Absinto – Capítulo 3

Shaka parecia uma criança enquanto dormia. Os braços largados em cima do corpo, a boca semi-aberta, uma respiração baixa e calma. Adorável.

Sophia o observava de respiração presa, com medo de acordá-lo. Ela resistiu à tentação de tirar uma mecha de cabelo do rosto do cavaleiro, limitando-se a simplesmente olhá-lo dormir. Queria entender o quê o cavaleiro tanto pensava e porque parecia sentir-se o último homem do mundo. Todas as suas preocupações pareciam estar longe neste momento e isso refletia claramente em sua expressão, sem as sobrancelhas franzidas. O que quer que fosse, não o possuía enquanto dormia.

Olhando no relógio, Sophia se levanta e vira, saindo da casa para o jardim. Teria tempo para pensar sobre isso depois, poderia ajudá-lo depois. Mas, por enquanto, precisava treinar.

Shaka acorda algum tempo depois, coçando a cabeça. Há anos não dormia tão bem. Olha em volta, para a casa modesta de Sophia. Não havia muitos móveis ou muitos enfeites, mas era acolhedora. E parecia que Sophia não estava à vista, o que tornava tudo muito mais fácil para Shaka. Não teria que lidar com a noite anterior ainda. Sairia escondido e voltaria para seus afazeres antes que sua anfitriã percebesse. Coletou a sua armadura, andando sem fazer barulho até a porta de entrada. Ao chegar à entrada da casa, percebe que seu plano não havia dado certo, dando de cara com a sacerdotisa, que treinava seu arco em uma árvore próxima, vestida em sua armadura.

Nunca havia visto nenhuma armadura como aquela. Aparentava ser feita de prata. Um olhar mais atento fez com que pensasse de novo. Não podia ser prata, pois brilhava demais, como ouro branco. E seu brilho refulgia lilás, como a luz que ilumina à noite. A parte de baixo acompanhava formando uma saia, como várias penas de pássaros, deixando a túnica transparecer entre as placas de metal. Não tinha elmo, somente um adorno no cabelo, que o prendia para trás, e trazia uma aljava prateada às costas, enfeitadas com signos lunares, cheia de longas flechas prateadas, suas penas pareciam de verdadeiros pássaros, mas também brilhavam prateadas.

Quando Sophia se virou para ele sentiu como se somente agora percebesse a cor de seus olhos, de um azul incrivelmente escuro. Era assustador, pois suas feições eram tão delicadas que, em qualquer outra situação, ninguém acreditaria que ela seria capaz de usar uma armadura como aquela, ou mesmo machucar quem quer que fosse. Mas seus olhos refulgiam em harmonia com a armadura e olhar para eles se comparava a olhar para olhos brilhantes debaixo de uma máscara, como se aquela fosse a única parte de seu rosto que fossem sua verdadeiramente, sua pele muito clara e traços delicados só uma ilusão que escondiam uma força quase divina. Bela e terrível.

Quase não suportava olhar para ela assim, como se tentasse olhar diretamente para o sol. A armadura refulgia enquanto andava, as placas da saia balançando de leve, refletindo um lilás quase branco, que a envolvia como uma aura.

- Shaka, você acordou. – até sua voz soava diferente. Mais grave, talvez... ou seria só impressão?

- Eu já te incomodei demais... – disse, quase sem voz – E-eu vou indo.

- Não, por favor... – começou com uma voz calma – fique. Pelo menos para comer alguma coisa.

Parecia ter voltado a ser a Sophia que conheceu. Mas não completamente... havia algo naquela armadura. Era quase como se criasse ilusões a sua volta.

- Sua armadura... – disse Shaka ainda meio desorientado.

- Ah, sim! Minha armadura. Ela é realmente diferente das dos cavaleiros... Dizem que foi feita por Vulcano. Não entendo muito bem como foi feito isso, mas parece imitar os poderes de Ártemis. E assume uma 'personalidade' diferente para cada uma de suas donas. Se comporta diferente...

- É... impressionante.

- Vem, deixa eu te mostrar. – arrastou Shaka para o lugar onde estava com uma alegria infantil. – Eu sou canhota de arco, sabe? E isso faz uma tremenda diferença.

Para Shaka, que não entendia muito de arquearia, não parecia muito diferente. A única diferença era fato de ela segurar o arco com a mão esquerda. Viu Sophia preparar a flecha, prendendo a respiração. A sensação de que era uma pessoa diferente voltou. Chegou a imaginar que, se tentasse encostar nela naquele momento, sua pele seria queimada.

Com uma postura perfeita ela soltou a flecha e Shaka olhou em frente, imaginando o quão longe e rápido iria. Mas, para sua surpresa, não conseguiu enxergar nada por alguns segundos, como se uma sombra tivesse descido sobre seus olhos e quando conseguiu focar o olhar novamente, a flecha estava fincada perfeitamente reta em uma árvore a quase 150 metros.

O chão por onde a flecha havia passado ficou salpicado de pequenos pontos brilhantes, que desapareceram aos poucos. Sophia foi buscar a flecha e voltou com um sorriso no rosto.

Shaka sorriu de volta.

- Quem sabe, Shaka, algum dia eu te ensino a atirar. – E andou em direção à casa, chamando Shaka para acompanhá-la.

ADOREI essa armadura... :D Muito estilosa.

Bom, eu fiquei tão empolgada com ela, que tinha que comentar. Tudo bem que ela não é totalmente original: tirei um pouco da idéia da armadura de Ártemis que alguns fãs de CDZ desenharam (aquela do "Future Studio"), mas não deixa de ser super legal.