Capítulo 4
Uma das belezas de ser primeiro anista é que em seu primeiro dia, tudo parece ser maravilhoso e inesperado. Como voar de vassoura pela primeira vez. Para as pequenas mentes, Hogwarts não é uma escola, mas sim um imenso parque de maravilhas onde se pode ter aventuras variadas... até o quinto ano, daí para frente é escola outra vez. Contudo, eu como primeiro anista não tinha nada do que reclamar. Mesmo que muitos considerem um ano pacato, talvez seja dele que venham várias das minhas memórias mais doces. Como, por exemplo, meu primeiro jogo de Quadribol.
Seria Sonserina contra Grifinória e durante boa parte da minha infância eu era proibida de assistir a esses jogos. Tia Sarah os considerava perda de tempo, dizendo que nada de bom poderia vir de alguém que voa atrás de uma minúscula bola voadora para ter alguma coisa ou acerta balaços errantes contra colegas de escola. Podia-se preencher uma lista com as coisas que são perdas de tempo por essas mesmas razões para Sarah Preminger. Na arquibancada, Elifas e Alvo estavam do meu lado também com as bandeiras da Grifinória. Black era o capitão do time, o que me fez querer que acabássemos ainda mais com a casa dele.
Foi a minha primeira vez sentada numa arquibancada, das tantas vezes que viriam. E aquela me trouxe a certeza de que deveria entrar para o time de Quadribol da Grifinória. Embora minha coordenação não fosse a melhor do mundo naquele ano para ter certeza, consegui a vaga de nova artilheira no terceiro ano. O jogo foi motivo de várias detenções e também de várias alegrias. Era a única coisa que Alvo nunca tentara, então pode-se dizer que eu conseguia ser popular pelo esporte e ele pelo cérebro... ainda hoje não sei se foi uma troca justa. Não que eu sentisse inveja do brilhantismo dele, não sentia, mas não posso dizer que gostava quando eu erguia a mão ao mesmo tempo que ele e o professor dava a vez para ele.
Após descobrir meu amor pelo Quadribol, uma crítica começou a ser feita a meu respeito pelos meus amigos. Me tornara mais "competitiva agressiva" devido a minha torcida assídua. Eles também insistiam que eu deveria tentar arrumar mais amigas, minha resposta era sempre um sonoro "Por quê?". Afinal, nunca houve nada que eu precisasse desabafar que Eli ou o senhor gênio não fossem capazes de entender e me aconselhar para o caminho mais sábio. Meu passado me ensinou a não confiar tanto no sexo feminino – com algumas raras exceções – quer dizer, quando criança eu via minha tia com as amigas e minutos seguintes, quando elas saíam, começava a difamá-las... bem, não foi bonito de ver. Com o passar dos anos, a visão foi mudando e ainda assim meu número de amigos sempre foi maior do que o de amigas. Mais uma vez minha popularidade com as mulheres puro sangue caiu, o que foi bom, nunca gostei delas tão pouco.
A Preminger mais popular sempre foi minha irmã do meio, Cornélia. Bonita e conhecedora de seu lugar dentro da família, Cora conseguia chamar toda a atenção para si, o que me poupava de agir como a mais velha. Visitas: "Onde está Amélia?" Eu: "Indisponível para fingir que me importo com suas vidas." Recolhida na biblioteca era a resposta, mas se um dia tivessem perguntado diretamente a mim, aquela teria sido a resposta. Ser considerada a antissocial, mas inteligente, da casa, me fez acreditar que me daria bem na escola. Entretanto, como falado acima, eu encontrei um oponente a altura. Alvo Dumbledore, ou, como passamos a chamá-lo entre nós três, o senhor gênio.
Nossa primeira aula foi Transfiguração, em que o professor Milligan nos pedira para transfigurar um botão num besouro, não preciso dizer que o senhor gênio conseguiu fazer de primeira ao passo em que eu levei dever para casa. "Como você fez?" – devo ter feito essa pergunta umas vinte e duas vezes ao longo daquele dia. E ele sempre me respondeu polidamente que apenas fez o que o professor pedira. Conforme as aulas vinham, tudo piorava e o sentimento de frustração crescia...
"Se eu pedisse para você fazer minha lição, faria?" – indaguei de forma descompromissada a Alvo na sala comunal. Era noite e alguns alunos já estavam recolhidos e o nosso trio como sempre permanecia acordado em atividades variadas. A da vez era lição de casa.
"Claro que não! Esse é o seu trabalho." – ele me respondeu sem tirar os olhos dos livros.
"Mesmo se uma quantia considerável de galeões estivesse envolvida para você poder comprar um estoque ilimitado de balinhas de limão?" – rebati com um sorriso meigo que ficou para sempre conhecido como o sorriso da chantagem.
"Mesmo assim." – insistiu Alvo me olhando como se dissesse, vou te dizer onde enfiar esses galeões.
"Por que não me faz uma oferta, Mélia?" – brincou Eli.
"Porque eu pensei que poderíamos formar uma sociedade em que ambos nos beneficiássemos dos dons do senhor gênio." – respondi soltando uma extensa risada depois, seguida do meu amigo. Alvo permanecia neutro, embora por dentro eu soubesse que me estrangulava.
"Se é ajuda com a lição que você quer." – interpôs ele após um minuto de silêncio. "Ficaria feliz em ajudar."
"Só me diga como você fez hoje na aula de Transfiguração...".
"E na de Feitiços, e Defesa Contra as Artes das Trevas, e..." – zombou Elifas rindo para mim.
"Eu fui bem na aula de Defesa." – retruquei na defensiva.
"Ah, sim, perdão."
"É muito simples, basta acenar com a varinha...".
"Se acenar com a varinha fosse o bastante, não haveria Hogwarts." – comentei sendo apoiada por um aceno positivo de cabeça de Elifas.
"Sua ansiedade só vai atrapalhar." – observou Alvo sabiamente me fazendo rir.
"Certo, então avisem! Para se formar em Hogwarts é preciso, antes, decidir um mantra." – zombei rindo com os dois.
Se havia algo capaz de fazê-los rir por horas, eram minhas crises nervosas, pois não eram frequentes. Sempre foi raro para aqueles dois me verem realmente irritada com alguma coisa. A exceção dos dias de Quadribol. E após alguns minutos, Alvo se ergueu de sua cadeira e foi para perto de mim, apoiando a mão na minha que estava com a varinha. Ensinar é algo que nasce como vocação e acredito que a dele começou naquele pequeno gesto.
"Um pequeno baque, firme e se concentre no resultado, Mélia." – me disse enquanto mexia com minha mão no movimento do feitiço. Ele ficou parado ao meu lado, esperando para me assistir tentar. Já tentara antes, o que seria diferente agora?
"Consegui... EU CONSEGUI!" – a plenos pulmões comecei a gritar pelo salão comunal, pulando para abraçar meu professor. "Eu consegui, Alvo!"
"Muito bom." – elogiou ele tentando respirar. "Agora escreva seu relatório e me deixe viver."
"Obrigada, senhor gênio." – agradeci gentilmente. Perplexa, sentindo meus dedos comicharem. A sensação de realização, como a senti pela primeira vez. Nenhuma conquista fora maior do que aquela para mim. Nem mesmo quando vi um dragão pela primeira vez.
"Daria um bom professor." – comentou Eli fechando um livro. "Isso não está dando para mim, vou dormir e acho que vocês também deveriam."
"Já vamos, mamãe." – respondemos em uniosso.
"Prefiro Eli." – retrucou do terceiro degrau da escada.
"Ele tem razão." – concordou Alvo fechando o livro. "Uma partida de xadrez antes?"
"Fico com as brancas."
Pelo tempo que ficamos separados, uma das coisas das quais mais senti falta, foram das nossas noites jogando xadrez. Um jogo simples, mas capaz de aproximar duas pessoas de forma que elas acabam descobrindo mais sobre a outra e nunca serão capazes de esquecerem. Então talvez, a razão de possivelmente o que estou fazendo aqui seja inútil. Não serei capaz de esquecer as partidas de xadrez. Alvo era um estrategista e sabia que eu era capaz de perder minha atenção no jogo em favor a uma boa conversa. Contanto que não houvesse provocação intelectual, ficávamos em paz. Dois amigos aproveitando a companhia um do outro.
Com o passar do ano, a fama de Alvo se sobressaiu à história de seu pai. O que me faz pensar, se ele não tentou ser o melhor, apenas para provar que era melhor do que todos pensaram. Se distanciar do nome de Percival e criar um próprio. Mesmo as descobertas de Elifas ou as minhas, não foram tão lembradas quanto o duelo entre ele e Gerardo, ou a grande consideração que Bathilda e Nicolau possuíam por ele. A grande estrela da Grifinória. O que isso faria a mente de uma criança de onze anos? É duvidoso dizer, ele sempre soube esconder o que sentia tão bem. Mas eu via o brilho em seus olhos quando recebia admiração de um professor e quando conseguia realizar uma tarefa. Os invejosos poderiam dizer que isso subiria a cabeça dele um dia, e houve uma vez em que isso aconteceu. Ainda assim sempre fora uma pessoa de bom coração e realmente não seria capaz de odiar alguém que sempre esteve por perto para uma partida de xadrez.
_ Também não acho que ele deveria se considerar melhor do que todos. – disse Hermione. – Quer dizer, ele nunca pareceu se vangloriar por todas as coisas que fez.
_ Não. – concordou Harry fechando o diário.
_ Mas sempre foi uma figura imponente. – comentou Rony.
_ E se esforçava para parecer menos imponente. – retrucou Harry. – Lembra do nosso primeiro ano? Pateta! Chorão! Desbocado! Beliscão! Obrigado. Isso não foi muito imponente, foi louco.
_ E daquela outra que você xingou a Skeeter na frente dele e ele ficou olhando para o teto como se não tivesse ouvido. – lembrou Hermione sorrindo.
_ E usou aquele chapéu de urubu na festa de natal do terceiro ano. – completou Rony rindo alto.
_ Quem usou um chapéu de urubu? – perguntou Arthur Weasley indo se juntar a eles na sala.
_ O professor Dumbledore, no terceiro ano. – respondeu o ruivo e o pai deu uma gostosa gargalhada.
_ Como vai indo o diário? – tornou a perguntar o pai.
_ Muito bom. Ela era fanática por Quadribol e também desprezava os sangues puros pela sua maneira de ser. – Rony se adiantou em responder.
_ Nunca a viu, senhor Weasley? – indagou Harry. – Dédalo disse que ela participara de algumas reuniões da Ordem original.
O senhor Weasley sorriu de lado e mirou os três garotos antes de responder.
_ Sim, eu a vi. – disse apoiando os braços nas pernas para frente da cadeira. – Era uma mulher muito gentil, igual a sua mãe, Harry. Como se tivesse uma aura mágica em volta dela. Acho que era por causa dos olhos, um tom de mel, amendoado, muito bonito. Ela gostava dos seus pais, e certa vez veio nos visitar... quando os irmãos de Molly faleceram. Brincou com Gui e foi embora. Tinha a mesma idade de Dumbledore, mas assim como ele sempre teve um ar tão jovial.
_ Dumbledore e ela se davam muito bem, mas claro, eram amigos de escola e tão inteligentes. – comentou a senhora Weasley. – Se estou certa vocês descobriram alguma coisa sobre isso, não é?
_ Vocês nos assustaram quando nos olharam com aquela cara quando mencionamos o nome dela. – rebateu Rony.
_ Ora, fazia tanto tempo desde a última vez que ouvimos o nome de Amélia Preminger. – defendeu-se a senhora Weasley.
_ Ela realmente desapareceu? – perguntou Hermione.
_ Não exatamente desapareceu, Hermione. – respondeu Arthur. – Ela se aposentou, e ficou por um tempo na Romênia, temos uma foto de Carlinhos com ela. Depois quando voltou, nunca mais ninguém a viu. Não sabemos onde reside atualmente.
_ Na Mansão Preminger? – sugeriu Harry.
_ Não, não. A casa ficou com o irmão mais novo, Edmundo. Ela não quis a casa, ninguém sabe por que, mas não vive lá. – explicou Arthur e Harry acenou positivamente em sinal de frustração. – Talvez a resposta esteja aí, não é?
_ Vamos continuar lendo. – disse Hermione animando o amigo. – Senhor Weasley... dissemos que mais ninguém a não ser nós três...
_ Não falaremos nada a ninguém, Hermione. – assegurou o senhor Weasley piscando para a nora. – Mas eu gostaria de poder escutar o resto.
_ Claro. Sua vez agora, Rony. – disse Hermione pegando o diário com Harry e entregando-o para o namorado. – Pode ler.
_ Primeiro... pai, você sabe onde está a foto dela com Carlinhos?
_ Molly? – disse se dirigindo a esposa.
Ela subiu as escadas e voltou minutos depois com um grande bolo de fotos amarradas flutuando atrás dela, despejando-as na mesa.
_ Com quantas pessoas meu irmão já posou? – indignou-se Rony procurando.
_ Muitas pessoas passam pela Romênia e cumprimentam seu irmão, Rony. – disse o pai.
_ E a cada uma, uma fotografia?
_ Acho que... sim, sim, aqui está. – anunciou Molly que procurava pelo meio da pilha.
Aquela Amélia da foto já estava velha e muito diferente da jovem garota da foto de Elifas, mas não era tão diferente do retrato exposto no Departamento de Mistérios. Ostentava o mesmo sorriso matreiro nos lábios e explodia em uma gargalhada ao virar-se para Carlinhos e ver que ele tinha uma expressão cheia de importância. Atrás um recado na letra do Diário: "Querida Molly, Carlinhos ficou honrado em me conhecer, mas garanto que a honra foi toda minha. Ele é mesmo um garoto incrível. Estamos mandando uma cópia dessa foto para você e outra para mim. Saudades do seu bolo de caldeirão, minha tentativa foi fracassada. Com carinho, Amélia."
_ Continue agora Rony. – pediu Harry observando a imagem com um sorriso.
