Chapter 4: Quarto Movimento: Uchiokoshi


Oito Movimentos para o Disparo Perfeito

Uchiokoshi: Levantar o arco.

...

Quarto Movimento –

Uchiokoshi

...

Watanuki dormiu um pouco de manhã, e ficou até as catorze horas preparando o bentou de mais tarde: para ele, para Doumeki, e para Nokoru-kun. Que, aliás, tinha ficado tãão feliz e empolgado com a idéia de Watanuki lhe preparar o bentou, que o garoto fez questão de caprichar.

Foi andando para o ginásio, e passou na loja de Yuuko-san. Era meio triste sem Maru e Moro o recebendo com danças e cantorias e "todo mundo ama o Watanuki", sem Mokona, sem a própria Yuuko.

Não resistiu e limpou um pouquinho a loja, tirando o pó superficial que já começava a cobrir tudo. Encontrou o tubo aonde dormia Mugetsu, a kuda-kitsune. Tirou o pó dele, com cuidado, mas não o abriu, e o deixou lá. Dessa vez, com lobo-de-sombra ou sem lobo-de-sombra, estava decidido se proteger sozinho. E iria conseguir, era uma promessa para si mesmo.

Não era uma questão de machucar os sentimentos de todos que o tinham protegido até hoje. Era apenas uma questão de dar o melhor de si mesmo, por si mesmo. Quase que pela primeira vez.

Iomonoyama Nokoru era jovem, bonito, e amava a vida, e tudo que ela podia trazer. Amava o luxo, a riqueza, e qualquer prazer: boas comidas, músicas dançantes, quimonos ricos, namoros leves, leques caros, dinheiro, dinheiro. Amava as mulheres, de qualquer idade, apenas pelo seu sorriso. Amava kyudou, fervorosamente, apesar de sempre ter tido um temperamento incomum para um praticante.

Era um jovem que tinha olhado a morte nos olhos. Desde então, tinha estado cada vez mais apaixonado pela vida.

Doumeki observava os pequenos detalhes que Watanuki tinha bordado nas mangas de seu quimono de competição. Eram flores quase minúsculas, delicadas: hortênsias¹ . Como aquelas que se tingiram de vermelho sobre o corpo daquela menina... Watanuki não tinha esquecido de nenhuma das coisas pelas quais eles tinham passado – todas elas se juntavam, como aquelas flores, para bordar o tecido de quem os dois eram agora.

Tinha sido difícil, no dia anterior, ver Watanuki e Iomonoyama cochilando juntos naquele banco. Watanuki tranqüilo, sem os óculos, deitado com as costas viradas para a parede. Iomonoyama com a cabeça deitada no banco, os cabelos louros espalhados tocando levemente a faixa da barriga do quimono de Watanuki. Bonito. Eles pareciam tão próximos, que Doumeki se perguntou se realmente não estava com má vontade e ciúme com relação ao garoto louro. Mas no fundo, isso não importava. Iria cuidar e amar Watanuki de qualquer forma, mesmo que, um dia, ele tivesse outra pessoa.

O que não iria acontecer.

Watanuki ia para o ginásio com cuidado, prestando atenção. Há essa hora, Doumeki já estaria lá há tempos, mas era só Watanuki se apressar que pegaria o início das provas dele. Andava rápido, usando o uniforme da escola – andar pra cima e pra baixo de quimono já tinha cansado. O bentou na mão direita, a esquerda levando uma pequena sacola de papel contendo um pedaço de vidro quebrado.

Caminhou por apenas duas quadras, até sentir a presença maligna. Os lobos. Parou, esperando. Estava no meio da rua, mas ninguém que passava realmente prestava atenção nele. Ele também não prestava atenção naquelas pessoas – era como se elas não existissem. Não faziam parte da realidade que Watanuki tecia junto com as pessoas que tinha escolhido.

Os dois lobos se aproximaram, fazendo o garoto gelar até os ossos. O mal. E era assustador como sombras poderiam parecer tão sólidas e densas, ainda mais sob um sol de outono às quatro da tarde. Eles rosnavam baixinho, intimidadores, e seus olhos sem cor definida possuíam um brilho sinistro. Caminhavam em círculos em torno de Watanuki, a presa.

Watanuki pegou a sacola com o pedaço de vidro, e a colocou no chão. Pisou em cima com a sola do sapato, ouvindo o estalo do vidro quebrando. Os lobos estavam mais próximos do que nunca, circundando, e a maldade vinha deles em ondas, ameaçando fazer Watanuki desmaiar novamente. O garoto virou o vidro quebrado da sacola para o chão. Tinha caprichado na escolha da "coisa valiosa" dessa vez. Esperava que isso saciasse aquelas criaturas para sempre.

Os lobos pararam e farejaram, interessados como se aquele vidro fosse carne fresca e fácil, e Watanuki aproveitou o momento para sair correndo – ainda que tropeçando de fraqueza, pela presença de puro mal. Virou o rosto para o lado enquanto, avaliando rapidamente o que se passava, e viu os lobos lambendo os pedaços de vidro do chão, desaparecendo em seguida, como se fossem apenas fumaça. Enquanto desapareciam, pareciam encarar o garoto, a presa, com seus olhos brilhantes.

Watanuki parou de correr, cansado. Voltou a apenas caminhar apressado, pensando.

Watanuki deixou o pedaço de vidro de molho em água e sabão, de um dia para o outro, para tirar dele qualquer vestígio do seu sangue. Talvez o sangue de Watanuki, mesmo que apenas uma gota, fosse valioso demais, e fortalecesse aqueles lobos. Ele não sabia se realmente faria diferença, mas sabia que fortalecê-los não era o objetivo.

Aquele era o vidro com que tinha cortado a própria mão, para criar forças, e salvar a Zashiki Warashi. Tinha ameaçado a Jorou-gumo, a Senhora das Aranhas, com esse mesmo vidro. E tinha sido naquele exato momento que Watanuki mudara. Pouco? muito? era difícil avaliar. Mas para melhor, sabia disso. Por isso guardava aquele vidro quebrado, como um troféu.

Iomonoyama, Watanuki e Doumeki comiam juntos o bentou, sentados num gramado na lateral do ginásio. Watanuki contava o que tinha lhe acontecido mais cedo. Nokoru parecia estar ouvindo uma grande história de heroísmo, cobrindo a boca espantada com o leque nas partes emocionantes. Doumeki parecia algo entre indiferente e preocupado.

– Nossa, você agiu muito bem, Wata-kun! Mas o que era aquele vidro?

Watanuki corou.

– Era... uma lembrança de um momento importante.

– Com sorte os lobos não voltam mais! – Nokoru falou empolgado, e segurou a mão de Watanuki. Que corou ainda mais, e sorriu.

Quando Watanuki chegou ao ginásio, Doumeki olhou-o com uma pequena nota de estranhamento no olhar. Sentiu falta do quimono.

Viu alguma coisa passar pelos olhos de Watanuki, mas não soube dizer o quê. E isso era... diferente. Watanuki estava mudado, desde que caíra da janela da escola – já não ficava sempre óbvio para Doumeki o que ele estava pensando.

E Doumeki gostava disso.

Doumeki permaneceu em silêncio. Viu Iomonoyama se afastar, depois de todos terminarem de comer, dizendo que teria que ir pra casa cedo, hoje. Mas não sem antes agradecer efusivamente pela comida "absolutamente maravilhosa".

Watanuki continuou sorrindo, enquanto guardava algo no bolso, pelo menos até Doumeki falar com ele.

– Ei.

– Imagino que esteja falando comigo... – Watanuki respondeu, exasperado.

– Com quem mais?

– Fala.

– Não ande mais sozinho.

– Por que não?

– Porque você está correndo perigo, Watanuki.

– Eu posso me cuidar sozinho! Não preciso ficar andando com Mugetsu, ou...!

– Não. Comigo.

– Também não! Não precisa me tratar como um bibelô, eu não sei por que você faz isso!

Doumeki segurou o braço de Watanuki, falando perto do seu rosto.

– Porque eu faço questão que você não desapareça.

Ficaram se encarando, tensos. Tudo estava tão diferente do que costumava ser no começo de tudo.

– Por... quê? – Watanuki perguntou, se sentindo muito vulnerável por um momento. Sensação que piorou quando Doumeki respondeu.

– Você realmente ainda não sabe?

Doumeki soltou o braço de Watanuki, vendo que Iomonoyama voltava correndo para onde eles estavam. O garoto louro havia perdido sua carteira, a que Watanuki havia achado e guardado no bolso. Devolveu-a, seu rosto vestindo um sorriso que disfarçava um pouco a confusão que sentia.

Era uma bonita carteira, forrada por fora com seda vermelha bordada com pássaros dourados. Doumeki viu os dois começarem a conversar sobre a carteira, como antigamente era da avó de Iomonoyama, que a seda era antiga, a técnica perfeita, e blá blá blá. Cansou, e saiu andando de volta para o ginásio. Passos largos, e um pouco mais duros que de costume.

Watanuki ficou ligeiramente indignado – que história era aquela de não ficar mais sozinho, e agora o babaca saía andando assim?

– Ahh, deixa eu ir com esse idiota! Desculpe, Nokoru-kun, e... até amanhã?

– Até amanhã!

Watanuki sorriu largamente e acenou, já correndo. Iomonoyama Nokoru acenou de volta. Abriu o sensu ², o leque dobrável, escondendo com ele um largo sorriso.


Continua


¹ Ou 'hidrângeas', em algumas traduções de fãs. 'Hortênsias' é como ficou na tradução oficial da JBC. Que não é lá muito confiável, mas já que eu tive que escolher uma, que seja um nome de flor que minha avó e meu dicionário conheçam... XD

² Sensu é só isso mesmo, o nome japonês para leque dobrável. Descobri isso passeando na Liberdade...

(Atenção! Escritora tagarela com vontade de falar:)

Essa semana saiu um pouquinho mais cedo, na sexta. Mas provavelm,ente semana que vem, só no sábado, ou no domingo... (#boceja#)

Quando eu escrevi esse chap, duas semanas atrás, não gostei muito dele. Agora até gosto... acontecem coisas nele. Essa fic não é lá muito de romance (do que é, então? O.o), então cada momento DouWata é precioso...

Então, eu podia fazer uma enquete, quem confia e quem não confia no Nokoru-kun! XDD Bom, nesse chap tem um pouco mais sobre ele que, pra quem não sabe, é originalmente um personagem do mangá Escola de Detetives CLAMP. No mangá ele é chibi, mas nessa fic aqui ele tem a idade do Wata e do Dou, coisa de 17 anos. Eu nunca vi imagem dele com essa idade... quem achar me avisa. Mas ele aparece em X, no volume 8, com uns 20 e tantos anos, diretor da Escola Clamp. E lindo! (#fangirl eyes#)

Eu queria agradecer por cada review, amo todas! Nem sei como falar, mas eu fico MUITO feliz quando elas chegam! \o/ Mesmo! Mesmo, mesmo, mesmo! E vocês podem se sentir livres pra fazerem pedidos, e sei lá, (quase) qualquer outra coisa!

Ah! Eu acabei de publicar um oneshot fofinho de Touya e Yukito, chamado Cada Primeira Vez. Quem gosta pode ir ler que eu deixo! XD