Capítulo 04 – Descoberta

Harry piscou molemente, sentindo-se bem. Um perfume suave, o corpo confortável e uma preguicinha de despertar depois de um longo descanso. Respirou fundo, abrindo os olhos sem pressa e esperando suas retinas se acostumarem com a luz branca que o cegava. E a luz foi esvanecendo, se tornando cinzenta, sombria, confortável. E do meio daquela penumbra, um ponto negro surgiu esvoaçante, e Harry olhou com curiosidade a borboleta marrom, quase dourada. Em suas asas havia manchas brancas e negras, que o fizeram pensar em olhos, e ele a olhou com atenção, quando ela pousou no nada a sua frente.

E os olhos piscaram.

E Harry recuou, assustado, se dando conta de que a borboleta na verdade era um rosto. E a penumbra agora o deixava ver que ele estava em uma sala conhecida, mas não familiar, deitado sobre alguém igualmente conhecido. Um rosto negro, bonito e... ausente.

- Zabini? – Harry perguntou, ouvindo a própria voz rouca, e tentando se afastar, mas ao abrir alguma distância entre os dois tórax, percebeu com desespero que não só estava sem camisa – assim como a de Blaise estava aberta, deixando-os em contato direto – como estava... Harry quis gritar, só não o fazendo porque parou imediatamente de respirar ao perceber o que, exatamente, estivera fazendo ali.

Blaise gemeu baixinho quando Harry os separou, se arrastando pelo chão para ganhar alguma distância do outro, e sentindo uma necessidade quase avassaladora de se cobrir. Zabini deixou as pernas caírem de lado, se movendo lentamente, entre gemidos baixos, até cair deitado no chão.

Os olhos de Harry corriam por tudo de forma desesperada, registrando o moreno jogado em um canto, um outro corpo mais além, parecendo no mesmo estado, o corredor que devia levar aos dormitórios cheios, a porta de saída, as varinhas no chão. Flashs do que acontecera à noite passada surgiam em sua mente de forma confusa. Lembrava-se de estar na sala de Snape, lembrava-se da mariposa, lembrava-se de transar com Draco, lembrava-se das ameaças de Zabini.

Precisava sair dali antes que alguém acordasse.

Não sabia que horas eram, não havia janelas na sala, mas ou as batidas de seu coração o estavam iludindo, ou sons de movimento começavam a vir de longe. Gente acordando. Gente que passaria por ali para tomar o café da manhã. Slytherins que não iriam ajudá-lo com o que aconteceu.

Harry se levantou cambaleante, sentindo suas pernas fraquejarem, e recolheu rapidamente as duas varinhas jogadas no chão, pensando vagamente onde estaria a sua. Com um gesto, fez as roupas dos três que estavam espalhadas pelo cômodo sumirem, antes de se abaixar ao lado de Draco, verificando que ele estava inconsciente, mas o pulso agitado e os resmungos e gemidos que ele soltou enquanto Harry lançava um feitiço de leveza e o tomava no colo o informaram que ele não estava em coma.

Harry saiu da Slytherin com o loiro nos braços, conduzindo Zabini semi-consciente com um feitiço à sua frente, abrindo a porta da sala de Snape com um chute para poderem entrar, a trancando logo após depositar Draco sobre um pequeno sofá velho que havia em um canto, e Zabini sobre a mesa onde estivera estudando na noite anterior.

Com as mãos ainda trêmulas e os olhos desesperados, Harry vasculhou a estante de poções que havia estudado quando procurava por respostas. Escolheu com pressa, mas um certo cuidado – consultando anotações de Snape -, três vidros diferentes, misturando os líquidos na proporção indicada, antes de levá-los até os lábios dos dois garotos. Blaise bebeu sem resistência, Draco não demonstrou reação, e Harry percebeu que, de alguma forma, o caso dele era mais grave, se deixando cair de joelhos ao lado do sofá onde o loiro estava, observando apreensivo o peito nu marcado por cicatrizes ir aos poucos se acalmando, recuperando o movimento de alguém em estado de sono, o que o fez suspirar em quase alívio.

Harry se sobressaltou ao sentir uma mão pousando em seu ombro, dando de cara com Zabini, e não conseguiu encará-lo. Sentou-se no chão, se afastando para que o moreno pudesse examinar Draco.

- Enervate! – Blaise lançou o feitiço no loiro e esperou alguma resposta. Aos poucos, os olhos cinzas piscaram, se abrindo devagar, e a face séria de Zabini se desanuviou um pouco ao ver Draco tentar se sentar no sofá.

- Merlin... – Draco resmungou, rouco, afastando os cabelos dos olhos, e olhou de Blaise para Harry, e daí para o lugar onde estavam. Zabini o questionou em silêncio e o loiro fez um aceno com a cabeça, indicando que estava bem. Blaise sentou-se sobre o braço do sofá, colocando os pés no acento ao lado de Draco, e ambos encararam Harry, que baixou os olhos imediatamente para o chão, suspirando.

- Eu... Eu... – sua voz falhava e ele não fazia idéia do que dizer. Não sentia medo, estranhamente, mas a culpa e a preocupação eram tão grandes que quase o sufocavam. De uma maneira quase infantil, Harry olhou para os dois, e disse baixinho – Eu não queria machucar vocês.

Draco bufou de forma descrente, e escondeu o rosto entre as mãos, mas Blaise se voltou sério para o moreno.

- Do quanto você se lembra, Potter?

- Muito pouco. – ele acenou negativamente com a cabeça, não conseguindo encarar os outros – Mas eu sei o que aconteceu e... – sua voz sumiu de novo, e ele engoliu em seco.

- Potter, escute. – Blaise o chamou, fazendo com que Harry olhasse vacilante para ele – Vamos deixar as coisas bem claras. Eu estou com muita, muita vontade mesmo, de quebrar a sua cara no máximo de pedaços possível, te enfeitiçar até o seu último fio de cabelo, te capar e pendurar no meio do salão principal para que todos saibam a merda que o Salvador é. Mas eu não posso fazer isso. E não é só porque surgiriam mais pessoas para te defender do que seria lógico, ou porque eu ache que você, só você, possa me fazer alguma coisa. Agora, eu tenho uma pergunta: você sabe por que eu não posso fazer o que eu quero?

Harry negou com a cabeça para o chão, se questionando vagamente sobre se realmente não mereceria tudo aquilo e quantas pessoas realmente o defenderiam se ele só afirmasse que não se lembrava. Nem Hermione estava mais ao seu lado.

- Porque você é um incubus, Potter. Você é tão burro quanto parece ou consegue saber o que é isso? – a cabeça de Harry se ergueu automaticamente ao som da palavra incubus e Draco também o encarou quando Blaise sorriu – É, você sabe. É esse o motivo, Pottinho, de você estar violentando as pessoas por aí. Você é um demônio do sexo. Um ser que invade quartos à noite seduzindo os outros em meio ao sono para se alimentar da energia deles. Você pode matar, como quase matou o Seamus, e só não matou o Draco porque pôde me usar também. Você não queria nos machucar? Eu acredito. Mas tem algo dentro de você que tem isso como premissa básica para a sobrevivência. Você, Potter, é um demônio.

Blaise falava com raiva, vendo o rosto de Harry passar de surpresa a medo, de medo a asco, de asco a angústia, de angústia a desespero. Quando sua fala terminou, os olhos verdes estavam presos de volta ao chão, o peito do menino estava agitado, a testa vincada e o rosto contorcido, como se as palavras o machucassem.

- Eu não vou comprar briga com um demônio, Potter. Ninguém vai ficar sabendo por nós, pode ficar tranqüilo. – e ele fez um aceno para Draco, o ajudando a se levantar, e os dois saíram da sala, deixando Harry sozinho.

Consigo mesmo.

oOo

Naquela noite de sexta feira, Hermione estava sentada na mesa na sala comunal da Gryffindor relendo seu dever de runas sem a mínima atenção. Estava profundamente preocupada, e não sabia o que fazer.

Ela nunca, desde que o conhecera, se lembrava de ter virado as costas para Harry. Já ficaram períodos brigados, sem se falarem direito, mas a decisão que se viu obrigada a tomar naquele começo do verão fora mais extrema do que isso. Não era somente não se falarem, era se evitar, não cruzar olhares, não trocar nenhum tipo de contato.

Porque ele a magoara.

Demais.

Mas agora, algumas semanas depois de tudo, aquela mágoa de certa forma assentara. Ela ainda não se sentia à vontade para falar com Harry, mas ele estava com algum problema, isso era óbvio. Ele estava ausente, parecia acuado, isolado de todos. Ele não estava bem.

E viera pedir sua ajuda.

E ela negara.

Hermione debruçou a cabeça sobre o pergaminho e respirou fundo. Se ela não conseguia simplesmente não se preocupar com ele, se ele visivelmente precisava dela, será que não era melhor simplesmente conversarem e...

... tentar esquecer tudo?

Hermione fechou os olhos, revendo com quase clareza aquele dia na cozinha da Toca. Pensando bem, Harry já estava estranho naqueles dias. Estava agitado, ansioso com algo ou nada específico. Ela achava no começo que aquele tipo de comportamento dele era devido aos acontecimentos logo depois da guerra, de ter que se adaptar a um novo contexto, a uma nova vida, criar novas perspectivas, se permitir respirar... E a esta se seguiram outras justificativas para o comportamento de Harry, e, no entanto, eles já estavam quase em outubro e ele não melhorava.

Aliás, piorara.

Na época da discussão, ela pensava que aquilo era devido ao namoro com Ginny, recém reatado. Ele não estava se sentindo à vontade com a garota, e ela podia ver isso em cada gesto dele quando estavam juntos. E Ginny também, e vinha falar com ela, cada dia mais triste com as atitudes de Harry. E quando Harry também a procurou, Hermione sabia o que dizer. Se eles não estavam bem, não havia porque ficarem juntos, não importava o que o Ron ou a Sra Weasley achassem disso.

O que se seguiu a essa opinião foi a discussão mais surpreendente em que ela nunca sonhara se envolver.

Naquele fim de tarde, Harry estava... frio. Ela achou no início que era só tristeza pelas coisas com Ginny não estarem bem, mas não era. Era frieza, e mais nada, o que havia nas íris verdes quando elas se voltaram para ela. E foi em uma voz baixa e controlada que ele a perguntou se se separaria de Ron. Se aceitaria viver sozinha. E quando ela disse que era diferente, o pior sobreveio.

Foi na mesma voz baixa que Harry disse que não queria conversar. Mas Mione estava com medo, não queria que o amigo se distanciasse daquela forma, não queria aquela frieza. E era medo também que sentia naquelas palavras. Ele aceitaria viver sozinho.

"Harry, eu não quis dizer...", ela já não se lembrava do que quis dizer. Lembrava-se da forma como Harry a olhou. Uma forma vazia e ao mesmo tempo muito mais quente do que deveria ser. Do frio extremo ao calor. Ela se assustou. E ele simplesmente se levantou, em silêncio, lhe dando as costas.

Amigos não devem dar as costas uns aos outros. E ela vasculhou a mente entre culpa e ansiedade por ter dito algo errado. E não encontrou nada. Então por que Harry lhe dava as costas? Ele estava com problemas, e ela estava ali. Ela sempre esteve ali. E ele precisava saber disso.

Foi com esse pensamento que ela o impediu de sair da cozinha. Foi com esse pensamento que tentou retomar a discussão. Foi com a idéia de que não podia deixá-lo sozinho que gritou para ele que ele não tinha o direito de virar as costas para ela, porque ela oferecia ajuda, e tudo o que ele fazia era se afastar.

"Você não pode administrar minha vida, Mione! Me deixa!"

"Me deixa"

Era um pedido simples. Talvez um desabafo. Talvez algo não tão profundo quanto o baque que ela sentiu com aquelas palavras. Elas tocaram algo no seu orgulho. Ela só queria ajudar. Ele queria que ela o deixasse. Tudo bem, ela deixou. Não seu amigo. O Harry que ela conhecia desde os 11 anos não falaria com ela daquele jeito. Mas ela deixou o homem naquela cozinha. Aquele não era o Harry.

Aquele Harry não foi o mesmo que veio lhe perguntar o que lhe dissera de tão grave no dia seguinte, porque ele dizia que não se lembrava.

Não podia ser o mesmo Harry. O mesmo Harry que dividiu uma barraca com ela durante quase um ano. O Harry que não tinha medo de morrer pelos amigos.

O mesmo Harry que os boatos do colégio diziam que havia deixado Seamus em coma.

Hermione fechou os olhos com força, sentindo-se mais cansada do que deveria para o começo do primeiro ano letivo sem medo que tinha em sua vida. O último ano em Hogwarts, o primeiro sem Voldemort.

Ela queria poder aproveitar aquilo ao lado dele.

A menina sorriu triste quando Ron sentou-se ao lado dela, a abraçando. Ele não se abalou quando ela contou a conversa com Harry. Talvez o que estruturasse a amizade dos dois fosse diferente do que estruturava a sua amizade, mesmo eles sendo por tanto tempo um trio.

- Tudo bem? – Ron perguntou, baixinho.

- Estou preocupada com Harry. – ela confessou no mesmo tom, se aconchegando melhor em seu abraço.

- Eu também. Ele sumiu o dia todo... Acho que a última vez que ele esteve por aqui foi ontem à noite...

- Ron. – Hermione se virou para olhar para o namorado – Pega o mapa, eu quero falar com ele.

Ron olhou a namorada e acenou com a cabeça, sabendo o quanto aquilo significava. Desvencilhou-se dela e subiu para o quarto, não precisaria remexer as coisas do amigo, bastava um feitiço convocatório e o Mapa do Maroto os levaria até ele.

Hermione suspirou, recolhendo o material de cima da mesa, não estava com cabeça para estudar, e já estava tarde. Levantou os olhos para verificar que o salão comunal já estava quase vazio, quando a porta se abriu, e uma figura cambaleante entrou, chamando sua atenção.

- HARRY! – ela gritou, aflita, ao ver o estado do amigo. O garoto a encarou, incerto, seus olhos estavam inchados e vermelhos, os óculos tortos no rosto, o cabelo mais bagunçado do que nunca, a camisa e a calça pareciam ter sidos pisoteados, e não havia sinal da gravata, capa ou material.

Ela andou inconscientemente em direção a ele, e a surpresa quando ele simplesmente jogou os braços em torno de seu pescoço e se deixou cair de joelhos no chão foi tanta que ela simplesmente foi junto. E não se conteve em abraçá-lo com força quando ele começou a chorar, como ela não o via chorar desde os seus catorze anos, depois de ver a morte de Cedric. Mas agora, parecia muito mais dolorido, e mesmo magoada, ela quis chorar junto. E mal notou quando Ron voltou, afastando os curiosos, porque a voz trêmula de Harry iniciara um mantra contra seu ombro.

- Eu não sou um monstro. Eu juro que não, eu não sou. Mione, eu não sou um monstro...

E Hermione soube que precisava tirar o amigo dali.

-:-:-

NA: Meu pai! Vocês não vão acreditar! Eu consegui terminar meus trabalhos!!!

Trabalhei até no dia de natal, mas agora está tudo pronto, só faltam umas duas ou três revisões antes de entregar pra eu poder voltar a ser uma pessoa feliz e escrever e postar demônio e minhas outras fics como se deve.

Desculpem, pessoas, mas sinceramente estou feliz demais por poder respirar melhor agora pra me sentir realmente mal por ter atrasado.

Só tenho mais um capítulo escrito, e só vou postá-lo quando tiver terminado o 6, por isso não vou estipular uma data, até para não ter que adiar depois, mas prometo que vem logo.

Não desistam, não pensem que eu desisti dela.

E comentem XD

Beijos