Capítulo Quatro – Assuntos de Família
Waterford, 9 de janeiro de 1967
Os raios do sol estavam começando a escapar da barreira de cortinas, mas ele já estava de pé há muito tempo. Na verdade, mal dormira entre a noite passada e a manhã que começava a despontar no horizonte. Seu estômago estava em rebuliço e a mente não queria descansar. E isso sempre acontecia quando algo errado estava se aproximando.
Estava completando nove anos naquele dia, e absolutamente nenhum laivo de felicidade perpassava pelo seu corpo. Há um ano e meio fora morar com o avô. Henry Prince, "carinhosamente" apelidado de Harry, não era o típico avô que a maioria das crianças tinha a sorte de ter. Severus Snape fora contemplado com um avô frio como gelo e duro como aço.
Desde o primeiro dia em que pisara a grama da propriedade dos Prince, Severus sabia que sua vida não seria fácil. Era um mestiço, o que por si só contava contra ele, e vivera os sete primeiros anos de sua vida como um trouxa, o que apenas piorava a situação. Seu avô não tinha muitos motivos para gostar dele, muito menos Sophia Prince, a esposa dele. Ambos o olhavam com desprezo e tratavam de falar como ele era horrível em tudo o que fazia.
A primeira providência de seu avô, dias depois de chegar à mansão Prince, foi levá-lo à Travessa do Tranco. Ele estava ansioso pelo raiar do dia. Também não dormira bem naquela noite. Fazia duas semanas que havia sido levado para morar com os Prince, e aquela era a primeira vez que experimentava alegria por fazê-lo.
Fora sumariamente ignorado pelo avô desde que haviam chegado, pois este vivia saindo de casa para reuniões, entrevistas e visitas ao cofre da família em Gringotes. A avó, contida, estava sempre ocupada dando ordens aos elfos-domésticos ou respondendo corujas que chegavam diariamente.
Em resumo, ele estava por conta própria. Aproveitara para visitar os cômodos da casa. Descobrira uma ou outra passagem secreta. Admirara os quadros que o cumprimentavam ou lançavam-lhe impropérios enquanto perambulava pelos corredores. Até mesmo topara com dois fantasmas numa noite particularmente nebulosa, quando passeava pelos jardins depois do toque de recolher.
A mansão Prince tinha uma atmosfera muito similar à de St. Giles, mas ele duvidava que o avô fosse considerar aquilo um elogio. Depois de uma semana, o avô perguntara quais feitiços ele sabia fazer, e ao ouvir da boca do neto que ele jamais fizera um feitiço (pelo menos, não conscientemente e sabendo qual era), Harry e Sophia trocaram olhares que se dividiam entre choque e fúria.
- Mas que diabos Eileen tem na cabeça? – o avô resmungou, espantado. – Ela nunca lhe comprou uma varinha?
Sem saber o que responder, o menino apenas meneou a cabeça.
- Ela teve a primeira varinha aos quatro anos de idade! – Sophia exclamou, também horrorizada. – Por acaso já está há tanto tempo entre... aquela ralé que não sabe mais como educar o filho para a vida?
A mulher parecia tão desapontada com sua mãe que o menino não resistiu à vontade de explicar:
- Ela me disse que só poderei fazer magia quando estiver em Hogwarts – comentou, tentando justificar a decisão de Eileen.
- Mas isto é um abuso! Um Prince aprendendo a usar corretamente uma varinha apenas quando for a Hogwarts? Aquela...
Harry parou antes de completar a frase. Fitou o menino por segundos, a cabeça gorda enrubescendo rapidamente, para então respirar fundo e se acalmar.
- Iremos à Travessa do Tranco assim que possível – decidiu.
Já fazia uma semana desde então, e Severus esperava ansioso pelo domingo, dia em que os avós o levariam ao lugar. Ele não fazia idéia de como era a Travessa do Tranco. Seria uma loja? Parecia o nome de uma rua, mas os bruxos tinham maneiras esquisitas de escolher nomes para seus lares e locais de trabalho.
Ele levantou-se da cama e tratou de tomar um banho rápido e vestir uma das roupas novas que sua avó encomendara via coruja para ele. Era uma veste bruxa negra com as barras do pescoço e das mãos em prateado. A vestimenta também tinha um capuz, mas o dia lá fora estava brilhante e Severus achava difícil ter de usá-lo. A roupa parecia ter um mecanismo de calor, talvez porque estivessem no inverno. Severus imaginava se aquilo o manteria aquecido enquanto saía pela primeira vez para visitar um local de bruxos.
Havia vestido uma calça preta por baixo, apenas pela falta de costume de andar por aí "de vestido" como seu avô. Como a roupa era um pouco grande demais para o corpo mirrado e de altura mediana, cobria a calça e evitava que seu avô tivesse um ataque de histeria por conta da veste trouxa que o neto usava por baixo. Os sapatos eram novos, de couro com fivelas prateadas, tão lustrosos que ele poderia pentear o cabelo olhando-se neles. Precisavam, porém, serem amaciados, e o garoto sentiu desconforto enquanto caminhava entre os avós.
As pessoas que passavam por eles cumprimentavam-nos rapidamente, mas ninguém parava para conversar. A avó avisara-lhe que era melhor que mantivesse silêncio, pois a Travessa do Tranco era um local de tráfico de materiais ilegais e ninguém que passava por ali gostaria de ser lembrado e delatado ao Ministério da Magia. Além do mais, Sophia queria que ele mantivesse silêncio porque o achava muito mal-educado.
- Daremos um jeito nisso – prometera logo na primeira noite dele na mansão, mas até agora não fizera grande coisa.
O avô olhou ao redor rapidamente e, aparentemente satisfeito, abriu a porta de uma loja imersa na escuridão. Os objetos da vitrine estavam escondidos atrás de cortinas escuras e pesadas, mas o nome que brilhava estampado no vidro era legível: Cooldridge. Sua avó logo seguiu o caminho do marido, chamando-o com uma das mãos e segurando a porta aberta para que ele passasse.
- Sr. e Sra. Prince, mas que alegria vê-los!
A mulher, que ele logo descobriu chamar-se Leona Cooldridge, era a personificação do que o pastor Matthews, da paróquia de St. Giles, gostava de classificar como "crias do diabo". Severus sabia que ela deveria ser mais velha, mas Madame Cooldridge aparentava estar pelos trinta anos.
Tinha cabelos ruivos vibrantes que estavam soltos e olhos castanhos da cor de chocolate que brilhavam de malícia ao observar a família diante de si. O vestido era tão curto, justo e decotado que dava a impressão de que ela pegara um pedaço de veludo e amarrara ao redor do corpo sem muito cuidado. Os seios fartos quase pulavam para fora do decote, e os quadris largos eram contidos a custo pelas tiras de tecido. Os saltos altos completavam o visual.
Severus viu sua avó lançar um olhar mortal à mulher, que retribuiu com um sorriso despreocupado.
- Madame, acho que ainda não conhece meu neto – Harry comentou, iniciando as apresentações. – Severus, esta é Madame Leona Cooldridge. Leona, este é meu neto, Severus Snape.
- Oh... – Madame Cooldridge rodeou o balcão atrás do qual estava e se aproximou, acocorando-se à frente dele. Severus sentiu o rosto enrubescer estupidamente. A ruiva levou um dedo ao seu queixo e segurou-lhe o rosto. – Petite, você tem pés grandes. Essa é uma boa premissa.
Escandalizada, a avó o puxou para longe das unhas longas e pintadas de negro e do sorriso devastador.
- Atenha-se aos negócios, madame – ordenou, com voz quase trêmula de raiva.
A mulher sorriu-lhe mais uma vez, como se Sophia Prince não lhe representasse perigo algum, e virou-se para Harry, com um sorriso lascivo.
- Harry, querido, faz quase cinco anos que não o vejo – ela insinuou, deixando uma unha escorregar pelo peito coberto do patriarca dos Prince e lançando um olhar venenoso para a esposa dele. – Senti sua falta, cherrie.
O senhor Prince pigarreou e afastou-se um pouco.
- Precisamos de uma varinha, madame. Para o meu neto.
A mulher não perdeu a pose, e lançando outro olhar misterioso para Severus, voltou para trás do balcão.
- Devo avisá-los de que os preços subiram desde que passaram por aqui da última vez – começou, assumindo um tom frio que indicava que as brincadeiras haviam acabado. – Fica difícil trazer toda a mercadoria da França, com o ministério metendo o olho em tudo – murmurou emburrada, abaixando-se e sumindo de vista.
Segundos depois se levantava novamente com uma caixa comprida e fina nas mãos.
- Costumo ter bom olho para relacionar meus clientes com as varinhas certas para eles, jovem Snape – murmurou, enquanto se aproximava dele. – Olivaras pode ser o fornecedor principal da ilha, mas eu tenho o que muita gente quer e não consegue ao ir lá.
Ela ajoelhou-se à frente dele e, de uma maneira reverente, abriu a caixa para que ele visse o que havia dentro. Uma varinha comprida, o cabo mais largo do que a ponta, com detalhes em alto relevo e alguns rubis e esmeraldas entalhados. Era de um marrom escuro, quase vermelho, o que lembrou a Severus um dos pinheiros de St. Giles.
- Vinte e um centímetros, corda de coração de dragão, pinheiro – ela recitou, e ele sorriu com a pequena vitória de ter adivinhado o material do objeto. – Experimente.
Severus pegou a varinha e no mesmo instante uma explosão de fogos de artifício começou, como se alguém estivesse comemorando algo.
- Ah, eu sabia. – Madame Cooldridge sorriu. – Esta é uma das últimas que meu pai fez. Não vai se arrepender de tê-la, meu jovem. – Ergueu-se e fitou com prazer o rosto contrariado de Sophia Prince. – Cinqüenta galeões.
A avó empalideceu, mas Severus não notou. Estava encantado demais para prestar atenção em qualquer outra coisa. Ele agora tinha uma varinha.
Muito tempo já se havia passado desde então, e Severus descobrira que o avô tinha objetivos ao comprar-lhe aquela varinha. Ele dizia que o neto poderia precisar de defesa usando um feitiço proibido pelo Ministério da Magia, e as varinhas de Cooldridge, ao contrário das de Olivaras, eram ilegais. O ministério jamais seria capaz de rastrear feitiços realizados com aquelas varinhas. O próprio Harry tinha duas.
Naquele ano e meio Severus recebeu aulas da avó sobre feitiços mais simples e comuns, que ia aprendendo e aplicando dentro de casa ou nos jardins. Sophia ensinava-lhe também a ter boas maneiras. Severus adorava as primeiras aulas e detestava as segundas, mas aplicava-se igualmente nas duas. Já aprendera que a punição naquela casa era muito mais do que simplesmente não ganhar sobremesa ou ficar sem seu brinquedo favorito.
Ele agora podia entender porque a mãe parecia uma concha impenetrável, às vezes. Seu avô dizia que os Prince eram forjados para serem guerreiros inigualáveis e estupendos feiticeiros, mas na verdade aquilo era apenas uma desculpa para azará-lo ou fazê-lo sofrer. Ele jamais seria perdoado pela metade trouxa de seu sangue.
Quando estava particularmente de mau-humor, Harry podia ser bastante impiedoso ao descontar a fúria no neto. Severus já passara noites sem dormir por ter as costas doendo, e andara manquejando por uma azaração mal mirada que lhe atingira o joelho.
Sua avó também podia ser cruel. Quando ele esquecia algumas das regras de etiqueta que ela insistia que aprendesse, a mulher não tinha pena de deixá-lo com um olho inchado ou os pés cobertos de espinhos.
A cura para quase todos os males atendia pelo nome de Dorky.
Ela era a antiga elfa-doméstica de sua mãe. Eileen a havia deixado para trás depois que fora viver no mundo trouxa, e por algum motivo os pais da mulher haviam decidido ficar com a criatura. Agora, já que ele era o herdeiro direto de Eileen, Dorky apenas obedecia suas ordens. O que certamente o ajudava muito.
A elfa lhe havia confidenciado que a mãe mantinha um caldeirão escondido numa passagem secreta atrás das estantes de livros, ali mesmo, no quarto que ele ocupava. A passagem tinha uma chaminé própria, o que impedia que os outros habitantes da casa sentissem o cheiro. Eileen costumava fazer poções curativas e estocá-las para os casos de necessidade que, infelizmente, não eram raros.
Sendo apenas sua, Dorky não precisava se punir por pegar escondida ervas e ingredientes necessários para as poções do "mestre Snape". Também era ela a responsável por mantê-lo alimentado, limpo e vestido. Severus sabia que passava mais tempo com a elfa do que com os próprios avós.
Descobriu também que a mãe deixara muitos cadernos com anotações sobre as matérias de Hogwarts, em especial Poções e Transfiguração. Talvez pela primeira vez na vida, o rapaz sentiu que havia alguma semelhança entre ele e a mulher que chamava de mãe e que não veria nunca mais. As anotações ajudavam-no a progredir mais rápido com as poções curativas, e uns poucos feitiços de cura anotados por sua mãe em diários eram treinados toda noite em Dorky, que invariavelmente aparecia ferida por distração.
Se seu avô soubesse o quanto ele usava a varinha não-registrada para fortalecer suas chances de enfrentá-lo um dia...
Naquele nove de janeiro, porém, Severus não pensava em sua mãe, no pai, em Dorky... Seu avô dissera que tinha planos para ele, planos que precisava botar em ação antes que ele fosse para Hogwarts. Severus sabia que, quaisquer que fossem as idéias que passavam pela cabeça do avô, ele certamente não gostaria delas.
Em um dos diários de sua mãe, Severus encontrara uma nota falando de Oclumência.
"...É tão difícil viver nessa casa! Por que eles não podem simplesmente me tratar como filha? Por que eu não posso ser uma garota normal com amigos normais? Odeio ter que falar somente com sangues puros. Odeio ter que azarar cada filho de trouxa que encontro em Hogwarts...
"Estou começando a aprender Oclumência. Papai não pode saber desses pensamentos. Ele jamais aceitaria que eu pudesse crescer e ter minhas próprias opiniões sobre o assunto, a não ser que fossem iguais às dele.
"Meu segredo é pensar em uma parede espelhada. Tudo o que encosta nela é refletido para longe. Walburga está me ajudando a treinar, mesmo que ela não saiba para quê eu quero aprender Oclumência. Não sei se ele já notou que eu estou bloqueando minha mente, mas não demorará muito mais...
"Preciso fugir daqui!"
Dorky conseguiu pegar um livro na biblioteca de Harry que falava sobre Oclumência. Ao ler sobre o assunto, Severus concluiu que esse seria seu próximo passo. Levou meses lendo cada livro que seu avô possuía antes de tentar efetivamente. Ele preferiu usar a mesma visualização de sua mãe: a parede espelhada.
Não tinha como saber se estava melhorando ou não, já que treinava sozinho. Dorky não podia ajudá-lo naquele caso em particular. Tudo que ele podia fazer era se esforçar e rezar para que funcionasse quando fosse necessário e, até onde ele poderia saber, o dia era aquele. Severus nunca achou que os planos de seu avô seriam bons para ele.
Demorou mais que o normal para vestir uma roupa. Os cabelos pesados foram penteados de modo a cobrirem seus olhos, já que estes eram a chave da Legilimência. Severus não queria o avô penetrando em sua mente e procurando entre suas lembranças de St. Giles algo particularmente doloroso.
Colocou a varinha ilegal no bolso escondido das vestes de bruxo e desceu com calma, perguntando-se se o que Harry Prince planejava para ele naquele dia era o motivo de tê-lo levado para viver consigo. Chegou à sala de jantar, onde os avós já se encontravam acomodados e esperando por ele para começar a refeição.
- Bom dia – cumprimentou, mesmo que não tivesse vontade, pois sabia qual seria o castigo pelas péssimas maneiras que queria ter.
- Bom dia, Severus – os dois falaram em uníssono. Não havia nenhum sorriso à vista.
Severus encaminhou-se para seu lugar usual e esperou até que Dorky trouxesse sua comida. Então os três começaram a comer em silêncio, pois, para os Prince, a hora de comer era importantíssima e não deveria ser gasta em conversas fúteis.
Involuntariamente ele se lembrou dos dias em que seu pai era vivo. Tobias Snape sempre tentava quebrar a seriedade da mulher e do filho com algumas piadas à mesa do jantar. Sua mãe era um poço de quietude, mas às vezes rendia-se a uma gargalhada. Perguntou-se como ela estaria agora. Chacoalhando a cabeça, afastou o pensamento e ergueu a parede espelhada.
O café terminou sem maiores problemas. Quando seu avô o chamou para a sala contígua, que Dorky chamava de "sala dos duelos", Severus começou a ter uma idéia mais ampla do que o aguardava.
- Severus, hoje você completa nove anos de idade – começou Harry, dando-lhe as costas e andando até o outro lado da sala. – Faltam dois anos para que vá para Hogwarts.
O homem parou de falar e de andar, mas não se virou para ele. Severus franziu o cenho e fitou as costas do avô, curioso. Como o discurso parecia retórico, não ofereceu nenhum comentário.
- Já sabe em que Casa quer ficar? – o homem perguntou, finalmente.
Severus lembrou-se que ele havia lhe dado uma cópia de "Hogwarts: Uma História" no seu aniversário do ano anterior.
- Slytherin – respondeu sem hesitar. Era a resposta certa, tanto para os Prince quanto para ele mesmo.
- Ótimo. – Harry, então, virou-se para fitar o neto. – Nem eu nem Sophie temos qualquer dúvida de que você entrará lá, apesar do sangue imundo que tem nas veias além do nosso.
Severus teria aberto a boca para protestar, mas aprendera a duras penas que era melhor ficar calado.
- Temos, entretanto, algumas dúvidas sobre como você será recebido pelos colegas de Casa.
O menino esperou um pouco para certificar-se de que era seguro perguntar.
- Como assim?
- Você conhece a política de admissão para a Slytherin, Severus – foi a resposta do avô.
O garoto pensou por um momento, e então resmungou:
- Só sangues puros.
Harry assentiu, preocupado.
- Houve pouquíssimos mestiços nesses mil anos desde a fundação da escola, e nenhum sangue ruim.
- O que significa que as minhas chances de ser selecionado para a Slytherin são mínimas – ele concluiu, arqueando as sobrancelhas. – Eu sou um Prince. Isso não basta?
Era uma maneira sutil de dar uma bofetada no orgulho do avô. A parte dele que tinha sangue Prince talvez não fosse suficiente para levá-lo aonde queria ir, e aonde o avô queria que fosse.
- Vai bastar – garantiu Harry, mas estava óbvio que não tinha tanta certeza quanto desejava ter. – O problema, como eu disse, será a receptividade. Os poucos mestiços que entraram na Slytherin nunca foram bem-recebidos... a princípio.
- A princípio?
- Sim. Alguns deles conseguiram mudar a opinião dos colegas de casa depois de algum tempo. É uma questão de técnica.
- Técnica?
- Vai ficar repetindo tudo que eu digo, garoto? – irritou-se o homem, e Severus negou com a cabeça. – Ótimo. Agora, escute bem.
O garoto assentiu e aproximou-se do avô.
- Todos os mestiços que sobreviveram à Slytherin conquistaram o respeito e o medo dos seus companheiros de casa. Você sabe como?
O garoto pensou por um instante antes de menear a cabeça, perdido.
- Não.
- Subjugando-os – respondeu Harry, agora entusiasmado. – Eram bruxos excelentes, muito poderosos, e estudavam muito para se tornarem ainda mais. Sempre que alguém mexia com eles, lançavam azarações sobre os inimigos, mostrando que não eram ingênuos ou fracos.
- Entendi.
- Tinham perfis de líderes, mentes poderosas e habilidades mágicas maiores ainda. Você quer entrar para a Slytherin, Severus?
- Sim – o menino assentiu com a cabeça, convicto.
- Você quer sobreviver a ela e sair de lá com glória?
Mais uma vez, o garoto assentiu.
- Então trate de aprender tudo o que eu pretendo lhe ensinar nos próximos dois anos.
- Sim, vovô.
Waterford, 15 de julho de 1969
Arthos piou, indignado, ao ver a coruja-das-torres que voava em direção à casa. Dorky, a única elfa presente na cozinha naquele dia, sorriu e abriu a janela para dar passagem ao animal. A ave do Sr. Prince tentou bicá-la para impedi-la de abrir a janela, mas Dorky estava acostumada demais para cair naquela armadilha mais uma vez.
A nova coruja deixou a carta cair na mesa da cozinha e se foi de maneira tão rápida quanto viera. Dorky apanhou a carta antes que Arthos pudesse pegá-la e, lançando pedaços de pão à coruja, saiu da cozinha saltitante. Já sabia de onde aquela carta viera. Estavam esperando-a por todo o verão.
O brasão da escola estava presente no selo. Dorky virou a carta e viu tinta esverdeada, mas não sabia ler. Se soubesse, teria lido:
Sr. S. Snape
Mansão Prince
Waterford
Sabendo, entretanto, que aquela era a carta que o mestre Snape houvera esperado, a elfa saiu correndo da sala e subiu as escadas para bater à porta do quarto do jovem mestre. Ele a havia proibido de simplesmente aparecer dentro do quarto por vias mágicas.
- Mestre Snape! Mestre Snape! – chamava, pulando eufórica do lado de fora do quarto enquanto batia na porta repetidamente.
- Pare Dorky – a ordem veio lá de dentro, num resmungo quase inaudível.
- Mestre Snape, a carta! Dorky tem a carta! – ela esganiçou, contente.
Quase um minuto depois, a porta foi lentamente aberta.
- Do que está falando, Dorky? – Snape perguntou, num sussurro, enquanto esfregava o rosto na tentativa de acordar.
- A carta de Hogwarts, mestre! – a elfa exclamou, contente consigo mesma. Apontou o selo de Hogwarts. – Este é o brasão que o meu senhor Snape me mostrou, não é? – a criatura perguntou, os enormes olhos quase saltando das órbitas de ansiedade.
Mais desperto agora, Severus pegou a carta das mãos da elfa e analisou o envelope. Reconheceu o selo e sentiu um frio na barriga ao ver seu nome escrito nela.
- Sim, é essa a carta – falou, sem nenhum vestígio de sono na voz.
- Isso! Dorky entregou a carta para mestre Snape! – a elfa comemorou, fazendo algum tipo de dança esquisita. – Mestrinho quer o café da manhã no quarto?
Seus avós estavam viajando, visitando um parente distante, e só voltariam no dia seguinte. Há uma semana Severus estava sozinho na enorme mansão, e aproveitara bem aquele tempo. A regra de comer na sala de jantar fora veementemente burlada e, como era Dorky quem cuidava da sua comida, nenhum dos elfos da casa saberia dizer aos patrões aonde o menino comera.
Ele também tratara de burlar a regra sobre acordar cedo.
- Sim, Dorky, pode trazer. E não precisa bater na porta quando chegar.
- Sim, meu senhor! – a elfa assentiu e desapareceu numa pequena nuvem de fumaça.
Severus sentou-se à escrivaninha que tinha no quarto e fitou novamente o endereço do destinatário. O fato de haver apenas "Mansão Prince, Waterford" escrito significava que sua família era realmente conhecida entre os bruxos. Nem sequer o nome da rua havia. Seu avô tinha um pouco de razão para se vangloriar tanto, afinal.
Abrindo o envelope com cuidado, e com um certo medo do que poderia estar escrito ali, ele desdobrou as folhas de pergaminho e leu a primeira:
ESCOLA DE MAGIA E BRUXARIA HOGWARTS
Diretor: Albus Dumbledore
(Ordem de Merlin, Primeira Classe, Grande Feiticeiro, Bruxo Chefe, Cacique Supremo, Confederação Internacional de Bruxos)
"Whoa! O tal de Dumbledore realmente é estranho!", pensou o menino. Já ouvira Harry e Sophie falando sobre o diretor de Hogwarts, mas nunca com o respeito que tantos títulos pareciam exigir. Os rótulos estavam mais para "velho caduco" e "idealista sonhador" durante as conversas dos Prince. Sorrindo consigo mesmo, o menino continuou a leitura.
Prezado Sr. Snape,
Temos o prazer de informar que V. Sa. Tem uma vaga na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Estamos anexando uma lista de livros e equipamentos necessários.
O ano letivo começa em 1º de setembro. Aguardamos sua coruja até 31 de julho, no mais tardar.
Atenciosamente,
Minerva McGonagall
Diretora Substituta
Ele sentiu um grande alívio ao terminar de ler a curta mensagem. Estava com medo de não ser admitido em Hogwarts, mesmo que não pudesse conceber um único motivo para que não fosse aceito como aluno. Suas notas sempre haviam sido as maiores da turma e, embora ele houvesse vivido muito tempo entre trouxas, tinha recebido uma educação inteiramente bruxa nos últimos quatro anos.
Além do mais, Hogwarts também recebia filhos de trouxas.
Ele, entretanto, sempre sentira um pequeno medo de não receber aquela carta. Seus avós ficariam bastante contentes quando voltassem para casa e o encontrassem com as folhas de pergaminho. Deu uma olhada na segunda folha e achou os títulos entediantes. Provavelmente já vira mais da metade daqueles assuntos em casa. Seu avô fizera questão de deixá-lo preparado para qualquer eventualidade.
Pensando que aquela era a sua chance de mostrar que a metade trouxa de seu sangue não afetaria seu desempenho como bruxo, Severus sorriu quando viu Dorky aparatar no quarto com a bandeja e esqueceu de dar-lhe uma bronca por não ter subido pelas escadas. Seus avós tinham planos para ele, sabia.
Mas ele também tinha planos para si mesmo.
