FAR WEST

Capítulo 4

AUTORA: Lady K

DISCLAIMER: Todos os personagens da série "Sir Arthur Conan Doyle's The Lost World" são propriedade de John Landis, Telescene, Coote/Hayes, DirecTV, New Line Television, Space, Action Adventure Network, Goodman/Rosen Productions, e Richmel Productions (não venham me pentelhar). Esta história é também uma adaptação de um livrinho estilo Sabrina (não venham me pentelhar por isso tbm lol).

GÊNERO: Aventura, romance, comédia e umas cenas calientes. Eu sei q ninguém liga p/ esses avisos, MAS, fiquem fora desta fic, crianças! Não me responsabilizo por qqr dano psicológico ou moral lol Pessoas diabéticas e cardíacas, cuidado! Altas doses shipper R&M!

COMMENTS: Mamma Corleone, qtas ameaças, assim vc corta a inspiração kkkkk td bem q ja tá td escrito hauhauhau Beijinhos? Vc ta mto saidinha, não acha? rs... Essa é uma fic família, td com mto pudor kkkkk Bjim


Eles comeram as amoras enquanto viajavam. Embora fossem poucas, diminuíram um pouco a fome de Marguerite. Com uma ponta de saudade, lembrou-se das refeições maravilhosas preparadas pela cozinheira da família.

Suspirou e olhou para o homem silencioso sentado ao seu lado. Roxton havia comido as amoras em silêncio, que ela começava a considerar habitual. Por causa do tamanho avantajado dele, nada mais natural que exigisse uma porção maior das frutas. Entretanto, ele não fizera isso. Contentara-se com umas poucas.

De repente, ele virou-se e a fitou.

"Meus lábios estão azulados?"

"O quê?"

"Do jeito como a senhorita não tira os olhos de mim, imaginei se as amoras não tinham deixado meus lábios azuis."

Marguerite enrubesceu. Ele estava certo. Há muito tempo mantinha os olhos nele. Embaraçada, desviou o olhar para os bois.

"Na verdade, eles estão bem avermelhados. Sem dúvida, por causa dos ferimentos. Mas seus olhos é que estão com a mais variada gama de tonalidades. Elas vão do azul para o roxo, passando pelo preto."

Ela o surpreendeu rindo.

"Devo estar com uma aparência infernal. Mas é como me sinto."

"Os machucados doem muito?"

Pelo canto dos olhos, percebia que ele continuava fitando-a, mas relutava a encará-lo. Algo nesse homem a perturbava.

"De vez em quando, sinto uma pontada em algum lugar" confessou ele.

Roxton estava sendo forte, tinha certeza. Ela lembrou-se de sua expressão de dor ao usar o machado.

"Eu é quem deveria ter cortado os troncos."

"Por que diz isso?"

"Eu o teria poupado de mais sofrimento."

"Esse é um sentimento muito generoso. Ainda mais considerando..."

"O quê?"

"Que sou seu prisioneiro e a senhorita pensa que está me levando para Trinity Falis a fim de enfrentar algum tipo de julgamento."

"Não penso que o estou levando com essa finalidade. Tenho certeza de estar." Esquecendo-se de não querer encará-lo, virou-se para ele. "É muito importante uma pessoa arcar com a responsabilidade de seus atos. Quando se faz algo errado, torna-se imperioso pagar o débito para com a sociedade. Se não fosse assim, nosso país cairia na anarquia."

Fitando-a com olhar intenso, Roxton dava a impressão de ter algo importante a dizer. Estaria ele prestes a confessar os crimes cometidos? Marguerite preparou-se para ouvir qualquer coisa. Prometeu a si mesma manter-se calma, não importava quão depravados e violentos os erros dele tivessem sido.

"A senhorita não acredita em nada que lhe contei, não é?"

"Naquela história de ter sido injustamente preso, depois de avisar o forte do ataque, e de se negar a mostrar o caminho do acampamento dos índios amigos?"

A expressão dele tornou-se mais carregada.

"É inútil eu continuar me declarando inocente, certo?"

"Não posso acreditar que soldados dos Estados Unidos cometam algo tão abominável como prender um homem inofensivo."

Roxton voltou a prestar atenção na trilha.

"Existe algo sobre o qual a senhorita deveria pensar."

"O quê?"

"Se sou um vilão tão terrível, como a senhorita continua viva?"

"Não entendo."

"Se sou tão mau quanto imagina, eu já teria aproveitado de seu corpo atraente, cortado-a em pedaços com seu próprio machado, cozinhado-a num fogo crepitante e preparado uma refeição quente com sua carne macia."

O coração de Marguerite disparou. O fato de Roxton poder descrever algo tão diabólico provava que ele era perigoso. Havia cometido uma tolice ao soltá-lo e nem, ao menos, se armara com uma faca.

Roxton a olhou de soslaio. Maldição! Ela estava branca como um fantasma. A brincadeira, feita com a intenção de tranqüilizá-la, a tinha apavorado. Isso o deixava furioso. Não sabia com quem estava mais bravo, se consigo mesmo por ter falado tamanha asneira, ou com ela, por ser tão crédula.

"Eu é quem deveria ter cortado os troncos."

O comentário delicado surgiu-lhe na mente. Sua preocupação generosa ele retribuía com um comentário maldoso sobre estupro, esquartejamento e canibalismo.

"Pode voltar a respirar. Não vou lhe fazer mal algum."

"Não preciso de sua permissão para fazer isso."

A bravata provocou a admiração de Roxton. Ela podia estar com medo, mas não o deixaria perceber. Precisava saber mais coisas a seu respeito, a fim de estabelecer harmonia entre ambos. Ele tinha de fomentar um certo grau de confiança nessa mulher do leste, pois a vida de ambos poderia ficar reduzida à necessidade de ela obedecer-lhe as ordens sem questioná-lo. Todavia, ela não estava preparada ainda para saber que ele era o prefeito temporário de Trinity Falls, dono de um banco e possuidor de um título de nobreza. A Srta. Krux pensaria que ele estava mentindo e se tornaria mais desconfiada.

"Por que está viajando sozinha?"

"O senhor não se lembra?"

Os olhos verdes revelaram espanto e pena. Maldição. Ela voltava a encará-lo como retardado.

"Lembrar-me de quê?"

"Já expliquei que o chefe do comboio não quis diminuir a marcha. Lembra-se de meus livros? Aqueles que o senhor queria deixar no forte, a estrutura imensa de madeira, com uma porteira enorme?"

Roxton rangeu os dentes, fazendo a cabeça dolorida latejar.

"Eu quis dizer viajar sozinha desde o início. A maioria das mulheres viaja com os pais... ou o marido." - Ele não resistiu e acrescentou: "Pais são aquelas pessoas que nos trazem ao mundo e nos criam. Marido é um homem com quem uma mulher se casa quando já está pronta para ter a própria família. Família..."

"Já entendi" interrompeu ela, corando até a raiz dos cabelos.

Já estava na hora de a Srta. Krux compreender como ele se sentia ao ser tratado como simplório.

"E então? Por que estava viajando sozinha?"

"Bem, eu devia vir para o oeste na companhia de uma família. O filho mais velho ficaria encarregado da Junta de bois e do carroção. Na última hora, entretanto, eles mudaram os planos."

A explicação revelava muito pouco.

"Por que resolveu deixar sua casa?"

Marguerite tornou a enrubescer e Roxton percebeu ter tocado num ponto importante.

"Seus pais a deixaram vir?"

"Eles aceitaram minha decisão."

Havia muita coisa que ela não estava lhe contando. Ele notou que deixar sua casa tinha sido doloroso para ela.

"E seu marido?" indagou ele, tentando fisgá-la.

"Não tenho marido."

"E noivo?"

"Não é de sua conta, Sr. Roxton."

"Por favor, me trate por John, pois pretendo chamá-la por Marguerite."

Surpresa, ela piscou.

"Como o senhor sabe meu primeiro nome?"

"Eu o vi escrito em seus livros."

"Ah! Bem, nestas circunstâncias, seria tolice nos tratarmos com formalidade."

Concessão cortês, embora relutante, pensou ele.

Roxton gostava da maneira precisa e delicada como seus lábios formavam as palavras. Aliás, lábios convidativos. Todavia, ela não parecia ser do tipo que sugeriria beijos. Pelo contrário: projetava uma integridade que desafiava um homem a transpor as barreiras levantadas por ela.

Antes de cometer uma tolice, como descobrir o sabor daqueles lábios, ele desviou o olhar. "E então, Marguerite, se não tem marido, está noiva, ou é viúva?"

"Sr. Roxton..."

"John, por favor" ele corrigiu com firmeza.

"John, nossa associação é temporária, portanto, não há razão para você saber se existe alguém especial em minha vida."

"Quando tudo isto terminar, imagino, surgirá um homem declarando que você lhe pertence, e exigindo saber o que aconteceu entre nós."

"Em primeiro lugar, não existe tal pessoa. Segundo, a única coisa que vai acontecer será nossa chegada, sãos e salvos, a Trinity Falls" afirmou em tom exasperado.

Era difícil acreditar que aquela mulher linda não estivesse ligada a homem algum, refletiu. Tentou calcular sua idade, mas não achou fácil. Talvez tivesse dezoito anos. Seu comportamento, entretanto, sugeria ser mais velha, com vinte e quatro, ou vinte e seis anos.

A expressão de Roxton tornou-se sombria. Ela não tinha o direito de vagar sozinha pelo Território de Idaho, ou por qualquer outro lugar. Era atraente demais, além de teimosa, para andar desacompanhada. A situação deles provava isso. E se Tribuno houvesse deixado um verdadeiro criminoso trancado na cela? Marguerite o teria libertado e ficado à mercê dele. Para seu próprio bem, ela precisava aprender que uma mulher sozinha não podia perambular pelo país como bem entendesse.

Roxton deu-se conta da falta de lógica de tal protecionismo. Aliás, fora este protecionismo que o levara a ser tutor de Verônica. Quando um garimpeiro tinha aparecido no banco e contado a história de uma menina branca que morava com a tribo de Ned Lobo da Noite, Roxton fora buscá-la. A mãe de Verônica havia morrido muito tempo atrás e o pai, dono de uma pequena mina, cuidara dela até ser assassinado por causa de um punhado de ouro em pó. Ned Lobo da Noite, então, se encarregara da menina, mas certo seria ela viver entre seu próprio povo. Roxton poderia tê-la mandado para um orfanato no leste, mas não tivera coragem.

Ele sacudiu a cabeça. Incrível viver até os trinta e cinco anos de idade sem descobrir esse seu traço de sentimentalismo. Sem dúvida, fora ele que o mandara ao forte a fim de avisar Tribuno sobre o ataque dos índios.

E agora, via-se ligado a uma mulher que valorizava mais seus livros do que a própria vida. Estava enganada se pensava que ele a deixara conservá-los. Nessa noite, quando Marguerite estivesse dormindo, ele aliviaria a carga do carroção, jogando fora todos os livros.

Observou-a de soslaio. O mau humor dele melhorou, ao pensar como essa mulher autoritária seria, finalmente, posta em seu devido lugar. Podia visualizá-la levando-o à delegacia, a fim de que fosse julgado. Seria um prazer vê-la descobrir que seu prisioneiro não era ninguém menos do que o prefeito temporário de Trinity Falls e presidente do maior banco da cidade, além de um lord inglês. Isso sem falar em outras instituições financeiras. Que grande humilhação para ela ter de baixar o topete.

Roxton estalou o chicote, pois os bois relutavam em subir um novo aclive. Parou de pensar em Marguerite e concentrou-se no destino. Já estariam logo em terras de Ned Lobo da Noite e livres do perigo de perderem os escalpos.

Voltou a pensar em Marguerite. De um jeito ou de outro, ele descobriria seus motivos para deixar Londres e o que pretendia fazer em Trinity Falls. Certamente, não iria procurar trabalho num dos bares da cidade.

Ao imaginá-la servindo bebidas num deles, sorriu. Ela estaria usando um vestido decotado e curto o suficiente para mostrar os tornozelos. Os seios mal caberiam na blusa justa.

Tentou se controlar. Como podia imaginar essa mulher fina e puritana vestida de maneira vulgar? O tempo passado na cela devia ter-lhe perturbado a mente. Isso ou o fato de não ter gozado, nesses últimos meses, a companhia das mulheres alegres e irreverentes de Trinity Falls. Quando Verônica passara a fazer parte de sua vida, ele evitou esses encontros habituais com moças que não exigiam uma aliança em troca de seus favores.

Isso teria de mudar quando ele voltasse para a cidade. Encontraria uma maneira de retomar a vida antiga sem prejudicar o mundo de Verônica. Se não conseguisse, ele se tornaria una ameaça para as mulheres decentes, pois só tinha pensamentos carnais sobre os lábios sensuais, os seios e quadris bem modelados de Marguerite e...

Por Deus, ele estava perdendo a cabeça. Não havia nada atraente nessa mulher recatada. Pretendia repetir tal mentira a si mesmo até chegar a Trinity Falis.


Os últimos raios de sol anunciavam o fim do dia. Sombras movediças pontilhavam a trilha. Uma brisa fria e inesperada penetrou pela roupa fina de Marguerite, provocando-lhe um arrepio e fazendo-a lançar um olhar amedrontado ao redor.

Quando Roxton, finalmente, parou o carroção, a noite já havia caído e dado um toque de perigo à floresta.

"Bem, aqui estamos" declarou ele.

"E onde é aqui?" ela indagou, numa voz trêmula.

Custou-lhe uma boa dose de determinação para não escorregar pelo banco e aconchegar-se a Roxton. A necessidade de procurar conforto num estranho a surpreendia, pois sempre se orgulhara de ser auto-suficiente. Com esforço, dominou a fraqueza traiçoeira.

"Aqui é onde passaremos a noite" respondeu ele, ao descer do carroção.

Marguerite forçou o olhar e distinguiu, um pouco adiante das patas dos bois, um riacho estreito.

"Vou desatrelar a junta logo. Amanhã, partiremos ao raiar do dia" avisou ele.

Lá vinha ele novamente com ordens, pensou Marguerite. Todavia, estava exausta demais para iniciar uma discussão. Desejava apenas esticar-se entre os cobertores sob o carroção.

Com dificuldade, desceu ao chão. Todos os músculos do corpo doíam, por causa do dia inteiro de viagem pela trilha acidentada. Sem ânimo para andar, encostou-se numa das rodas do veículo. Devia fazer algo útil, como encontrar os bolinhos extras feitos na véspera no forte, mas não se mexeu.

"Marguerite?"

Ela estremeceu. Teria Roxton já desatrelado os bois? Nesse caso, ela estava parada ali há algum tempo. "Sim?" respondeu, levantando a cabeça.

"Você parece morta de cansaço!"

"Já, já melhoro. Só me dê uns minutinhos."

Roxton pôs as mãos em seus ombros. "Exigi demais de você hoje, Marguerite."

A preocupação, entrelaçada no tom suave dele, atingiu-a num ponto vulnerável. E enquanto as mãos a massageavam nos ombros doloridos, os olhos dela encheram-se de lágrimas.

Ela tentou endireitar o corpo. Havia chegado sozinha até esse ponto. Era uma mulher resistente e não precisava do conforto oferecido por este homem.

Para horror seu, as lágrimas se avolumaram e começaram a rolar pela face. Sem saber como, apoiou o rosto na camisa dele.

Detestava fraquejar, ainda mais quando devia mostrar-se forte. Porém, quanto mais lutava para se controlar, mais chorava. As mãos dele a acariciavam nas costas e ela sentia-se como se houvesse encontrado abrigo, contra uma tempestade nas montanhas, entre os braços deste estranho ameaçador.

Isso não estava certo, censurou a parte racional de sua mente, quando as lágrimas já diminuíam. Tentou soltar-se do abraço, mas o corpo parecia ter idéias próprias e ela permaneceu onde estava.

Roxton a prendia com algo diferente de força física. Era como se a amparasse com a solidariedade de um ser humano para com outro. As batidas do coração dele tinham um ritmo acalentador e o odor masculino permeava-lhe os sentidos.

A sensação de que estava prestes a experimentar algo raro e significativo passou-lhe pela mente conturbada, mas dissipou-se logo. Com um movimento firme, Marguerite conseguiu, finalmente, soltar-se. E quando Roxton a ajudou a descer do carroção, ela notou uma ponta de hesitação por parte dele.

"Desculpe. Não sei o que aconteceu comigo" ela murmurou, preparada para uma declaração de superioridade viril diante de sua fraqueza feminina.

Mas surpreendeu-se ao ouvir Roxton dizer: "A culpa foi minha. Forcei-a a viajar por um trajeto árduo e longo demais para um só dia. Você precisa agora de alimento e de uma boa noite de sono."

"Por acaso você se lembrou de pôr no carroção o prato com o resto dos bolinhos?" ela perguntou.

Ele passou o braço por sua cintura e a guiou para trás do carroção. "Não só trouxe os bolinhos como também carne seca e umas latas de pêssegos que encontrei numa busca pelo forte. Só porque não vamos acender uma fogueira esta noite não quer dizer que tenhamos de passar fome."

Ela pensou como Roxton, apesar das falhas morais, tinha boas qualidades. Era bondoso e empreendedor.

Ele entrou no carroção e, quase em seguida, saiu com uma braçada de cobertores. Estendeu-os sob o veículo e a chamou: "Venha cá."

Meio trôpega e como se não tivesse mais energia alguma, ela aproximou-se. Ao abaixar-se para entrar sob o carroção, sentiu cada músculo do corpo protestar. Mais uma vez, as mãos de Roxton a ampararam, ajudando-a a alcançar os cobertores.

Sentindo-se aliviada por poder deitar-se, fechou os olhos enquanto ele a cobria.

"Obrigada" murmurou.

"De nada. Vou tirar suas botinhas, pois se não passar umas horas sem elas, seu pés incharão."

"Bondade sua" ela respondeu e o ouviu rir.

"Você está exausta, não é, delegadazinha?"

"O que disse?"

"Como não acho que você esteja planejando receber uma gratificação ao me entregar ao delegado de Trinity Falls, não vou ofendê-la, chamando-a de caçadora de recompensas."

As palavras não faziam muito sentido, mas o tom de voz era cordial, ela admitiu.

No instante seguinte, Roxton lhe descobria os pés e tirava suas botinhas. O fato de estar sendo cuidada provocou-lhe um aperto no coração. Umas últimas lágrimas escaparam de seus olhos.

"Descanse uns instantes" recomendou.

Grata, Marguerite entregou-se à nebulosidade do sono. Quando Roxton a sacudiu pelos ombros, não fazia idéia de quanto tempo havia passado.

"Você precisa se alimentar antes de adormecer completamente."

"Vá embora" protestou ela.

"Pelo menos, coma um bolinho."

Ela abriu os olhos e o viu ajoelhado ao lado. Abriu a boca para dizer que preferia continuar dormindo, mas ele apertou o bolinho contra seus lábios. "Vamos, coma isto. Os pêssegos ficam para amanhã cedo, quando você poderá apreciá-los melhor."

Marguerite obedeceu. Seco e já meio duro, o bolinho não tinha mais sabor.

"Agora, beba água" recomendou, encostando a boca do cantil em seus lábios.

Apoiada no cotovelo, ela soergueu-se, inclinou a cabeça para trás e tomou uma boa dose.

"Obrigada" agradeceu, depois de ter matado a sede.

"Delegadazinha tão educada..."

Apesar da mente entorpecida, ela respondeu: "Vilão malvado tão atencioso..."

Já quase adormecendo, Marguerite sentiu Roxton massagear-lhe o arco dos pés. Envolta por uma sensação deliciosa, desgarrou-se da última reflexão coerente.


Algo sólido rodeava Marguerite e ela aconchegou-se mais esse abrigo seguro. Sonhava, mas tinha certeza de não se tratar da realidade. Flutuava sobre uma linda mata, admirando-a lá de cima.

Uma sombra passou por seu santuário, fazendo-a erguer a cabeça. A raiva a dominou. Não havia lugar para duas pessoas ali. Tentou empurrá-la.

"Marguerite, pare!"

"Vá embora! Não há lugar para você aqui!"

"Ontem à noite havia bastante."

Marguerite arregalou os olhos. O semblante meio difuso de Roxton estava a centímetros de seu nariz.

Ela soltou uma exclamação. O marginal tinha lhe invadido a cama enquanto ela dormia. Sua cabeça repousava no ombro dele e um dos braços o rodeava na cintura. As pernas de ambos estavam entrelaçadas, enquanto sua saia levantava-se até quase os joelhos.

Quando a mente registrou esses detalhes constrangedores, ela recuou. Tentou desvencilhar-se, mas os cabelos soltos estavam sob o ombro de Roxton. "Seu patife, me solte!"

Em vez de atendê-la, ele rolou para a frente e prensou o corpo sobre o seu. Na luz do amanhecer, as feições machucadas dele exibiam uma coloração mais variada ainda. "Bom dia, Marguerite."

A saudação afável contrastava tanto com a expressão amedrontadora de Roxton e com seu esforço para livrar-se dele, que ela ficou confusa. Lutou para manter a compostura e para controlar o coração disparado. Ele olhava para seus lábios e esta não era a primeira vez que o fazia. Mas Roxton encontrava-se mais perto do que jamais estivera. O corpo sólido dele a tocava em todos os lugares.

Uma reação, não apenas de medo, a fez estremecer. Uma percepção primitiva tomou vida em seu íntimo. Um desejo adormecido se fez sentir.

Ela prendeu a respiração quando fez uma nova descoberta. Nunca havia refletido sobre a questão. Mas, com esse invasor sobre seu corpo, intuía como o homem fora feito para se unir à mulher. Incrível como só aos vinte e quatro anos juntava os pedaços do quebra-cabeça.

Devagar, soltou a respiração presa. Sabia que Roxton sentia a exalação do ar morno como acontecia com ela. Que ato incrivelmente íntimo compartilhar o mesmo ar.

Roxton baixou a cabeça. Ia beijá-la, percebeu ela. Não deixe!, advertiu uma voz na mente.

Ele não fechou os olhos e apenas roçou os lábios nos seus. Marguerite não podia afastar os olhos dos dele. Respirava com dificuldade e sentia uma tensão intensa entre si e o homem cujo peito prensava seus seios.

Seus lábios ardiam. Uma sensação estranha percorria-lhe o corpo, tocando lugares proibidos que pulsavam, insistentes. Chega! a mente a avisou. Ainda não, contradisse a parte desperta do corpo que queria prolongar a proximidade prazerosa.

Roxton levantou a cabeça.

Marguerite, não conseguindo falar, mexeu-se, apreensiva, sob ele.

"Fique quieta, Marguerite."

"De jeito nenhum!"

Ele teve a audácia de sorrir-lhe. E não se tratava de um gesto irritante e presunçoso que incentivasse seu ressentimento. Ao contrário, era meigo e abalava sua determinação de lutar contra Roxton até o fim de suas forças para preservar a honra.

"Se continuar se mexendo, Marguerite, algo que você preferiria evitar vai acontecer entre nós."

Ela estava certa a respeito do marginal. O desgraçado não passava de um saqueador.

"Prefiro morrer a me entregar a você!"

Num gesto brusco, ele tomou-lhe a boca. Mas dessa vez, o beijo não foi uma carícia meiga e sim, violento e possessivo.

Roxton não demorou muito para terminar o ataque covarde. Quando ele levantou a cabeça, ela sentia-se como se houvesse sido marcada a ferro e fogo pela posse selvagem.

Os olhos que exibiam ternura momentos atrás estavam cheios de mal contida violência.

"Se eu resolvesse possuí-la, sua resistência não me impediria."

Ela pensou em atirar a ameaça de volta, mas ele já havia mostrado que suas objeções à conquista física não significavam nada para ele.

"Por favor..."

Detestava suplicar, mas não tinha a intenção de ser usada por esse malfeitor. Jurava que, quando recobrasse a liberdade, pegaria uma faca para arrancar o coração negro desse bruto. Talvez o machado fosse melhor.

Satisfação estampou-se nas feições dele.

Usaria o machado, resolveu ela.

"Eu não estava forçando-a a se entregar a mim. Dormi a seu lado e não com você. Foi você quem rolou para meu lado, invadindo meu território. E depois, espalhou-se sobre mim" afirmou Roxton, em tom seco.

"Não fiz isso!" - protestou ela, embora desconfiasse ter ouvido a verdade.

Quando eram crianças, ela e a irmã dormiam na mesma cama. Adrienne sempre reclamava que Marguerite ocupava o espaço de ambas.

"Outra coisa" - continuou ele. "Há vários meses não tenho o prazer de estar com uma mulher."

Mortificada, ela corou até a raiz dos cabelos. Tendo descoberto como homens e mulheres se uniam, entendia o que ele queria dizer. Como se atrevia a lhe revelar algo tão íntimo?

"Isso não é de minha conta" - balbuciou, ofendida com a franqueza dele.

Os olhos dele brilharam.

"Enquanto estivermos juntos, esse ponto é, definitivamente, de sua conta."

Marguerite engoliu em seco. Intuía que ele falava sério e, portanto, seria melhor que ela desse atenção às palavras.

"Está bem" murmurou em voz trêmula.

"Está bem o quê?" ele resmungou.

"Não faço idéia" respondeu ela, confusa.

Não compreendia como tudo havia fugido de seu controle, mas culpava Roxton pela situação.

"Neste caso, vou lhe explicar. Mantenha distância e nada de natureza pessoal acontecerá entre nós."

Imediatamente, ela reagiu contra a maneira arrogante de Roxton e a implicação que o episódio era, de certa forma, culpa sua.

"Então, sugiro que continuemos esta discussão em posição vertical. Saia de cima de mim!" - disse ela, tentando empurrá-lo.

"É o que eu deveria fazer" - concordou ele, com expressão excitada.

Mas em vez de levantar-se, ele mexeu-se um pouco, fazendo o membro roçar na juntura das coxas de Marguerite. Como algo podia ser, ao mesmo tempo, tão impróprio e agradável?

Roxton baixou as pálpebras por um instante. Ao levantá-las, exibia uma determinação que a alarmou.

"E então?" indagou ela.

Sua voz fraca a desanimou. Precisava mostrar-se forte para pôr esse patife no lugar dele. E este não era em cima dela!

"Então o quê?"

Novamente e com mais força, Marguerite tentou empurrá-lo. Ele fez uma careta de dor, porém, não lhe inspirou um pingo de simpatia. Homens como Roxton provocavam o próprio infortúnio com o comportamento imoderado.

"Já vou me levantar. Espere só um instante" disse ele, numa voz meio sufocada.

Ela mordeu o lábio. Ao empurrá-lo, havia se esquecido das costelas quebradas.

Firmado nos braços, Roxton soergueu o busto. O movimento aumentou a pressão dos quadris dele nos seus. Apesar da barreira das roupas, a fricção sutil estimulou um tremor latejante e desconhecido em seu âmago. Foi com esforço que ela não o puxou de volta sobre os seios. Embaraçada com tal reação, tentou ignorar a poderosa sensação que a dominava.

Quando Roxton, finalmente, engatinhou para fora, ela continuou deitada por alguns momentos, tentando acalmar os sentidos. Estranho como o simples fato de dois corpos se tocarem podia provocar tal prazer alarmante.

"Vamos, Marguerite, precisamos partir logo."

Ao sair para a luz do sol, ela se esforçou para apagar da mente o que tinha acontecido. Na verdade, não fora nada grave. Naturalmente, nunca tinha sido beijada antes. Isso devia ser o que marcara a experiência em sua mente. Só porque se sentia abalada não queria dizer que se lembraria do fato, do odor almiscarado, do olhar ardente e do roçar dos lábios de Roxton pelo resto da vida.

Depois de alisar o vestido amarrotado, levantou a cabeça e o viu observando-a. Por Deus, ele lembrava um dragão feroz e comedor de homens. As feições machucadas e o olhar faiscante eram responsáveis por essa impressão.

"O que foi agora, John?" - indagou.

De repente, lembrou-se dele descalçando suas botinhas e massageando-lhe os pés. Enrubesceu. Devia estar exausta, para permitir tal intimidade.

"Pare de me olhar como se quisesse me comer. Se tem algo para dizer, diga logo" esbravejou ela.

As palavras aumentaram as faíscas nos olhos dele.

"Moça, você precisa, realmente, de alguém para vigiá-la. Jamais repita a um homem que ele quer comê-la."

Marguerite ficou surpresa. Que coisa mais peculiar para se dizer. Quase voltou a reavaliar o nível de inteligência de Roxton, mas já sabia que ele não era limítrofe na capacidade de raciocinar. Todavia, tratava-se de um homem muito estranho. O melhor seria não irritá-lo.

"Está bem" disse.

A expressão dele tornou-se mais sombria. "Não me pergunte por quê."

"Essa não era minha intenção, pois não encontro motivo para o senhor ter feito tal observação."

Roxton passou a mão pelos cabelos e, sem razão alguma, Marguerite tremeu. Precisava controlar os sentidos desordenados, pensou ela.

"Vamos comer os pêssegos agora de manhã. Depois, atrelarei a junta."

A mudança de assunto fora abrupta, mas bem-vinda.

"Ótimo."

"Seguiremos mais devagar hoje e você poderá andar."

Isso era um alívio. Ela não teria de se submeter ao sacolejar do veículo. "Sobre o que aconteceu..." - começou ele, mas parou, dirigindo o olhar para os cobertores sob o carroção.

"Não se preocupe. Não há necessidade de analisar o episódio. Acredito ter rolado para seu lado. Minha irmã sempre me acusava de fazer isso quando dormíamos juntas. E, levando em consideração seu prolongado jejum de companhia feminina, temos uma justificativa adequada."

"Muito bem explicado."

O leve tom de sarcasmo não passou despercebido a Marguerite. Ficava abismada que seu primeiro beijo na vida houvesse sido dado por esse péssimo exemplo da população masculina. Qualquer um outro teria sido preferível a esse criminoso.

"Não acho justo você me culpar inteiramente pelo beijo" ela se queixou.

"Por que acha que penso assim?"

"Você disse que eu deveria manter distância. Isso dá a impressão de que sou a única culpada. Se você quer ser justo, deve assumir sua parte de responsabilidade no caso e ficar longe de mim" argumentou.

"Você está se esquecendo de uns detalhes. A vida não é justa e a razão para você manter distância é que sou homem e você, mulher."

"Não diga! Não me venha com a velha história de que sou culpada pelo simples fato de ser mulher!"

Carrancudo, Roxton deu um passo em sua direção. Ela, porém, manteve-se firme. Estava cansada de homens como o próprio pai, que sempre acusavam a suposta fraqueza feminina para justificar os problemas entre os sexos.

"Pelo jeito, vou ter de ser franco."

O tom agressivo a inquietou. Ele a fitou com expressão predatória.

"Os homens têm necessidades... a proximidade de uma mulher nos impede de pensar com a cabeça e..."

Calou-se e ela prendeu a respiração.

"Você é bonita e inocente demais para seu próprio bem, Marguerite."

O elogio foi um choque, mas provocou-lhe uma onda de prazer. Quanto à inocência, por Deus! Se Roxton continuasse falando por mais cinco minutos, ela acabaria especialista em necessidades masculinas.

"Um homem agarra o que deseja quando está a seu alcance. Uma mulher é mais controlada. Por isso, sugeri que você mantivesse distância."

Ele tinha mais confiança nas mulheres do que era recomendável, ela refletiu. Lembrava-se do momento em que quase o puxara de volta sobre ela.

"Entendo. Sabe, John, talvez eu possa ajudá-lo."

"O quê?!" - indagou ele, atônito.

"Não fique tão surpreso. Como você disse, sou mulher e, portanto, a pessoa ideal para resolver seu pequeno problema."

"Pequeno?!"

"Veja. Sua dificuldade principal é a falta de companhia feminina."

Roxton levantou a mão e a acariciou no rosto. Ela sentiu um arrepio ao longo da espinha.

"Você é cheia de surpresas, Marguerite."

Outro elogio. Ela viu-se sorrindo para esse homem não tão complexo, afinal. "E muito simples, John. Tudo que temos a fazer é reformá-lo. Mudaremos sua maneira instável de viver e corrigiremos sua deplorável falta de boas maneiras."

Ele baixou a mão como se tivesse sido queimada. "Você faria isso?"

"Sem dúvida. É a solução perfeita" - disse ela, com entusiasmo. "Posso ensiná-lo a ser civilizado. Dessa forma, você será capaz de encontrar uma mulher boa e decente que não o rejeitará. Naturalmente, se casará com ela. Quando o fizer, jamais terá falta do que chama 'conforto feminino'."

Marguerite o fitou à espera de um agradecimento pela oferta generosa.

"Vá para o inferno!"

CONTINUA...

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