Quando entrou novembro, o tempo esfriou muito

Quando entrou novembro, o tempo esfriou muito. As serras em torno da escola tornaram-se cinza-gelo e o lago parecia metal congelado. Todas as manhãs o chão se cobria de geada. Hagrid era visto das janelas dos andares superiores do castelo degelando vassouras no campo de Quadribol enrolado num casacão de pele de toupeira, com luvas de coelho e botas de castor.

Começara a temporada de Quadribol. No sábado, Harry estaria jogando sua primeira partida depois de semanas de tratamento. Grifinória contra Sonserina. Se Grifinória ganhasse, subiria para o segundo lugar no campeonato das casas.

Hermione tornara-se menos tensa em relação às inflações ao regulamento. Na véspera da primeira partida de Harry, ela havia juntado-se aos garotos na quadra congelada durante o intervalo das aulas, e fizera aparecer um fogo azulado muito vivo que podia ser levado para toda parte num frasco de geléia. Achavam-se parados de costas para o fogo, se esquentando, quando Snape atravessou o pátio. E estava mancando. O homem viu-os e algo em suas caras o atraiu a atenção. Os quatro se aproximaram mais para esconder o fogo. Deveria ser proibido.

"O que você tem aí, Granger?" Perguntou vendo que a garota segurava um livro enorme.

Hogwarts e Uma História. Hermione o mostrou.

"Os livros da biblioteca não podem ser levados para fora da escola. Me dê aqui. Cinco pontos a menos para a Grifinória."

"Remus havia me alertado que Severus era bem implicante com grifinórios, mas aí já é demais." Disse Harry vendo Snape afastar-se.

"Ele acabou de inventar isso, aposto." Disse Rony irritado.

"O que será que houve com a perna dele?" Perguntou Draco.

"Não sei, mas espero que esteja doendo." Disse Rony.

A Sala Comunal estava muito barulhenta aquela noite. Harry, Rony e Hermione sentaram-se junto a uma janela. Estavam terminando de fazer alguns deveres quando a garota fechou o livro bruscamente.

"Vou atrás do meu livro. Proibido sair com ele da escola ou não, ainda sou responsável por ele. Além disso, ainda nem terminei de ler." Levantou-se sendo seguida dos outros dois. "Não. Terminem seus deveres. Volto logo."

Ela foi à sala dos professores. Bateu, mas não obteve resposta. Bateu novamente e nada. Talvez Snape tivesse deixado o livro na sala? Valia a pena tentar. Entreabriu a porta e espiou para dentro e deparou com uma cena horrível: Snape e Filch estavam lá dentro sozinhos. Snape segurava as vestes acima do joelho. Uma das pernas sangrava, lacerada. Filch entregava ataduras à Snape.

"Droga." Praguejou Snape. "Como é que se pode ficar de olho em três cabeças ao mesmo tempo?"

Hermione fechou a porta sem fazer barulho e voltou quase correndo à Grifinória.

"Conseguiu?" Perguntou Rony.

Num murmúrio, ela contou à eles o que vira.

"Sabem o que isso significa? Ele tentou passar pelo cachorro de três cabeças no Dia das Bruxas! Era para lá que estava indo quando o vimos!" Exclamou Rony. "Ele quer a coisa que o cachorro está guardando. Aposto que deixou o trasgo entrar para distrair todo mundo."

"Não. Ele não faria isso. Sei que ele não é simpático, mas não tentaria roubar algo que Dumbledore guarda a sete chaves." Disse Hermione.

"Além disso, o conheço. É amigo dos meus pais. É quase um pai pra mim. Ele não teria posto minha vida em perigo soltando um trasgo aqui dentro e nem tentaria roubar nada de ninguém. Não sem um bom motivo, pelo menos." Disse Harry.

"Sinceramente, está na cara! Se é assim, por que ele não tentou impedir o trasgo naquele dia? Ele passou por nós! O trasgo estava bem perto. Logo que o vimos virar o corredor, ele apareceu e entrou no banheiro. E agora Hermione diz que ele está com a perna sangrando por causa daquele cão que guarda algo!"

"Acho melhor esperarmos antes de fazermos algo. Snape é um professor, afinal." Disse Hermione por fim.

"Eu confio nele." Completou Harry.

"Vocês vão ver como estou certo." Disse Rony emburrando a cara.

O dia seguinte amanheceu muito claro e frio. O Salão Principal estava impregnado com o cheiro delicioso de salsichas e com a conversa animada de todos que aguardavam ansiosos uma boa partida de Quadribol.

Harry estava muito nervoso. Seus pais e Remus viriam assistir ao jogo e o garoto tinha medo de decepcioná-los. Por mais que esteja acostumado a voar numa vassoura e tivesse treinado duro para a partida, seria seu primeiro jogo de verdade. Tinha medo de fazer alguma idiotice, ou pior, como não conseguir apanhar o pomo. Contudo, mesmo com toda a ansiedade e o nervosismo, usava sua máscara de que estava tudo bem como um bom Malfoy.

"Harry, você quase não tocou na comida." Disse Hermione preocupada.

"Odeio voar de barriga cheia." Disse tentando parecer despreocupado. "Além disso, não estou com muita fome." Viu a garota dar de ombros e ir falar com umas garotas no outro lado da mesa. Rony servia-se de mais algumas salsichas enquanto isso.

"Não precisa se preocupar tanto." Murmurou Draco ao seu lado. "Você voa bem e treinou duro. Vai dar tudo certo."

Harry piscou confuso vendo o louro se afastar em direção à mesa Sonserina. Se Draco percebeu que estava nervoso ou não, não saberia dizer, mas as palavras do louro o acalmaram.

Pelas onze horas, a escola inteira parecia estar nas arquibancadas que cercavam o campo de Quadribol. Muitos estudantes tinham levado binóculos. Os lugares ficavam no alto, mas às vezes, ainda assim era difícil ver o que acontecia.

Hermione e Rony haviam se reunido à Neville, Seamus e Dean, o fã do time de segunda divisão da fileira do ato. Como uma surpresa para Harry, eles tinham pintado uma grande bandeira num dos lençóis que Perebas roera. Dizia: Potter para Presidente. E Dean, que era bom em desenho, havia pintado o enorme leão da Grifinória bem ao lado. Depois Hermione apelara para um feiticinho para a tinta brilhar multicolorida.

Madame Hooch era a juíza. Estava parada no meio da quadra esperando os dois times, de vassoura na mão.

"Quero ver um jogo limpo, meninos." Disse quando estavam todos reunidos à sua volta. Harry reparou que ela parecia estar falando particularmente para com o capitão do time da Sonserina, Marcos Flint, um aluno do quinto ano. "Montem nas vassouras, por favor." Harry montou em sua Nimbus 2000.

Madame Hooch deu um silvo forte no seu apito de prata. Quinze vassouras ergueram-se no ar. Fora dada a partida.

"E a goles foi pronto rebatida por Angelina Johnson, da Grifinória. Que ótima artilheira é essa menina. Além de muito bonita."

"JORDAN!"

O amigo dos gêmeos Weasley, Lino Jordan, estava irradiando a partida. Vigiado de perto pela Professora McConagall.

"Ela está realmente jogando com força total. Um passe lindo para Alicia Spinnet, um bom achado de Olívio Wood, no ano passado ficou no time de reserva. De volta a Johnson e... Não! Sonserina tomou a goles. O Capitão da Sonserina roubou a goles e sai correndo. Marcos está voando como uma águia lá no alto. Ele vai mar... Não! Foi impedido por uma excelente intervenção do goleiro Olívio. E Grifinória fica com as goles. No lance, a artilheira Cátia Bell, da Grifinória, dá um belo mergulho em volta de Marcos e sobe pelo campo e... AI! Essa deve ter doído. Ela levou um balaço na nuca, perdendo a goles para a Sonserina. Agora Adriano Pucey corre na direção do gol, mas é bloqueado por um segundo balaço arremessado por Fred ou George Weasley, é difícil dizer qual dos dois, mas em todo caso, uma boa jogada do batedor da Grifinória. E Johnson tem outra vez a posse da goles, o caminho está livre a sua frente e lá vai ela, realmente voando, desvia-se de um balaço veloz, as balizas estão à sua frente... Vamos agora, Angelina... O goleiro Bletchley mergulha... PONTO PRA GRIFINÓRIA!"

A torcida da Grifinória enche de berros o ar frio, enquanto a Sonserina, de lamentos.

"Cheguem pra lá, vamos."

"Hagrid!" Exclamou Rony surpreso ao vê-lo lá.

Rony e Hermione apartaram para dar espaço à Hagrid sentar com eles.

"Estive assistindo da minha casa." Disse indicando um grande binóculos em seu pescoço. "Mas não é a mesma coisa que assistir no meio da multidão. Nem sinal do pomo?"

"Não." Respondeu Hermione.

"Harry ainda não teve muito o que fazer." Disse Rony.

"Pelo menos não se machucou. Já é alguma coisa." Disse olhando Harry pelo binóculo.

Harry, até então, somente sobrevoava o campo. Olívio havia pedido que ficasse um pouco afastado para que não fosse machucado sem necessidade. Na ocasião havia pensado em dizer que não precisava de tanta preocupação, mas ao ver como era violento um jogo de Quadribol ao vivo, achou melhor seguir o conselho.

Só esperava não perder logo de cara para o time adversário. Havia visto os pais e Remus sentados ao lado de Severus. Não queria decepcioná-los.

Foi fugindo de outra goles que passou perto demais, que viu avistou o pomo. Tomado de grande agitação, mergulhou atrás do rastro dourado. O apanhador da Sonserina, Terêncio Higgs, vira o pomo também. Cabeça a cabeça, eles se precipitaram em direção ao pomo, todos os artilheiros pareciam ter esquecido o que deviam fazer e, pararam no ar para observar.

Harry foi mais rápido que Terêncio, estava vendo a bolinha redonda, as asas batendo, disparando para o alto, imprimindo mais velocidade...

"Ohh!" Um rugido de raiva saiu da torcida da Grifinória. Marcos tinha bloqueado Harry de propósito e a vassoura perdeu o rumo, Harry segurou-se para não cair. "Falta!" Gritou a torcida.

Madame Hooch dirigiu-se aborrecida a Marcos e, em seguida, deu a Grifinória um lance livre das balizas. Mas na confusão, o pomo desapareceu de vista outra vez.

"Então, depois dessa desonestidade óbvia e repugnante" Começou Lino sendo cutucado por McConagall. "Quero dizer, depois dessa falta clara e revoltante."

"Estou avisando, Jordan." Sibilou McConagall.

"Muito bem, muito bem. Marcos quase matou o apanhador da Grifinória, o que pode acontecer com qualquer um, tenho certeza, portanto uma penalidade a favor da Grifinória. Spinnet bate, para fora. Sem problemas. E continuamos o jogo. Grifinória ainda com o passe da bola."

Foi quando Harry desviou de um outro balaço que a coisa aconteceu. Sua vassoura deu uma guinada perigosa e repentina. Por uma fração de segundo, ele achou que ia cair. Segurou a vassoura com as duas mãos e os joelhos. Então a vassoura deu outra guinada como se estivesse tentando derrubá-lo. O que era um absurdo.

Harry até tentou avisar Olívio para pedir tempo, e então percebeu que a vassoura se descontrolara. Não conseguia controlá-la, mas conseguia dirigi-la. Ela ziguezagueava pelo ar e, de vez em quando, fazia movimentos bruscos que quase o desequilibravam.

Paralelo a isso, Sonserina havia marcado um ponto e a torcida verde e prata vibrava. Ninguém parecia ter notado que a vassoura de Harry tinha tomado vida e tentava derrubá-lo.

"Não sei o que Harry está fazendo." Comentou Hagrid olhando por seu binóculo. "Se eu não entendesse da coisa, diria que perdeu o controle da vassoura, mas... Não pode ser."

De repente, as pessoas em todas as arquibancadas estavam apontando para Harry no alto. Sua vassoura começara a jogá-lo de um lado para o outro, e ele mal conseguia segurar-se. Então a multidão gritou. A vassoura deu uma guinada o desmontando-o. Estava agora pendurado segurando-se apenas por uma mão.

"Será que aconteceu algo quando Marcos o bloqueou?" Indagou Seamus.

"Não pode ser. Só uma magia negra muito poderosa pode fazer isso. Um aluno do quinto ano não conseguiria fazer isso com uma Nimbus 2000."

Na mesma hora, Rony tomou o binóculo de Hagrid e olhou em direção a multidão. Especialmente aonde os professores estavam.

"Eu sabia!" Exclamou de repente. "Snape. Olhe."

Hermione agarrou o binóculo e olhou para o professor que estava agora no centro da arquibancada movendo os lábios sem parar e olhando fixamente para Harry.

"Ele está azarando a vassoura!" Exclamou ela.

"O que vamos fazer?" Perguntou Rony.

"Deixa comigo."

Antes que Rony pudesse dizer alguma coisa, Hermione desapareceu. A garota abrira caminho até a arquibancada onde estava Snape e, agora, corria pela fileira atrás dele. Nem parou para pedir desculpas quando derrubou o Professor Quirrell de cabeça na fileira da frente. Ao chegar perto de Snape, brandiu a varinha e murmurou um feitiço. Chamas vivas e azuladas saíram de sua varinha para as vestes de Snape.

Levou uns trinta segundos até que Snape percebesse as chamas. Um grito súbito confirmou que Hermione conseguira seu intento. Recolhera as chamas num frasquinho que tinha no bolso e retrocedeu depressa pela mesma fileira. Snape nunca saberia o que acontecera.

No alto, Harry consegui voltar ao controle da vassoura. Logo voltou a avistar o pomo, mas não foi o único. Terêncio emparelhou a vassoura com a de Harry e juntos, mergulharam em direção ao chão. Um batia no outro tentando empurrar um ao outro para fora do caminho, mas Terêncio quem mudou de direção primeiro vendo que se não o fizesse, bateria no chão com toda a força.

No fim, Harry que havia se erguido na vassoura para pegar o pomo, caiu da mesma e rolou alguns metros pela areia do campo. Ao levantar, levou a mão à boca como se fosse vomitar. Arregalou os olhos sentindo algo querer sair e ao abrir a boca, cuspiu o pomo na mão.

"GRIFINÓRIA VENCE!" Berrou Lino sendo acompanhado pela torcida vermelho dourado.

Quando Harry trocava-se no vestirário, seus pais e Remus foram falar com ele. Narcisa esperava do lado de fora com Severus. Os outros jogadores, ao verem Lucius entrar, saíram quase correndo. Talvez por medo ou respeito. Harry sorriu de lado vendo que seu pai sempre tinha aquela presença forte.

Lucius estava orgulhoso com o filho. Além de ter vencido o primeiro jogo, era o apanhador mais novo do século na história de Hogwarts. Remus também estava orgulhoso. Harry o lembrava muito James quando voava. Narcisa parecia ainda não aprovar o filho ser jogador de um esporte tão violento, mas estava feliz por ver Harry tão satisfeito consigo mesmo.

Harry despediu-se dos pais e de Remus e foi encontrar-se com seus amigos na cabana de Hagrid. O mesmo lhes preparou uma xícara de chá forte.

"Foi o melhor jogo que já vi!" Exclamou Rony excitado.

"Nem Fred e George animam tanto um jogo." Disse Draco.

"Onde você estava?" Perguntou Hermione.

"Junto da Sonserina." Deu de ombros. "Não são de todo ruim. E ganhei cinco galeões de Zabini. Apostei que Harry ganharia." Disse piscando um olho para o moreno que sorriu em resposta.

"CINCO?!" Berrou Rony. "E se você não ganhasse?!"

"Mas eu ganhei."

"De qualquer forma, estou mais preocupada com Snape." Disse Hermione de repente. "Ele tentou derrubar Harry." Os três ficaram em silêncio.

"Snape?" Repetiu Hagrid. "Bobagem. Por que ele faria isso?"

"Ele é um professor. E, pelo o que me lembro, é amigo dos pais de Harry. Não acho que ele faria isso." Disse Draco.

"Sinceramente, não estou mais tão certo disso." Murmurou Harry.

"Lembra quando o vimos mancando?" Perguntou Rony. "Hermione foi ontem tentar conseguir aquele livro de volta e ela disse que viu Snape mostrando a perna sangrando e falando sobre aquele cachorro mutante."

"De qual cachorro vocês estão falando?" Perguntou Hagrid desconfiado.

Os quatro entreolharam-se, então resolveram contar a verdade.

"Achamos que ele tentou roubar o que o cão está guardando." Disse Hermione por fim.

"Fofo." Disse Hagrid.

"O quê?" Perguntou Rony confuso.

"O cão se chama Fofo."

"Fofo?" Repetiu Draco.

"É... É meu... Comprei-o de um grego que conheci num bar no ano passado. Emprestei-o a Dumbledores para guardar o..."

"O quê?" Perguntou Harry ansioso.

"Não me perguntem mais nada." Retrucou Hagrid impaciente. "É segredo."

"Mas Snape está tentando roubá-lo." Disse Rony.

"Bobagem. Snape é professor. Não tentaria isso."

"E por que ele tentou matar Harry?" Perguntou Draco erguendo uma sobrancelha. "Isso porque Harry diz que ele é amigo da família e coisa e tal."

"Estou dizendo que vocês estão enganados.!" Disse Hagrid com veemência. "Não sei porque a vassoura de Harry estava agindo daquele jeito, mas Snape não tentaria matar um aluno! Agora, escutem bem, vocês quatro: vocês estão se metendo em coisas que não é da conta de vocês. Isso é perigoso. Esqueçam aquele cachorro e o que ele guarda. Isso é coisa do Professor Dumbledore com o Nicolau Flamel..."

"Ah-há!" Exclamou Rony. "Então tem um Nicolau Flamel metido na jogada."

"Oh, Merlin." Gemeu Hagrid percebendo que falar demais.

"Hagrid, por um acaso o que... Fofo guarda, é o mesmo que tentaram levar de Gringotes no começo do ano? O que não conseguiram levar porque você já havia trazido para cá?" Perguntou Hermione.

"Chega!" Disse Hagrid levantando-se fazendo os quatro se levantarem também. "Não sei como soube disso, mas não falo mais nada sobre o assunto. Snape não tentou matar ninguém, não existe Fofo ou Nicolau Flamel ou o que está guardado em Hogwarts. Agora, de volta ao castelo."

O Natal se aproximava. Certa manhã, em meados de dezembro, Hogwarts acordou coberta de neve. O lago congelou e os gêmeos Weasley receberam detenção por enfeitiçarem várias bolas de neve e fazendo-as seguir Quirrell aonde ele ia e quicarem na parte de trás do seu turbante. As poucas corujas que conseguiam se orientar no céu tempestuoso para entregar correspondência tinham de ser tratadas por Hagrid antes de voltarem a voar.

Todos mal agüentavam esperar as férias de Natal. E embora a Sala Comunal da Grifinória e o Salão Principal tivesse grandes fogos nas lareiras, os corredores varridos por correntes de ar tinham se tornado gélidos e um vento cortante sacudiam as janelas das salas de aula. As piores eram as aulas do Professor Snape nas masmorras, onde a respiração dos alunos virava uma névoa diante deles e eles procuravam ficar os mais próximos possíveis dos seus caldeirões.

"Por Merlin. Sinto meu sangue congelando dentro de mim." Disse Rony tremendo levemente, apesar da roupa quente e a capa.

"Você não é o único." Murmurou Harry.

Quando deixaram as masmorras no final da aula de Poções, encontraram um grande tronco de pinheiro bloqueando o corredor à frente. Dois pés enormes que apareciam por baixo do tronco e alguém bufando alto anunciou a todos que Hagrid estava por trás deles.

"Oi, Hagrid. Quer ajuda?" Perguntou Rony metendo a cabeça por entre os ramos.

"Não, estou bem, mas obrigado."

"Tentando ganhar uns trocadinhos, Weasley?" Perguntou Zabini ironicamente.

"Vai ver quer virar guarda-costas para terminar Hogwarts. Pode até ficar com a cabana do meio-gigante aí. Deve ser um palácio comparado à sua casa." Completou Parkison.

Draco, no momento seguinte, sacou sua varinha na direção dos dois. Ambos também sacaram a varinha enquanto Crabbe e Goyle ficavam a postos. Harry, Rony e Hermione ficaram lado a lado do loiro para ajudar em algo, mas não sacaram as varinhas.

"Será que terei de mandar outra azaração em você, Zabini? Você não se cansa de sempre perder pra mim?"

"Perder, Weasley? Vá sonhando."

Nesse momento Snaoe subia as escadas e parou aproximando-se deles. Rapidamente, guardaram suas varinhas, mas isso não fez o professor ir embora.

"O que é que está acontecendo aqui?" Perguntou. "Será que terei de colocá-los em detenção novamente por brigarem? Vocês são sonserinos e sonserinos não brigam entre si." Estreitou o olhar para eles. "Cinco pontos a menos pra cada um. Sonserinos e Grifinórios."

"O quê?! Mas a gente não fez nada!" Retrucou Rony.

"Por isso mesmo." Voltou o olhar para Draco, Blaise e Pansy. "Resolvam suas diferenças como pessoas civilizadas."

"Sinto muito, professor." Disseram em unissono. Snape deu outra olhada raivosa e deu meia volta indo embora.

"Odeio ele." Murmurou Rony.

"Esquece." Disse Draco puxando o irmão.

O Salão estava espetacular. Festões de vinhos e azevinhos pendurados a toda à volta das paredes e nada menos que doze árvores enormes de Natal estavam dispostas pelo salão, umas cintilando com cristais de neve, outras iluminadas com centenas de velas.

"Quantos dias ainda faltam para as férias?" Perguntou Hagrid.

"Um." Respondeu Hermione. "Isso me lembra, garotos, falta meia hora para o almoço. Deveríamos estar na biblioteca."

"Ih, é mesmo." Disse Rony, despregando os olhos do Professor Flitwick, que fazia sair bolhas azuis da ponta da varinha e as levava para cima dos galhos da árvore que acabara de chegar.

"Biblioteca?" Indagou Hagrid confuso. "Não acham que já estudam demais?"

Harry havia aberto a boca para responder quando o falcão de Draco apareceu sobrevoando o lugar com uma carta no bico. Rony deu alguns passos para trás, quase escondendo-se atrás de Hermione. Da última vez, o bicho prendeu-se em seus cabelos ao tentar bicá-lo e foi preciso um feitiço paralisante para tirá-lo. O incidente virou motivo de piada por muitos dias.

"Pare de tremer assim, Rony." Disse Harry divertido levando um olhar reprovador por parte do ruivo.

"Connor não vai te fazer mal." Completou Hermione.

"Vocês falam assim porque ele não implica com vocês." Nesse momento, Connor olhou-o com ar de superioridade e piou. Rony parecia ainda mais pálido. "Viu? Ele não gosta de mim."

"Obrigado, Connor." Disse Draco acariciando a cabeça dele após pegar o envelope. "Pode ir. Sei que é assustador encarar a cara feiosa do Rony." Gracejou fazendo todos, exceto Rony, rirem.

"É um belo falcão, Draco." Comentou Hagrid. "Só um pouco arisco com as corujas. Ele parece preferir ficar só."

"Tão amigável quanto o dono." Disse Harry fazendo Draco olhá-lo irritado.

"É uma carta da mamãe." Disse Rony. "Leia." Viu o louro abrir o envelope e lê-lo rapidamente. "Então?"

"Mãe e pai irão passar as férias do Natal na Romênia, com Carlinhos." Deu de ombros passando o envelope ao ruivo. "Ficaremos aqui."

"Ótimo. Poderão se juntar ao Harry para procurar sobre o Nicolau Flamel." Disse Hermione.

"Vocês o quê?" Perguntou Hagrid parecendo chocado. "Ouçam aqui: já disse à vocês, parem com isso. Não é da conta de vocês o que o cachorro está guardando."

"Só queremos saber quem ele é." Defendeu-se Draco. "Não pode nos impedir disso. Seria como estudos extras."

"A não ser que queira nos dizer e facilitar as coisas." Tentou Hermione.

"Sei que já li o nome dele em algum lugar." Disse Rony pensativo.

"Não direi uma palavra." Afirmou Hagrid.

"Então teremos de descobrir sozinhos." Disse Harry por fim.

Uma vez começadas as férias, os garotos divertiam-se tanto a ponto de esquecerem de procurar sobre Nicolau. Principalmente Rony e Harry que possuíam o dormitório somente para eles. Draco também parecia contente. Era bem melhor sair do quarto sem ter que desviar de alguma azaração de Zabini ou ter que ficar alerta a algum outro feitiço de seus colegas sonserinos que ainda não o aceitavam.

Os três também treinavam alguns feitiços, de vez em quando. Draco se mostrou um grande interessado em ampliar seu conhecimento diante do assunto. Além de ir à biblioteca pela manhã ler livros mais avançados. E Harry, cujo pai faz questão de ensiná-lo tudo sobre magia negra e antiga, passava alguns de seus conhecimentos ao louro. Rony não gostava muito da idéia de ter que ir à biblioteca ou treinar feitiços avançados. Nessas horas, preferia jogar xadrez bruxo consigo mesmo.

Na noite véspera de Natal, Harry e Rony chamaram Draco para dormir no dormitório deles. Após uma autorização prévia do diretor, o louro juntou-se aos outros dois. Jogaram um pouco de xadrez bruxo – Rony ganhou todas – até altas horas quando decidiram dormir.

Na manhã seguinte, Harry acordou com Draco chacoalhando-o. Olhou sonolento para o amigo que segurava uma xícara fumegante de algo que parecia ser café pelo cheiro. Harry sentou-se e colocou os óculos. Viu alguns embrulhos ao pé de sua cama. Rony estava sentado na própria cama comendo alguns doces.

"Feliz Natal." Disseram Rony e Draco em unissono.

"Feliz Natal." Desejou o moreno de volta. "Wow. Doces." Disse Harry alegremente pegando um embrulho médio de cor chocolate.

"Você deve ser um ótimo garoto." Disse Draco erguendo uma sobrancelha. "Olha a quantidade de coisas que ganhou."

"Alguns doces, capas, livros..." Disse Harry. "Hmm... tem um da Hermione e do Hagrid." Pegou um embrulho de cor vermelha e outro de cor verde. Eram doces com uma enorme caixa de chocolate no primeiro, e uma flauta artesanal no segundo. "E.. de quem é esse?" Perguntou puxando um embrulho mal feito todo vermelho.

"Oh, não." Praguejou Rony. "Mamãe te mandou um suéter Weasley."

Harry pareceu não entender, mas então passou o olhar para os suéteres que Rony e Draco vestiam. Cor de tijolo com um 'R' e verde com um 'D', respectivamente. Então abriu seu embrulho e viu um vermelho mais escuro com um 'H'.

"Hey, que legal. Nunca ninguém me deu algo feito à mão desse jeito." E vestiu sobre o pijama. "Obrigado. Agradeçam à senhora Weasley por mim."

"Er.. de nada." Disse Rony embaraçado. "E obrigado pelos doces." Disse levantando um saquinho.

"E você recebeu uma carta." Disse Draco colocando um envelope branco com o selo no formato do brasão da família Malfoy, mas parecia um pouco amassado. "A coruja que veio deixar não queria me entregar. Tive de lutar por ele e contra minha vontade de empalhá-la." Disse Draco percebendo a confusão do amigo.

"Oh. Obrigado." Pegou o envelope, o abriu e o leu. Logo depois, soltou-o sobre a cama. "É sobre a viagem deles. Minha mãe parece estar aproveitando, apesar de ser uma viagem de negócios."

"Por isso não te levaram?" Perguntou Rony.

"Não exatamente. Quando vou numa viagem dessas com meu pai, costumo me entediar. Não é nada divertido ter que participar das reuniões e ser encarado por vários velhos enrugados com inveja dos Malfoy."

"Tem um outro embrulho para você." Disse Draco de repente colocando um embrulho prateado sobre o colo de Harry. "Não diz de quem é."

Harry pegou o embrulho em mãos e percebeu ser algo leve. Ao desembrulhar, uma coisa sedosa e prateada escorregou para o chão. O moreno levantou-se para apanhar aquilo do chão e sentiu a textura. Parecia estar tocando em algo feito com fios de água.

"Uma capa da invisibilidade!" Exclamou Rony em assombro.

"Não pode ser. São muito raras." Disse Draco em igual assombro.

"Mas quem me enviaria isso?" Perguntou Harry segurando a capa e colocando-a ao redor dos ombros. Ao olhar para baixo, não viu o resto de seu corpo. Olhou para Rony e Draco que pareciam olhar para algo bem assustador.

"Tem um cartão." Disse Harry vendo um papelzinho no chão. "Seu pai deixou isto comigo antes de morrer. Está na hora de devolvê-la à você. Use-a bem. Um Natal muito feliz para você." Não havia assinatura.

"Seu pai?" Indagou Rony confuso.

"Lembra quando Hermione disse que Harry era adotado? Que seu verdadeiro sobrenome é Potter?" Lembrou Draco.

"Eu não sabia que meu pai verdadeiro tinha uma capa dessas. Nem mesmo Lucius possui uma capa dessas."

No momento seguinte, Fred e George escancararam a porta e entraram aos pulos. Usavam suéteres azuis. Um com um 'F' e outro com um 'G'. Harry, rapidamente, deu um sumiço na capa. Em segundos, havia decidido não compartilhar aquilo com mais ninguém.

"Feliz Natal!" Disseram os gêmeos.

"Olha só, o Harry ganhou um suéter Weasley também." Disse George

"Mas o dele é melhor." Disse Fred pegando na manga do suéter. "Ela, com certeza, capricha mais se a pessoa não é da família."

"Que barulheira é essa?" Perguntou Percy metendo a cabeça para dentro do dormitório com um olhar de censura. Era visível que já desembrulhara metade de seus presentes porque trazia um suéter grosso pendurado no braço, que logo Fred agarrou.

"Você tem um 'M' de monitor bem em cima do peito." Disse Fred divertido. "Vista logo. Até Harry ganhou um e já está usando."

"Eu... Não... Quero." Disse Percy com a voz embargada enquanto os gêmeos forçavam o suéter por sua cabeça, entortando seus óculos.

"E você não vai se sentar com os monitores." Disse George.

"Natal é uma festa em família." Completou Fred.

E os dois saíram carregando Percy, cada um puxando-o por um braço.

Harry e os Weasley passaram uma tarde divertida entre fazer guerra com bolas de neve – da qual Draco não quis participar, mas foi atingido por milhares de bolas do mesmo jeito -, jogar xadrez, jogar bombas de bosta por alguns dos corredores e fugir de Filch, comendo doces em frente à lareira e, para desespero de Rony, treinando alguns feitiços – onde até os gêmeos pareciam se divertir-.

Já de noite, quando Rony e Draco já estavam dormindo, Harry debruçou-se pela borda da cama e puxou a capa que escondera ali. Ele, apesar de não ter demonstrado, estava inquieto com o fato daquela capa ter pertencido ao seu pai verdadeiro. Apesar de amar Lucius e Narcisa como seus verdadeiros pais, tinha horas que Harry sentiu uma espécie de saudade de James e Lílian, mesmo não os conhecendo ou não lembrando deles. E era estranho pensar que possuía algo que era de seu pai.

Sem pensar duas vezes, o moreno levantou-se e vestiu a capa. Queria experimentá-la e decidiu ir até a biblioteca usando ela. Iria entrar na seção restrita. Talvez lá encontrasse algo sobre Nicolau Flamel, visto que já haviam procurado em diversos livros e não encontrado nada.

A seção restrita era bem no fundo da biblioteca. Saltou com cautela a corda que separava estes livros dos do resto da biblioteca, ergueu a lâmpada e passou a ler os títulos. Não que eles se informassem muita coisa, a maioria já possuía as letras descascadas e esmaecidas formando dizeres em línguas que Harry não entendia. Parecia latim antigo. Os pêlos de sua nuca logo ficaram de pé ao ouvir sussurros vindo dos livros. O moreno sabia que eles sabiam que havia alguém lá sem autorização. Aquela biblioteca estava saindo-lhe mais assustadora do que a que tinha em casa.

Pousou a lâmpada sobre uma das estantes, com cuidado, e puxou um livro qualquer. Arrependeu-se no segundo seguinte ao ouvir um grito fino sair de dentro do livro. E mesmo fechando-o e devolvendo-o ao lugar de antes, o grito continuou por alguns segundos. Foi quando ouviu passos e o miado de Madame Nora que Harry sabia estar em apuros. Na pressa, derrubou a lâmpada que carregava e saiu quase correndo. Parou, de repente, diante de uma alta armadura. Estivera tão ocupado em sair de lá, que nem prestara atenção por onde andava. Se Lucius o visse agora, fugindo como um rato e ainda sem prestar atenção à fuga, iria acertá-lo com um Crucius, com certeza.

"O senhor me pediu para vir direto ao senhor se houvesse alguém perambulando por ai à noite." Disse Filch. "E alguém está. Ou estava. Bem na seção restrita." Mostrou a lâmpada quebrada que Harry carregava.

"Seja quem for, não deve estar longe." Ouviu a voz de Snape, mas ao invés de tranqüilizar-se, sentiu que até a respiração pareceu falhar.

Recuou o mais silencioso que pode. Havia uma porta entreaberta à sua esquerda. Esgueirou-se por ela, prendendo a respiração, tentando não empurrá-la e, para seu alívio, conseguiu entrar no aposento sem que percebessem. Eles passaram direto e Harry apoiou-se na parede, respirando profundamente, ouvindo os passos dos dois morrerem a distância.

O aposento parecia uma sala fechada. Os vultos escuros das mesas e cadeiras se amontoavam contra as paredes e havia uma cesta de papéis virada, mas escorada na parede. À sua frente, havia uma coisa que não parecia pertencer ao lugar: um espelho. Da altura do teto com a moldura de talha dourada, aprumada sobre dois pés em garras. Havia uma inscrição entalhada no alto: Ojesed stra ebru oy ube cafru oyr on wohsi.

Ao aproximar-se do espelho, teve ganas de dar um grito de susto. Junto de sua imagem, havia a de mais outras pessoas. Harry virou-se para trás por puro instinto, mas a sala estava vazia. Voltou o olhar para o espelho e os reflexos continuavam a encará-lo. Reflexos de Lucius e Narcisa. Ambos muito bem vestidos, elegantes e aristocráticos, como sempre. Remus, com suas vestes gastas. Severus, com seu eterno estilo gótico. Rony, Draco e Hermione, mais algumas pessoas que Harry reconheceu sendo colegas e até alguns professores. Contudo, havia mais dois reflexos ali. Um casal atrás do seu próprio reflexo. Uma linda mulher de olhos verdes iguais aos seus e um homem alto de óculos e cabelos revoltosos iguais os seus. Harry sabia quem eles eram. Remus havia mostrado-lhe algumas fotos de seus pais.

"Você podia ter nos chamado." Disse Rony emburrado após Harry contar sobre sua saída noturna. Incluindo o espelho que achara.

"Vocês podem vir hoje à noite." Disse Harry.

Pela noite, os três cobriram-se com a capa e foram atrás do espelho. Harry parecia não conseguir lembrar direito o caminho até ele, mas após quase uma hora procurando, encontraram. Tiraram a capa e Harry os levou até o espelho.

"Wow!" Disse Rony animado.

"Está vendo? O casal atrás de mim são os meus pais verdadeiros."

"Harry... não vejo nada do que disse." Falou Draco de cenho franzido. "Vejo minha família, você, Hermione... Mas não vejo seus pais. Não os verdadeiros."

"Me vejo mais velho com crachá igual ao do Gui. E estou segurando a Taça de Quadribol. Sou Capitão do Time!" Exclamou Rony contente. "Será que esse espelho mostra o futuro?"

"Não pode ser. Meus pais estão mortos." Disse Harry.

Na terceira noite, Harry encontrara o caminho mais rapidamente. Contudo, dessa vez não levara Rony e nem Draco. Preferiu ir sozinho. Ver seus pais, como se estivesse vivos e com ele, trouxe uma sensação saudosa que Harry não sentia há tempos. Um misto de alegria e tristeza. Chegou a pensar como seria se eles estivessem vivos.

"Então, outra vez, Harry?"

O garoto levantou-se num pulo e olhou para trás deparando-se com Dumbledore que estava sentado em uma das mesas junto à parede. Não viu o Diretor lá quando chegou e nem percebeu sua chegada.

"Eu... eu não vi o senhor." Balbuciou sentindo-se idiota.

"Compreensível." Disse levantando-se e aproximando-se do garoto. "Creio já ter descoberto o que o espelho mostra." Viu-o sacudir a cabeça negativamente. "Deixe-me explicar. O homem mais feliz do mundo poderia usar o Espelho de Ojesed como um espelho normal, ou seja, ele veria apenas o próprio reflexo."

"Acredito que... Mostre o que desejamos. Seja o que for?"

"Sim e não." E voltou o olhar para o espelho. "Mostra-nos nosso desejo mais íntimo, mais desesperado. Você, que não teve seus pais verdadeiros, mostra-os junto de você. Rony, que sempre teve os irmãos como sombra, mostra-o sozinho, melhor do que todos eles." Nesse momento Harry perguntou-se como o Diretor sabia disso. "Não preciso de capa para ser invisível." Respondeu Dumbledore como se tivesse lido os pensamentos do garoto. Então pigarreou e continuou. "O espelho não nos dá conhecimento ou verdade. Já houve homens que definharam diante dele." Voltou o olhar à Harry. "O espelho será levado amanhã e peço que não volte a procurá-lo. É bom sonhar, Harry, mas é ruim quando esquecemos de viver o mundo real. Agora, porque não coloca essa capa fantástica e volta à dormir? "

"Senhor, posso fazer uma pergunta?"

"Obviamente, já a fez, mas pode fazer outra." Disse sorrindo bondosamente.

"O que o senhor ver quando olha para o espelho?"

"Me vejo segurando um par de grossas meias de lã." Harry arregalou os olhos. "As meias nunca são suficientes. Mais um Natal chegou e passou e não ganhei nenhum par. As pessoas ainda insistem em me dar livros."

Foi somente quando estava de volta à cama que Harry pensou na possibilidade de Dumbledores não ter dito a verdade. Contudo, achou compreensível. Fizera uma pergunta muito pessoal.

Harry não procurou mais pelo espelho no resto das férias de Natal e nem usou mais a capa. Ele também gostaria de esquecer o que vira no espelho com tanta facilidade, mas não conseguia. Começou a ter pesadelos repetidos. Seus pais –tanto os Malfoy quanto os Potter- sumindo em uma luz verde e uma gargalhada esganiçada.

Hermione, que voltara um dia antes do ano letivo começar, estava dilacerada entre o horror de pensar no moreno fora da cama, perambulando pela escola três noites seguidas e o desapontamento dele não ter conseguido descobrir quem era Nicolau Flamel. Após o início das aulas, voltaram a ler os livros em cada intervalo entre as aulas.

Os treinos de Quadribol também recomeçaram, fazendo Harry ter menos tempo ainda para ajudar os amigos na busca. Olívio estava puxando o time como nunca fizera antes. Até mesmo as chuvas intermináveis que substituíram as nevadas não conseguiram esmorecer a sua animação. Os gêmeos Weasley reclamavam que Olívio estava se tornando um fanático, mas Harry o apoiava. Além do desejo de ganhar e orgulhar seus pais, Remus, Severus e a si mesmo, o moreno não tinha tantos pesadelos quando voltava cansado dos treinos.

Então, durante um treino particularmente chuvoso e enlameado, Olívio deu uma notícia ruim ao time. Acabara de enfurecer-se com os gêmeos que fingiam dar mergulhos violentos um sobre o outro e fingiam cair da vassoura.

"Parem com isso!" Berrou chamando a atenção dos dois. "Isso é o tipo de atitude que nos fará perder o jogo. Snape quem irá apitar e vai procurar qualquer desculpa para tirar pontos da Grifinória." A notícia fez George realmente cair da vassoura.

"Snape vai apitar?!" Perguntou embolando as palavras com a boca cheia de lama. "Quando ele já fez isso? Ele não vai ser nada imparcial. Principalmente num jogo contra a casa dele."

O resto do time pousou ao lado de George para reclamar também. Olívio dizia que não tinha culpa disso, mas mostrava-se igualmente preocupado. Snape era bem capaz de dar vantagem ao time adversário.

"Ao menos Harry é do nosso time." Disse Fred. "Esperamos que ele seja juiz melhor com isso."

Harry não se importava de ter Snape como juiz num jogo, mas estava um pouco receoso por conta do último jogo. Mesmo não tendo provas de que o professor tentara, realmente, matá-lo, uma ponta de desconfiança havia nascido.

"Não fale comigo agora." Disse Rony logo que Harry chegou ao Salão Principal, após o treino, e sentou ao seu lado. "Estou ganhando, claro." Apontou para o xadrez bruxo que ele e Hermione jogavam.

"Sua cara está péssima." Disse Draco levantando o olhar de um livro que lia. "Aconteceu algo?" Perguntou fazendo Rony e Hermione olhar para o moreno também.

"Snape vai apitar o jogo. Estão achando que ele vai tentar nos prejudicar."

"Você está no time da Grifinória. Será que ele ainda assim vai dar vantagem à Sonserina?" Perguntou Rony.

"Não sei, mas não me preocupo com isso."

"Oh." Disse Draco. "Você está com medo que ele tente te matar de novo?"

"Não sei se ele realmente tentou, pra início de conversa, mas não vou negar que começo a desconfiar."

"Não jogue." Disse Hermione imediatamente. "Finja que quebrou a perna."

"Quebre a perna de verdade." Sugeriu Rony.

"Não quero quebrar a perna."Disse Harry determinado. "Além disso, não temos reserva. Se eu fugir do jogo, a Grifinória não poderá jogar."

Naquele momento, Neville entrou aos tombos no salão. Alguns alunos começaram a rir. Draco, Harry, Rony e Hermione logo reconheceram o feitiço que prendia-lhe as pernas. A morena imediatamente foi até o garoto fazer o contra-feitiço.

"Quem fez isso?" Perguntou Draco.

"Zabini. Ele disse que queria praticar feitiços." Respondeu com a voz trêmula.

"Diga à Professora!" Exclamou Hermione indignada.

"Não adiantaria." Disse Draco. "São sonserinos. Mesmo sendo castigados, farão algo pior, por vingança. E isso só vai se tornar um ciclo. Precisa enfrentá-los de frente. A única linguagem que entendem é a do mais forte."

"Er.. prefiro não fazer nada."

"Você precisa aprender a se defender. Isso ou eles o usarão como saco de pancadas até a formatura." Disse Rony.

"Não se preocupe, Neville. Darei um jeito nele pra você, mas terá de fingir que foi você." Disse Draco.

"Não serei expulso, serei?" Perguntou receoso.

"Não."

"Então, tudo bem." Deu de ombros.

Harry apalpou o bolso das vestes e tirou um sapo de chocolate. O último da caixa que ganhara de Hermione. Estendeu-o ao garoto.

"Não se preocupe com nada. Daremos um jeito nele."

"Obrigado." Disse sorrindo. "Acho que vou pra cama. Boa noite."

"Hey." Chamou Rony antes do garoto se afastar completamente. "Pode me dar o cartão? Estou colecionando."

"Claro." Jogou o mesmo na direção do ruivo e afastou-se.

"Dumbledore de novo." Disse desanimado virando para ler o verso. "Ele foi o primeiro que.." Parou de ler repentinamente mudando sua expressão para uma de grande surpresa. "Nicolau Flamel." Murmurou. "Eu sabia que já tinha lido o nome dele em algum lugar." Disse chamando a atenção de Harry, Draco e Hermione. "O Professor Dumbledore é, particularmente, famoso por ter derrotado Grindelwald, o bruxo das Trevas, em 1945, e ter descoberto os doze usos do sangue de dragão, e por desenvolver um trabalho de alquimia em parceria com Nicolau Flamel."

Draco levantou-se de súbito jogando livro que lia, com força, sobre a mesa assustando os outros três que o olharam assustado.

"Como posso ser tão burro." Começou a folhear as folhas rapidamente até parar numa página. "Nicolau Flamel é a única pessoa, que se sabe, que produziu a Pedra Filosofal." Harry e Rony pareceram não ter entendido.

"Francamente." Começou Hermione. "Pedra Filosofal é uma substância lendária com poderes fantásticos. Ela pode transformar qualquer metal em ouro e também produz o Elixir da Vida. Quem a bebe, torna-se imortal."

"Deve ser isso que o cão guarda." Disse Harry. "Hagrid disse que era algo haver com Dumbledore e esse Nicolau."

"Não me admira Snape estar atrás." Murmurou Rony.

Até o dia do jogo, Harry tentara se concentrar em outras atividades. Fingia não estar preocupado, mas estava sendo cada vez mais difícil. Principalmente com Snape e ele se encontrando tanto pelos corredores. O garoto começou a ter a impressão de estar sendo seguido pelo outro. Sua desconfiança para o professor crescia a cada dia e teve de se conter para não mandar uma carta aos pais perguntando se Snape já os havia traído alguma vez. E era nessas horas que lembrava de quando Remus dizia que Snape e James não se davam bem. Chegavam a sair no tapa, algumas vezes. Harry começou a se perguntar se Snape não havia começado a vê-lo como James e, por isso, parecia obstinado a tirá-lo do caminho.

No vestiário, Olívio havia puxado o moreno para um canto. Fez um discurso sobre a importância daquele jogo e de como seria muito bom se ganhasse, mas, claro, sem pressão.

"A escola inteira está lá fora." Disse Fred espionando para fora da porta. "O jogo nunca esteve tão cheio assim."

"Seus pais não vieram dessa vez." Comentou George. "Droga. Seria divertido ver Snape trapacear com os pontos e começar uma briga com o senhor Malfoy."

O resto do time pareceu concordar, mas Harry achava melhor assim, sem seus pais para ver o jogo final. Além disso, Lucius ainda estava em viagem. Narcisa havia voltado, mas não gostava de assistir aos jogos. Só havia ido da primeira vez por, enfim, se tratar da primeira vez. Remus havia acompanhado todos os jogos possíveis, mas também não pudera vir daquela vez. Noite passada havia sido noite de lua-cheia.

O jogo começara e, já de início, Snape tirara pontos da Grifinória com pretextos infames. Harry, em toda a sua vida, havia tido o professor como um homem grande. Ele e seu pai tinham aquela presença forte e conseguiam sempre o que queria. Fossem com palavras de ameaças disfarçadas de gentis pedidos ou com o olhar mesmo. Contudo, naquela hora, o garoto via-o como inimigo. E Lucius o havia ensinado a pisar em seus inimigos como insetos. Harry tinha vontade de fazer isso naquele momento.

Nas arquibancadas, a torcida, tanto da Sonserina quando da Grifinória, estava agitada. Horas ovacionando, horas gritando. Hermione, Rony e Draco estavam atentos para qualquer coisa incomum que Snape pudesse vir a fazer.

"Aposto como, dessa vez, Malfoy cai da vassoura." Ouviram Parkinson dizer atrás deles.

"Espero que sim. E que se arrebente todo, no processo." Completou Zabini. "Oh, olha só quem temos aqui. Longbottom." Disse zombeteiro ao ver o garoto todo encolhido para um canto.

"Deixem-no em paz." Disse Draco.

"Se não?"

"Eu poderia ameaçá-los com feitiços ou coisa do tipo, mas posso fazer melhor." E sorriu de lado. "Posso derrubar Harry da vassoura e culpá-los." Sussurrou para que apenas Blaise o ouvisse. "Tenho testemunhos que podem dizer que ouviu você e Pansy desejando que ele caísse da vassoura."

"Você não teria coragem de machucar seu amigo." Disse Blaise tentando soar despreocupado.

"Quer apostar?" Perguntou erguendo uma sobrancelha. "Harry entenderia. E ainda afirmaria que foram vocês. Os Malfoy iriam atrás dos seus pais. Acha que sua família é rica o bastante para enfrentá-los?"

Zabini não respondeu nada. Fechou a cara e deu as costas para Draco. Puxou Parkinson pelo braço, que o olhou confuso, e saíram de lá. Neville murmurou um agradecimento enquanto o louro voltava a atenção ao jogo.

"Vocês ainda não se entenderam." Disse Hermione mais afirmando do que perguntando.

"Não somos como grifinórios que se confraternizam facilmente. De qualquer forma, acho que ele deixará Neville em paz por algum tempo."

"Wow!" Exclamou Rony quando Harry dera um mergulho e voava, agora, como uma bala em direção ao chão.

No alto, Snape virou na vassoura bem a tempo de ver uma coisa vermelha passar veloz por ele. No segundo seguinte, Harry saia do mergulho, com o braço erguido com triunfo enquanto segurava o pomo.

A comemoração depois do jogo durou além do toque de recolher. Foi preciso que McConagall mandasse, quase aos berros, os alunos irem para suas camas. Com a ameaça de tirar pontos e dar detenção. Em poucos minutos, todos estavam deitados. Exceto Harry. O moreno olhava pela janela, próxima a sua cama, o céu. A noite estava muito bonita. Olhou para seus companheiros de quarto e viu que dormiam profundamente. Levantou devagar, tirou a capa de invisibilidade do baú e desceu. Foi em direção ao campo de Quadribol e entrou na garagem onde guardavam as vassouras. Pegou a sua e saiu.

Voar era a atividade que Harry mais gostava de fazer. Sentia-se livre. Era quando esquecia do mundo real e podia ser apenas ele mesmo. Não um Malfoy ou um Potter. Só Harry. Fechou os olhos deixando o vento bater em seu rosto livremente. Quando voltou a abri-los, enquanto olhava os lados para se certificar de que ninguém o observava, percebeu um pontinho escuro mexendo-se em direção à Floresta Proibida. Silenciosamente, seguiu quem quer que fosse.

Contudo, as árvores eram tão juntas que acabou perdendo a pessoa encapuzada de vista. Voou em círculos cada vez mais baixos, roçando a copa das árvores até que ouviu vozes. Planou em direção à elas até que pousou. Subiu em um dos ramos tentando espiar por entre as folhas.

Embaixo, na clareira sombria, estava Snape. Junto do Professor Quirrell que gaguejava pior que nunca.

"Não sei p-porque qu-quis s-se encontr-trar logo aqui, S-severus."

"Ah, quis manter o encontro sigiloso." Disse friamente. "Afinal os alunos não devem saber sobre a Pedra Filosofal." Harry quase caiu pra frente tentando ouvir melhor. "Já descobriu como passar por aquela fera do Hagrid?"

"M-mas S-severus, e-eu.."

"Você não me quer como inimigo, Quirrell." Falou ameaçadoramente dando um passo para frente.

"N-não sei o q-que.."

"Você sabe muito bem do que falo." Deu mais um passo fazendo o homem a sua frente encolher-se. "Muito bem. Teremos uma outra conversinha em breve. Até lá, pense com quem está sua lealdade." Jogou o capuz sobre a cabeça, deu meia-volta e andou de volta ao castelo.

Harry correu de volta ao Salão Comunal. Sem pensar muito, acordou Rony e, logo depois, entrou, usando a capa de invisibilidade, no dormitório de Hermione. Os três – dois deles meio sonolentos -, dirigiram-se ao Salão.

"O que houve?" Perguntou Hermione de cenho franzido. "Sabe que podemos perder pontos caso-"

"Não importe." Cortou Harry. "Ouvi uma coisa."

Após contar o que ouvira, olhou para seus dois amigos que pareciam mais acordados e olhavam-no de volta pensativos.

"Acho que.. podemos concluir que é a Pedra que Fofo guarda e que Snape a quer roubar." Disse Hermione.

"Por que ele não rouba logo? Quero dizer, ele é professor! Deve ser mais fácil pra ele ter acesso à Pedra." Disse Rony.

"Além dele não querer chamar a atenção, ao que parece, Quirrell está tentando detê-lo. Contudo, acredito que não conseguirá por mais muito tempo."

"Não consigo acreditar.. Severus roubando?" Indagou-se Harry. "Ele deve ter um bom motivo."

"Sinto muito, Harry, mas não vejo por qual motivo, além de querer vida eterna, ele roubaria a Pedra." Disse Hermione.

"Sabemos que você gosta dele, mas é fato: Snape não presta."

Nas semanas seguintes, Quirrell parecia mais magro e mais pálido. Pelo jeito, apesar de seu dos que os garotos acharam, ele não parecia disposto a ceder tão fácil. E todas as vezes que passavam pelo corredor do terceiro andar, eles encostavam as orelhas na porta para ouvir se Fofo ainda rosnava. E pelo modo de como o humor de Snape ia de mal a pior, eles tinham certeza de que o professor ainda não conseguira pegar a Pedra.

Hermione, no entanto, tinha coisas a pensar, além da Pedra. Começara a programar suas revisões e a marcar em cores suas anotações de aula para classificá-las. Harry e Draco também estavam revisando algumas matérias, mas nada que os deixassem horas e horas na biblioteca. Rony parecia não entender pra que tanto alarde em revisar para as provas se elas só começariam em dez semanas.

Falando em Draco, o louro havia feito com que Zabini e companhia parassem permanentemente de atormentar Neville. Com a ajuda de Harry e sua capa de invisibilidade, o louro conseguiu fingir que Neville lançava feitiços em Zabini quando este o atormentara em uma tarde. Pansy criou tentáculos nas bochechas e furúnculos por todo o corpo. Crabbe e Goyle ficaram, literalmente, pregados um no outro. Zabini criou seios e teve maquiagem permanente por uma semana.

Numa tarde, na biblioteca, Harry que estava procurando o verbete "Ditamno" no livro de Cem ervas e fungos mágicos, não levantou os olhos até a hora em que ouviu Rony exclamar:

"Hagrid! Que é que você está fazendo na biblioteca?"

O meio-gigante veio arrastando os pés, escondendo alguma coisa às costas. Parecia muito desolado com o seu casaco de pêlo de toupeira.

"Só olhando." Disse numa voz insegura que imediatamente despertou o interesse deles. "E o que é que vocês estão armando?" Perguntou desconfiado. "Não continuam procurando o Nicolau Flamel, continuam?"

"Não. Já sabemos quem ele é." Disse Rony. "Também já sabemos o que Fofo guarda.É a Pedra-"

"Shhh." Fez Hagrid. "Não saia falando isso por aí. Que deu em você?"

"Mas temos algumas perguntas à você. Sobre as outras proteções, além de Fofo."

"SHHH." Fez Hagrid novamente. "Venham me ver mais tarde. Não que eu vá falar algo, mas acho que temos mesmo de conversar."

"Vemos você mais tarde, então." Concordou Harry.

"O que será que ele escondia nas costas?" Perguntou Rony logo que o outro saiu.

"Não sei. Será que tem haver com a Pedra?"

"Verei em qual seção ele estava." Levantou indo até algumas prateleiras mais afastadas.

"Era Hagrid saindo agora há pouco?" Perguntou Draco aproximando-se da mesa junto de Hermione.

"Sim. Ele quer falar conosco mais tarde. Com sorte, conseguiremos mais algumas informações sobre a Pedra, Fofo e mais alguma coisa."

"Dragões." Disse Rony voltando.

"Ahn?" Perguntou Hermione confusa.

"Hagrid estava na seção de livros sobre dragões."

"Já ouvi dizer que ele sempre quis ter um dragão." Disse Draco pensativo.

"Mas é proibido. A Convenção de Bruxos de 1709 proibiu. É difícil evitar que os trouxas reparem em nós se criarmos um no quintal. Em todo caso, é perigoso. Não tem como domesticar um." Argumentou Rony.

"Vocês deviam ter visto as queimaduras de Carlinhos quando cuidou de dragões selvagens na Romênia." Completou Draco.

"Então o que ele está armando?" Indagou-se Harry.