Cap 3 – Dama da noite.
Ao entrar no carro eufórica e de olhos arregalados, Rossana se dirigiu mim:
- Tudo bem Samantha??? – perguntou ela me lançando um olhar hesitante.
- Tudo, tudo!!! Vamos logo!! – eu disse querendo sair logo da visão daquele garoto estranho.
Rossana arrancou o carro logo que eu disse isso, mas continuou a me observar pelo canto dos olhos.
O garoto seguiu o carro com o olhar até que nós estivéssemos fora de vista.
- Tem certeza que está tudo bem? – perguntou minha mãe novamente.
- Tenho!!! Porque pergunta? – eu lhe perguntei desafiando que ela voltasse a fazer aquela brincadeira estúpida de vampiro de novo.
- Você parece assustada. – disse ela se sentindo culpa. – Foi pelo o que eu disse?
- Não mãe! Nem vem!! – eu a impedi de continuar- Eu entendi tudo depois do seu bilhetinho, não precisa se preocupar. – eu disse cruzando os braços.
- Que bom. – disse ela aliviada.- Acho que você realmente está crescida, pra encarar isso assim bem.
Nesse momento, passamos em frente ao cemitério. Os pêlos do meu braço se arrepiaram enquanto meus olhos ficavam presos em seu portão de entrada.
Minha casa não ficava longe do cursinho, e o cemitério marcava o exato meio do caminho entre os lugares.
Os meus olhos sempre automaticamente se viravam ao cemitério quando eu passava em frente a ele. Mas ele nunca me causou calafrios. Normalmente ele me parecia aconchegante, como se fosse um bom lugar para um passeio.
Ao chegar no portão de casa, eu saí do carro para abrir o portão. Eu sempre o abria e fechava muito rapidamente, porque morava em frente de uma curiosa pracinha, que era muito propícia para ladrões. Mas essa noite eu me sentia observada.
A grama estava alta, um perfeito esconderijo. As sombras da árvores eram confusas sobe a luz dos lampiões da rua. Seria quase impossível ver alguém ali.
- – um apito soprou. O que me sobressaltou! Em quanto eu punha a mão no meu coração tentando me acalmar, pois era apenas o guarda da rua, minha mãe me chamou de dentro da garagem.
- Samantha! Entra logo! Quer ser assaltada?? – perguntou ela já lá dentro saindo do carro.
Entrei, e dei mais uma espiada pela rua antes de fechar o portão.
Subindo as escadas para a porta da frente minha mãe exclamou:
- Hum... Cheiro de dama da noite!!! – disse aspirando o ar.
Eu inspirei. Realmente havia um forte cheiro dessa flor no ar.
Mas a pracinha não tinha flores.
Na minha casa não tinha esse tipo de flor, apesar da minha mãe ser a pessoa que mais tinha plantas pelo menos do nosso quarteirão.
Já os visinhos eu não sabia.
Eu disse a Rossana que estava cansada e fui dormir rápido para não dar tempo dela querer conversar comigo. Fiquei acordada por muito tempo tentando não pensar em vampiros e nem no estranho garoto.
No dia seguinte, fui para o cursinho estranhamente ansiosa. Dessa vez não pela simples normalidade que me havia sido tirada desde que eu havia completado 19 anos, mas por outra coisa.
Ao chegar ao portão da escola procurando por ele, não o encontrei. Fiquei decepcionada por um momento, mas também aliviada. Subi as escadas quase correndo, passei pela porta da classe voando, com medo de estar sendo seguida.
Que bobeira, achar que estou sendo seguida dentro de um cursinho. Meu egocentrismo está começando a ficar doentil.
A cadeira de Mikey estava vazia quando cheguei. Tentei ler o meu livro, mas não conseguia me concentrar. Algo estava realmente me incomodando, como se alguém estivesse me observando de algum lugar que eu não pudesse ver. Quando fui espiar quem estava sentado no fundo da sala solitário, uma voz falou ao meu lado:
- Oi Sam. – e Michael sentou-se ao meu lado.
- Oi Mikey...- disse eu com visível decepção.
Quando Mikey começou a me contar uma entediante história sobre as reuniões de sua igreja, eu finalmente pude olhar pra trás e ver quem eu achava que estava me observando.
Mas não tinha ninguém ali.
Não tinha porque eu achar que aquele menino estaria ali atrás, me seguindo. Provavelmente ele não fosse da minha classe, ou eu o teria notado antes. Talvez ele nem sequer estudasse no cursinho. Ele podia só estar passando e ter decidido parar ali, no portão do meu cursinho, e ficar me encarando.
Esse pensamento me deixou triste. De alguma forma aquele garoto representava alguma coisa pra mim. Mas eu não conseguia descobrir o que.
Enquanto as aulas iam passando eu comecei a achar que realmente estava ficando louca.
Talvez o garoto de ontem tenha sido apenas uma miragem. Uma miragem fruto da história insana que Rossana me contou...Que Rossana inventou. Eu poderia estar sonhando acordada, ou pior, eu poderia realmente apenas ter sonhado isso aquela noite e achado que realmente tinha acontecido. Eu costumo confundir a realidade com os meus sonhos, meu sonhos costumam parecer tão reais. Como quando eu acordo no meio da noite sem certeza se havia dormido ou não, até que eu olhasse no meu relógio e conferisse que já era um novo dia.
Talvez eu tenha sonhado até a conversa idiota com Rossana. Toda a história de eu ser uma vampira, e meu pai ter sido um vampiro fazia bem mais sentido em um sonho. Talvez fosse um sonho até a parte do cemitério e o estranho cheiro de dama da noite. E que nada tivesse mudado, a minha vida fosse exatamente a mesma monotonia que nada acontece.
E então me veio o pensamento que eu talvez ainda estivesse dormindo. Pensei em pedir pra Mikey me beliscar, mas ao invés disso eu perguntei:
- Mikey. Que dia é hoje? – eu perguntei.
Normalmente era Michael que me perguntava que dia era para colocar no lugar indicado do seu caderno, por eu ser tão obcecada pelo tempo. Ele me olhou confuso e disse:
- 18 de junho. – respondeu – você me disse hoje mais cedo. Não se lembra?
- Sim mas, você tem certeza que hoje é dia 18??? Não é dia 16? Ou 15! Sei lá!!! – eu perguntei desesperada que tudo pudesse ser verdade. Que tudo era verdade!
- Tenho quase certeza que hoje é dia 18. – respondeu Mikey intelectualmente. – Mas peraí.... Seu aniversário não foi dia 16??? – perguntou ele com entendimento brilhando nos olhos.
- Foi.... mas oque que tem??? – perguntei sem entender.
- Ahhhh. Então é por isso que você veio me perguntar o dia né, sam??? – disse ele sorrindo – Pra me lembrar que eu ainda não tinha te parabenisado!!!!
- OQUÊ?? – eu perguntei horrorisada – nãããooo, não foi por isso!!! – tarde demais, ele passava seu braço ao redor de mim, me abraçando mesmo sentado.
- Parabéns!!!! – disse ele me torturando, mas sem saber disso. – Muitos anos de vida!!!!
Oh não!!! Isso era pior de ouvir do que eu pensei.
Era pior do que sempre foram todas as parabenisações que eu não gostava e achava falsas desde os 10 anos.
Dessa vez parecia uma zombação:
"Muitos anos de vida"
Ele não fazia idéia do que isso podia significar pra mim.
Quando bateu o sinal de saída ao invés de sair correndo pela porta como eu fazia normalmente, eu esperei por Mikey. A normalidade que ele exalava me fazia bem.
Ao sairmos pela catraca porta afora, eu nem estava preocupada em rever aquele estranho garoto de novo, decidindo que no outro dia ele estava apenas de passagem mesmo. Mas então.
- Aarrgh!!! – eu arfei amendrotada, meus olhos arregalados, meu coração disparado.
- Que foi??? – perguntou Mikey preocupado.
- Vo...Você já viu aquele menino?? – perguntei, meus olhos presos no mesmo garoto estranho de ontem, encostado exatamente no mesmo local do portão.
- Que menino?? – perguntou ele procurando, muita gente estava saindo, dificultando a visão.
- Aquele ali!!! – eu apontei.
- O loiro de jaqueta vermelha??? – perguntou ele descrevendo um garoto que estava próximo ao qual eu me referia.
- Nãooo!! – eu disse impaciente olhando pra Mikey. – O outro, de preto, olhos puxados!!!
- Eu não to vendo, Sam...- disse ele confuso.
Então eu olhei, e ele não estava mais ali.
" Longas palavras perdidas, sussurradas lentamente para mim...
Ainda não consigo descobrir o que me mantém aqui;
quando todo esse tempo eu tenho estado tão vazia por dentro
Eu sei que você ainda está lá...
Me observando, me desejando
Eu posso sentir você me assombrando
Temendo você, amando você
Eu não vou deixar você me puxar."
[Haunted - Evanescence]
