Capítulo Quatro: Tentando Encontrar um Lugar
Bruce adentrou no quarto de Diana. Não se importava com o fato de que a morena já havia partido. Decidiu que aquele era, sempre seria o quarto de Diana.
Aproximou-se da janela. Tinha uma vista fantástica do jardim. Das árvores, das flores, da grama bem cuidada, até mesmo das borboletas que passeavam e das abelhas que polinizavam as tulipas plantadas e cuidadas à perfeição. O jardim que Diana adorava e que, sem Diana, parecia tão patético, estúpido e inútil. Afinal, qual era a utilidade de um jardim?
O sol começava a se pôr, invadindo o quarto com raios de luz em cor amarelada.
Deslizou os olhos ao redor do cômodo. Estava tudo tão silencioso e sem vida.
Até a vinda de Diana, nunca percebera como sua casa era fria e triste. Nunca pensara nela como um lar, para falar a verdade. Era apenas o lugar que usava como esconderijo da sua identidade secreta. O lugar que usava para eventualmente ter algum descanso. Nunca o lugar para onde iaquando queria se esconder do mundo, curar suas feridas, relaxar. Até a tarde em que assistiu seu filme preferido com Diana, já nem sabia ao certo como era relaxar.
Sua rotina era imutável e, por isso, segura. Trabalhar como Batman durante a noite, fingir ser um playboy insuportável durante o dia. Desmistificar qualquer traço, qualquer desconfiança de que houvesse uma ligação entre o super-herói e o milionário. Viver apenas... para viver.
Mas Diana enchera a casa de vida.
Tornara-o diferente. Mudara tudo. Era difícil passar o dia inteiro no subterrâneo sabendo que ela estaria ali, na piscina, na varanda, na sala de estar, a apenas alguns metros de distância, divertindo-se, rindo, sendo a amazona fantástica, maravilhosa, deliciosa que era. "Resistir à tentação" quase se tornara seu mantra.
A princípio, resistiu à tentação porque representava perigo. Envolver-se com Diana, por mais que quisesse, seria uma péssima ideia. Eram colegas de equipe, era perigoso demais, ela era imortal... Havia tantos empecilhos! Mas, bem, por mais que gostasse de pensar que sim, não era de ferro. Era impossível resistir ao sorriso, aos lábios macios, ao corpo curvilíneo, ao som da sua risada. Gostava de cada detalhe da sua fisionomia. Apreciava sua personalidade, até seus pequenos segredos.
Depois de tantos anos, sentia que sabia tudo sobre Diana. Sabia todos os seus gostos, conhecia todos os seus sorrisos, podia até mesmo ler sua expressão corporal com a maestria de um profissional.
Mesmo assim, ela estava certa. Havia sido covarde. Tivera medo de ceder, não apenas pelo que significaria para eles, como membros da Liga, mas para ele, como mortal, como homem. Ter a Mulher Maravilha aos seus pés era uma bênção e uma maldição. Não importasse quanto tempo se passasse, deixar-se envolver era, sempre seria um erro.
E agora a havia perdido.
"O jantar está pronto, senhor." Alfred apareceu na porta, estoico e impassível como sempre, não deixando expressar em seu rosto toda a decepção que sentia pelo fato de ele ter mandado Diana embora. O mordomo a adorava.
Bruce anuiu, sem se mover.
"Eu já vou." Afirmou, querendo mais um pouco de privacidade.
Na maioria das vezes, nunca se sentava à mesa da sala de jantar para fazer as refeições. Costumava beliscar algo na cozinha ou fazer um lanche em frente aos computadores de monitoração do subterrâneo. Se antes não sentia vontade de fazê-lo porque simplesmente não tinha vontade, agora não queria. Porque o cômodo parecia muito vazio e sem graça.
Diana havia estragado sua casa.
Deixou o quarto cerca de cinco minutos depois, fechando suavemente a porta atrás de si.
Alfred não trocara os lençóis, que ainda traziam o mesmo aroma floral e delicioso de Diana. Bruce não estava certo se o mordomo fizera isso para puni-lo, lembrá-lo do que havia perdido, ou apenas porque estava sendo positivo, acreditando que a morena em breve retornaria. Nesse caso, preferia não saber a resposta. Mas ele sabia qual era.
Lanterna Verde nunca tocou no assunto.
Quando Bruce atendera à sua chamada de vídeo, estava perturbado pela proximidade do corpo feminino e macio, pelos beijos e pelos dedos macios de Diana e por um momento se esquecera de que ele e Diana, Diana e ele, era um erro. Porque não parecia um erro.
John foi educado o bastante, porém, para jamais comentar sobre seu pequeno lapso, sobre sua malditamente deliciosa seção de beijos na beira da piscina.
O que não queria dizer que não o recriminasse silenciosamente.
Quando voltou para a Torre pela primeira vez após a partida de Diana, pois já estava longe há tempo demais, mesmo para seus próprios padrões, nenhum dos membros fundadores evidenciou saber qualquer coisa sobre seu envolvimento romântico. Mas bastou uma pequena brecha para que demonstrassem que, mesmo não sabendo, desconfiavam a respeito.
"Então, morcegão." Começou Flash, as pernas esticadas e cruzadas sobre o painel de controle, enquanto Batman se inteirava dos acontecimentos dos últimos dias. "O que exatamente você fez dessa vez?"
Bruce ergueu a cabeça por um instante, sabendo a que ele se referia, mas ao mesmo tempo preferindo imaginar que não.
"Do que exatamente estamos falando?" Indagou enfim, ciente de que evitar aquela conversa por mais tempo seria impossível. Todos gostavam de Diana – como não gostar de Diana, afinal? E, hora ou outra, quereriam tirar satisfações em seu nome.
"Sobre a princesa." Apontou Flash, fungando, sem esconder o aborrecimento. "Você fez a princesa chorar e isso... Isso não é legal, cara."
Esfregando os olhos, de repente cansado demais para continuar a lutar contra aquilo, Bruce conteve um suspiro.
"Como você sabe que eu sou o responsável?" A pergunta era franca, mas estúpida, percebeu no instante seguinte. Shayera, John, Clark, J'oon e Wally, todos sabiam que seu relacionamento com Diana não era assim tão unilateral. Diferente dos demais, que ficavam apenas na dedução, eles haviam tido demonstrações de que alimentava sentimentos por ela. E de como tentava fugir deles.
"Você é a única pessoa que faz a princesa chorar." Afirmou Wally, em tom de obviedade. Ajeitou-se sobre a cadeira, sentando-se corretamente por um curto instante antes de sacudir a cabeça e se levantar. "Olha, eu não vou escolher um lado, porque vocês são meus amigos, mas eu acho que você está sendo idiota. E você nunca foi idiota antes. Diana vai passar algumas semanas com Audrey. Sugiro que você se desculpe enquanto é tempo." E se afastou.
Bruce considerou as consequências por algum tempo. Sabia que havia feito a melhor opção. Mesmo assim, seu coração, estúpido como qualquer coração, se negava a aceitar o óbvio.
Por fim, desistiu de resistir. A verdade é que queria Diana, nada iria mudar isso.
Refez o caminho que fizera tantas outras vezes. Usou sua senha privilegiada para burlar o sistema e invadir o quarto dela. A morena estava de costas, vestindo o uniforme de Mulher Maravilha, os cabelos, negros como ônix, caindo sobre suas costas e cintura curvilínea como uma cascata. Estava arrumando a mala.
"Partindo outra vez?"
Diana ficou fora por quase duas semanas. Bruce soube que ela continuava a trabalhar, porque Sr. Incrível e J'oon citavam seu nome com frequência durante as conversas sobre o funcionamento da Liga, mas ele tinha a impressão de que todos evitavam permitir que ficassem em cômodos próximos.
Quando Diana estava em missão, ou era num lugar localizado no completo oposto de onde ele estava, ou era num período absolutamente diferente. O que, sinceramente, estava começando a frustrá-lo.
Não era uma criança para que fosse tratado como uma. E não gostava de ver Diana fugir.
Desde a morte dos pais, esforçara-se o máximo possível para se manter sentimentalmente afastado de tudo que pudesse representar perigo em potencial. Havia tido um sem número de affairs ao longo daqueles anos, mais por necessidade física do que por interesse amoroso. Sentia-se bem com a solidão. Havia se habituado a ser seu principal companheiro, seu melhor amigo.
Claro, havia Alfred, contudo Alfred era diferente.
Bruce amava o velho mordomo, principal responsável pela sua criação e educação, mas era um tipo de amor completamente diferente. Alfred era família, embora não desse demonstrações explícitas disso. E Alfred o conhecia e aceitava como era.
No tempo que teve para pensar, entre o silêncio sorumbático da sua casa e o silêncio aborrecido dos companheiros de Batman, ele concluiu que era impossível fugir do inevitável. Soubera que Diana representaria um problema assim que recebeu seu primeiro sorriso. Nada nem ninguém nunca fez seu coração bater tão rápido.
Se ele realmente tivesse sido esperto, teria mantido uma distância total e absoluta, não dando margem para qualquer intimidade. Mas, para sua frustração, fora incapaz de resistir à tentação. E as pequenas brechas que apresentara foram o bastante para que Diana se esgueirasse até uma parte sua que até então costumava ser tão fria quanto o inverno glacial: seu coração.
Não era mais apenas uma questão física, como fora no começo. Diana fazia com que se sentisse vivo, algo que não sentia há muito, muito tempo.
Assim, decidiu que era hora de parar de lutar contra seus sentimentos e tentar lutar a favor deles, só para variar.
Teria Diana de volta.
Com esse pensamento em mente, ele seguiu até o escritório da ampla residência, onde Alfred costumava despejar as centenas de convites que recebia. Tinha um baile em Kásnia para ir.
Audrey o cumprimentou com um sorriso educado, inconsciente da sua identidade secreta, mas consciente do fato de que era um milionário muito influente nos Estados Unidos – como rainha de Kásnia, ela sempre tentava cultivar bons contatos. Por sorte, Diana não estava por perto na hora em que chegou. Preferia abordá-la por si só.
O local estava apinhado de figuras do poder, como generais, ministros e membros da corte, transformando o encontro na habitual batalha de egos de sempre.
Bruce tomava uma bebida no bar, evitando entrar em longas e aborrecidas conversas sobre ações, investimentos e planos para o futuro, quando a princesa amazona adentrou o ambiente, os cabelos negros presos num coque, usando um vestido de cetim azul bastante comportado, mas que caía à perfeição em seu corpo curvilíneo. Parecia cansada, porém não rejeitou todos os cumprimentos educados que recebeu. Ser a Mulher Maravilha em tempo integral deveria ser algo muito desgastante.
Diana juntou-se a Audrey, que ria escandalosamente da piada de um importante investidor francês, onde ficou por cerca de dez ou quinze minutos, antes de aceitar um convite para dançar. Brendan Barthes, o homem que a chamou, tinha metade da sua altura, mas parecia muito feliz por ter capturado sua atenção.
Como sempre acontecia, Diana sorriu e foi educada e gentil, contudo não escondia a vontade de fugir.
Bruce decidiu que não iria mais submetê-la àquela tortura.
Largando seu copo de scotch sobre o balcão do bar, levantou-se e seguiu até ela. Diana não o notou até que ele pousou a mão sobre o ombro de Barthes, erguendo uma sobrancelha.
"Posso ter a honra?"
Não é necessário dizer que Barthes não ficou feliz pela interrupção, mas, em nome da boa educação, anuiu, soltando a mão da princesa e dando um passo para trás, cedendo caminho para Bruce. O rosto de Diana estava pálido àquela altura, como se ela não soubesse como reagir àquela abordagem.
Bruce não se deixou abalar pela expressão tensa do rosto feminino. Tomando-a nos braços com a maestria de um dançarino profissional, começou a guiá-la. Como sempre, o corpo de Diana reagiu imediatamente.
"O que você está fazendo aqui?" Ela perguntou, a voz baixa e carregada, desviando os olhos, que eram azuis como safiras, dos dele.
Ele poderia ter optado por ser sincero e dizer que sentia sua falta, porque realmente sentia, mas expressar verbalmente seus sentimentos não era algo que soubesse fazer. Demandava demasiado trabalho e habilidade e, de algum modo, não se sentia confortável para expor algo daquela magnitude num lugar público.
"Eu fui convidado." Respondeu apenas, em tom leve, deixando que a mão escorregasse pelo quadril dela, encaixando-se na suave curva das costas, o que provocou um arrepio em Diana. Ele conteve um sorriso presunçoso ao saber que sim, não importasse o quanto ela tentasse resistir, ainda sabia todos os meios mais rápidos e eficazes para arrancar dela uma reação. Diferente do que a própria gostava de pensar, seu corpo rebelde adorava contato físico.
"Você nunca vem às festas de Audrey." Rebateu Diana, as sobrancelhas juntas, os dentes apertados, como se começasse a ficar enfadada.
Bruce suspirou, impaciente, olhando ao redor para se certificar de que não estavam sendo ouvidos. Vigiados, sim, mas não ouvidos.
"Volte para casa, Diana." Pediu, num murmúrio ao pé do seu ouvido.
O corpo de Diana enrijeceu, como se tivesse sido atingido por um raio, e ela curvou a cabeça para trás para que pudesse encará-lo, descrença e dúvida em seu olhar. Podia entendê-la, é claro, depois de tanto tempo relutando, era difícil ser abertamente franco.
"Você está brincando." Ela falou após uma longa pausa, apertando os lábios, soando um pouco seca.
"Eu não estou." Admitiu Bruce, maneando a cabeça. Deslizou os olhos pelo rosto macio e feminino. Ela usava rímel, blush e um gloss vermelho que tornava sua boca duas vezes mais atrativa. "Você não está feliz aqui. Só... Volte para casa."
Bruce não se recordava da última vez em que tinha pedido algo a alguém. Batman, sim, Batman às vezes precisava de ajuda, afinal, era um simples mortal, mas Bruce Wayne havia se habituado a viver sozinho, independente e indomável, e não estava habituado a agir daquela maneira subserviente. Simplesmente não estava na sua personalidade.
Mas, conhecendo Diana como conhecia, acreditava que não teria uma resposta eficaz se não fosse um pouco persuasivo. E por persuasão queria dizer empregar um pouco da veia sentimental que evitava admitir que tinha. Ela era a única com quem podia se dar ao luxo, ou melhor, se sentia confortável, embora não muito, para ser sincero. Como homem, não como super-herói.
Ela ficou em silêncio, embora uma parte da sua frieza natural tivesse se desfeito diante daquelas palavras.
"Por quê?" Questionou então, ligeiramente curiosa.
Por quê?,perguntou-se Bruce, um pouco surpreso. Era ele quem tinha por hábito fazer as perguntas difíceis ali. Quando os papéis haviam se invertido? Estaria fazendo a escolha certa, abrindo mão do autocontrole, da estabilidade, para se embrenhar no mundo difícil e complexo dos relacionamentos?
"Você gosta da Mansão Wayne. E eu... Eu gosto de ter você lá." Confessou, sério.
Diana hesitou por um longo tempo, pensativa, a atenção focada na movimentação ao redor enquanto a música trocava para um jazz suave.
Embora seu rosto não demonstrasse todos os pensamentos que a acometiam naquele momento, seu corpo foi relaxando gradualmente de encontro ao dele, um sinal de que parte da resistência estava sumindo. Bruce aproveitou a brecha para segurá-la com mais firmeza, estreitando a distância entre eles.
Não podia culpá-la por vacilar. Dizer sim significava concordar com todo o milhar de possibilidades que os envolvia. Se Diana estivesse realmente tentando superá-lo, se quisesse superá-lo de verdade, apenas diria não e então, simples assim, Batman e Mulher Maravilha estariam acabados para sempre.
"Está bem." Ela disse por fim, sem olhá-lo. "Amanhã."
Bruce sacudiu a cabeça em concordância, porque não foi capaz de encontrar palavras.
Nunca se sentira tão aliviado. O que comprovava que sim, estava seriamente doente. E essa doença se chamava Diana Price. Duvidava que fosse capaz de encontrar uma cura àquela altura do campeonato. Tampouco sabia se queria.
Deixou a festa muito tempo antes de terminar. As recepções ministradas pela rainha Audrey tinham por hábito durar até o amanhecer e Bruce não tinha disposição para gastar toda uma madrugada tentando ser simpático às conversas desinteressantes dos ricos.
Ligou para Alfred assim que colocou os pés no quarto de hotel cinco estrelas em que havia sido acomodado.
"Diana vai voltar para casa."
"Oh."
O mordomo ficou em silêncio por um instante, sem esconder a surpresa.
Bruce nunca havia lutado por uma mulher antes. Elas costumavam cair aos seus pés, interessadas no seu físico, no seu dinheiro, nas vantagens que seu nome poderia trazer. Mesmo com Zatanna, com quem realmente tivera diversão por um tempo, não agira daquela maneira.
Quando Zatanna se afastou, chateada porque ele parecia incapaz de demonstrar sentimentos, Bruce não resistiu. Era melhor assim. Eles eram melhores como amigos do que como amantes.
"Já não era sem tempo." Disse Alfred, enfim, um pouco ácido. "Sua Alteza fez uma grande falta. Vou agora mesmo começar os preparativos para a sua chegada. A fonte para o jardim da frente já chegou, senhor. Devemos permitir que a Sua Alteza escolha onde colocá-la?"
"Sim. Nós devemos embarcar no primeiro horário da tarde. Deixe meu carro à disposição."
"É claro, senhor."
"Nos vemos em breve, Alfred." E Bruce desligou com um meio sorriso torto, servindo-se de uma dose de uísque. Nada melhor que uma boa bebida para celebrar a reconquista de uma bela mulher.
Ele e Diana embarcaram no avião particular, optando por deixar a Liga fora daquilo. Embora fossem demorar horas para voltar à América do Norte, seria melhor evitar o teleporte. Bruce Wayne e Batman nunca deviam estar no mesmo lugar.
Diana ainda estava um pouco arisca quando foi buscá-la no palácio da rainha Audrey.
O chofer prometeu sigilo enquanto colocava a mala dela no porta-malas, mas Bruce não estava muito certo de que seria capaz de evitar as fofocas. Eles dançaram durante quase cinco músicas antes que outro homem resolvesse tirar a princesa dos seus braços, e isso por si só era o suficiente para gerar comentários.
Esperava, porém, que logo outra notícia quente surgisse para apagar os vestígios dos seus erros.
Diana só percebeu a reação que causava por estar ao lado de Bruce como Bruce quando o piloto quase derramou o copo descartável de café ao reconhecê-la. Até então, todos seus encontros haviam acontecido por debaixo dos panos, ao lado de pessoas que conheciam tanto ela quanto a identidade secreta dele, de modo que não havia falatório.
Levar a morena em seu avião, com seu histórico, era o mesmo que admitir publicamente que estavam tendo um romance.
"Você sabe que não tem como voltar atrás agora." Ela comentou, tensa, enquanto soltava o cinto de segurança após a decolagem – até então, haviam falado apenas o essencial. Diana usava um vestido leve na cor salmão e sandálias sem salto, os cabelos soltos. "Quando nós chegarmos à América, todo o continente já vai estar sabendo sobre nós."
"Eu sei." Bruce sacudiu a cabeça, levantando-se da confortável poltrona e seguindo até o bar para servir uma bebida. "Não estou exatamente preocupado comigo. Já passei por isso inúmeras vezes. Mas você... Não é fácil lidar com a mídia, Diana. Com os tabloides principalmente. Você nunca encarou uma situação como essa. Eles podem ser... cansativos."
Ela desviou os olhos para a janela, um pouco distraída.
"Tudo bem. Vou tentar ficar fora do radar durante algum tempo." Garantiu. "Sobre Batman..."
"Mulher Maravilha e Batman estão acabados." Instruiu Bruce, sério, apoiando-se no balcão do bar. "Ninguém nunca deve saber. Seria perigoso dividir o segredo da minha identidade com todos os membros da Liga da Justiça. É melhor assim. Eles vão ficar um pouco confusos no começo, mas logo vão superar. Você queria o homem debaixo da máscara, Diana. Eu estou dando a você, com todos os problemas inclusos."
Diana virou-se para fitá-lo, abrindo um pequeno sorriso pela primeira vez.
"Eu sei. Não estou reclamando." Disse, suavemente. Então bocejou, espreguiçando-se como um gato. "Estou cansada. Audrey me obrigou a ficar até que o último convidado se foi. Acho que vou tirar uma soneca."
"Baixe a sua poltrona." Instruiu Bruce, seguindo de volta para o seu lugar, o copo na mão. Seria uma viagem longa, mas, como sempre, seus empregados haviam tomado todas as precauções para torná-la agradável: os principais jornais da Inglaterra e dos Estados Unidos haviam sido comprados, o café havia sido passado, todo o ambiente fora limpo e higienizado.
Cerca de meia hora depois, Diana estava dormindo a sono solto ao seu lado, abraçada num travesseiro.
Quando o piloto deixou a cabine, como tinha o hábito de fazer eventualmente para esticar as pernas, não fingiu não olhar na direção dela. Era difícil ignorar aquela presença. Ainda mais quando Diana usava um vestido que parecia torná-la duas vezes mais angelical do que normalmente.
"Apenas para informar que está tudo certo, patrão." Disse ele, após um curto instante, seguindo até o mini refrigerador para agarrar uma lata de Coca Diet. Lawrence adorava Coca Diet. "Vamos chegar perto da meia noite, se tudo der certo. O clima está bom, então teremos um voo tranquilo."
"Obrigado, Lawrence." Respondeu Bruce, sem erguer a cabeça do Planeta Diário. Por algum motivo bizarro, sentia um tipo de prazer sádico ao ler as colunas de Clark. Não passava um dia sem que verificasse os acontecimentos em Metrópolis através do seu jornal mais conceituado.
O piloto anuiu, refazendo o caminho até sua cabine.
Lawrence vinha guiando para Bruce há mais de cinco anos, de modo que conhecia o humor do patrão como ninguém. Sabia que deveria ser estritamente profissional, evitar piadas maldosas e sarcasmo acima de tudo, mas não pôde resistir:
"É só... Patrão..." Chamou, após uma curta hesitação, abrindo um sorriso torto. "Desculpe-me pela indiscrição, mas a Mulher Maravilha? Uau." E fechou a porta atrás de si.
Alfred foi recepcioná-los no aeroporto.
Estava tarde, mas mesmo assim havia alguns paparazzi esperando-os na saída da área de desembarque, o que fez Diana franzir a testa, aborrecida. Os flashes os cegaram durante alguns minutos, até que ela mandou todos recuarem se não quisessem ter seu traseiro chutado. Conhecendo-a como conheciam, nenhum deles protestou.
Diana aliviou a expressão, sorrindo, e abraçou o mordomo assim que o viu.
"Alfred!" Falou, com certa doçura. Havia aprendido a amar e respeitar o homem à sua frente, algo que não era muito difícil de acontecer, considerando toda a esmerada atenção que recebia. "Senti sua falta." Confessou. Sem poder se conter, pousou um beijo estalado sobre sua bochecha.
Alfred pigarreou, um pouco desconfortável com o tratamento íntimo. Demasiada intimidade não era seu forte.
"Estou feliz pela sua volta, Sua Alteza." Garantiu, de modo mais formal, auxiliando Bruce com a mala de Diana. Parecia conter o dobro das roupas que da última vez, o que não era surpreendente, já que ela havia passado dias junto de Audrey. "Será que podemos nos preparar para uma longa estada?"
O curto silêncio de Diana significava que ela ainda não estava certa sobre seu futuro.
"Talvez." Falou, por fim, lançando um olhar beligerante na direção de Bruce, como se quisesse testá-lo. "Acho que isso vai depender dos modos do seu patrão."
"Não há porque se preocupar, Sua Alteza." Alfred respondeu quase imediatamente, lançando um olhar duro na direção do moreno. "Tenho certeza de que o patrão Bruce se arrependeu profundamente por ter sido tão rude. Não vai se repetir."
Ele havia sido tão enfático e repreensivo que Diana tentou, mas não pôde conter uma gargalhada.
Alfred era a única pessoa que ousaria repreender publicamente Bruce Wayne. Melhor ainda, repreendê-lo como um adulto repreenderia uma criança que fora pega fazendo uma travessura.
Tinha certeza de que qualquer outro que se atrevesse a fazê-lo seria vítima de um dos golpes mortais de quaisquer das milhares de artes marciais secretas que Batman, como um exímio lutador corpo a corpo, possuía. Não seria nada bonito, que fique claro.
"Obrigado, Alfred. Não sabia que tinha contratado um porta-voz." Disse Bruce, uma sobrancelha arqueada, irônico.
Alfred guiou Diana diretamente para seu quarto assim que eles colocaram os pés na mansão Wayne.
Bruce reparou que, diferente de normalmente, o local possuía um estranho cheiro floral. Havia diversos vasos espalhados pelos cômodos, recheados de flores recém-cortadas, o que justificava o aroma. Uma casa que faria jus a uma presença feminina.
Seguiu o mordomo e a morena apenas alguns passos atrás.
Ela não havia parado de falar durante todo o tempo, contando histórias dos momentos que compartilhara com a melhor amiga, demonstrando se sentir muito mais à vontade e relaxada ao lado de Alfred do que dele. Bruce não poderia culpá-la. Havia sido o culpado por aquele afastamento. Mas Diana estava ali. E aquilo era o que importava afinal.
Quando parou em frente à porta do quarto dela, Alfred havia colocado a mala sobre a cama, aberto o zíper e começado a tirar as roupas dali. Diana seguiu diretamente para a janela, escancarando-a e abrindo o vidro, de modo que a agradável brisa noturna invadiu o ambiente, acariciando seu rosto macio.
"Eu deixei um chá gelado preparado. Gostaria de bebê-lo na varanda, Sua Alteza?" Perguntou Alfred a certa altura.
A despeito das horas, Diana sorriu e concordou prontamente.
"Seria ótimo." Afirmou, relanceando os olhos na direção de Bruce pelo que pareceu ser a primeira vez após um tortuoso silêncio. "Você gostaria de nos acompanhar, Bruce?" Existia em sua voz certa formalidade que não havia antes. Ele acreditava que desapareceria eventualmente, conforme ela perdesse o medo de ser machucada.
"Não, eu preciso..." Começou a dizer, mas Alfred o interrompeu com um pigarro, fingindo estar distraído em sua tarefa, mas soando suficientemente alto para ser ouvido por todos. Bruce conteve um suspiro. A derrota seria inevitável. "Acho que alguns minutos não farão diferença." Anuiu por fim.
Ele e Diana se sentaram sob a luz da lua naquele começo de madrugada e apreciaram seu chá gelado em silêncio.
Nenhuma palavra foi proferida, mas Bruce não sentia qualquer necessidade de fazê-lo. A canção da noite enchia seus ouvidos: o cricrilar dos grilos, o vento balançando as folhas das árvores. O ambiente perfeito para relaxar.
Enquanto o gosto de limão se espalhava pela sua língua, ele concluiu que era a primeira vez que se sentia em casa em semanas.
N/A: Como prometido, segue um capítulo na visão do Bruce. Foi um pouco curto, porque, bom, é o Bruce! É difícil racionalizar muito sobre ele Tentei ser o mais fiel possível. A verdade é que, a meu ver, a distância fez bem pra ele. Afinal, como diz o ditado, muitas vezes só aprendemos a valorizar algo quando o perdemos.
Minha previsão é de que tenhamos seis capítulos, portanto nos faltam apenas dois para encerrar esta história (respondendo à tua dúvida, Hannah ). No próximo vamos enfim efetivar esse complexo relacionamento e trabalhar um pouco com a interação dos dois tanto entre si como com relação à mídia e aos membros da Torre da Liga. E enfim o fechamento. Não dou mais detalhes para não tirar a emoção da espera :D
Um abraço para Hannah Midori e para a nostálgica Violet. Espero que vocês continuem acompanhando.
Obrigada pelos reviews e pelo carinho. Nos vemos semana que vem!
