Capitulo 2

Seis figuras vestidas de negro, deslizaram-se silenciosamente ao longo de uma estreita e deserta cale no Benghazi, Líbia. Comunicavam-se por sinais com a mão, ou por sussurros nos aparelhos de surdez Motorola que todos usavam sob seus gorros negros. Edward estava em modo de combate; estava totalmente acalmado quando se abriram passo para o edifício de pedra de quatro pisos onde mantinham a Bella Swan no último piso, se é que seu serviço de inteligência estava no correto, e se ela não tinha sido transferida dentro das passadas horas.

A ação sempre o afetava desta forma, como se cada célula de seu corpo o tivesse estabelecido como o propósito real de existência. Tinha sentido saudades disto, sentido saudades ao ponto de que sabia que não seria capaz de permanecer na Armada sem ele. Em uma missão, todos seus sentidos se voltavam mais agudos, inclusive enquanto um centro profundo de calma radiava para fora. Quanto mais intensa era a ação, mais acalmado se voltava, como se o tempo transcorresse em câmara lenta. Nessas vezes ele podia ver e ouvir cada detalhe, analisar e predizer os resultados, logo tomar sua decisão e atuar... tudo dentro de uma fração de segundo que sentia como minutos. A adrenalina fluía por seu corpo —sentia correr o sangue por suas veias — mas sua mente permanecia separada e tranqüila. Haviam-lhe dito que o olhar em seu rosto durante esses momentos era surpreendentemente remota, crispando os nervos de ver a absoluta carência de expressão.

A equipe avançava em um silêncio bem orquestrado. Cada um sabia o que tinha que fazer, e o que os outros fariam. Esse era o propósito da confiança e o trabalho em equipe que lhes tinha inculcado nas vinte e seis semanas infernais que se conhecia formalmente como treinamento BUD/S. O vínculo entre eles lhes permitia fazer mais coisas juntas do que tivessem obtido se cada um trabalhasse por sua conta. O trabalho em equipe não era só uma palavra para os SEAL, era seu centro.

Sam era o homem guia. Edward preferia usar o enxuto e forte sulista para esse trabalho porque este tinha nervos de aço e podia mover-se tão silenciosamente como um lince. Mike, que quase reverberava com sua nervosa energia, vinha na parte de atrás. Ninguém se aproximava sigilosamente do Mike... salvo Sam. Edward estava justo atrás do Sam, com o Paul, Tyler e Jared alinhados entre o Mike e ele. Sam estava silencioso, acalmado, totalmente seguro. Paul estava estranho com esse rifle, e Jared, além de ser um muito bom SEAL, também tinha a habilidade de curá-los e mantê-los em marcha, se é que se podiam curar. Em geral, Edward nunca tinha trabalhado com um melhor grupo de homens.

Sua presença no Benghazi foi pura sorte, e Edward sabia. Boa sorte para eles e, isso esperava, para a senhorita Swan, mas mau para os terroristas que a tinham seqüestrado da rua em Atenas quinze horas antes. Se o Montgomery não tivesse estado justo ao sul de Giz e na posição perfeita para enviar um resgate, se os SEAL não tivessem estado no porta-aviões para praticar inserções especiais assim como o exercício de segurança, então teria havido uma demora de horas preciosas, possivelmente até de um dia, enquanto que se localizava outra equipe e ficavam em posição. Como se deram as coisas, a penetração especial em território hostil que logo tinham levado a cabo, foi uma coisa real em vez de só uma prática.

A senhorita Swan não só era a filha do embaixador, também era uma empregada da embaixada. O embaixador aparentemente era muito estrito e obsessivo com sua filha, tendo perdido a sua esposa e a seu filho em um ataque terrorista em Roma, quinze anos atrás, quando a senhorita Swan tinha apenas dez anos. Depois disso, manteve-a isolada em escolas privadas, e desde que ela terminou o colégio, tinha estado atuando como sua anfitriã assim como desempenhando seu "trabalho" na embaixada.

Edward suspeitava que seu trabalho não era nada mais que uma tela, algo para mantê-la ocupada. Na realidade, nunca tinha trabalhado um dia em sua vida nem estado afastada do amparo de seu pai... até hoje.

Ela e uma amiga tinham deixado a embaixada para fazer algumas compras. Três homens a tinham segurado, metido em um automóvel e afastado com ela. A amiga tinha avisado imediatamente do seqüestro. Apesar dos esforços de assegurar os aeroportos e portos, cinicamente, Edward suspeitava o atraso deliberado das autoridades gregas, um avião privado tinha decolado de Atenas e parado direto em Benghazi.

Graças à oportuna ação da amiga, alertaram-se às fontes encobertas no Benghazi. Verificou-se que uma jovem mulher com a descrição da senhorita Swan foi tirada do avião e levada rapidamente à cidade, no mesmo edifício que Edward e sua equipe estavam por ingressar.

Tinha que ser ela; não havia muitas mulheres ocidentais de cabelos castanho avermelhados no Benghazi. De fato, apostaria a que só havia uma: Bella Swan.

Estavam apostando a vida dela nisso.

Bella jazia em uma escuridão quase total, pesadas cortinas da única janela bloqueavam quase toda a luz que entrava. Podia dizer que era de noite; o nível do ruído das ruas tinha diminuído lentamente, até que agora só havia principalmente silêncio. Os homens que a raptaram se foram finalmente, provavelmente para dormir. Não se preocuparam de que pudesse escapar; estava nua e amarrada firmemente à cama de armar na qual a deixaram. Ataram seus pulsos e colocaram seus braços sobre sua cabeça e a ataram à armação da cama de armar. Também lhe ataram os tornozelos, logo os asseguraram à armação. Apenas se podia mover; doíam-lhe todos os músculos do corpo, mas os de seus ombros ardiam com agonia. Teria gritado, teria rogado por que alguém viesse e lhe soltasse as ataduras que mantinham seus braços sobre sua cabeça, mas sabia que as únicas pessoas que viriam seriam os que a tinham prendido nesta posição, e faria algo, daria tudo para evitar vê-los outra vez.

Tinha frio. Não se tinham incomodado em lhe pôr uma manta sobre seu corpo nu, e longos e convulsivos estremecimentos a mantinham tiritando, embora não podia dizer se estava congelada pelo ar noturno ou pela comoção. Supunha que não importava. O frio era frio.

Tratou de pensar, tratou de ignorar a dor, tratou de não sucumbir à comoção e ao terror. Não sabia onde estava, não sabia se podia escapar, mas se lhe apresentava a mais mínima oportunidade, estaria pronta para tomá-la. Não seria capaz de escapar esta noite; suas ataduras estavam muito apertadas, seus movimentos muito restringidos. Mas amanhã... OH, Deus, amanhã.

O terror lhe oprimiu a garganta, quase a asfixiando. Amanhã retornariam, e viria outro mais com eles, ao único que tinham estado esperando. Um violento estremecimento a atormentou quando pensou em suas arrudas mãos sobre seu corpo nu, os beliscões e bofetadas e as cruas explorações, e lhe revirou o estômago. Teria vomitado se não fora porque não tinha nada que vomitar, já que não se incomodaram sequer em alimentá-la.

Não poderia passar por isso de novo.

De algum modo, tinha que escapar.

Desesperadamente, reprimiu o pânico. Seus pensamentos revoavam como esquilos enlouquecidos enquanto tratava de planejar, pensar em algo, algo, que pudesse fazer para proteger-se. Mas o que podia fazer, deitada aí, como um peru preparado para o jantar de Ação de Graças?

Ardia de humilhação. Não a tinham violado, mas lhe tinham feito outras coisas, coisas para envergonhá-la e aterrorizá-la e romper seu espírito. Amanhã, quando chegasse o líder, estava segura que se acabaria sua pausa. A ameaça de violação, e logo o ato mesmo destroçaria-a e a deixaria maleável em suas mãos, desesperava-se por fazer algo para evitar ser violada de novo. Ao menos isso era o que planejavam, pensou ela. Mas que a condenassem se os deixava proceder com seu plano. Tinha estado em uma névoa de terror e comoção desde que a agarraram e a lançaram ao automóvel, mas, enquanto jazia aí na escuridão, fria e miserável e dolorosamente vulnerável em sua nudez, sentia como se estava levantando a névoa, ou possivelmente, estava desaparecendo. Nenhum dos que conheciam Bella a haveria descrito alguma vez como de temperamento estourado, mas por outro lado, o que sentia crescer nela não era tão volátil como uma simples raiva. Era fúria, tão pura e enérgica como a lava que abria seu caminho das vísceras da terra até explorar para fora e varrer com tudo o que se interpor em seu caminho.

Nada em sua vida a tinha preparado para estas últimas horas. Depois que morreram sua mãe e irmão, tinham-na mimado e protegido como poucos meninos jamais o foram. Havia visto algumas de suas companheiras de escola encolher-se de ombros com a miséria de promessas rotas de seus pais, de estranhas e estressantes visita, de ser ignoradas e se separadas do caminho, mas não lhe aconteceu o mesmo. Seu pai a adorava, e Bella sabia. Interessava-se intensamente em sua segurança, seus amigos e seus deveres escolar. Dizia-se que a chamaria, então a chamaria exatamente quando lhe havia dito que o faria.

Toda a semana lhe enviava um pequeno presente por correio, econômico, mas considerado. Entendia por que se preocupava tanto por sua segurança, por que desejava que fora à escola exclusiva para meninas na Suíça, com sua segurança claustrofóbica, mais que em uma escola pública, com seus guardas alvoroçados. Ela era tudo o que ficava.

Também ele era tudo o que tinha. Quando era uma menina, depois do incidente que tinha dividido em duas à família, se obstinado com medo a seu pai por meses, lhes pisando os pés quando podia, chorando inconsolavelmente quando seu trabalho o afastava dela. Eventualmente, o temor de que ele também desaparecesse de sua vida se atenuou, mas o patrão de super proteção se instalou.

Agora tinha vinte e cinco anos, era uma mulher e apesar de que nos últimos anos seu sentido de amparo tinha começado a lhe incomodar, tinha desfrutado muito do temor constante de sua vida para protestar realmente. Gostava de seu trabalho na embaixada, tanto que estava considerando uma carreira de tempo completo no serviço diplomático. Desfrutava ser a anfitriã de seu pai. Conhecia muito bem os deveres e os protocolos, e cada vez havia mais e mais mulheres embaixatrizes na cena internacional. Era uma comunidade enriquecida e isolada, mas por seu temperamento e linhagem, era idônea para a tarefa. Era calma, inclusive serena, e tinha uma natureza considerada e discreta.

Mas agora, jazendo nua e indefesa em uma cama de armar, com machucados que escureciam sua pálida pele, a fúria que a consumia era tão grande e primitiva que sentia como se alterou algo básico em seu interior, uma mudança de maré de sua natureza mesma. Não suportaria o que eles tinham planejado para ela. Se a assassinavam, assim seria. Estava preparada para a morte; sem importar como, não se submeteria.

Pesadas cortinas se agitaram.

O movimento o captou de relance, e olhou a janela, mas a ação foi automática, sem curiosidade. Já estava tão gelada que inclusive um vento o suficientemente forte para mover essas pesadas cortinas não poderiam congelá-la mais do que estava.

O vento era negro e tinha forma.

Conteve a respiração em seu peito.

Sem dizer nada, observou a grande forma negra, tão silenciosa como uma sombra, que se deslizava pela janela. Não podia ser humano; as pessoas faziam ruído quando se moviam. Certamente, no silêncio total da habitação, teria podido escutar o sussurro das cortinas quando se moveu o tecido, ou o fraco e rítmico sussurro da respiração. Um sapato roçando no piso, um sussurro de roupa, algo... Se é que fosse humano. Depois que a forma negra passou entre elas, as cortinas não caíram no perfeito alinhamento que bloqueava a luz; havia uma pequena abertura nelas, uma fenda que permitia um raio de lua, a luz das estrelas, a luz da rua —o que fora— para aliviar a densa escuridão. Bella se esforçou para enfocar a escura forma, ardiam-lhe os olhos enquanto a observava mover-se silenciosamente pelo piso. Não gritou; quem quer que fosse que se estivesse aproximando dela, não poderia ser pior que os únicos homens que provavelmente vinham a resgatá-la.

Possivelmente ainda estava realmente adormecida e isto fora só um sonho. Certamente, não parecia real. Mas nada nas largas e horríveis horas desde que a seqüestraram se havia sentido real, e tinha muito frio para estar adormecida. Não, isto era real, bem real.

Sem fazer ruído, a forma negra se deslizou para deter-se um lado da cama de armar. Dominava-a, era alta e poderosa, e parecia estar examinando o festim nu que ela apresentava.

Logo se moveu uma vez mais, levantado sua mão a sua cabeça, e se desprendeu de sua cara, levantando a escura pele como se não fora mais que a casca de uma banana.

Era uma máscara. Tão exausta como estava, passou um momento antes que pudesse encontrar a explicação lógica para a imagem de pesadelo. Piscou para ele. Um homem que usava uma máscara. Nem um animal, nem um fantasma, a não ser um homem de carne e osso. Podia ver o brilho de seus olhos, embora havia um estranho vulto nele que não afetava não a surpreendente e silenciosa graça de seus movimentos. Só era outro homem.

Não sentiu pânico. Estava mais à frente do medo, além de tudo, exceto da fúria. Simplesmente esperou... esperou para brigar, esperou para morrer. Seus dentes eram a única arma que tinha, assim que os usaria, se é que podia. Arrancaria-lhe a carne de seu atacante, trataria de feri-lo tanto como fora possível antes de morrer. Se era afortunada, poderia apanhar sua garganta com seus dentes e ao menos se levaria a um destes bastardos com ela à morte.

Ele se estava tomando seu tempo, olhando-a fixamente. Ela apertou os punhos de suas mãos atadas. Maldito seja. Malditos sejam todos.

Logo, ele se agachou ao lado da cama de armar e se inclinou para frente, sua cabeça muito próxima à sua. Sobressaltada, Bella se perguntou se tinha a intenção de beijá-la —isso era insuportável — e se preparou, pronta para arremeter para cima quando se aproximasse o suficiente para ter uma boa oportunidade com sua garganta.

— Cullen, Armada dos Estado Unidos —disse ele em um sussurro neutro que logo que alcançou a seu ouvido, separado a só umas quantas polegadas.

Tinha-lhe falado em inglês, com um acento definitivamente americano. Ela se moveu bruscamente, tão atônita que passou um momento antes de que as palavras tivessem sentido. Armada. Armada dos Estados Unidos. Tinha estado em silencio por horas, recusando-se a lhe falar com seus raptores ou responder de qualquer modo, mas agora um pequeno e indefeso som saiu de sua garganta.

— Shh, não faça nenhum ruído —lhe advertiu ele, ainda nesse sussurro neutro. Enquanto falava, estendeu a mão sobre sua cabeça e repentinamente a tensão em seus braços se relaxou.

Rapidamente sufocou o som, mantendo-o dentro ao apertar os dentes para suportar a dor.

— Sinto muito —sussurrou ela, quando foi capaz de falar.

Não tinha visto a faca em sua mão, mas sentiu a frieza da folha contra sua pele quando introduziu habilmente a faca sob as cordas e o deslizou para cima, e sentiu o ligeiro puxão que liberou suas mãos. Tratou de mover seus braços e descobriu que não podia; permaneceram estendidos sobre sua cabeça, sem responder a suas ordens.

Ele soube sem que o dissesse. Guardou a faca em sua vagem e colocou suas mãos enluvadas sobre seus ombros, massageando-os por um momento antes de lhe segurar os antebraços e lhe baixar gentilmente os braços. O fogo ardia em suas articulações, sentia como se seus braços estivessem sendo rasgados de seus ombros, apesar de que os baixou cuidadosamente, mantendo-os alinhados com seu corpo para diminuir a dor. Bella apertou de novo os dentes, recusando-se a deixar que outro som passasse a barreira. Um suor frio lhe caía pela testa, e a nauseia lhe queimou a garganta uma vez mais, mas resistiu a onda de dor em silêncio.

Ele apertou seus polegares nos nós de seus ombros, massageando os machucados e inchados ligamentos e tendões, intensificando sua agonia. Seu corpo nu se arqueou de dor, elevando da cama de armar. Segurou-a, pressionando sem piedade suas articulações e músculos traumatizados pelo processo de recuperação. Estava tão fria que o calor que emanava de suas mãos, da proximidade de seu corpo quando se inclinou sobre ela, sentia-se muito quente sobre sua pele nua. A dor a fez derrubar-se em grandes estremecimentos, nublando sua vista e pensamentos, e através da névoa, deu-se conta que agora, quando definitivamente precisava permanecer consciente, finalmente ia cair sem sentido.

Não podia desmaiar, recusava-se a fazê-lo. A pura força de vontade resistiu, e só em uns poucos momentos, momentos que sentiu muito compridos, a dor começou a retroceder. Ele continuava com a forte massagem, levando a da agonia ao alívio. Ela ficou débil e relaxada na cama de armar enquanto respirava pela boca em baforadas largas e profundas como os que vão correr uma carreira.

— Boa garota —sussurrou ele quando a liberou.

A breve frase foi como um bálsamo para suas rasgadas emoções. Ele se endireitou e tirou a faca de novo, logo se inclinou aos pés da cama de armar. Outra vez sentiu a frieza da folha, esta vez contra seus tornozelos, e outro pequeno puxão, logo seus pés estavam livres, e involuntariamente se enrolou em uma bola protetora, seu corpo se movia sem direção de seu cérebro em um esforço tardio e inútil de modéstia e auto-proteção. Suas coxas estavam fortemente apertadas, seus braços cruzados sobre seus seios, e enterrou sua cara contra o fedorento colchão. Não podia olhá-lo, não podia. As lágrimas ardiam em seus olhos e sentia um nó na garganta.

— Machucaram-na? —perguntou ele, o sussurro espectral lhe raspou seu corpo nu como se realmente a tocasse. — Pode caminhar?

Agora não havia tempo para deixar que seus nervos sucumbissem. Ainda tinham que sair sem serem detectados, e um ataque de histeria arruinaria tudo. Tragou duas vezes, lutando por controlar suas emoções com a mesma força de vontade que brigou para controlar a dor. Caíam-lhe as lágrimas, mas obrigou a endireitar-se desse novelo protetor, movendo as pernas a borda da cama de armar. Sentou-se em forma instável e se forçou a olhá-lo. Não tinha feito nada do que pudesse envergonhar-se; ela superaria isto.

— Estou bem —respondeu ela, e foi agradável que o sussurro obrigatório disfarçasse a debilidade de sua voz.

Ele se abaixou frente a ela e silenciosamente começou a retirar o dispositivo que sustentava e assegurava toda sua equipe. A habitação estava muito escura para que ela distinguisse no que consistia cada artigo, mas reconheceu a forma de uma arma automática quando a colocou no piso entre eles.

Observava-o, sem expressão, até que começou a tirar a camisa. Um terror doentio a esbofeteou, golpeando-a como um martelo. Meu Deus, certamente ele não ia...

Gentilmente ele lhe pôs a camisa, colocando seus braços nas mangas como se fosse uma menina, logo fechou cada botão, tomando cuidado de manter o tecido longe de seu corpo para não roçar seus seios com seus dedos. A roupa ainda guardava seu calor corporal; envolvendo-a como uma manta, esquentando-a e cobrindo-a. A repentina sensação de segurança a desconcertou quase tanto como estar nua. Seu coração pulsava com força em seu peito, e o fundo se retirou de seu estômago. Timidamente, estendeu uma mão para fora em uma desculpa, e uma súplica. As lágrimas lhe caíam lentamente de sua cara, deixando rastros salgados em sua esteira. Tinha sido o objeto de muita brutalidade masculina no último dia que sua gentileza quase destruiu seu controle, onde os golpes e crueldade só a tinham feito mais determinada a resisti-los.

Esperava o mesmo dele, e em seu lugar tinha recebido um tenro cuidado que a destroçou por sua simplicidade.

Passou um segundo, dois: logo, com grande cuidado, ele pôs seus dedos enluvados sobre sua mão.

Sua mão era muito maior que a dela. Bella sentiu que o tamanho e o calor se tragariam seus dedos frios e sentiu o controle de um homem que conhecia exatamente sua própria força. Apertou-a gentilmente e logo a soltou.

Ela o olhou fixamente, tratando de penetrar no véu da escuridão e ver seus traços, mas seu rosto era apenas distinguível e ainda mais impreciso por suas lágrimas. Podia distinguir alguns detalhes, e discernir seus movimentos. Ele vestia uma camiseta, e tão silenciosamente como tinha tirado a correia, a pôs de novo. arregaçou-se um dos punhos de sua camiseta e captou o tênue brilho de um luminoso relógio.

— Temos exatamente dois minutos e meio para sair daqui —murmurou ele. — Faça o que te disser, quando lhe disser.

Antes, ela não poderia havê-lo feito, mas esse breve momento de compreensão, de conexão, tinha-a animado. Bella assentiu com a cabeça e ficou de pé. Dobraram-lhe os joelhos. Endireitou-as e se afastou o cabelo do rosto.

— Estou preparada.

Tinha dado exatamente dois passos quando, debaixo deles, um estalo intermitente de disparos rompeu a noite.

Ele girou instantânea e se afastou silenciosamente, deslizando-se tão rápido que ela piscou, incapaz de segui-lo. A porta se abriu detrás dela. Um raio de luz penetrante a cegou, e uma sombra disforme se aproximou da porta. O guarda... é obvio que havia um guarda. Logo, uma imagem imprecisa se moveu, escutou-se um grunhido, e o guarda caiu nos braços dele. Tão silenciosamente como seu salvador parecia fazer todas as coisas, arrastou ao guarda para o interior e o pôs no piso. Seu salvador caminhou sobre o corpo, agarrou-a fortemente na mão e a arrastou fora da habitação.

O corredor era estreito, sujo e abarrotado. A luz que tinha parecido tão brilhante provinha de uma só ampulheta. Escutaram-se mais disparos na planta baixa e na rua. Da esquerda chegou o som de fortes pisadas. À direita havia uma porta fechada, e diante da porta ela pôde ver o primeiro degrau de uma escura escada.

Ele fechou a porta da habitação que logo tinham abandonado e a levantou do chão, carregando-a sob seu braço esquerdo como se ela não fora mais que um saco de farinha. Bella se agarrou a sua perna quando ele caminhou rapidamente para a seguinte habitação e se deslizou na protetora escuridão. Logo que tinha fechado a porta quando uma inundação de disparos e maldições no corredor fizeram que ela enterrasse seu rosto contra o material negro da perna de sua calça.

Ele a endireitou e a pôs de pé, empurrando-a detrás dele, enquanto desprendia a arma de seu ombro. Permaneceram na porta, imóveis, escutando a comoção do outro lado da porta. Pôde distinguir três vozes distintas e as reconheceu todas.

Escutaram-se mais gritos e maldições, no idioma que tinha ouvido durante todo o comprido dia, mas que não pôde entender. As maldições se voltaram ferozes quando descobriram o corpo do guarda e sua ausência. Sentiu-se um ruído surdo contra a parede quando um de seus seqüestradores deu rédea solta a seu mau humor.

— Este é Um. Ir ao B.

Esse sussurro neutro a assustou. Confusa, olhou-o fixamente, tratando de dar sentido às palavras. Estava tão cansada que lhe levou um momento dar-se conta que ele estava enviando uma mensagem em chave por rádio. É obvio, ele não estava sozinho; deveria haver toda uma equipe de resgate. Tudo o que tinham que fazer era abandonar o edifício, e haveria um helicóptero esperando-os em algum lado, ou um caminhão, ou um navio. Não lhe importava se tinham infiltrado em bicicletas; ela com muito gosto sairia caminhando, com os pés nus, se fosse necessário.

Mas primeiro tinham que sair do edifício. Obviamente, o plano tinha sido tirá-la pela janela sem que seus seqüestradores tivessem conhecimento até a manhã, mas algo saiu mal, e outros tinham que estar em apuros. Agora estavam apanhados nesta habitação, sem forma de reunir-se com o resto de sua equipe.

Seu corpo começou a rebelar-se contra a tensão que tinha suportado por muitas horas, o terror e a dor, a fome, o esforço. Com uma classe de interesse distante, sentiu que cada músculo começava a tremer, os estremecimentos subiam desde suas pernas, seu torso, até que estava tremendo incontrolavelmente.

Desejava inclinar-se contra ele, mas tinha medo de entorpecer seus movimentos. Sua vida e a dele dependiam completamente de sua habilidade. Não podia ajudá-lo, mas ao menos podia permanecer longe de seu caminho. Mas necessitava desesperadamente de apoio, assim procurou provas e deu uns passos para chegar à parede. Cuidou-se de não fazer nenhum ruído, mas ele sentiu seu movimento e deu meia volta, estendendo sua mão esquerda por detrás e apanhando-a. Sem falar, ele a empurrou contra suas costas, mantendo-a dentro de seu alcance se por acaso tinham que trocar depressa de localização.

Sua proximidade foi estranha e fundamentalmente tranqüilizadora. Seus raptores a tinham enchido com tanto terror e desagrado que todos seus instintos femininos se indignaram, e depois a deixaram finalmente só no frio e na escuridão. Ela se perguntou com uma classe de dor se poderia voltar a confiar alguma vez em um homem. A resposta, ao menos com este homem, era sim.

Inclinou-se agradecida contra suas costas, tão cansada e débil que, por um momento, tinha descansado sua cabeça nele. O calor de seu corpo penetrava o tecido áspero de sua roupa, lhe esquentando a bochecha. Inclusive cheirava a calor, notou através da bruma; seu aroma era uma mescla de suor limpo e fresco e a masculinidade almiscarada, o esforço e a tensão a esquentavam a um aroma tão pesado como o do whisky mais fino. Cullen. Disse que seu nome era Cullen, o sussurrou quando se agachou para identificar-se.

OH, Deus, ele era tão quente, e ela ainda sentia frio. O piso de pedra arenosa sob seus pés nus parecia enviar ondas de ar frio a suas pernas. Sua camisa era tão grande que a fazia parecer diminuta, lhe chegando quase aos joelhos, mas seguia nua sob ela. Todo seu corpo estava tremendo.

Permaneceram imóveis na silenciosa escuridão da habitação vazia por uma eternidade, escutando os disparos que foram diminuindo à distância, escutando os gritos e maldições quando também diminuíram, escutaram por tanto tempo que Bella caiu em um ligeiro torpor, inclinada contra ele com a cabeça descansando em suas costas. Ele parecia uma rocha, imóvel, sua paciência estava além de algo que tinha imaginado alguma vez. Não houve pequenos e nervosos ajustes de posição, nem sinais que seus músculos estavam cansados. O lento e parecido ritmo de sua respiração era o único movimento que podia distinguir, e apoiada contra ele como o estava, a sensação era como uma balsa na piscina, que subia e baixava brandamente...

Despertou quando ele estendeu para trás sua mão e a sacudiu ligeiramente.

— Pensam que nós escapamos —sussurrou ele. — Não se mova nem faça nenhum ruído enquanto verifico as coisas.

Obedientemente, ela se endireitou e se afastou dele, embora quase chorou ao perder o calor de seu corpo. Ele acendeu uma lanterna que emitia só um magro raio de luz; tinha colocado cinta negra através da maior parte da lente. Moveu a luz pela habitação, revelando que estava vazia, exceto pelas velhas caixas empilhadas ao longo de uma parede. Havia teias de aranha em todas as esquinas, e o piso estava sujo por uma grossa capa de pó. Ela pôde distinguir uma só janela na parede mais longínqua, mas ele tomou cuidado de não aproximar o fino raio de luz que pudesse trair sua presença. A habitação parecia que não tinha sido usada em muito tempo.

Ele se inclinou e aproximou a boca a sua orelha. Seu morno fôlego se moveu através de sua carne com cada palavra.

— Temos que escapar deste edifício. Meus homens atuaram para que pareça que escapamos, mas provavelmente não seremos capazes de fazer contato com eles até amanhã na noite. Necessitamos de um lugar seguro para esperar. O que sabe sobre a distribuição interior?

Ela negou com a cabeça e seguiu seu exemplo, ficando nas pontas dos pés para pôr seus lábios em sua orelha.

— Nada —sussurrou ela. — Tinha os olhos enfaixados quando me trouxeram para cá.

Ele assentiu com um breve movimento da cabeça, endireitou-se e se afastou dela. Uma vez mais, Bella se sentiu privada, abandonada, sem sua proximidade física. Sabia que só era uma debilidade temporária, esta urgência de agarrar-se a ele e à segurança que representava, mas o necessitava agora com uma urgência quase dolorosa por sua intensidade. Desejava mais que nada pressionar-se contra ele de novo, sentir o calor animal que lhe dizia que não estava sozinha; desejava estar em contato com a força de aço que ficava entre ela e quão bastardos a raptaram.

Temporariamente ou não, Bella odiava esta necessidade de sua parte; recordava-lhe muito à forma em que se obstinado a seu pai quando morreram sua mãe e irmão. Quando isso passou, ela só era uma menina e o laço que se desenvolveu entre ela e seu pai tinha sido, em sua maioria, boa. Mas tinha visto quão sufocante podia ser, e tranqüilamente, tanto como pôde, começou a aumentar a distância entre eles. Agora isto tinha acontecido, e seu primeiro instinto foi agarrar-se. Ia se transformar em uma trepadeira cada vez que houvesse um trauma em sua vida? Não desejava ser isso, não desejava ser uma adoentada. Este pesadelo tinha demonstrado tão energicamente que toda a segurança, sem importar quão sólida parecesse, tinha seus pontos débeis. Em vez de depender de outros, o melhor que podia fazer era desenvolver suas próprias forças, forças que sabia que tinha aí, mas que tinham estado dormidas pela maior parte de sua vida, de agora em diante, entretanto, as coisas mudariam.

Possivelmente já tinham mudado. A fúria incandescente que tinha saído dela quando jazia nua nessa cama de armar, ainda a queimava por dentro, um pequeno e candente núcleo que nem sequer a fadiga mental pôde extinguir, devido a isso, recusou-se se render à debilidade, recusou-se a fazer algo que pudesse entorpecer ao Cullen de qualquer forma. Em vez disso, preparou-se, forçando a seus joelhos a estarem firmes e se quadrou de ombros.

— O que é o que vamos fazer? —sussurrou ela. — No que posso ajudar?

Devido a que a sombria janela não tinha cortinas pesadas, ela pôde ver parte de seus traços quando a olhou. A metade de seu rosto estava em sombras, mas a escassa luz iluminou a inclinação de um maçã do rosto, revelou um corte de sua mandíbula, e uma boca que estava tão claramente definida como a de uma antiga estátua grega.

— Terei que te deixar por um momento —disse ele. — Estará bem?

O pânico explorou em seu estômago e em seu peito. Logo que sufocou o grito de protesto que os teria delatado. Apertando os dentes e optando por não falar, já que lhe poderia escapar o grito se o fazia, ela assentiu com a cabeça.

Ele vacilou, e Bella pôde sentir sua atenção concentrada nela, como se ele sentisse sua angústia e tratasse de decidir se era seguro ou não abandoná-la. Depois de uns momentos, assentiu bruscamente com a cabeça, em reconhecimento a sua determinação, ou ao menos lhe dando o benefício da dúvida.

— Voltarei em meia hora —disse ele. — Eu prometo.

Tirou algo de sua mochila, revelando uma manta. Bella ainda estava de pé quando ele a envolveu bem apertada nela. A manta imediatamente começou a refletir o exíguo calor de seu corpo. Quando ele se afastou, as pontas caíram abertas, e Bella os apanhou desesperadamente em um esforço de reter esse frágil calor. Ao mesmo tempo que se enrolava na manta, ele já tinha ido, abrindo a porta o mínimo possível e deslizando-se tão silenciosamente como tinha entrado pela janela da sala onde tinha estado. Logo, a porta se fechou, e uma vez mais estava sozinha na escuridão.

Seus nervos gritaram em protesto, mas ela os ignorou. Em seu lugar, concentrou-se em estar o mais quieta que pôde, escutando qualquer ruído no edifício que lhe pudesse dizer o que estava se passando, ouviam-se alguns ruídos da rua, resultado do tiroteio que tinha alarmado às pessoas mais próxima, mas esses também estavam diminuindo. As grossas paredes de pedra afogavam qualquer som, de todos os modos. Do interior do edifício, só havia silêncio. Seus raptores teriam abandonado o lugar depois de seu suposto escapamento? Estavam perseguindo a equipe de Cullen, pensando que ela estava com eles?

Balançou-se sobre seus pés, e só depois de fazê-lo, deu-se conta que podia sentar-se no piso e envolver-se com a manta, conservando ainda mais o calor. Seus pés e pernas estavam quase intumescidas pelo frio. Com cuidado, acomodou-se no piso, aterrorizada de que pudesse em forma inadvertida fazer algum ruído. O que seja de que parecesse o tecido, a manta bloqueava o frio do piso de pedra. Levantando as pernas, Bella abraçou seus joelhos e apoiou a cabeça nelas. Estava mais cômoda agora do que tinha estado nas intermináveis horas de terror e, indevidamente, suas pálpebras começaram a cair. Sentada só na escura, suja e fria sala, ela dormiu.