Capítulo 4
Kazfiel tentava continuar confinado em seu quarto esperando o tempo passar, mas a sua paciência também tinha limites. Remiel tinha sempre o cuidado de denotar o quanto era importante treinar antes de sair do castelo, e que ele não podia ficar andando sozinho. Tentar fugir sem ser notado se tornou quase uma brincadeira; mas o que ele realmente queria era saber o que estava escondido nos varios aposentos trancados.
Hoje era um daqueles dias. Ele andou sem fazer barulho até a porta, olhou para cada lado do corredor e então desceu as escadas. O objetivo era chegar num dos corredores onde ele sabia que Remiel não costumava passar, senão corria o risco de ser pego a qualquer momento. Quando era hora de algum treino, Remiel sabia onde o encontrar com uma facilidade quase assustadora, mas ele passava a maior parte do tempo em aposentos afastados.
Por falar em treino, eles eram tão básicos que pareciam ser uma enganação. Ele não se sentia mais forte ou habilidoso. Na verdade, apesar dele ter se recuperado do cansaço e dos efeitos recorrentes da mordida, sua mente se sentia estranhamente fraca. Nesse ritmo ele não passaria pela barreira tão cedo.
Ele continou andando silenciosamente, passando pelos corredores que sua memória reconhecia, até que chegou num ponto onde ele não sabia o que tinha à frente. Normalmente era ali que Remiel aparecia e o levava de volta, mas não havia absolutamente ninguém. O caminho era totalmente escuro. Kazfiel se concentrou procurando a energia da vida dentro de si, e quando a tocou, conjurou a magia e deu vida a ela.
"Chama Reveladora!," disse com um sussurro.
O calor flutuante dava mais segurança enquanto andava pelos corredores escuros. Sentindo que não havia tanto perigo de ser pego ali, tentou forçar a maçaneta de cada porta que passava, mas sem sorte. Uma escadaria pequena dava para o andar de baixo, iluminada por tochas. Quando ele se aproximou e começou a descer o lance, uma parede invisível impediu seu progresso.
Kazfiel estava acostumado com esse tipo de barreira. Ela não poderia ter sido conjurada por um vampiro ou cavaleiro como Remiel. Os símbolos arcanos em torno dela piscavam em intervalos contínuos. Ele encostou a mão nela, sentindo a magia fluir para a ponta de seus dedos e a soltou. A barreira translúcida escureceu ate desaparecer por completo. Se Remiel não tinha conjurado isso, devia fazer parte de uma das defesas naturais do castelo.
Aquele definitivamente não era um castelo comum...
O chão do subsolo era rochoso, frustrando os esforços de Kazfiel em tentar manter silêncio. Ele não tinha muito tempo embaixo até que outro treino começasse, mas ele sentia que algo o chamava. Subitamente, um objeto invisível roçou em seu braço e a chama em torno dele se apagou, envolvendo-o na completa escuridão. Tinham armadilhas ali também.
As paredes estavam molhadas e ainda frescas, com um líquido que ele nao conseguia identificar. Ele passou um dedo na parede rochosa e tocou a ponta da língua. Tinha um gosto levemente metálico.
Virando o corredor, seu corpo tremeu involuntariamente com a luvada de vento frio que passou. Ele avançou, tentando sentir a aproximação de outras barreiras e armadilhas. Várias aberturas na parede sem vidro ou grades deixavam o ar passar. O brilho pálido da lua iluminava a passagem estreita, revelando uma porta enferrujada no fim. Como sempre, estava trancada também.
Mas aquela era especial. Kazfiel fixou as duas mãos na porta e forçou o máximo que pode. Uma barreira arcana se materializou na frente dela, pegando-o desprevinido. Ele não recuou e concentrou a magia nas mãos, destruíndo a barreira. No mesmo momento a porta cedeu e abriu por completo.
Um quarto escuro estava na frente dele, também com pequenas aberturas para o ar. Correntes pendiam na parede, quase tocando o chão, pingando sangue. Um corpo pequeno estava preso num canto, fora do alcance da luz. Era um calabouço.
Ele sentia as batidas rápidas do coração enquanto esperava na entrada, imobilizado, tentando encontrar um sinal de vida naquele lugar silencioso e assustador. Um sussurro quebrou aquele silêncio.
" Olá, mestre"
