CONHECENDO O PASSADO


Centro de Canberra, Austrália. Proximidades do Lago Burley Griffin.

Maila Jenoc caminhava devagar pelo belo caminho arborizado, indo na direção do Museu Nacional da Austrália. Bastante tímida e retraída, ela encolhia-se sempre que alguém a cumprimentava educadamente, e escondia o rosto com a sua franja volumosa e escura. Com mania de andar olhando para os pés, ela sequer notava o movimento das pessoas ao seu redor, que, inspiradas pelo seu cosmo divino, começavam a sentir uma vontade repentina e inadiável de também visitar o museu. Homens, mulheres, idosos, crianças... Muitos mudavam de rumo e simplesmente a seguiam, dispostos a conhecer mais sobre o passado e sem imaginar que Maila era, na realidade, a Musa da História.

Após visitar a todas as exposições disponíveis no museu, ela arrumou no rosto os grossos óculos de armação preta e seguiu para a Biblioteca Nacional, que também ficava perto do Burley Griffin. Subindo a escadaria do prédio, cuja arquitetura lembrava o Partenon grego, ela desastradamente tropeçou três vezes nos próprios pés, mas não caiu – por sorte. Dirigiu-se, então, para o salão de estudos principal e escolheu uma pilha enorme de livros e foi na direção das mesas de estudo. Desajeitada, ela balançou para um lado. Depois, balançou para o outro, mas acabou conseguindo equilibrar a sua pesada leitura para aquela manhã. Isso até dar três passos e esbarrar em alguém.

_Oh... Desculpe-me, eu... Eu não te vi. Os livros estavam na minha frente e eu... – sem sequer ter olhado ainda para o cavaleiro de ouro que a procurava, ela apanhava do chão os volumes que haviam caído.

_Não tem problema – disse uma simpática voz. – Posso ajudar você?

Maila arrumou os seus óculos gigantescos. Com seus olhos de tom quase violeta, ela examinou rapidamente Dohko de Libra. Envergonhada, fitou os próprios pés e disse baixinho:

_Não... Não precisa se incomodar.

O libriano pegou todos os livros caídos e também os que ela ainda segurava.

_Ah... Obrigada.

_De nada. E, a propósito, eu me chamo Dohko – apresentou-se dando um de seus sorrisos gentis, e se dirigiu até uma das muitas mesas do lugar.

Desacostumada a falar com homens bonitos, aliás, desacostumada a falar com pessoas em geral, Maila respondeu quase gaguejando:

_Eu sou a Mai. Que-quero dizer, eu me chamo Maila, mas você pode me chamar de Mai, se... Se quiser – encolheu-se, tímida.

Antes que Dohko respondesse algo, alguém perto dos dois pediu silêncio:

_Shiiiiiiiii.

O cavaleiro de ouro, então, despediu-se dela com um gesto de cabeça e dirigiu-se sem pressa até uma prateleira repleta de livros sobre a História da China. No caminho, ele falava baixinho consigo:

_Eu devo ser paciente, pois não posso despejar a verdade sobre ela de uma vez só. Por sorte, paciência é algo que eu aprendi a ter de sobra nos últimos duzentos e quarenta e três anos – ele pegou um livro da prateleira. Depois, percebeu que Maila estava lhe observando discretamente. Tímida, ela disfarçou o olhar cobrindo os óculos com a franja dos seus cabelos escuros. Suspirando, cochichou para si:

_Se for um sonho, o que é bem provável, eu não quero acordar. De onde esse homem saiu? Parece que estou diante de um herói da Antiguidade!

Mai, finalmente, abriu um dos livros que escolhera: A História da Guerra do Peloponeso, um volume de mais de seiscentas páginas. E, de repente, o setor da biblioteca começou a ficar cheio de pessoas dispostas a estudar sobre o passado. Elas vinham de outros setores, vinham de vários lugares da cidade, eram velhos, jovens, crianças, e turistas.

Observador, o antigo Mestre Ancião concluiu:

_Todos aqui estão sendo inspirados por pela Musa da História. Isso é muito bom, afinal, não podemos entender o presente ou planejar o futuro sem conhecer o passado.

Salão do Grande Mestre, Santuário.

Após ter ajudado o herói Teseu a escapar do labirinto do Minotauro, a apaixonada princesa Ariadne foi abandonada por ele na Ilha de Naxos. Desesperada, ela acabou despertando a piedade da deusa Afrodite, a qual lhe prometeu um amante imortal para compensar a desilusão sofrida. O deus Dionísio, então, encontrou a princesa, consolou-a e depois a desposou. Como presente de casamento, ele deu a ela uma coroa de ouro toda cravejada de diamantes. No entanto, a feliz união teve um fim quando a mortal Ariadne deixou o mundo dos vivos. Dionísio, na tentativa de imortalizar sua amada de alguma maneira, lançou a joia ao céu para que as pedras preciosas se tornassem as estrelas. E, todas as vezes que o deus as avistava, começava a sentir uma enorme saudade que nem o seu doce vinho conseguia aplacar.

Bebendo mais que o habitual, ele olhava o céu noturno. Saudoso, ele resolveu iniciar uma conversa com Shion, que lia alguns papéis antigos:

_Eu sou um dos filhos de Zeus, um dos deuses do Olimpo.

O ariano parou de ler e dirigiu a Dionísio um olhar óbvio. Tentou voltar para o que fazia, mas...

_Nós, deuses, somos seres imortais. Entretanto, vivemos sempre buscando algo nos seres humanos.

Percebendo que não poderia fugir do diálogo, Shion perguntou sem muita paciência:

_Buscam o que, por exemplo?

_Temor, devoção, respeito, admiração... Amor. Mas sabe qual é o problema maior dos mortais, Grande Mestre?

_Não – Shion respondeu com cara de poucos amigos.

_Eles morrem! Não importam o que tenham feito e amado em suas vidas passageiras, os mortais sempre desaparecem da face da terra. Sempre!

O ariano compreendeu, enfim, aonde o deus queria chegar. Respondeu:

_De fato. É o destino de todos que não desfrutam da eternidade. Tal como a tua esposa mortal, Ariadne.

Dionísio suspirou e disse:

_Ela foi a minha bênção e a minha maldição, afinal, o que fazer quando um ser imortal é condenado a viver sem o amor de sua vida?

Pondo os papéis sobre a mesa, o Grande Mestre buscou uma resposta para dar, mas não encontrou nenhuma. Dionísio, então, desceu as Doze Casas. Sozinho.

Casa de Áries, Santuário.

Tendo terminado o conserto da armadura, e sem ter mais o que fazer, Kiki usava a sua telecinese para guardar algumas ferramentas. Ele disse:

_Espero que o mestre Mu e os outros cavaleiros de ouro voltem logo.

De repente, o aprendiz percebeu que não estava mais sozinho:

_Olá, garoto estranho – cumprimentou Dionísio, que acabara de chegar a Áries.

Surpreso, Kiki coçou a testa e perguntou:

_O que você está fazendo aqui, deus do vinho? Não deveria permanecer no Templo com o mestre Shion?

_Aquele chato me entedia, e quando eu me sinto entediado, começo a lembrar de certas... Coisas. Sendo assim, leve-me até a amazona zangada.

_Amazona zangada...? Você só pode estar falando da Shina de Cobra.

_É este o nome dela? – interessou-se mais do que deveria.

O pupilo de Áries assentiu. Com um sorriso leviano nos lábios, Dionísio disse:

_Eu quero que me leves até ela, e, no caminho, quero também que tu me digas tudo o que sabes ao seu respeito.

_Isso não parece ser uma boa ideia, pois o Jabu de Unicórnio me disse que você e a Shina se desentenderam noutro dia – Kiki cruzou os braços e empinou o nariz, nada disposto a fazer o que o deus queria.

Dionísio deu um suspiro entediado, e teve uma ideia ao tocar a testa de Kiki:

_Não entendo o motivo pela qual as pessoas neste Santuário teimam em desobedecer e enfrentar aos deuses. Contudo, posso dar um jeito nisso.

Inesperadamente, pequenos chifres de sátiro cresceram na testa do pupilo de Mu.

_O que...? Ah! O que você fez comigo, deus do vinho?

Gargalhando, Dionísio respondeu:

_Se tu fizeres o que eu digo, voltará ao normal. Caso contrário, seguirá se transformando até virar um sátiro do meu séquito.

Tocando a testa energicamente, Kiki ameaçou:

_Eu vou contar ao mestre Shion!

_Ui... Que medo – o deus desdenhou e começou a caminhar tranquilamente.

Kiki, então, percebeu que não teria escolha levou-o até o local restrito às amazonas. Afinal, planejava um dia ser o futuro cavaleiro de Áries, não um misto de lemuriano e cabritinho.

Vila das Amazonas, Santuário.

Algum tempo depois e atrás de uma ruína, Dionísio e Kiki observavam Shina, que acabara de quebrar furiosamente um enorme bloco de mármore com apenas um golpe.

_Então até hoje ela tenta matar esse tal de Seiya? – o deus ainda estava perplexo.

_É como eu já expliquei: depois que um homem vê o rosto de uma amazona, ela é obrigada a amá-lo ou a matá-lo!

_E ela preferiu matar em vez de amar? – arregalou os belos olhos divinos.

_Sim.

_Que mulher!

Dionísio afastou-se de Kiki, que o segurou pelas vestes divinas e perguntou:

_O que pensa que está fazendo? Ela não pode ver você aqui!

_Quem disse isso?

_São as regras do Santuário!

Ignorando o pequeno, que desapareceu logo em seguida, Dionísio aproximou-se de Shina. Ela bufou ao sentir a sua presença divina, e reclamou:

_Você outra vez?

_Sentiu minha falta? – ele piscou.

Shina estralou os punhos e informou:

_Este é um lugar restrito. Vá embora antes que eu tenha que chutá-lo daqui.

_Tente, se quiser – o deus não estava mais nem um pouco entediado.

Shina elevou o cosmo, porém, antes que ela pudesse atacar, Dionísio estalou os dedos fez com que fortes ramos de videira brotassem do chão para prendê-la.

_O que...? O que você pensa que está fazendo?

_Estou facilitando a tua vida, amazona.

O deus, então, se aproximou dela sem pressa e com um sorrisinho satisfeito nos lábios. Com cuidado, retirou a máscara e...

_Não deverias esconder o rosto para proteger Athena. Não. Tu deverias ser uma ninfa dos bosques – ele disse num tom suave, acariciando a pele alva dela com a ponta dos dedos.

Irada, Shina libertou-se dos ramos e gritou:

_Devolva-me a minha máscara agora mesmo!

Tentando esconder a emoção e a surpresa por Shina ser parecida com Ariadne, Dionísio falou:

_Nada disso. É matar ou amar, não é? Faça a tua escolha. Espere... Eu sou imortal! Acho que te resta, então, apenas uma opção – ele deu um meio sorriso vitorioso.

_Seu... Miserável!

Shion surgiu de repente. Farto da presença de Dionísio no Santuário, ele disse:

_Já chega! Quantas vezes eu terei de dizer que existem regras as quais devem ser respeitadas...

Ignorando o Grande Mestre, Dionísio simplesmente fez a sua taça de vinho surgir e deixou o local destinado às amazonas. No entanto, em vez de totalmente satisfeito e não mais entediado, ele parecia mais saudoso e triste do que antes.

_Ei! Não está se esquecendo de algo, deus Dionísio? – perguntou Kiki, apontando para a própria testa.

_Deixe-me em paz, garoto irritante.

Arregalando os olhos, o pequeno lemuriano olhou para Shion, que disse:

_Acalme-se, Kiki. Eu irei resolver isto. E quanto a você, Shina de Cobra, mantenha-se longe do deus do vinho o máximo que puder.

Escondendo o rosto com as mãos, ela assentiu. No entanto...

"Ele me paga", pensou enquanto afastava-se dali.

Casa de Maila Jenoc. Canberra, Austrália.

Após quase ter sido expulsa da biblioteca por conta da hora avançada, Mai retornou para casa. Assim que abriu a porta, ela foi recepcionada pelo seu grande cachorro boiadeiro bernês, que a derrubou no chão.

_King!

Maila agarrou e fez carinho naquele que era a sua maior companhia. Depois, levantou-se acendeu as luzes, revelando pilhas e mais pilhas de livros de História que estavam espalhadas por todos os lugares.

_Você não vai acreditar no que me aconteceu hoje!

O cachorro de pelo preto, branco e marrom latiu como se quisesse escutar as novidades da sua dona, que começou a narrar o esbarrão com Dohko na Biblioteca Nacional:

_Estava eu, indefesa, balançando de um lado para o outro com uma pilha enorme de livros nas mãos. De repente, esbarrei num homenzarrão lindo que falou comigo e me deu um sorriso bastante gentil. Logicamente, eu me atrapalhei toda, dada a minha costumeira descoordenação. Todavia, ele me ajudou e depois foi até a prateleira de livros sobre História da China. Oh, King... Tem noção de quantas vezes algo assim aconteceu na minha vida antes? Nunca! Homens bonitos e gentis como aquele não falam com traças de biblioteca!

Suspirando e dirigindo-se até a cozinha, ela tirou da geladeira uma bandeja de comida congelada e abriu o forno micro-ondas, encontrando nele mais um dos seus livros.

_A Era dos Impérios!Eu estava mesmo procurando por este!

King latiu, chamando a atenção de Maila antes que ela mergulhasse no livro de Eric Hobsbawm.

_Ah... Sim. Quer saber o restante da história? Nada demais aconteceu, pois quando procurei por ele na saída, não mais o encontrei. Bom... Ao menos eu pude saber o seu nome: Dohko.

Após cuidar de King, comer, ler e sonhar um pouco acordada com o cavaleiro de ouro de Libra... Mai foi até a sua cama – a qual dividia com alguns livros – e dormiu. Ela não imaginou que uma perturbação do Caos acabara de se materializar em sua rua. Era um monstro cuja respiração ruidosa e pesada podia ser ouvida facilmente naquela madrugada. Com corpo de leão e cabeça de mulher, a Esfinge descansava na rua deserta e ladeada por árvores. Ao ver um viajante que se aproximava sem pressa, ela lançou um desafio que, para muitos, seria mortal:

_Decifra-me ou te devoro.

Ele, entretanto, deu um singelo sorriso sob o seu típico chapéu chinês e falou consigo:

_Eu não esperava encontrar uma perturbação do Caos tão cedo, mas, se ela me lança um desafio, eu devo aceitá-lo.

Dohko, então, elevou o seu cosmo em resposta. O monstro mitológico se ergueu e propôs seu enigma:

_Qual é o animal que de manhã anda com quatro pés, à tarde com dois e à noite com três?

Conhecendo o mito de Édipo e da Esfinge, o libriano respondeu com sábia voz:

_É o homem, que engatinha na infância, anda ereto na juventude, e com a ajuda de um bastão na velhice.

Ao contrário do que era esperado, o monstro rosnou e atacou ao cavaleiro de ouro, que se desviou facilmente e lançou um ataque:

_Cólera do Dragão!

A Esfinge se desfez, deixando rastros escuros e passageiros que se dissiparam no ar em poucos segundos.

_Foi fácil, mas isto é apenas o começo. Outras perturbações virão, e terão mais força à medida que o Caos se espalhar. Devo ficar atento.

O cachorro King, que estava desperto e agitado por também sentir a perturbação, saiu da casa de Mai pela sua portinhola.

_Olá, garoto – Dohko afagou o pelo macio do animal. – Então é aqui que ela mora, não é?

King latiu como se respondesse "sim".

_Temos de protegê-la até que eu possa levá-la ao Santuário.

O esperto cachorro, então, correu e ficou de guarda na varanda. Dohko sorriu, e também permaneceu em alerta, sentado do outro lado da rua como se estivesse diante da cachoeira de Rozan.

Na manhã seguinte, Maila despertou bastante disposta – e tropeçando também numa pilha de livros que esquecera no chão. Olhando-se no espelho do banheiro, ela tentou arrumar o cabelo escuro, volumoso e liso – sem muito sucesso, na verdade.

_Espelho, espelho meu... Existe alguém mais sem graça e desengonçada do que eu? – perguntou ao suspirar profundamente.

King, então, entrou no banheiro e começou a puxar a dona pela camisola, como se quisesse mostrar a ela algo. No caso, alguém.

_O que foi? Para que tanta pressa? Sei que já está na hora do seu passeio, mas nunca te vi assim anteriormente!

O cachorro sentou e latiu como se desse a ela um ultimato.

_Está bem, está bem. Eu irei me apressar.

Maila, então, trocou de roupa, colocou no cachorro a coleira, e tentou tomar o rumo da padaria.

_King... Lado errado.

O bernês puxava a dona para a direção contrária. Esguia e magrinha, Mai não tinha força suficiente para controlá-lo.

_Ei... O que está havendo com você?

Num puxão mais forte, King a leva para perto de Dohko, e os entrelaça com a coleira.

_Bom dia – diz ele.

Vermelha como uma pimenta malagueta, Mai reconhece-o.

_Ah... Bom dia – ela responde evitando contato visual.

Cuidadoso, Dohko se livra da coleira do cachorro e oferece ajuda:

_Ele parece ser um bom animal. Posso ajudar a levá-lo?

_Aham – ela responde e se belisca discretamente. Sim, estava acordada.

_Para onde vocês dois iam?

_Padaria – a voz dela mal saiu.

Dohko, então, acompanhou-os em silêncio, uma vez que Mai perdera a fala durante todo o caminho.

No interior do Caos.

Nyx e Érebo estavam sentados lado a lado em um amplo e tenebroso salão. Ambos observavam regiamente a chegada dos demais descendentes do Caos. A primeira a surgir foi Nêmesis, a Vingança Divina, que trazia numa das mãos uma enorme foice cuja lâmina era afiada e precisa. Depois, veio Oniros, o deus dos Sonhos. Leto, a deusa do Esquecimento, apareceu acompanhada por Geras, a Velhice. Lissa, a Loucura, foi a seguinte. Depois, desfilando furiosamente pelo salão, apareceram as Erínias, responsáveis por levar vingança aos atos maus dos homens. Elas eram três: Tisífone, Megera e Alecto.

Apate, deusa do Engano, foi a próxima a aparecer. Phtonos, a Inveja, chegou dirigindo a todos os seus olhos sempre insatisfeitos. As três Hespérides também compareceram: Egle, Héspera e Erítia. Elas auxiliavam a Noite e o Dia com a Dança das Horas, trazendo ao mundo a tarde. Destino foi o último a chegar com as suas Moiras, mas não parava por aí a lista dos filhos nascidos de Nyx: outros já estavam pelo mundo, distribuindo a ação do Caos.

Érebo, então, perguntou à sua irmã e esposa:

_Onde está a nossa Hemera?

_Ela conduz o Dia até os vivos.

O deus da Escuridão assentiu. Depois, perguntou:

_E o nosso filho Éter?

_Ele cuida de um assunto de suma importância. Se Hermes tiver nos enganado no passado, teremos motivos para nos preocuparmos.

Érebo deu um sorriso maléfico e disse ao lembrar-se do poder que a Noite conservava desde os tempos mitológicos:

_Hermes em breve não será mais um problema. Ele já deve estar se transformando num mortal graças ao poder do teu golpe.

_Sim, e o que é um deus sem a sua imortalidade? – os olhos prateados de Nyx brilharam de satisfação.

Santuário.

Saga observava o amanhecer na entrada de Gêmeos. A imagem de Kannon indo embora com os inimigos de Athena atormentava a sua mente e tirava-lhe a paz.

_Será mesmo possível? Será que ele corrompeu-se outra vez? Não. Algo está errado. Tem que estar, ou eu terei de agir para impedi-lo.

Num impulso, Saga deixou as Doze Casas e foi até o local onde encontrara Hemera. Ela estaria lá? Seria assim, tão ousada a ponto de invadir o Santuário após o início da guerra contra o Caos? Sim.

_Tu vieste outra vez, cavaleiro de ouro – ela disse num contido tom de satisfação ao perceber a chegada dele.

_Não me distraia. Apenas me responda o que o Destino pretendeu ao levar o meu irmão daqui.

Hemera tocou o seu pingente brilhante e mirou o geminiano. Respondeu:

_Quem conhece os desígnios do Destino? Eu mesma me considero como uma vítima dele.

Insatisfeito com a resposta dela, Saga elevou o seu cosmo e perguntou:

_O que você veio fazer aqui?

_Somos inimigos, mas nós dois temos muito em comum. Eu estou fugindo da minha própria angústia, e não é isto que tu estás a fazer também?

_Vá embora e não volte mais. Ou teremos de lutar.

_Por que não antecipar o inevitável? – o pingente transformou-se em lança. – Será mais fácil matar-te agora do que depois.

Saga atacou:

_Outra Dimensão!

Hemera desapareceu devido ao golpe dele, mas não por muito tempo:

_Eu transito livremente no interior do Caos, cavaleiro. Tu não achas que mandar-me para outra dimensão é o mesmo que me subestimar?

_Tem razão.

Saga preparava-se para o seu ataque mais poderoso, porém, um portal perolado surgiu, e dele saíram Hermes e Athena. O deus Mensageiro apontou ameaçadoramente o seu caduceu para a deusa do Dia, e advertiu:

_Dentre todos os descendentes do Caos, tu és aquela pela qual eu ainda tenho apreço. Portanto, vá embora, Hemera.

Saori posicionou-se ao lado de Saga, também disposta a enfrentar a invasora, que reconheceu:

_O meu poder cresce com o do Caos, mas ainda não sou capaz de enfrentar dois deuses do Olimpo de uma vez só. Devo ir.

Saga observava atentamente os belos olhos da deusa. De alguma maneira, ele também sentia que tinham algo em comum, e ela, inesperadamente, lhe dirigiu a palavra antes de envolver-se em sua luminosidade e desaparecer:

_Busque pelas tuas próprias respostas, cavaleiro.

Hermes, percebendo que algo acontecia, perguntou a Saga:

_O que houve aqui desde que fomos ao Olimpo?

_O Destino esteve aqui, e o meu irmão, aparentemente, tornou-se um traidor.

_O que? – Saori estava incrédula.

Hermes apertou o seu caduceu numa das mãos, sentindo que a sua imortalidade se esvaia em razão do golpe de Nyx. Preocupado, ele sussurrou:

_O Destino sabe. Ele sabe o que fiz no passado, e está usando Posseidon contra nós. Caso contrário, porque ele levaria um dos gêmeos daqui?

Athena aproximou-se do irmão e perguntou:

_Hermes... O que te aflige?

_Nada, minha irmã – ele mentiu. – Mas, em hipótese alguma, ele deve deixar este Santuário – apontou para Saga de Gêmeos, que nada compreendeu.

Canberra, Austrália.

Mai limpou e arrumou no rosto os seus óculos de fundo de garrafa. Olhando para fora da padaria, ela via Dohko e King.

_O que eu digo para ele? Para que tanto conhecimento acumulado se eu não consigo utilizá-lo numa conversa informal com um semi desconhecido que está bem ali com o meu cachorro? – ela se perguntava baixinho enquanto pegava qualquer coisa nas prateleiras.

Dohko acenou. Mai cobriu o rosto com a sua franja e dirigiu-se até o caixa, fingindo ignorá-lo. Na saída, o libriano resolveu quebrar o silêncio incômodo:

_Você mora aqui na Austrália há muito tempo?

_Sim. Eu nasci e cresci aqui.

Ele queria mais detalhes sobre a rotina mortal que ela recebera do Caos, e perguntou:

_Tem família?

_Não. Sou sozinha. Aliás, tenho o King.

O cachorro latiu e lambeu a mão da dona. Dohko seguiu falando:

_Ontem você estava na biblioteca.

_Sim. Eu vou lá quase todos os dias.

_Gosta de ler sobre História, não é?

Ela assentiu timidamente, com medo de ser vista como uma nerd.

_Alguma época em especial?

Empolgada com a pergunta, ela acabou destravando:

_Todas. Atualmente tenho lido bastante sobre do imperialismo das potências europeias durante o século XIX e... Ah, desculpe-me. Com certeza você não quer saber sobre isto.

_Não, pelo contrário. Na verdade, eu lembro bem desse tempo.

Mai ficou um tanto curiosa, e achou por bem corrigir:

_Deste assunto, não? Com certeza você não viveu no século XIX para se lembrar dele.

Dohko sorriu ao recordar-se do quanto as notícias demoravam a chegar à Rozan durante o referido período, e perguntou:

_E se eu tivesse vivido?

_Impossível. Não sou muito boa com números, mas você teria hoje bem mais de duzentos anos – ela arrumou os óculos mais uma vez.

_Isso mesmo.

Mai percebeu o olhar sábio do cavaleiro de Libra.

_De todo jeito, é algo humanamente impossível – ela concluiu timidamente.

Não demorou muito e chegaram até a casa dela outra vez.

_Ah... Obrigada por me acompanhar. Não sei o que deu no King hoje.

O cachorro passou a farejar ao redor do cavaleiro. Mai o puxou levemente pela coleira, trazendo-o para perto de si.

_Foi um prazer. Posso voltar amanhã para conversarmos mais?

_Amanhã? – ela ficou realmente surpresa.

_Sim. Podemos falar sobre a Guerra dos Boxers, na China.

_Eu... Eu adoraria.

Dohko, então, assentiu e se foi tranquilamente. Mai, então, parou como uma estátua por alguns minutos e falou consigo:

_Interessante... É como se ele fosse um velho num corpo jovem. E ele vai voltar amanhã!

Empolgada e distraída, ela abriu a porta e tropeçou num livro enorme sobre mitologia grega.

_Ai – resmungou a bater com força a testa numa prateleira próxima. – Definitivamente, eu não estou sonhando. Os meus tombos não doem tanto assim quando estou dormindo.

King latiu como se concordasse com tal afirmação.


Demorei, mas atualizei!

Os descendentes do Caos são muitos, e há um detalhe: somente Hemera, Éter e as Hespérides são filhos do Érebo. Os demais nasceram apenas de Nyx, como se ela fosse uma chocadeira ambulante. As Eríneas também são filhas dela numa versão do mito.

Espero que o capítulo da Clio/Mai tenha sido legal. Enfim, não poderia faltar aqui uma referência ao Eric Hobsbawm, um dos meus historiadores favoritos, o qual morreu recentemente. : (

E a próxima Musa a aparecer será... Surpresa!

Até mais!