Capítulo 4
- Você diz Sato? Não. ele é só um substituto. Paul está de férias. Deve estar de volta na semana que vem.
- Oh, então ele não estava aqui ontem? Que conveniente – observou Grissom com ironia.
- Ele tem mesmo muita sorte, não é? Livrou-se desse horror! – Disse o maestro, sem notar a ironia do outro.
– Mas o que queria com ele?
- Ele era o namorado de Martha Russel, não?
- Martha era muito independente, para se prender a namorados. Não, Paul era um acompanhante ocasional – declarou o maestro- Esses modernismos... você sabe...
Grissom não sabia se entendia, ou não. O que sabia é que a ausência de Paul, na orquestra, naquele momento, era muito suspeita. Olhou na direção de Sara e a viu conversando com Lafayette. Este estava muito próximo da moça e muito insinuante. Grissom não gostou. Aproximou-se dos dois:
-Que foi?
- Estava dizendo a Sara, que ela está particularmente, bonita hoje – Disse Lafayette, todo galante.
Grissom não gostou. Apesar de ele parecer prestativo e divertido ele tinha alguma coisa que não lhe ia bem. O ex-CSI não sabia o que era, mas, aquele sujeito não lhe passava direito pela garganta.
Sara sentia o mesmo em relação a Allyson, muito educada e simpática, mas pouco confiável. Ela já tinha trabalhado num time e sabia que você tinha que poder confiar sua vida ao parceiro. E ela não confiava nem o dedo mindinho a ela; quanto mais sua vida.
Ela via desgostosa, que não adiantara ter falado com a ruiva na noite passada: ela continuava a se insinuar para Grissom, quase esfregando o conteúdo voluptuoso daquele decote, na cara distraída dele.
Era distraído, mas não estava morto, que diabo! Uma hora iria perceber e sua reação seria imprevisível.
Sara detestava esse estratagema. Era da opinião que as mulheres, deviam mostrar seus cérebros afiados, em vez de seios volumosos. Tudo tinha sua hora e seu lugar.
A turma de Boston investigando, descobriu que fora Paul que comprara o material da bomba.
- E, quando esse Paul volta das férias? – Perguntou Grissom ao capitão Ramos.
- Na segunda!
- Bom, bom! Ainda estaremos aqui! Saberemos o motivo...
- Qual acha que seja, Grissom? – Perguntou Lafayette
- Sinceramente? Não faço a mínima idéia! – E fechou a cara, afastando-se.
- Que há com ele?- Indagou Lafayette.
- E eu é que sei? – Respondeu dando de ombros, o capitão Ramos.
Pegando o braço de Sara, voltaram ao hotel. Na portaria, um funcionário o chamou e entregou-lhe um envelope amarelo. Grissom levantou a sobrancelha, era de Harvard? O rapaz não soube lhe responder; achara o envelope sobre o balcão, quando chegara, para cumprir seu turno. No seu entender, poderia ser de qualquer um. Ficou impaciente:
-Vai aceitar ou não?
- Sim, vou... Deve ser da Universidade...
Grissom alcançou Sara no elevador. Entraram. Ela perguntou o que o rapaz queria. A resposta foi curta.
- Me entregar esse envelope.
- E de quem é?
- Não tem remetente.
- Bem, e o que contém?
- Não sei, ainda não vi. – Respondeu ainda mais lacônico.
Sara achou mais producente, mudar de assunto.
- Vai sair à tarde comigo?
- Às compras? Não! Não aprecio isto e acabaria por aborrrecê-la... Além disso, tenho uns testes pra corrigir...
- Está bem, faça o que achar melhor!
Depois do almoço, ela saiu e ele dedicou-se a corrigir os testes Acabou mais cedo do que esperava. Ligou a tv, olhou rapidamente os canais e não se interessando por nenhum programa, desligou-a. Começou a reler o jornal, e logo ficou entediado.
Lembrou-se então do envelope amarelo. Foi buscá-lo e abriu-o. Ele continha fotos. Péssimas fotos: coisa feita por quem tinha muita pressa, de que aquelas fotos, chegassem logo às mãos dele.
As fotos eram do dia anterior, pois Grissom reconhecia o casaco verde-musgo, da mulher. Sim, era Sara quem aparecia nas fotos, junto com Lafayette, entrando num motel. O que Grissom sentiu, quando viu Sara ao lado de outro?
Obviamente, não ficou satisfeito; não apreciava ver ninguém, ao lado dela, mas não pensava numa traição, seria um atitude muito reles, muito vulgar, que não achava própria da esposa. Eles tinham uma relação muito honesta, muito franca, para tal.
Mas, não tinha como negar: Sara andava insatisfeita, ultimamente. Já se queixara com ele. "Será?", balançou a cabeça. "Não, Sara não seria capaz disso!". Voltou a se acalmar, mas por um instante, o ciúme apareceu e uma dúvida plantou-se em sua cabeça.
"E se?" Sacudiu novamente a cabeça. Precisava mandar esse pensamento para longe. Precisava ser o homem observador e crítico de costume, para pensar com clareza.
A quem interessava plantar a discórdia e desconfiança entre eles? Quebrou a cabeça pensando e chegou a uma conclusão: Lafayette.
Claro! Quem mais ganharia com isso? Quem estivera cercando Sara de olhares cúpidos?
Pensou muito nos recentes conhecimentos: Stewart estava muito envolvido com o próprio mau humor, para notar alguém, e depois, mal a cumprimentara; Ally não tinha interesse em Sara: o Capitão Ramos era bem o oposto, ou seja, era Sara quem não gostava dele e não o contrário...
Estava ficando cada vez mais difícil chegar a uma conclusão... A porta então se abriu e Sara entrou, carregando umas sacolas e reclamando do cansaço.
Grissom não a deixou seguir muito adiante nas reclamações, agarrou-a pela cintura e deu-lhe um beijo prolongado, que bagunçou sua respiração.
- Que é isso, Gil? – Perguntou surpresa com a novidade.
- É um beijo, oras..- Grissom tratou de responder indiferente, embora ele inteiro, fosse um reboliço de emoções.
- Eu sei o que é. Afinal não faz tanto tempo assim... Quis dizer, porque agora?
- Preciso marcar hora para beijar minha mulher agora? - Ele se irritou.
-Não mas...
- Eu te amo, Sara!
E atirou-se sobre ela com uma certa volúpia, envolta em tristeza; fez amor desesperado, como se de repente, ela fosse se evaporar no intuitiva, Sara notou que havia algo errado, com ele.
Mais tarde saciada, recostada em seu peito, ela puxou assunto. Como quem nada quer, ela perguntou:
- O que aconteceu hoje. Gil?
- Quando fazíamos amor?
- Sim... Você estava tão estranho...
- Impressão sua, querida. Eu continuo o mesmo de costume. - Respondeu meio incomodado.
- Não continua, não! Depois de um tempo, uma mulher conhece seu homem pelo avesso.
- Sei... Você não gostou então?
- Está brincando?
- Então não gostava antes?
- PARE COM ISSO, GILBERT GRISSOM! Você está me deixando tonta!
- Não tenho culpa da sua irracionalidade.
Ela que já havia levantado do peito dele, enrolou-se no lençol e saiu da cama, num ímpeto, deixando-o nu e descoberto.
– Você é um homem impossível de se discutir... - E dirigiu-se ao banheiro.
Grissom estava aliviado. Contar que estava enciumado, era o mesmo que dizer que desconfiava dela, e aí sim, ela ficaria brava pra valer. Ele não desconfiava dela. Mas outra vez, sentiu aquela sensação de perda. O antigo temor estava mais vivo do que nunca e ficava assombrando-o.
Seria tão mais fácil perguntar o que Sara estava fazendo naquele motel, com Lafayette? Questionada assim, diretamente, ela não se furtaria a uma resposta simples e direta. Mas naquela ocasião, o lema de Grissom parecia ser: "Para que simplificar, se você pode complicar".
Segunda-feira chegou muito rápido, e Grissom queria conhecer Paul O'Hara. Não negava que estava curioso, em saber a motivação daqueles crimes. Não pareciam ter razão nenhuma, o que por si só, já instigava a imaginação de Grissom. As evidências estavam ali, irrefutáveis. Mas por quê?
Ele compareceu sozinho à delegacia. Sara não quis acompanhá-lo. Não dava a mínima para o caso. Já que o marido se mostrava tão interessado; ele que fosse!
O Cap. Ramos estava a postos no Conservatório; assim que Paul O'Hara pusesse os pés lá, se reintegrando à orquestra, seria preso. Grissom esperava há 15 minutos na delegacia,por Ramos e O'Hara. Nesses minutos ficou pensando se Sara recusara a acompanhá-lo, porque estaria aos beijos com o amante no motel. Sacudia a cabeça: "Não, Sara! Ela não faria isso" Por outro lado, ela andava insatisfeita.." E assim se atormentou até a chegada de Ramos e do preso.
Enquanto isso, no hotel, Sara atendeu a um mensageiro do hotel.
- Para a senhora – Estendeu um envelope amarelo com uma mão e continuou com a mão distendida, aguardando uma gorjeta.
Ela vasculhou o bolso da calça de lã, e deu-lhe uma moeda de um dólar. Perguntou-lhe quem mandou.
- Não sei, não! O gerente mandou entregar para a senhora.
Sara olhou o envelope e franziu a testa: "não tem remetente como o que Grissom recebeu! Que estranho!". Fechou a porta e foi ver o que continha. Rasgou o envelope e viu que tinha umas fotos aparentemente de Grissom em poses atrevidas com Aliysson. Por um instante, ficou vermelha e brava. Depois, pensou que ele jamais teria aquela atitude em público. Era sua mulher, poderia afirmar isso.
Pegou então uma lupa e pôs-se a esquadrinhar as fotos. Depois de algum tempo, viu que o casacão preto, era muito parecido com o de Grissom, mas a lapela e o bolsinho de cima, eram diferentes. Além do que, a cabeça era de Grissom, mas o corpo, não. Tratava-se de uma montagem. Muito bem feita, mas uma montagem! E ela tinha o original, para saber as diferenças
Aí ela pensou se ele não teria recebido isso também, e se sentiu envergonhado em dizer-lhe, com receio da reação dela. Sorriu ao imaginar o rosto infantil do marido.
Tomou uma atitude então, que nunca tinha tomado: vasculhou as coisas de Grissom à procura do tal envelope. Sabia que ele não ficaria nada feliz com aquela invasão de privacidade.
"Quem manda esconder coisas da esposa", pensava Sara, ainda com um sorriso nos lábios, pegando a mala que continha roupa suja. Remexendo nas roupas, achou o envelope e viu seu conteúdo. O sorriso foi morrendo em seus lábios, assim que ela se reconheceu nas fotos.
Grissom não havia contado a ela, não por timidez, mas por desconfiar dela. Isso, também explicava o porquê, dele estar tão desesperado, ao fazer amor. Ela não tivera uma falsa impressão: tinha uma coisa muito errada naquela ocasião, ele desconfiara dela.
"Como ele ousou duvidar de mim?", murmurou entre dentes. Estava profundamente irritada com o marido. "Eu não merecia isso Gil! Como você pode duvidar do meu amor?".
Vestiu seu casaco verde musgo e saiu.
