriscado, e já disse ao Chefe que sou contra a ideia, mas ele está decidido a ir. Aliás, desconfio que tenha tirado meu irmão do trabalho porque Mario seria totalmente contra." O Braço Direito do herdeiro suspirou. "Eu queria ter metade da ousadia de Mario para refutar as ideias de Ivan."

"Eu discordo. Se você fosse incompetente o Chefe jamais deixaria que tomasse conta de Francesco." O moreno jamais permitiria que aquela pessoa se diminuísse ou se comparasse a um farrapo humano feito o irmão deturpado. "E não se preocupe, eu não pretendo falar nada." Eu gostaria de poder dizer isso para sempre. Gostaria de receber a ordem que nunca mais deveria falar com aquele homem. Minha vida seria mais fácil.

"Obrigado, Niccolò." Giuseppe sorriu e aquele dia nublado parecia ter se tornado tão brilhante quanto um dia de verão. "E desculpe lhe tirar de seus afazeres."

A conversa terminou com cada um seguindo para um lado.

Niccolò estava acostumado a trabalhar aos finais de semana. No que dependesse dele o trabalho seria feito de segunda a segunda, mas Ivan o havia obrigado a tirar o domingo para descansar. Em sua opinião, aquele era um dia perdido, pois na maioria das vezes ele o passava dormindo. Não havia nada a fazer em sua casa e não havia companhia para conversar ou acompanhante para envolver em seus braços.

O pensamento o fez juntar o maxilar com força. Aquela reação acontecia com certa frequência nas últimas semanas. Sua mente era traiçoeira e qualquer menção a acompanhantes e amantes era seguida por um forte mal-estar e lembranças que ele gostaria de esquecer. O único consolo que tinha era saber que seria uma questão de tempo até que aquela fase de sua vida fosse superada. Mais algumas semanas e tudo não passará de um engano, um erro decorrente do excesso desnecessário de bebida. Desde o incidente, Niccolò não havia colocado uma gota de álcool na boca, culpando-o por toda aquela situação inclusive as noites mal dormidas.

A certeza de que tudo o que vivia era passageiro se dava pelo simples fato de que, após o primeiro reencontro com aquela pessoa, eles não se viram mais. Bem, um quase-encontro quase aconteceu na semana anterior, enquanto ele esperava os herdeiros. Com exceção do primeiro dia, o novo professor de Artes não voltou a permanecer no portão principal para se despedir dos alunos. Entretanto, em um desses dias Niccolò chegou a suar frio ao vê-lo caminhar ao lado de Catarina na direção da saída.

A conversa terminou antes que um novo encontro se tornasse iminente e Catarina correu até sua direção, cumprimentando-o com uma animação que só poderia vir de uma garotinha de dez anos. Seu interlocutor, porém, não fez menção de se aproximar, oferecendo um meio sorriso e um menear de cabeça. Aquele era o sinal que Niccolò precisava para acreditar que o pesadelo estava terminando e sua vida tranquila e sem aventuras retornaria e tudo seria como antes.

A missão dada por Giuseppe foi resolvida ainda no período da manhã. Niccolò já tinha em mente os subordinados que levaria no sábado, então o restante do dia foi passado realizando as tarefas do dia a dia, que terminaria com a viagem a Roma para buscar os herdeiros. Naquela tarde o fraco sol desapareceu cedo atrás das nuvens e o frio do final de outono fez Ivan lhe entregar dois casacos extras para que os filhos voltassem agasalhados. Uma fina chuva lhe fez companhia por metade do caminho e ele desceu do carro com um segundo guarda-chuva em mãos. Os portões estavam parcialmente abertos e Niccolò passou por eles escutando os sons que a chuva fazia e o pisar de seus sapatos nas poças de água.

Como sempre acontecia em dias chuvosos, os responsáveis pelos alunos podiam aguardar dentro da propriedade do colégio, logo, ele não ficou surpreso por ver uma dúzia de subordinados de diversas Famílias esperando por seus respectivos futuros Chefes. O moreno checou o relógio de ouro que estava dentro do bolso do sobretudo percebendo que teria de esperar mais alguns minutos. Não havia paredes externas naquela área, e o corredor do lado de fora formava um longo caminho de pilares que virava à direita e seguia por todo o local, até retornar à entrada principal.

Ele se pôs a andar, na busca por um local onde não precisasse manter o guarda-chuva aberto, mas que permitisse enxergar a entrada, pensando no trabalho que teria no dia seguinte se a chuva não cessasse. Os pastos estavam encharcados e era necessário fiscalizar as cercas que dividiam a propriedade diariamente, no caso de alguém resolver demarcá-las. O trabalho exigia paciência, uma vez que ele gastava uma manhã seguindo de ponta a ponta da propriedade de carro. A pé, levariam dias e com aquele tempo ruim andar a cavalo seria impossível.

Niccolò pretendia parar de andar ao terminar aquela reta, mas seu corpo virou à direta sem que ele percebesse. A pessoa que vinha daquela direção esbarrou em seu braço esquerdo, derrubando o que tinha em mãos e fazendo com que seus planos para o trabalho fossem esquecidos. Hábito o fez abaixar, pegando duas, dentre várias caixas que haviam caído quando eles colidiram.

"Perdão, eu não estava prestando atenção."

"Talvez estivesse pensando em mim?"

Os olhos verdes se abaixaram.

Ele sabia que a possibilidade de encontrar aquela pessoa era grande, principalmente por estar dentro do colégio, contudo, achou, em sua vã ingenuidade, que todo aquele mal-entendido havia passado. A lição fora aprendida e não voltaria a se repetir. Niccolò havia aceitado que cometera um erro pelo qual se envergonharia para sempre, portanto, a vida lhe faria o favor de evitar encontros desnecessários com aquele que havia sido o causador da pior, e melhor, noite de sua vida.

O chefe da segurança entregou as caixas de madeira e deu meia-volta, seguindo pelo caminho que havia feito. Jules apareceu ao seu lado, caminhando no mesmo ritmo, embora suas pernas fossem menores. Os dois fizeram o trajeto lado a lado até retornarem à entrada principal. Ali, Niccolò sentiu uma pequena mão puxar seu sobretudo e foi com olhos brilhantes e dissimulados que o francês o fez parar.

"V-Você poderia me ajudar a carregar essas caixas? Elas são tão pesadas."

A voz soou audível o suficiente para que todos os que estavam ali ouvissem. Niccolò o olhou incrédulo, surpreso pela total falta de escrúpulos daquele homem. As caixas estão vazias! Os olhares das pessoas eram sem dúvida a pior parte e ele compreendia completamente a posição em que fora colocado. Do ponto de vista de quem estava fora da situação, aquele pedido de ajuda era inegável, visto que, apesar de lecionar há pouco tempo, ele sabia que o pintor havia se tornado querido. A aparência delicada e a baixa estatura eram mencionadas nas conversas que ele escutara enquanto esperava pelos herdeiros. Para quem não o conhecia, os supostos charmes daquela pessoa não tinham limites.

"Perdão, mas estou aguar—"

"Não vai levar muito tempo," Jules entregou metade das caixas que carregava e fez sinal para que entrassem no colégio.

O moreno encarou as caixas em suas mãos e respirou fundo. O interior do colégio estava quente e a caminhada foi curta. Ele havia entrado poucas vezes e nunca se aventurou além do hall principal. Após virar o primeiro corredor, eles entraram em uma sala completamente vazia, com exceção de uma larga mesa e algumas estantes fixadas à parede. Jules fez sinal para que as caixas fossem colocadas em um canto e pediu que ele aguardasse um momento. Niccolò permaneceu imóvel, sabendo bem que se deixasse aquela sala aquele homem maluco iria atrás dele e causaria uma comoção ainda maior na frente de estranhos.

O francês retornou em poucos segundos trazendo duas xícaras em mãos. Uma delas foi oferecida em sua direção e o cheiro do café o aqueceu imediatamente.

"É um agradecimento por me ajudar com as caixas."

"Eu não fiz nada e você poderia tê-las carregado sem a minha ajuda." Niccolò segurou a xícara, mas não a bebeu.

"Eu poderia, mas não teria a chance de conversar com você a sós," Jules sorriu. "Ou você preferiria que tivéssemos conversado na frente dos outros?"

Niccolò nada respondeu, levando a xícara aos lábios e esperando terminar a bebida o mais rápido possível para livrar-se da péssima companhia que havia arranjado naquele dia chuvoso. Todavia, foi impossível não reagir ao primeiro gole que deixou seus lábios e tocou o fundo da sua garganta. O café estava forte, sem açúcar, do jeito que ele gostava. No entanto, o que realmente roubou sua atenção foi o sabor, delicioso e encorpado. Ele era aficionado por café, uma de suas poucas paixões na vida, preferindo muito mais uma xícara fumegante a uma taça de vinho. Se eu ao menos tivesse ido a uma cafeteria naquela noite...

"Bom, não é?" Jules o espiou por cima de sua própria xícara. "Eu preparei a bebida e tenho plena confiança de que fiz um bom trabalho." Havia orgulho naquela afirmação. "Não adicionei nada porque suspeito que você goste de café puro, acertei?"

O moreno desviou os olhos e encarou a xícara nas mãos do pintor. O líquido era quase branco, com exceção talvez de uma colher pequena de café.

"Apenas crianças bebem café com leite."

"E-Eu não gosto de café puro," Jules inflou as bochechas antes de dar um longo gole em seu leite com café. "É amargo!"

"Se você diz..."

Niccolò lutava internamente entre a vontade de sair daquela sala e degustar lentamente aquele delicioso café. Responsabilidade o fez checar mais uma vez o relógio apenas para ouvir de seu interlocutor que ainda demoraria cinco minutos até que os alunos fossem dispensados.

"Eu fiquei realmente surpreso. Não fazia ideia de que você trabalhava para os Cavallone." O francês recostou-se à larga janela de vidro que estava fechada e decorada pelos pingos de chuva. "Embora eu só tenha descoberto o que isso significava depois que comecei a dar aulas aqui."

"Você não sabia sobre os alunos que este colégio recebe?"

"Não, mas não faz diferença. Aqui dentro eles são somente alunos."

Seus olhos percorreram a sala. Ele não afirmaria, mas um dos primeiros pensamentos que teve ao reencontrar-se com aquela pessoa há algumas semanas, no portão da escola, foi a desconfiança de que fora abordado intencionalmente naquela noite. Eu cogitei a ideia de que ele soubesse quem eu era e se aproximou para chegar à Família, mas eu duvido que isso seja verdade. Niccolò não saberia explicar, porém, não conseguia sentir nenhum tipo de malícia vindo do pintor. Ele tinha uma boa intuição para pessoas desprezíveis e ardilosas e o homem ao seu lado nãos transmitia nada negativo, pelo contrário. Sim, sua personalidade era péssima, mas não poderia ser considerada má ou cruel.

Houve um longo silêncio, que só não reinou absoluto por causa do som da chuva ao tocar a janela. O café desapareceu de sua xícara e o moreno soube que não deixaria aquela sala sem que aquele assunto fosse mencionado. Sua bela ilusão de que a história acabaria esquecida não se concretizaria e somente naquele instante ele percebeu que tal esperança não passava de um otimismo descabido. Se o francês houvesse sumido depois daquela noite, e eles nunca mais houvessem se encontrado, talvez aquela história tivesse outro final. Contudo, responsável por buscar os herdeiros diariamente, manter-se indiferente e alheio só serviria para adiar o inadiável.

"Eu não planejo mencionar mais aquela noite, fique tranquilo." O som da voz soava ainda mais baixo devido à chuva. "E eu só falei com você hoje por curiosidade."

"Você se divertiu me fazendo de idiota?" Niccolò não gostou de ter ouvido a parte sobre a curiosidade, como se ele fosse um experimento.

"Eu não fiz nada de errado," Jules pegou ambas as xícaras e caminhou até a larga mesa de madeira. Ele não parecia irritado ou aborrecido e aquela tranquilidade era incômoda. "Usar um vestido não me torna uma mulher."

"Você está dizendo que a culpa foi minha? Que eu deveria ter prestado mais atenção?"

"Ninguém tem culpa de nada e, acredite, você prestou bastante atenção quando chegamos ao hotel." Sua companhia apoiou os braços sobre a mesa e daquele ângulo Niccolò não conseguia ver sua expressão, ainda que se sentisse observado. "Você pode alegar que não se lembra, mas no final você sabia que eu era um homem."

Niccolò sentiu o gosto do café se tornar amargo em sua boca. A conversa havia chegado a um ponto que ele tentou a todo custo evitar pensar. As lembranças daquela noite não retornaram imediatamente, mas aos poucos e em fragmentos. Ele recordava-se, por exemplo, do que acontecera dentro do carro, de ter retirado o vestido rosado às pressas ao chegarem ao hotel e de suas mãos segurando o quadril enquanto ele se movia, admirando as belas e pálidas costas. Entretanto, os dias lhe trouxeram o restante daquela aventura e quando a realidade o atingiu foi impossível esquivar-se. Porque, quando o vestido caiu, a bela mulher havia se transformado em um belo homem e aquele detalhe não fez a menor diferença.

Seu corpo desejou aquela pessoa e não o sexo que ela representava.

Todavia, escutar aquele nível de veracidade dos lábios daquele homem o enervava. Havia algo naquela pessoa que o fazia recordar-se de um de seus desafetos e a semelhança fazia seu estômago dar voltas.

"Você sempre faz essas coisas?"

"Que coisas? Sexo?" O pintor juntou as finas sobrancelhas.

"Sexo com desconhecidos."

Seus olhos pousaram em seu interlocutor e ele ajeitou os óculos. Jules pareceu surpreso, mas no instante seguinte seu olhar se abaixou e um meio sorriso cruzou seus lábios. Não havia ousadia ou alegria no gesto, apenas uma resignada tristeza.

"Sim..."

A resposta não o surpreendeu e Niccolò agradeceu pelo café, consultando o relógio novamente. Eles são iguais. Dois degenerados...

"Eu gostaria que esse assunto não voltasse a ser mencionado. O que aconteceu naquela noite não voltará a acontecer nunca mais e eu tenho todas as intenções de manter uma relação puramente profissional com você. Se o assunto não for Francesco ou Catarina, não volte a falar comigo."

"Plenamente compreensivo." As mãos do francês se entrelaçaram e ele assentiu com a cabeça.

O moreno ganhou o corredor no exato momento em que algumas crianças desciam a escada principal. Catarina estava entre elas e sorriu animadamente ao vê-lo. O mal-estar que aquela conversa causara desapareceu e Niccolò disse a si mesmo que com um pouco de sorte aquela seria a última vez que se encontravam.

Aparentemente, ele não havia aprendido a não confiar na Sorte.

x

Sábado amanheceu um dia ensolarado, mas gelado.

Fosse um sábado qualquer, Francesco Cavallone teria passado a manhã dormindo, aparecendo somente no horário do almoço e possivelmente vestindo o pijama para que logo em seguida retornasse para o quarto. Naquela manhã, no entanto, o herdeiro deixou a mansão dentro de um grosso casaco marrom escuro que combinava perfeitamente com seus cabelos castanhos. Ao seu lado vinha Ivan, que não aparentava sentir o frio do filho, mas que vestia um casaco acinzentado.

Giuseppe abriu a porta fazendo uma polida reverência quando pai e filho assumiram seus lugares dentro do veículo. Niccolò assistiu a tudo do lado de fora, admirado com a presteza e responsabilidade do louro. Ele é tão perfeito.

"Mario realmente não sabe que vamos sair, não é?" Ivan colocou a cabeça para fora da janela e olhou ao redor como se seu Braço Direito fosse surgir de trás de alguma árvore.

"Ele está na casa de Giulio desde ontem à noite e avisou que só retornará amanhã para o jantar. Fique tranquilo, Chefe, ele não sabe de nada." Giuseppe respondeu com cordialidade, porém, algo em sua voz denunciava que ele não gostava da ideia de sair sem o conhecimento do irmão.

"Menos mal," o moreno sorriu e voltou a se acomodar.

Niccolò assumiu seu lugar, dando partida no carro e observando pelo retrovisor o veículo detrás segui-lo. Os subordinados que ajudariam na segurança estavam vestidos sem a roupa social e se misturariam às demais pessoas na exposição. Ele sabia que o trabalho daquele dia seria importante, mas era difícil esconder sua felicidade particular por ter Giuseppe sentado no banco do passageiro. Geralmente, aquela honra só acontecia quando eles buscavam juntos os herdeiros, logo, a oportunidade não poderia ser desperdiçada.

A viagem foi silenciosa com exceção de alguns comentários feitos pelo Chefe dos Cavallone. Francesco não parecia estar nos melhores dos humores e foi impossível não reparar que o herdeiro e seu Braço Direito não trocaram uma única palavra durante todo o trajeto. Normalmente, quando Giuseppe os acompanhava até o colégio, os dois mal conseguiam ficar calados sempre tendo alguma coisa para falar ou compartilhar. O moreno achava aquilo natural, já que Giuseppe estava com Francesco há mais de dez anos. O rapaz está chegando naquela idade.

Roma aos finais de semana era cheia de vida e de pessoas por todos os cantos. As ruas se tornavam intransitáveis e os lugares reservados ao lazer e à gastronomia eram os mais procurados. Devido à natureza daquela missão, Niccolò os levou até a entrada do local que hospedaria a exposição de arte. Todos deixaram o veículo e um dos subordinados do carro que vinha atrás seria o responsável por estacioná-lo. As instruções já haviam sido passadas previamente, então nada foi dito durante aqueles curtos segundos entre a calçada e a entrada. O lugar era uma larga mansão, cujas portas estavam abertas e guardadas por dois homens.

Giuseppe ia à frente, seguido por Ivan, Francesco e Niccolò. Seus olhos estiveram atentos durante todo o tempo e quando entraram na galeria as posições mudaram. O local estava cheio das mais variadas pessoas. Havia aqueles que visivelmente entendiam de arte, outros que não compreendiam, mas admiravam, e alguns que provavelmente estavam ali pelo pequeno Café localizado à direita e cujas mesas estavam completamente lotadas.

"Bom dia."

O último membro da comitiva aproximou-se trajando seu habitual sobretudo negro. O rosto de Alaudi estava quase todo escondido por um cachecol xadrez, que só foi retirado de dentro do tecido para cumprimentá-los. Como esperado, Ivan foi só sorrisos para a chegada do amante e até Francesco parecia ter se animado. Um panfleto havia sido entregue na entrada e a exposição que procuravam era a principal e ficava na mais larga sala.

Havia uma pequena fila na entrada e Niccolò deduziu que o artista deveria ser realmente bom para ter conseguido um espaço em uma galeria tão conceituada e frequentada pela mais fina sociedade italiana. Giuseppe disse meia dúzia de palavras a uma moça de vestido claro que estava na entrada de uma das salas e a mulher pareceu espantada ao ouvi-lo, gaguejando algumas vezes e dizendo que se sentia honrada, antes de seguir até o corredor e desaparecer depois de virar à esquerda.

O conhecimento do chefe da segurança para arte era extremamente limitado. Ele fazia parte do grupo que admirava os quadros, contudo, não procurava compreendê-los. O artista em questão parecia ser muito bom. Havia um ou dois quadros com paisagens, mas a maioria eram retratos. Ivan seguiu ao lado de Alaudi e Francesco, observando cada quadro com atenção e admiração. Até o herdeiro parecia ter se surpreendido com o talento do artista, pois o ar pesado ao seu redor havia se dissipado e sua atenção esteve totalmente em uma pintura duas vezes o seu tamanho e que mostrava um garotinho sentado em um balanço preso a uma grande árvore. Seus cabelos voavam com a brisa, assim como a copa das árvores e as flores.

"Não acredito que consegui sua atenção, Francesco."

A voz veio de trás e o fez virar-se instintivamente. Eu não senti ninguém se aproximar. Ivan e Alaudi pararam de conversar e fitaram a nova companhia, enquanto Giuseppe tinha uma expressão de puro assombro em seu rosto. Não pode ser verdade... Niccolò não acreditava em destino. Para ele, as pessoas faziam suas próprias escolhas e essas escolhas gerariam determinadas situações. Coincidências eram resultados de opções feitas por várias pessoas e que culminavam em encontros em comum. Eu fiz uma péssima escolha.

"Eu conheço você," Jules olhou para Giuseppe com um meio sorriso, mas sua atenção foi totalmente para Ivan, "Meu nome é Jules Delacroix e sou o artista desta exposição e também o professor de Artes de Catarina, é um prazer, Sr. Cavallone."

"O prazer é todo meu," Ivan esticou a mão e os pequenos dedos de Jules sumiram entre os seus. De todos os presentes, o francês era o mais baixo e franzino, mais delicado ainda que Giuseppe. "Eu estava ansioso para conhecer a pessoa que fez minha filha mudar tanto."

"Eu não fiz nada. Catarina só precisava de um empurrão." O pintor corou e se dirigiu a Alaudi. "Você deve ser Alaudi, o outro pai de Catarina, é um prazer."

O Inspetor de polícia piscou algumas vezes antes de aceitar a mão que lhe havia sido oferecida. Até mesmo o Chefe dos Cavallone ficou surpreso e aquele detalhe parecia tê-lo conquistado completamente. Ivan já nutria certa admiração pelo homem decorrente da opinião de Catarina, porém, aquele momento pareceu ter deixado para trás qualquer dúvida que ainda habitasse seu coração com respeito ao pintor. De onde estava Niccolò apenas observava. Ele sabia que havia mais do que um rosto bonito e educação, mas aquilo ninguém jamais saberia.

Ao seu lado, o incômodo do Braço Direito se tornou perceptível quando o francês se prontificou a caminhar ao lado de Ivan e Alaudi à medida que explicava sobre seus quadros. Francesco virou abruptamente e pareceu ter esquecido onde estava, já que foi bem direto ao questionar onde Giuseppe havia se encontrado com o professor de Arte, pois ele tinha certeza de que não havia sido na escola. Niccolò não sabia se deveria estar ali, mas não conseguiu juntar coragem para se afastar. Parte dele queria escutar a resposta. Ele achou estranho que o louro conhecesse o homem além dos limites escolares.

A resposta não foi dada e Giuseppe pediu licença para acompanhar o Chefe da Família. O herdeiro permaneceu imóvel, o rosto sério e olhos pesados. Niccolò mostrou-se presente, tocando seu ombro e fazendo sinal para que se juntassem aos demais. Francesco piscou algumas vezes e concordou, entretanto, o moreno não conseguiu afastar aquela dúvida. Imaginar que Giuseppe havia conhecido o francês através das suas próprias circunstâncias soava absurdo. Não existia a mínima possibilidade de o Braço Direito frequentar aquele tipo de lugar, entrando em bares e indo para hotéis baratos com homens aleatórios. A suspeita, no entanto, persistia e foi com o coração pesado que ele voltou a caminhar.

O encanto do Chefe dos Cavallone com o pintor foi além das primeiras impressões. Após trocar meias palavras com Alaudi, Ivan o convidou a juntar-se a eles para o almoço. Jules corou, agradeceu várias vezes, mas afirmou que jamais poderia aceitar tal convite, repetindo que não era digno. Aquela atitude fez Niccolò sorrir de canto sem saber o porquê.

"Eu tenho meus motivos pessoais para convidá-lo, Sr. Delacroix." Ivan sorriu seu melhor sorriso. "Este será um almoço de negócios."

O homem engoliu seco e seus belos olhos castanhos brilharam. O convite foi aceito com certa relutância e dez minutos depois Niccolò estava novamente dentro do carro, mas dessa vez sem toda a comitiva. Os Cavallone seguiram com Giuseppe no carro de Alaudi, enquanto ficou sob sua responsabilidade escoltar o convidado. O restaurante que Ivan havia escolhido não ficava longe, porém, havia filas de carros em quase todas as ruas e levaria alguns minutos até chegarem ao destino.

"Por que você não me disse que o Ivan Cavallone pretendia vir na minha exposição?" O pintor o olhou com olhos pequeninos embora suas bochechas ainda conservassem o embaraço.

"Por quê?" O moreno tinha a atenção na rua e não ofereceu sequer um segundo de sua atenção. "Eu não lhe devo satisfações."

"Eu sei, mas você poderia ter me avisado!" Jules recostou-se ao banco e cobriu o rosto com as mãos. "O que eu farei?!"

Niccolò pretendia ignorar sua nova companhia até chegarem ao restaurante, mas aquela atitude tornou-se impossível. O sofrimento do homem era visível, seu rosto estava vermelho e ele mexia os dedos com nervosismo. O chefe da segurança não era sadista e não conseguia obter prazer ou satisfação vendo outros em situações desfavoráveis.

Sim, ele não o havia perdoado pelo que havia acontecido naquela noite, contudo, a verdade era que nenhum deles havia tido culpa e uma hora ele precisaria lidar com o resultado de uma escolha feita sob o efeito do álcool. Seu discurso sobre "Nunca mais falar comigo se não for necessário" aparentemente iria por água abaixo, uma vez que o Chefe o havia adorado.

"Ivan realmente admira o seu trabalho. Eu não sabia que a exposição seria sua, apenas me foi comunicado que iríamos visitar uma galeria." Sua voz soou baixa.

O francês se virou completamente em sua direção e o olhou com atenção. A coloração rosada dissipou-se aos poucos e ele pareceu relaxado quando seu rosto encarou a direção da janela. A pior parte do caminho havia ficado para trás e sem uma fila de carros para seguir eles chegaram ao restaurante em pouco tempo.

"Obrigado," Jules virou-se quando o veículo foi estacionado, "você é muito mais gentil do que eu imaginava."

Niccolò não teve chance de retrucar, vendo-o juntar-se a Ivan, que estava na calçada ao lado de Alaudi.

"Se você quiser entrar eu posso ficar aqui fora." Giuseppe inclinou-se na janela e aquela parecia mais uma ordem do que uma sugestão.

"Eu permanecerei aqui. Bom apetite."

O louro sorriu e foi o último do grupo a entrar no restaurante. Poucos minutos depois o segundo carro da Família estacionou do outro lado da rua e os subordinados disfarçados se dispersaram pelas calçadas próximas. Niccolò ficou onde estava, a nuca apoiada no alto do banco e tentando digerir aquela manhã tão confusa. Eu deveria ter desconfiado. Quando Giuseppe mencionou a exposição de arte eu deveria ter percebido.

O terceiro encontro entre eles havia sido menos doloroso do que o anterior e ele suspeitava que a conversa que tiveram no colégio fora a responsável por dissipar o clima pesado e a sensação de opressão sentida todas as vezes que se recordava do modo como eles haviam se conhecido. O moreno desconfiava que Ivan tivesse interesse em contratar os serviços do pintor e isso significaria que eles teriam de manter contato com certa frequência. E eu jamais deixarei que sentimentos pessoas atrapalhem meu trabalho.

O almoço durou pouco mais de uma hora e Ivan parecia mais animado ao deixar o restaurante. A despedida aconteceu na calçada e Niccolò já estava do lado de fora esperando quais seriam as ordens.

"Eu estarei esperando por você na próxima semana," o aperto de mão foi seguido por um largo sorriso e os olhos cor de mel brilharam.

O francês corou, mas soava mais confiante com suas respostas.

Ficou acertado que a comitiva continuaria a mesma, visto que Alaudi seguiria para a mansão. Portanto, ficou a cargo de Niccolò dirigir Jules mais uma vez, tarefa que ele já esperava. Giuseppe ainda tinha o semblante pesado apesar de Francesco ter deixado o restaurante sorrindo e engajado em uma conversa com seu outro pai.

"Para onde eu devo dirigir?" O moreno deu partida no carro e esperou sua companhia se acomodar.

"Em casa..." Jules fez uma pausa. "Você deve estar com fome, se quiser pod—"

"Não, obrigado." Niccolò apressou-se em responder antes que a ideia se tornasse um convite. "Se não tiver preferência eu irei para a galeria."

"Não, eu vou para casa." O francês suspirou.

As coordenadas foram dadas e ele tentou não demonstrar que se lembrava bem daquele caminho. Aparentemente, a casa do pintor ficava próxima ao bar onde eles haviam se conhecido. Ao contrário daquela noite, os cenários à luz do dia eram diferentes, menos ousados e mais familiares. A maioria dos bares estava com as portas fechadas e outros foram transformados em restaurantes por meio período. O prédio onde seu interlocutor vivia possuía três andares e uma fachada coberta de tijolos vermelhos e brancos.

"O-Obrigado, você já pode ir."

Jules jogou-se para fora do carro, dando a volta e apressando-se na direção do prédio. Niccolò juntou as sobrancelhas, achando a atitude suspeita e observando-o derrubar a chave duas vezes antes de tentar abrir a porta. Por que ele está nervoso? O moreno abriu a porta do carro devagar, coincidindo com alguém deixando o prédio. De onde estava ele não conseguia ver a expressão no rosto do pintor, mas ele deu alguns passos para trás. A pessoa que saiu do prédio era um homem quase tão alto quanto Niccolò e mais forte. Seus cabelos eram longos e negros e a pele levemente morena. Suas roupas e aparência física denunciavam sua posição social e o ar arrogante que acompanhava alguns ricos era facilmente percebido.

O homem disse alguma coisa que ele não ouviu e cuja resposta obviamente não agradou ao francês, que passou a mão nervosamente pelos cabelos. Aquele foi o momento que Niccolò saiu do veículo. Isso não é problema meu, foi repetido para si mesmo durante os cerca de dez passos necessários para percorrer o espaço entre o carro e a entrada do prédio. Nesse meio tempo, Jules e o homem começaram a discutir e foram as vozes exaltadas que o fizeram apertar o passo e, assim, chegar a tempo de intrometer-se quando o desconhecido tentou puxar o pintor.

"Jules?" Niccolò o trouxe para trás antes que o homem o tocasse, ficando entre eles e evitando qualquer contato. Sua mão tocou o ombro do francês e ele pôde senti-lo tremer. "Está tudo bem?"

O desconhecido o olhou com um misto de ousadia e petulância, de cima para baixo, e fazendo questão de deixar claro em sua expressão que não havia gostado de ser interrompido.

"Tudo está perfeitamente bem."

O homem o estudou por um instante e sua atenção foi para Jules, que nada disse, apenas desviou o rosto. Aquele estranho silêncio e aquela estranha situação o incomodaram. O modo como aquela pessoa agia e se portava o irritou, mesmo que Niccolò não entendesse o que fazia ali. O homem colocou o chapéu que tinha em mãos e meneou a cabeça antes de se afastar. O chefe da segurança o seguiu com os olhos, notando que havia um carro do outro lado da rua o esperando. Ele não estava sozinho. Três homens haviam deixado o veículo, correndo até o desconhecido e lançando um pesado olhar naquela direção. Somente quando o carro sumiu ao virar a esquina foi que o moreno se dirigiu ao seu interlocutor.

"Você está bem?"

"S-Sim," o modo como Jules havia se encolhido e apertava um dos braços contradizia com sua resposta. "M-Mas você não precisava ter vindo, é apenas um amigo."

Niccolò ergueu os olhos ao ver alguém se aproximando às pressas pela calçada. Sua profissão o havia ensinado a ficar alerta a esse tipo de abordagem, contudo, ao reconhecer a pessoa sua guarda abaixou.

"J-Jules, você está bem?" O rapaz era o mesmo que os havia servido naquela noite. Fabrizio? Fabiano? "Ele lhe faz alguma coisa?"

"Não, eu estou bem." O francês esforçou-se para sorrir.

Fabrizio fez uma bateria de perguntas até parecer convencido. Niccolò percebeu naquela curta conversa que havia muito mais além de amizade entre o pintor e o estranho homem, mas aquele era um assunto que não lhe dizia respeito. Entretanto, como sempre acontecia quando se envolvia com aquela pessoa, sua chance de ir embora escapou por seus dedos quando Fabrizio os convidou para uma xícara de café. O chefe da segurança poderia simplesmente recusar, mas aquele ao seu lado parecia um cachorro abandonado e ele achou desumano deixá-lo.

O moreno achou que seguiriam novamente até o bar, mas Fabrizio os guiou até a porta ao lado, onde funcionava um pequeno e aconchegante restaurante. A maioria das mesas estava ocupada, no entanto, eles foram guiados a dois lugares vazios em uma das extremidades. Sentar-se em frente ao francês trouxe-lhe memórias que ele gostaria de evitar pensar, todavia, ao contrário da expressão alegre e cheia de vida que Jules esbanjou na noite em que se conheceram, sua companhia estava pálida e seus olhos permaneceram na mesa durante os curtos segundos que Fabrizio levou para trazer o café. A bebida foi degustada no mais puro silêncio e tudo o que Niccolò conseguiu pensar foi que o café do pintor era mais saboroso.

Continua...