4 - Porque telefones celulares na hora errada podiam ser muito inconvenientes.
…
Nelson está sorrindo há aproximadamente dez minutos, e suas bochechas começam a doer. Estar segurando seu tablet novamente, vendo as coisas de sua família é algo tão surreal que parece mágica. Os momentos que ele revê parecem vividos em outra vida.
Ver seus pais naquele vídeo felizes e cantando lhe traz de volta as antigas memórias de quando ele era uma criança, antes de se tornar hacker e envergonhá-los indo para a prisão. Parece um tempo incrivelmente distante, e ele se pergunta em que momento as coisas haviam dado errado. Em que momento ele havia decidido ignorar tudo o que seus pais lhe ensinaram e tornar-se um criminoso.
Talvez a palavra fosse forte demais - não era como se ele fosse um assassino ou um ladrão de bancos - mas ainda assim ele os havia decepcionado.
Aquelas memórias estiveram de certa forma congeladas durante o caos que ele viveu entre a prisão, o julgamento e sua adaptação na Cyber Division, e tê-las de volta faz seu coração se apertar. Ele se pergunta como estão seus pais, se sentem falta dele ou se ainda estão zangados demais para isso. Ele se pergunta também se um dia poderá ter uma relação normal com eles, se poderá reconstruir ainda que apenas uma parcela da confiança que fora quebrada. Ele não se lembrava do quanto sentia falta deles, e não pode evitar cantar loucamente enquanto assiste.
O que ele não esperava era Avery surgir na porta do laboratório e começar a cantar também.
A princípio, ele não acredita no que seus olhos veem. Ela está sorrindo tão lindamente que dói.
- Não, você não cantou. - ele diz, incrédulo.
- Sim, eu cantei.
Ele se sente um pouco idiota e só consegue dar uma pequena risada. Ela ela se aproxima, e ele sente que coração está prestes a saltar pela garganta.
- Você sabe... É a música favorita de minha mãe. Eu e meu pai cantávamos para ela todos os anos em seu aniversário.
- Ligue para seus pais, Brody Nelson.
- Eu não posso. Não é mais a mesma coisa. Eu os envergonhei quando fui para a cadeia. Eu já não era o filho que eles criaram.
- Ligue para eles mesmo assim. - ela insiste, como se as complicações que ele acabara de citar não existissem.
- Por que eu tenho a sensação de que devolver minhas coisas é parte de seu plano diretor que Elijah está sempre falando?
- Eu não sei... - ela faz uma cara inocente como uma menina de 4 anos.
Um pequeno instante de silêncio recai sobre eles, e o ar ao redor fica mais denso. Ele dá mais um passo à frente, ela não recua.
Ela o correspondia, ele sabia disso. Depois do que acontecera no escritório enquanto procuravam aquele relatório, ele passou a observá-la com um olhar clínico e cada detalhe de seu comportamento confirmava que a despeito do que ele pensava ser impossível, Avery sentia algo por ele. Algo maravilhoso demais para ser real, mas era.
Ele tinha a total consciência das complicações que isso envolvia, mas estava disposto a lutar com cada uma delas, disposto a convencê-la de que não era impossível. Beijá-la agora seria o primeiro passo.
Mas ele não faz isso, porque um som alto e estridente quebra o momento, levando embora toda a sua coragem. O celular de Avery. Ele nunca havia odiado tanto um toque de celular em sua vida.
Imediatamente, ela o pega no bolso de seu casaco, parecendo acordar de um transe. Suas mãos estão tremendo.
- Olá? DB? A que devo a honra? Como vão as coisas em Las Vegas?
Ela está sorrindo enquanto ouve a resposta, e Nelson se pergunta quem é DB. Pela expressão no rosto Avery é alguém querido, e por um momento ele imagina se seria um possível interesse amoroso. O ciúme o corrói por dentro e deixa um gosto amargo em sua boca.
Ela dá um pequeno aceno em despedida e deixa a sala, falando animadamente com DB enquanto caminha. Tudo o que Nelson pode pensar é que verdadeiramente queria tê-la beijado.
Com um suspiro, ele pega o telefone para ligar para seus pais.
