Aos poucos pude observá-lo lentamente despertar, levando os dedos aos olhos esfregando-os.
-Bom dia, Ruki. - Sorriu e deu-me um pequeno selinho, abraçando-me mais forte.
-Bom dia Reita. - Sorri igualmente e o abracei de volta. É, meu dia havia começado aparentemente bem, pelo menos.
Após alguns minutos levantei-me e fui até a pia lavar meu rosto, em seguida pondo a mesa do café enquanto Reita se levantava e se ajeitava em uma das cadeiras e ficava me observando. Só de pensar no que fizemos na noite anterior já sentia meu corpo se aquecer por dentro.
Fui em direção a outra cadeira porém, em um movimento rápido, Reita colocou um dos pés em cima da mesma.
-Hã... pode me dar licença?
-...- Sorriu malicioso e bateu uma das mãos sobre sua coxa - Não. - arqueei as sobrancelhas- Quer mais conforto que isso?
Ri antes de perceber que não era brincadeira, quando ele agarrou meu braço e puxou-me me fazendo sentar em seu colo, em seguida abraçando minha cintura como se fosse para ter certeza de que eu não levantaria. Teria Reita realmente se apaixonado... por MIM? Bom, nada disso me incomodava então, tudo bem. Alcancei uma faca e um pão para começar a comer, afinal, eu estava precisando repor algumas energias.
-Ruki... - Encostou o lado do rosto em minhas costas.
-Hun? - Falei de boca cheia deixando escapar alguns farelos de pão, abaixando o rosto para impedir que fosse descoberto, provavelmente Reita iria se aproveitar da situação para tirar sarro de minha cara.
-Eu.. to tão feliz. - Abraçou mais forte. - Obrigado por tudo.
-...- fiquei em silêncio por um momento, não sabia bem o que responder, afinal, sinto que agi mais por impulso devido ao medo de perder a amizade de Reita que sempre considerei tão preciosa. Talvez esteja sendo muita falta de consideração com Reita dizer que correspondo... - De nada Reita, sabe que faria qualquer coisa pra ver você bem.
Bom, isso era verdade, afinal éramos amigos. Qualquer amigo quer ver o outro bem, certo?
-Cê tá magro hein, pequeno.
-Hã? - Fitei minha barriga e observei as mãos de Reita a apertando. - Ah, eu acho que eu emagreci.
-Anda se alimentando direito?
-Você anda sabendo mais sobre mim do que eu mesmo, Reita!! - Ri com o comentário, porém Reita não formou nem um pequeno sorriso.
-Isso é sério Ruki, você pode ficar doente.
-Que nada Reita, só ando meio sem tempo para cozinhar. - Percebi sua cara de preocupação estampada em fosforescente no seu rosto, realmente não era hora para brincar.
-Se eu te pegar desmaiando, você vai ver hein, pequeno. - Projetou um pequeno sorriso para quebrar todo aquele clima pesado que já estava se formando no ambiente. Pediu como se fosse uma criança para que eu preparasse um pão para ele. Ele era tão... Ah, não sei como defini-lo.
Não demoramos a terminar de tomar o café, tomamos banho, nos arrumamos e logo saímos, já que estávamos atrasado para o ensaio, o que tem sido costumeiro nas ultimas duas semanas.
-Gostaria que evitassem esses atrasos futuramente, senhores. – Palavras de nosso empresário, que nos pegou no flagra atrasados correndo pelos enormes corredores do prédio em direção á sala do estúdio. Ele era meio ranzinza, não era o tipo de pessoa que era agradável de sentar e conversar, mas era experiente no campo de negócios.
-Tomaremos mais cuidado Koujiro, desculpe-nos. – Era estranho ter que se dirigir tão educadamente a alguém que você via diariamente.
Continuamos nosso caminho pelos corredores do prédio até chegar á pequena porta com o nome da banda marcado na porta. Respirei fundo antes de girar a maçaneta da porta e adentrar o cômodo.
-Imaginei que chegariam juntos. – Olhou Uruha com aquela cara de bobo costumeira. Não acredito que já ia começar a me encher o saco desde cedo!! – Posicionem-se logo em seus lugares que precisamos compensar o ensaio perdido de ontem.
-Para que tanta pressa, Uru-chan?- Disse Aoi do outro lado da pequena sala já se preparando para começar a tocar. – Nunca havia te visto se dedicar tanto a seu trabalho como nesses últimos ensaios.
-É porque sou uma pessoa que evolui muito rápido. – Ipinou o nariz. – Porém nem todos conseguem me acompanhar.
-Claro, claro, Uruha. – Girei os olhos e fiquei de frente para o microfone, iniciando finalmente mais um dia de ensaio.
Dessa vez, aparentemente tudo ocorreu bem, acho que ninguém lá estava mais com algum tipo de problema que impedisse de tocar seu instrumento. O ensaio não poderia estar com desempenho melhor, porém, o próximo Live ainda não estava previsto.
Hora do almoço. Todos guardaram seus instrumentos e os deixaram em um canto da sala, em seguida se retirando da mesma e se dirigindo para o elevador, com destino á pequena lanchonete que tinha no térreo do prédio, ninguém estava com muita fome, portando iríamos apenas fazer um pequeno lanche.
Todos pediram praticamente a mesma coisa, o cardápio de lá não tinha muitas variedades. Não demorou muito até que a garçonete trouxe uma bandeja com cinco hambúrgueres, posicionando-os em frente a cada um que se encontrava na mesa, em seguida se retirando.
-Ah não, tem tomate! – reclamou – Eu odeio tomate...
-Novidade você reclamar de alguma coisa, Aoi. – implicou Uruha, como sempre.
-Eu não reclamei!.. Não exatamente, apenas critiquei a existência do tomate.
-Dá na mesma, não deixa de ser um resmungão! Quero ver o dia que estiver comendo hambúrguer sozinho e encontrar um picles dentro o que será de você.
-Se repetir isso vou fazer você engolir esse tomate pelo nariz.
-Você pensa que mete medo mas pouco sabe que só faz-me rir com suas ameaças xoxas.
Iniciou-se uma pequena guerra de comida entre os guitarristas. Estávamos tão acostumados com esse tipo de reação dos dois que nem paramos de comer para observar o que estava acontecendo. Poderíamos sair tranqüilamente e deixá-los ali se a garçonete não viesse reclamar de tomates, alfaces, pedaços de pão, carne, maioneses e ketchups por todo o chão da lanchonete.
-Tá vendo o que vocês fizeram?? Levamos broncas por causa de vocês!! – afirmou Kai.
-Foi culpa do tomate do Aoi.
-Você nunca vai aprender a assumir suas culpas hein Uruha.
-Só no dia que você crescer.
-Tá querendo comprar briga de novo é, ô, coxinha??
-Só se você tá querendo vender!!
-Calem a boca um pouco, vocês dois! – Gritou Reita, tendo rapidamente a ordem obedecida, fazendo-os se calarem por alguns instantes... mas só por alguns instantes.
-Do que você havia me chamado, Aoi?
-Hã? Coxinha?
-Que tipo de apelido GAY é esse?
-O tipo de apelido que combina perfeitamente com você.
-O que está insinuando?????
-Quem manda ficar se exibindo??
Não adiantava o quanto reclamássemos, eles realmente não paravam NUNCA. Esses dois um dia casam.
Entramos no elevador e retornamos ao estúdio, retornando ao ensaio.
Era até difícil de acreditar que um ensaio correra tão bem. Ao fim deles todos tiraram alguns instantes para bater algumas palmas de alegria, um agradecendo o sucesso dos outros. Era possível perceber o bom humor de Reita estampado em seu rosto, bom, era melhor que melancólico como ele estava ontem, lógico, porém, tive a impressão de ver aquela alegria toda deixá-lo ao se deparar com o anúncio do fim do ensaio.
Deve ter sido impressão.
Apanhei minha mochila e a pus nas costas.
-Veio a pé hoje, Reita? – Sorri.
-Vim, mas não precisa me dar carona, obrigada. – Foi até a porta enquanto eu o olhava confuso, ainda tentando entender se realmente tivera ouvido o que achava que eu tivera ouvido. – Até amanhã, Ruki.
O fato dele me chamar de Ruki também foi estranho.
Tá, não é preciso se preocupar com isso, afinal, Reita era meio de lua mesmo, seu humor nunca foi estável desde que eu o conheci, parecia até que tinha TPM.
Foi só parar pra imaginar o Reita numa estante de supermercado comprando absorvente que soltei uma alta gargalhada sendo observado pelo restante dos integrantes da banda que ainda se encontravam ali na sala, conversando destraidamente até então.
-E aí Ruki, tá indo pra casa? – Veio Uruha saltitante em minha direção sendo seguido pelos outros que, ao contrário do guitarrista, caminharam civilizadamente.
-É, talvez eu passe numa loja de cosméticos antes... que é completamente contrária a sua casa. – Soltei a ultima frase com um ar pesado, já imaginando o motivo da pergunta do loiro. Sempre que ele chegava daquele jeito alegre era porque queria alguma coisa, normalmente era carona para casa.
-Aaaaa! Yuu-chan, olha ele! – Fez cara de bebê chorão e se agarrou em um dos braços do Aoi. – Acho que ele quer que eu fique doente andando nesse frio.
-Nada tema Shiima-chan – fez pose de herói - sabes que estarei sempre pronto a acolhê-lo em qualquer situação. – Segurou seu rosto.
-Controlem-se, vocês ainda estão em área de trabalho... – Dizia Kai com um ar exausto de tanto separá-los e tirá-los de encrenca quando o empresário os pegava no flagra.
-Er... Bom, eu vou indo para cara. – Acenei.
-Matta Ashitaaaa! – Disseram em conjunto não demorando muito a me seguirem.
Desci até a garagem do prédio e fui até frente de meu carro, adentrando-o. Arqueei uma sobrancelha...algo estava faltando!!
Peguei meu celular de dentro do bolso traseiro da minha calça para conferir se não havia nenhuma mensagem... nada. Olhei o banco de trás do carro... vazio. Fitei o banco do passageiro sem a presença de um baixista loiro com uma estranha faixa no nariz, além de estranha, sua ausência ao meu lado era incômoda e desconfortável. Não estava querendo admitir, mas no fundo eu sentia sua falta. Eu realmente gostava muito dele.
Dei um pequeno salto ao perceber uma buzinada de um carro buzinando que saía numa enorme velocidade da garagem, e dentro dele, um casal de loucos dirigindo. Uruha e Aoi, é claro. Balancei a cabeça negativamente soltando pequenas risadas, em seguida ligando o veículo e dirigindo para fora do prédio.
O dia estava ainda nublado, apesar da chuva já ter passado. O clima andava frio, extremamente agradável. Estacionei o carro na loja de cosméticos e entrei para comprar algumas coisas. O estado de meu cabelo estava deplorável e, não estava muito afim de esperar o próximo PV ou photoshoot para dar um jeito nele.
Apanhei demoradamente algumas proteínas e cremes e fui até o caixa pagar. Tive uma pequena impressão de que exagerei um pouco na quantidade de produtos ao ver o preço.
Voltei para o carro, tendo assim então como novo destino, minha casa.
Semáforo fechado. Ótimo. Isso era uma das coisas que mais me irritavam no trânsito, semáforos, e, sem dúvida, as filas!! Enquanto o semáforo permanecia fechado, observei em volta o movimento.
Lanchonetes, lojas de roupas, pessoas andando pelas ruas, prédios... nada demais. Quando fui voltar meu olhar para o semáforo deparei meus olhos com uma figura loira conhecida na calçada. REITA??
E mais. Ele não estava sozinho.
Estava aparentemente com dois homens, não maiores que ele nem mais fortes. Pareciam estar conversando, o que seria?
Minha atenção foi tão completamente roubada pelos três, que nem percebi o barulho da buzina dos carros que se encontravam atrás de mim. E depois de um tempo, esses carros eram o de menos.
Iniciou-se uma pequena briga entre os três que se encontravam no meio da calçada, até que um deles, indelicadamente empurra bruscamente o corpo de Reita, desequilibrando-o e o fazendo despencar com o mesmo para trás.
Nisso, o sinal já estava aberto, e na passagem de um caminhão, Reita caiu no meio da estrada, tendo seu corpo atingido pelo grande veículo.
Paralisei.
Meus olhos se arregalaram por completo antes de começarem a rapidamente lacrimejarem. Chutei a porta do carro e saí desesperado de dentro do mesmo correndo para onde estaria o corpo caído do baixista. Joguei-me ao seu lado e fiquei observando-o de um ângulo acima dele.
Desespero.
-POR FAVOR, PELO AMOR DE DEUS, ALGUÉM CHAME UMA AMBULÂNCIA! AJUDA, AJUDA!!! – Berrava enquanto não conseguia conter enormes lágrimas que escorriam com liberdade por meu rosto. – REITA, REITA!! ACORDA, FALA COMIGO PELO AMOR DE DEUS!!
E nada, ele sequer se movia. Não me atreveria a mexer em seu corpo com medo de atingir alguma fratura. Cheguei perto de seu peito para conferir os batimentos cardíacos. Ainda estavam funcionando.
O desespero de ver Reita ali desacordado no chão não permitiu que o fato de seu coração ainda bater me aliviar. Fui anunciado por um homem que estava com um celular em mãos de que a ambulância já estava a caminho, por sorte havia um hospital por perto.
Em poucos minutos a ambulância havia chego, e com cuidado foram equilibrado o corpo de Reita sobre a maca.
-Tomem cuidado, está doendo, ele se machucou muito!! – Brigava com a pouca delicadeza que os homens o tratavam. Soluçava de tanto chorar. Como isso poderia ter acontecido??
Voltei o olhar para a calçada e percebi que os dois homens haviam desaparecido. É claro, os culpados nunca se entregam de primeira. Empurrei algumas pessoas e supliquei para entrar junto na ambulância e acompanhar Reita, tendo meu pedido atendido.
Nunca imaginei que viveria uma cena dessas... nunca pensei que sentiria tamanha dor...
Nunca pensei que iria ficar tão preocupado com ele...
Nunca pensei que iria me apaixonar tanto por você, e só perceber quando estou a um fio de te perder, Reita.
