Capítulo 3

— Olá — saudou Sesshoumaru, entrando na casa de Rin na noite seguinte, sem chamar.

Ela se levantou do sofá, sorridente, e se aproximou.

— Olá, estranho — disse, dando-lhe um beijo na bochecha. — Chegou tarde.

Ele entregou as embalagens de comida chinesa e a seguiu até a sala.

— Tive um caso de urgência no hospital.

— Vai tudo bem? — perguntou Rin, preocupada.

— Sim. Acho que estive com o futuro presidente dos Estados Unidos. Asseguro a você que esse garoto de dez anos era mais pronto que a fome. Era como falar com um adulto.

Ela sorriu, se sentando no sofá. Isso era algo que gostava de Sesshoumaru, que o encantavam as crianças. Era uma pena que não quisesse ser pai.

Ficou imóvel. «Oh, não se atreva a abrir essa porta», pensou, colocando os pratos.

— Poderia ter feito o diagnóstico ele mesmo, não?

Sentou-se junto a ela e tomou um recipiente de papel que tinha um cheiro delicioso.

— Sim, mas colocar o osso da perna em seu lugar teria lhe custado um pouco.

Sesshoumaru encheu os pratos após dar uma mordida num rolinho de ovo.

Olhou-a enquanto fechava os recipientes e viu que usava a pulseira que ele presenteou em seu aniversário. A corrente de diamantes refulgia sobre sua pele morena. Recordou seus protestos de que era muito extravagante, mas quando se tratava dela, ele achava que bom era pouco. E proporcionava um grande prazer vê-la com a pulseira. Não a tirava desde que ele presenteou.

— Diga-me o que quer ver nessa noite. Salada de tiros? Romance? Comédia? — perguntou Rin, assinalando a pilha de vídeos. Examinou os títulos, escolheu um filme e colocou no vídeo cassete.

— Ficará surpresa.

— Parece muito satisfeito, Sesshoumaru. Em que esta pensando?

— Aluguei uma esposa de Wife Incorporated.

— Sério? — comentou, com a vista fixa no prato. — E?

— É genial. Tenho todos os benefícios sem nenhuma preocupação.

— Bom, disse a você. Um homem que pensa que o casamento é preocupante é que realmente não quer se casar.

Ele a observou, preocupado.

— Fala — instigou-o ela. — Algo o aborrece. Posso lê-lo em seus olhos.

Ele suspirou e se reclinou no sofá.

— Tenho que te dizer que... Como ouvinte de seu programa, me pareceu que ontem a noite estava horrível. Sua voz soava rouca e usava várias vezes essas entradas publicitárias.

Rin ficou com raiva. Estava cansada porque tinha estado limpando e cozinhando para ele e o que realmente queria era gritar que deixasse de dar tanto trabalho!

— Às vezes temos um mau dia, Sesshoumaru.

— Você não. Ao menos não no ar.

— Sim, claro — bufou ela. — «Querida Rin, soSesshoumaruiona meus problemas em dois minutos sem conhecer a história inteira, mas não te preocupes».

Não era a primeira vez que lamentava estar desperdiçando seu título de psicologia em lugar de dar consulta das nove às cinco. — Vamos, é só um entretenimento.

— As pessoas levam a sério — disse, odiando ser tão taxativa.

— Sim, e essas mesmas pessoas acreditam também na vidência por telefone. Como médico que sou, devo adverti-la que tem mau aspecto e precisa descansar.

Por que todo mundo se empenhava nessa semana em ser tão honesto com ela?

— Me deixe em paz, Sesshoumaru. Não me diga o que tenho que fazer.

— Rin, só estou tratando de apontar...

— Que pareço uma morta viva. O que, mas preciso ouvir.

Irritada, deteve o filme, que ainda não tinha chegado aos créditos do princípio.

— Ei, ei — tranquilizou-a, deixando o prato e aproximando-se dela. — Que se passa?

Seu tom tirou-lhe a irritação e só ficou o esgotamento.

— Nada, estou cansada. E sem dormir. Agora, me deixará tranquila?

Ele a olhou fixamente. Ela grunhiu.

— Sinto muito — reconheceu, dando-lhe palmadinhas na mão. Teria gostado de dizer como se sentia, mas nem sequer sabia. Estava confusa. Antes ajudava falar de suas coisas com Sesshoumaru, mas aquilo... Ainda não podia compartilhar com ele. Nem sabia quando poderia. Estava enganando seu melhor amigo e sentia-se pior após ficar irritada, sobretudo quando ele a estava olhando com preocupação.

Sesshoumaru tratou de não franzir o cenho, mas ela ocultava algo. Não tinham muitos segredos entre si e não gostava que ela o estivesse deixando fora daquilo. Doía-lhe. Mas sabia que não devia a pressionar.

Quando estivesse preparada, diria. Com resolução, pegou seu prato outra vez, tirou os sapatos, acomodou-se no sofá e reiniciou o filme. — Comeram em silêncio, mas pouco a pouco a tensão foi evaporando. Riram, comentaram algumas cenas, rindo dos diálogos, e quando acabou o filme, recolheram a mesa e puseram outro filme.

Sesshoumaru observava como Arnold Schwarzenegger demolia outra cidade para caçar o bandido quando se deu conta de que Rin tinha apoiado a cabeça em seu ombro. Olhou-a e sorriu. Estava profundamente adormecida. Quando se aproximou ainda mais para rodeá-la com o braço, ela se encolheu, transmitindo seu calor corporal. Ele suspirou pelo simples prazer de estar assim, vendo o filme. No entanto, muito depois que acabou Sesshoumaru seguia abraçado com ela, se perguntando por que se sentia tão tranquilo e satisfeito. E daí pensar o que faria a respeito.

Havia perdido a pulseira. A que Sesshoumaru lhe teu de presente. Rin procurou-a, frenética, por toda a casa. Olhado inclusive no estúdio até que recordou que a usava quando saiu da emissora. Atemorizada, arrancou as almofadas do sofá para ver se estava embaixo, mas não estava. Nada. Deus meu, nunca deveria tê-la aceitado. Era típico dela perder algo que valorizava tanto. Saltaram-lhe as lágrimas ao pensar que teria que assistir à festa beneficente do hospital Candler com Sesshoumaru naquela mesma noite.

Levantou e olhou na cozinha. De repente, introduziu a mão no bueiro do tanque, com a esperança de encontrar algo, em vão. Com um gemido de desespero, abriu o armário embaixo do tanque e olhou fixamente, antes de ir pegar a caixa de ferramentas. Depois colocou um trapo no chão para não manchar o vestido, fechou o registro da água e desenroscou a junta da tubulação. Imersa no trabalho, ouviu de repente:

— Céu santo, Rin. O que é isso.

Ela se sobressaltou e sentiu compaixão. Era Sesshoumaru. Pensou em fingir que não ocorria nada, mas na situação que se encontrava, não ia saber como.

Sesshoumaru inclinou-se e deu uma olhada a tubulação.

— Bom momento para fazer arranjos.

«Especialmente com um vestido de noite vermelho», pensou, deslizando o olhar por suas pernas. Perguntando-se caprichosamente se usaria o tipo de meias que tinha usado quando saiu com Randy. Mexeu a cabeça.

— Rin, isto é absurdo.

Ela soluçou, com o rosto inclinado.

— Volta dentro de uma hora.

— Não posso. Sabe que devemos estar lá dentro de meia hora. Pertenço à junta diretiva. Preciso estar lá para a apresentação.

— Sim — murmurou ela. — Eu sei.

Sesshoumaru se aproximou.

— Quer fazer o favor de sair daí, pelo amor de Deus?

Suspirando, Rin deixou o trapo de lado e saiu. Sesshoumaru pegou-a pelas mãos e ajudou a levantar. Ela se soltou imediatamente e se afastou. Como não queria o olhar ainda, se dedicou a alisar o vestido. — Bom, parece estar pronta — disse ele ceticamente.

— Estou. Só preciso um minuto para refrescar-me. Sesshoumaru olhou a confusão que tinha embaixo do tanque.

— E precisava consertar a tubulação antes de ir?

— É uma coisa de garotas, não entenderia.

Apressou-se a sair da cozinha, subiu para pegar a bolsa e o xale, e entrou no banheiro para refrescar os olhos. Era idiota, pensou. Que estaria pensando Sesshoumaru? Retocou a maquiagem, voltou a pintar os lábios e escovou o cabelo. Ia subir as meias, quando viu que Sesshoumaru aparecia no vão da porta.

— Vai me dizer por que estava embaixo do tanque com um vestido de noite? — perguntou suavemente. — Porque não vi nada de errado na tubulação.

— Não teria algo na tubulação, verdade?

— Não — disse ele precavidamente, franzindo o cenho.

Ela deixou escapar um suspiro de alívio.

— Estava procurando algo.

Rin concordou incapaz de confessar que tinha perdido seu presente. Doía o coração só de pensar.

— Não seria por acaso... — disse, colocando a mão no bolso. —.. Isto?

A pulseira de diamantes estava pendurada em seu dedo.

— Oh, graças a Deus — exclamou, aproximando-se imediatamente para pegá-la. — Achei que a havia perdido para sempre.

Rin examinou o fecho.

— Arrumei-o — disse, ajudando a pôr a pulseira. As mãos de Rin tremiam. — É só uma pulseira.

— Não, não é. Para mim não tem preço — disse ela, com voz trêmula.

— Por quê? — perguntou suavemente.

— Porque você me presenteou com ela. As palavras de Rin esquentaram seu o coração, mas como ela seguia com a vista fixa em seu braço, levantou o queixo para que o olhasse nos olhos.

— Não vai perguntar onde encontrei?

— Onde? — perguntou, com o cenho franzido, assustada.

— Em minha casa, Rin. De fato, estava enganchada em meu edredom — disse, observando que ela empalidecia. — Vejamos, não vai a minha casa faz um tempo. E estou certo de que não esteve em minha cama.

Rin sentiu que o pulso acelerava.

— Assim que isso só pode significar uma coisa — concluiu ele.

— É? — perguntou Rin, rezando para que não a tivesse descoberto, ainda sabendo que assim era.

Ele se aproximou ainda mais e a olhou.

— Por que aceitou o emprego como esposa de aluguel a meu serviço?

Ela abriu a boca para responder, mas nenhum som saiu dela. O olhar de Sesshoumaru escureceu que se fixou nela como um cristal azul.

— E por que demônio mentiu a respeito?

— Não menti exatamente — replicou ela, levantando o queixo.

— Simplesmente não se incomodou em me dizer?

— Isso não é verdade e você sabe.

— Sim. Eu sei, mas isso não explica por que ocultou. Ainda assim, eu deveria percebido. Quem senão você ia saber quais são meus pratos favoritos? – suspirou. — Mas deveria ter me dito.

— Não era assunto seu — disse ela, passando junto a ele.

Rin entrou no quarto, com ele em seus calcanhares. — É minha amiga. Se precisava de dinheiro, por que não veio a mim?

— Por que de fato? Sou capaz de ganhar o meu dinheiro. Ao ver sua expressão, continuou: — Posso cuidar de mim mesma Sesshoumaru. E sairei logo. Só levará um minuto.

«Talvez quando meu filho tenha acabado a universidade», pensou. Oh, não queria discutir mais. Sabia que ele não a deixaria em paz até que tivesse confessado todos os detalhes como uma maritaca tonta.

Surpreendia que não o tivesse feito já. Claro que sabia que ele não ia gostar de sua ideia de ter um filho sem um pai. Trataria de convencê-la para não o fazer porque ele cresceu sem pais, passando de uma família adotiva a um orfanato, para acabar num reformatório. O que significava que teria estado a um só passo de ir ao cárcere se não tivesse mudado sua vida.

— Me deixe ajudá-la, Rin.

Derretia-se cada vez que a chamava assim, o que reafirmava sua decisão de não dizer ainda. Queria ter uma família antes de ter cinquenta e descobrir que havia passado a oportunidade.

— Maldito seja seu orgulho — disse ele, ferido e mal humorado.

— Sesshoumaru, carinho, teria me contratado como dona de casa se soubesse que era eu?

— Demônios, não. Teria dado o dinheiro a você.

— Assim que não se importava em ignorar quem era a misteriosa garota da limpeza até que descobriu que era eu.

— Sim, mas...

— Deixa-me fazer isto a minha maneira – ela interrompeu. — Sei que pode se permitir qualquer coisa, mas eu não. E se me despedir vou trabalhar para outra pessoa.

Suspirou, aproximou-se dela e a agarrou pelos ombros.

— Nem me passaria pela cabeça — esboçou um sorriso. — Ninguém além de você e eu colocamos as caixas de cereais por ordem de altura.

Ela começou a rir, aliviada.

— Somos um caso, verdade?

— Sim — deu-lhe um beijo no rosto e depois a abraçou. Ouviu-a suspirar levemente e sentiu que seu corpo se relaxava enquanto passava os braços pela cintura. O desejo invadiu-o e ainda que soubesse que aquilo não era prudente, precisava a abraçá-la e sentir que ela precisava dele.

— Estamos bem então?

Ele passou a mão pelas costas.

— Agora sim. Ou ao menos estaremos se me prometer que vai dormir mais e que não emagrecerá limpando minha casa.

— Prometo. Agora tudo bem?

— Pode estar segura. Passamos por coisas piores, não?

Ela se afastou, sorrindo forçada, e ele tratou de não franzir o cenho.

— Bom, minha pequena dona de casa, será melhor irmos logo se não chegaremos tarde — disse, saindo do quarto. — Espero-a lá embaixo.

Ela ficou petrificada quando ele saiu, se perguntando o que aconteceria quando ficasse grávida e ele perguntasse quem era o pai. Não queria lhe fazer mal, mas sabia que a mentira acabaria por explodir em seu rosto. Talvez, pensou, no tempo que levasse conseguindo o dinheiro para as operações encontrasse ao Senhor Apropriado, se apaixonasse e formasse uma família. Sabia que estava tendo ilusões, mas não podia evitar. Comprovou sua imagem no espelho e saiu.

Sesshoumaru esperava-a de pé, ao final da escada. O coração de Rin deu um salto ao vê-lo. Tinha uma aura que impunha, e apesar da gravata e do terno, nos olhos ainda se via o garoto duro que sabia usar uma navalha como a maioria dos meninos fazia com as chaves do carro familiar. As pessoas de seu meio não conheciam os detalhes de seu passado como ela. «Chegou tão longe... », pensou. E queria-o ainda mais por isso.

Deteve-se um momento. Como a um irmão. Sim. Queria-o como a um irmão, se recordou, recusando os sentimentos da semana anterior.

— Esta bem? — perguntou ele com voz suave.

Quando viu seu olhar deslizando sobre ela, desejou que tudo fosse diferente, que ele não fosse tão bom amigo e confidente e que não estivesse na contramão de ser pai. «Nem ocorra isso», advertiu-se. A última coisa que arriscaria no mundo seria Sesshoumaru.

Rin deixou os papéis da clínica na mesinha de seu quarto e tirou a jaqueta de linho. Já tinha tido a primeira consulta com o especialista, afinal. Tinha preenchido os formulários e estudado as fichas com os perfis dos homens que tinham doado esperma. Ainda não havia se decidido nem tinha reunido o dinheiro suficiente para levar a cabo a primeira operação, mas sabia que quando pudesse prever com certeza qual era seu ciclo menstrual, o faria. Tinha deixado de tomar a pílula fazia só dois meses e seu médico não queria que tivesse nenhum efeito secundário que pudesse atrasar o processo. Sentia-se otimista. Tinha almoçado com Katherine e as duas tinham passeado pelas ruas, vendo lojas de brinquedos e de roupa infantil, dando inclusive um olhar em uma loja de grávidas. Não comprou nada porque andava mal de dinheiro, mas se emocionou ao ver um par de sapatinhos numa loja.

Soou o telefone. Sesshoumaru havia perdido as chaves de casa e pedia que deixasse a cópia que usava quando entrava para limpar. Rin disse que passasse por ali e desligou. Olhou a hora e dirigiu-se apressadamente ao banheiro. Deus meu, pensou, seu encontro estaria ali em menos de quarenta e cinco minutos. Seria esta uma predição de futuro?

Sempre com atraso porque queria ter um filho. Meia hora mais tarde, estava pondo um jeans quando chamaram à porta de seu quarto.

— Entra Sesshoumaru — disse em voz alta, pegando uma blusa.

Sesshoumaru ficou gelado ao ver as costas nuas de Rin enquanto punha a blusa e colocava por dentro das calças. Por que se vestia diante dele com tanta tranquilidade?

— Quer jantar comigo?

Ela deu a volta.

— Vem de novo no momento errado, carinho — Sentou-se na cama, pôs as sandálias e revisou sua bolsa para ver se tinha lenços de papel, já que se supunha que o filme que iam ver era dos melosos. — Mas deixei um cozido de frango no forno.

— Obrigado. Com certeza está muito bom, mas... — Sesshoumaru pensou que estava linda e notou que tinha pressa. — Tem um encontro? Outra vez?

— Outra vez? Olha quem fala o senhor de uma mulher por semana.

— Touché — disse Sesshoumaru, mexendo a cabeça. Aquele era o velho Sesshoumaru, pensou. Não tinha notícia de estar saindo com alguém, — Rin, as chaves?

Ela apontou a mesinha com o dedo e depois aspirou profundamente e se apressou a cruzar o quarto justo quando ele se fixava nos folhetos. Pegou as chaves e sua mão se imobilizou no ar.

— Que demônio é isso?

— Nada — contestou ela, tratando de tirar os papéis.

Sua expressão endureceu quando abriu o folheto e leu seu conteúdo. Olhou-a com olhos gelados.

— Inseminação artificial? Diga-me que não está pensando em fazer isso.

Sua voz soou dura e fria, como quando era um adolescente rebelde.

Rin preparou-se para a discussão que poderia mudar sua relação com ele para sempre.


OI mina é ótimo saber que voces estao curtindo..

Amei esse romance e é por isso que estou aqui compartilhando com vcs

esse livro lindo...

Vou postar um capitulo todos os dias e quando terminar ja tenho um misterio para postar..

kissus