Capítulo 3
Shifting gears

Na manhã de sábado, Draco acordou mais cedo do que planejava. A conversa com Andrômeda no dia anterior permanecia fresca em sua cabeça. Seu emprego no hospital estava garantido, mas aparentemente poucos estavam felizes com sua presença.

Sua tia tivera toda a paciência possível explicando-lhe como as coisas funcionavam. Um plantão, um dia de folga, um dia de meio período. As consultas aos pacientes deviam ser marcadas com antecedência, mas a prioridade eram as emergências. No fim, a única coisa que estava realmente clara para o loiro era que ele era o único médico pediatra da cidade. Ao expressar sua dúvida, Andrômeda o observou por alguns segundos antes de falar.

- Não há muito que eu possa lhe falar agora, Draco, mas não, você não é o único pediatra nesse hospital. O que eu vou pedir a você é que aja como se fosse. Atenda o maior número de pacientes que puder, tire-os das mãos dos outros.

- Por quê?

- Porque eu estou lhe pedindo. No momento, isso é tudo o que eu posso dizer e eu espero que seja motivo suficiente.

E para Draco era um motivo mais do que suficiente. Sua mãe havia pedido a Andrômeda que desse essa chance a ele. Andrômeda, por sua vez, já havia dito o quão incomum era para ela fazer as contratações – outra coisa que o loiro não entendeu, mas preferiu não questionar. Se Andrômeda não confiava em outros médicos e queria Draco no lugar deles, que assim fosse então.

Agora ele tentava não pensar muito no assunto, para que isso não gerasse mais dúvidas e mais perguntas. Sendo assim, Draco pegou o jornal da manhã, o qual repousava sobre o tapete da porta da frente, e pôs-se a preparar uma xícara de chá.

Enquanto a água fervia, o loiro olhava a redor e torcia o nariz para os móveis velhos e enfadados. Se ele se programasse bem, talvez fosse possível mudar as coisas por ali antes de começar a trabalhar no hospital.

Tentando recordar as lojas pelas quais passara enquanto estivera no Centro, Draco não conseguiu lembrar-se de nenhuma decoradora ou algo desse tipo. Talvez ele devesse perguntar para alguém que morasse ali há mais tempo. E esse pensamento havia acabado de cruzar sua mente quando a campainha tocou.

- Bom dia, Draco! – Neville desejou com um sorriso amigável.

- Neville? Eu não o esperava aqui hoje. Eu não sabia que você trabalhava no final de semana. Não há necessidade disso.

- Se eu não estiver aqui, eu estarei na loja. – Ele deu de ombros. – Então é melhor que eu esteja aqui, para assim terminar mais rápido.

- Hm. Tudo bem. – O loiro assentiu e abriu mais a porta para dar passagem ao outro rapaz e uma moça loira que o seguia de perto.

- Essa é Luna Lovegood. Ela veio me ajudar. – Neville apresentou rapidamente. – Luna, esse é Draco Malfoy.

- Prazer, Draco Malfoy. – Luna sorriu simpaticamente e passou a olhar ao redor com olhos sonhadores. – Móveis interessantes, esses que você tem.

- Pode ficar com eles pra você, se quiser. – Draco disse após uma risada nasal. – Estou precisando de uma decoradora, vocês por acaso conhecem alguma?

- Ah, claro. Fleur Delacour. Ela tem uma loja no Centro. – Neville contava por sobre o ombro enquanto se dirigia ao quintal. – Se você for à loja dela, pergunte por ela e diga que conhece Bill Weasley.

- E quem é Bill Weasley?

- O marido dela. Se você disser que o conhece, ela lhe dará o melhor atendimento possível.

- Não seria mais fácil eu dizer seu nome? – Draco perguntou, levantando uma sobrancelha.

- Você pode até fazer isso se quiser, mas eu duvido que ela lembre quem eu sou, e caso lembre, isso não fará com que ela lhe trate de maneira especial. – Neville agora já mexia em um canto do quintal.

- Tudo bem, então. – O loiro assentiu, ainda sem muita convicção, e retirou-se.

Àquela altura a água já havia fervido e Draco terminou de preparar seu chá com leite e açúcar, aproveitando para comer um dos bolinhos de maçã e canela que havia comprado enquanto lia o jornal.

ANTIGA LEI REAPLICADA

Na tarde de ontem, 28, fora anunciado pelo próprio prefeito que uma lei antiga está voltando a ser aplicada.

Após reuniões com os advogados Cedric Diggory e Ginevra Weasley, a reaplicação da lei foi votada. "Enfim conseguimos fechar o caso do casal que se divorciou e brigavam pela posse do terreno no qual moravam juntos no Interior de Little Aiming", explica Ginevra Weasley. Ainda sobre este assunto, Cedric Diggory comenta "O terreno ocupado pelo casal não estava regularizado, causando complicações quanto à divisão dos bens decorrida após o divórcio.".

Os votos positivos decidiram que o terreno e/ou propriedade que não estiver regularizado a partir das normas legais passa automaticamente a pertencer à prefeitura, sendo então manejada como os espaços desocupados.

A partir do dia primeiro haverá um guichê no terceiro andar do prédio da prefeitura com informações especialmente sobre a regularização das propriedades, seja ela uma casa na Cidade, uma loja no Centro ou um terreno no Interior.

Franzindo o cenho, Draco levantou-se da mesa e seguiu em direção ao quintal. Neville estava com mãos literalmente enfiadas na terra enquanto Luna tinha uma dúzia de minhocas na palma de sua mão.

- Neville! Você sabe quem é Ginevra Weasley? – Ele perguntou.

- Oh, claro. Ela mora no mesmo prédio que eu e é irmã de Bill. Por quê?

- O nome dela está no jornal. Você por acaso também conhece Cedric Diggory?

- Cedric? – Neville riu. – Mas é claro! Grande amigo meu. De metade da cidade até, talvez. Também mora no mesmo prédio que eu, no Centro. Você o conhece?

- Sim, o conheci poucos dias depois de chegar a Little Aiming. – Draco explicou.

- Ah! Mas é claro! Era de você que ele estava falando um dia desses, então. – Neville contou, ainda com as mãos na terra. – Não foi você quem ele levou para comer a cesta de bolinhos no Centro?

- Oh, sim.

- Maravilhosos, não são? – Neville perguntou, mas sem realmente esperar uma resposta. – Quem os faz mora logo aqui do lado. Lily Potter.

O estômago de Draco pareceu afundar mais do que nunca e sua respiração ficou presa em sua garganta. Ele devia saber, é claro. Quem mais seria capaz de fazer algo que o lembrasse de Harry daquela forma? Tinha que ser sua mãe, Lily.

Desde que voltara, Draco havia apenas visto a mulher de costas. Seus cabelos ruivos eram algo que ficara nas lembranças do loiro, mas não tanto quanto seus olhos verdes, como os de seu filho.

- Você devia falar com ela. Eu garanto que comprar direto com ela é mais barato do que ir até o Centro. – Neville riu, voltando a se concentrar no que fazia antes.

Draco voltou para o interior da casa um pouco desnorteado, sentando-se na mesma cadeira onde estava antes e bebericando seu chá de maneira automática. Definitivamente, ir falar com Lily era uma péssima ideia. Draco gostava de acreditar que ela não sabia que ele estava em Little Aiming.

Era pouco provável que ela não já soubesse, mas para Draco, pensar que Harry sabia sobre sua volta e mesmo assim o ignorava era mais doloroso do que ele podia suportar.

Antes da hora do almoço, Draco resolveu ir ao Centro. O loiro perguntou para Neville a localização da loja de Fleur Delacour e seguiu até lá. Não fora difícil encontrar o local, já que a loja, além de ser a maior da rua, era a única a qual se apresentava com tons diferentes de azul.

Uma jovem loira o atendeu assim que Draco adentrou a loja. Ela se apresentou como Gabrielle e, quando o loiro pediu para falar com Fleur, revelou-se sua irmã, logo em seguida pedindo licença e retirando-se para chamá-la.

Fleur Delacour era igualmente loira, os cabelos compridos e lisos caindo pelas suas costas em cascata, brilhando e cegando quem ousasse olhá-lo diretamente. Um sorriso forçadamente simpático adornava suas feições delicadas e fechava levemente suas pálpebras sobre seus olhos azuis.

- Bom dia, senhor. – Fleur desejou com um sotaque francês carregado. – Como posso ajudá-lo?

- Meu nome é Draco Malfoy, um conhecido de seu marido, Bill, e fui informado sobre o maravilho serviço que é prestado por uma senhorita de nome Fleur Delacour. Foi-me dito que eu deveria pedir para vê-la caso precisasse de alguém competente.

- Eu posso garantir-lhe, Sr. Malfoy, que qualquer funcionário seria competente o suficiente para atendê-lo, mas qualquer amigo de meu marido é amigo meu. Sendo assim, estarei mais do que feliz em eu mesma atendê-lo.

Draco sorriu diante o quão cordial Fleur era. Em momentos como esses o loiro não podia evitar lembrar-se de sua mãe, que sempre presava bons atendimentos e profissionais competentes. Desde pequeno Draco aprendera a lidar com pessoas competentes e reconhecer logo as incapacitadas.

O que sobrara da manhã passara num piscar de olhos enquanto Fleur e Draco passeavam pela loja e discutiam gostos e ideias. Após escutar e compreender cada ideia que Draco tinha em mente, Fleur mostrou diferentes modelos, cores, espessuras e estruturas de móveis.

Várias vezes a loira elogiara o bom gosto de Draco e garantira alcançar todas as suas expectativas. Mentalmente ele dera todo crédito a Narcissa, é claro, mas ele fez apenas um sinal indiferente e agradecia com toda a educação que lhe fora dada.

- De onde você conhece meu marido? – Fleur perguntou quando Draco estava tentando decidir qual seria a tonalidade de bege das novas poltronas da sala de estar.

- Oh, nós tínhamos um amigo em comum e ele nos apresentou. – Draco improvisou.

- Um amigo em comum? – Ela inclinou a cabeça levemente.

- Neville Longbottom.

- Ah, mas é claro! Neville é sempre muito adorável. Ele e Luna formam um casal perfeito. – Fleur divagava enquanto Draco prestava pouca atenção ao que a loira falava. – Você conhece outros amigos de Neville? Os que moram na República?

- Hm... Cedric Diggory.

- Cedric, é claro! – A loira riu baixinho. – Sempre tão gentil. Bill não gosta da forma como ele é sempre tão charmoso quando eu estou por perto, mas é mais fácil ele tentar seduzir Bill do que a mim.

Draco observou Fleur rir novamente e recuperar sua compostura no segundo seguinte, olhando para ele com uma expressão séria.

- Me perdoe, Sr. Malfoy. Eu não deveria estar falando sobre coisas pessoais. – Ela disse mais como se repreendesse a si mesma do que como se pedisse desculpas de fato.

- Não tem problema. – Draco garantiu. – Acho que já terminamos por aqui, de qualquer forma.

- Pois não. Todos os móveis serão enviados para sua residência durante a semana e, caso seja sua vontade, os antigos serão retirados. – Fleur havia recuperado o tom profissional em sua voz.

- Tudo bem.

- Para evitar transtornos, nós o avisaremos o dia da entrega.

- Agradeço. – Draco assentiu.

- Não há por que agradecer, Sr. Malfoy. Eu que agradeço pela escolha de nossos serviços e pela paciência.

E Fleur continuou falando até fechar a porta atrás de Draco, quando ele já estava do lado de fora. O loiro suspirou um tanto quanto aliviado e virou-se para descer a rua, mas deu um encontrão em outra pessoa no processo.

- Oh, me desculpe. – Ele se desculpou para só então perceber quem era a figura de terno à sua frente. – Cedric!

- Draco! – Cedric deu um de seus muitos sorrisos galantes. – Estava na loja da Fleur?

- Estava. – Draco assentiu. – Eu precisava trocar os móveis da casa, já estavam muito antigos, e Neville me indicou a Srta. Fleur Delacour.

- Ah, você conhece Neville?!

- Ele está tentando reinstaurar o quintal da minha casa. Está lá agora mesmo com Luna, que eu acabei de descobrir que é namorada dele.

- Casal excêntrico, não é? – Cedric riu.

- Extremamente. – O loiro o acompanhou e passou a mão no ombro do mais alto, tirando uma poeira inexistente. – E para onde você vai vestido desse jeito?

- Trabalhar, é claro. – Ele alinhou sua gravata, ainda sorrindo. – Eu estou trabalhando, na verdade. Tenho um cliente na outra rua.

- Eu não sabia que estava te atrapalhando, me desculpe. – Draco saiu do caminho de Cedric.

- Você não quer tomar alguma coisa comigo hoje à noite? – Cedric sugeriu.

- Parece ótimo.

- Eu vou escolher o lugar e falo com você depois.

- Até mais tarde, então. – O loiro acenou um adeus e deu às costas.


Pela janela do quinto andar da República se era possível enxergar o agito da noite do Centro, principalmente por ser sábado. Harry já estava pronto para ir ao bistrô do final da rua com o resto do pessoal e ainda alguns outros da República II e III.

Snuffles, que havia sido deixado na casa de Harry por Sirius antes do mais velho pegar o trem para Londres, onde ele permaneceria durante a semana, começou a latir assim que a primeira batida na porta soou.

O moreno de olhos verdes mal havia aberto a porta e pelo menos uma dúzia de pessoas adentraram seu apartamento. Ele olhou ao redor para encontrar Hermione discutindo com alguém no telefone enquanto Ron mantinha as mãos nos bolsos da calça, como se não tivesse nada no mundo com que se preocupar.

Harry lançou um olhar questionador ao amigo ruivo, mas Ron apenas deu de ombros, murmurou algo como "organização do casamento" e Harry quase riu. Estava obvio que Hermione estava à beira de ter um colapso nervoso, mas seu noivo não poderia estar menos ciente disso.

No segundo seguinte, braços fortes envolveram a cintura de Harry e um peitoral definido encaixou-se perfeitamente em suas costas. O perfume de Oliver invadiu seus sentidos e Harry sorriu ao receber um beijo na bochecha.

- Harry, nós estávamos conversando agora no elevador sobre como nós nunca mais fomos ao clube... – Seamus começou, mas logo foi interrompido.

- Sirius está em Londres, se quiserem ir, vão ter que pagar a entrada. – Harry explicou.

Seamus de repente pareceu extremamente nervoso e assentiu com mais força que necessário. Harry o encarou com uma interrogação nos olhos, mas o outro rapaz apenas baixou a vista para os próprios pés.

- Onde está Cedric? – Blaise perguntou confortavelmente sentado no sofá de Harry.

- Foi buscar o novo acompanhante dele. – Dean respondeu e revirou os olhos. – Ele vai nos encontrar no bistrô, assim como Cho, Lavender, Fred e George.

- Ótimo, vamos indo, então. – Oliver disse próximo ao ouvido de Harry.

O mais alto soltou Harry do abraço onde ele o segurava apenas para pegar sua mão e entrelaçar seus dedos. Hermione desligou o telefone com um grunhido e levantou o queixo com certa insatisfação no olhar.

- Está tudo bem, Hermione? – Harry perguntou por sobre o ombro enquanto eles seguiam até o elevador.

- Tudo maravilhoso. – Ela respondeu e murmurou alguns impropérios baixo demais para que os outros ouvissem.

Como esperado, o bistrô tinha fila de espera para as mesas. A sorte deles era conhecerem Cedric, que parecia conhecer todo mundo em Little Aiming e uma palavra dele abria muitas portas. Enquanto esperavam o amigo, todos se sentaram ao bar. Ou pelos menos alguns se sentaram, já que eles eram muitos no total.

Harry estava sentado em um dos bancos altos e havia acabado de pedir uma cerveja. Oliver encontrava-se de pé à sua frente, seus dedos ainda entrelaçados e contava algo sobre ter treino no dia seguinte quando Harry olhou por cima do ombro do rapaz para ver o mais lindo par de olhos azul-acinzentados retornando para sua vida.

Sua mão escorregou da de Oliver assim como a garrafa de cerveja, quebrando-se em mil pedacinhos ao chão e espalhando o líquido por todo o chão de azulejo escuro.

Algo em seu peito contraiu-se com tanta força que ele achou que iria morrer sufocado. Seu coração parecia ter falhado dezenas de batidas, ou talvez tivesse parado de vez.

Foi nesse momento que Oliver virou-se para ver o motivo da reação de Harry e de repente eram apenas Harry e Draco, ao que o loiro entrou perfeitamente em sua linha de visão. As íris cinza trancaram-se com as verdes. Ele podia ver que Cedric estava falando com ele, mas tudo parecia estar no mudo. Então Draco sorriu e isso pareceu quebrar seu torpor.

Com um pulo Harry estava de pé e todos falavam ao mesmo tempo, as vozes mais altas do que deveria ser normal e um zunido insuportável alcançou os ouvidos do moreno. Ele queria gritar para que todos se calassem, mas Draco ainda estava sorrindo para ele, bem à sua frente.

Por alguns minutos ele achou que suas pernas cederiam, mas então ele já estava do lado de fora do bistrô, puxando o ar com tanto força que pareceu queimar suas vias nasais. Sua cabeça latejava e suas pernas tremiam violentamente. Era uma grande surpresa ele conseguir manter-se de pé.

Ele não percebeu, mas voltara a caminhar. Seu carro estava estacionado não muito longe, mas Harry pareceu ter se esquecido de sua existência. Então ele andou e andou, suas pernas reclamavam por todo o esforço, mas ele ignorou até se ver na frente da casa de seus pais.

Definitivamente a caminhada do Centro até a Cidade era longa, mas ele havia chegado sem nem se dar conta. Sua mãe abriu a porta com um sorriso feliz em seu rosto, que logo se contorceu em preocupação.

O moreno adentrou a casa e caiu no sofá sem responder as perguntas que lhe foram feitas e sem perceber a presença de outras pessoas no cômodo. Ele duvidava que fosse capaz de se levantar pelo resto do ano devido ao estado de choque em que todos os músculos de seu corpo pareciam se encontrar.

- Harry? – Soou a voz tranquila de Andrômeda. – Lily, querida, acho que uma xícara de café forte cairia bem.

- Não, eu resolvo isso. – James protestou e retirou-se por alguns minutos para retornar com um copo de vodca de pura. – Tome, filho.

Harry virou o copo sem realmente analisar seu conteúdo. O líquido desceu rasgando por sua garganta e a vontade de gritar pareceu se intensificar. O moreno levantou a cabeça para ver Andrômeda, Lupin, seus pais e os pais de Ron todos lhe demonstrando certa compaixão, o que o irritou mais ainda. De repente, algo clicou em sua mente.

- Vocês sabiam? – Ele mais exclamou do que perguntou, sua voz rouca. – É claro que sabiam! Mas acharam melhor não me dizer nada, não foi? Não passou pela cabeça de vocês que talvez eu fosse descobrir?

- Harry... – Molly tentou.

- Não! – Ele gritou. – Que merda ele está fazendo aqui? Por que diabos ele voltou?

- Talvez você devesse perguntar a ele, querido. – Lily sugeriu.

- Eu nunca mais quero olhar para ele! Eu quero que ele vá embora, porque essa parece ser a única coisa na qual ele é bom.

- Isso não vai acontecer, Harry. – Andrômeda disse seriamente. – Draco mudou-se de volta para Little Aiming.

Harry tropeçou para trás e recuperou seu equilíbrio no último instante. As palavras de Andrômeda o atingiram como um tapa. Não podia ser verdade. E em sua mente ele pedia, por favor,que não fosse verdade.

- Por quê? – Ele sussurrou e por fim gritou.

O grito rouco ecoou pela casa e no segundo seguinte o copo que ele tinha em mão era arremessado contra a parede. Cansado, Harry encostou-se contra a parede da sala e foi escorregando por ela até sentar no chão, escondendo o rosto nos joelhos. Pouco tempo depois o corpo de Harry estava tremendo com os soluços que lhe escapavam e o cômodo estava quieto.

Lentamente ele levantou a cabeça, lágrimas quentes ainda escorrendo por seu rosto, e não havia mais ninguém por ali. Pelo menos ele achava que não, até ver Lupin sentado ao seu lado.

- Uma parte de mim acreditou que você fosse ficar feliz quando descobrisse. – Remus confessou. – Era bom que Sirius estivesse aqui agora.

- Por que eu ficaria feliz? Ele acabou com minha vida quando foi embora. – Harry disse quando conseguiu controlar os soluços.

- Quando foi embora. Ele está voltando agora.

- Eu não vejo como isso melhora as coisas. Eu havia me acostumado a sentir a falta dele, havia parado de doer tanto, eu estava indo a algum lugar com minha vida. Então ele resolve voltar. – Mais lágrimas escorreram silenciosas.

- Já se passaram seis anos, Harry.

- E eu nunca fui o mesmo desde então.

Remus olhou para Harry intensamente. O homem que o professor conhecia havia se resumido ao fantasma de uma criança feliz. E o fantasma do qual Harry por tanto tempo tentara escapar estava bem à sua frente novamente, os olhos brilhando com lágrimas não derramadas, o peso de tantas decepções tornando impossível para ele levantar-se.

- Há algo que você gostaria de dizer para ele nesse momento, Harry? – Remus perguntou sussurrando.

- Eu disse tudo o que tinha que dizer a seis anos atrás e não adiantou de nada, então por que agora adiantaria?

- Como eu disse, já se passaram seis anos. As pessoas mudam, Harry. Elas crescem.

Sem dizer mais nada, Lupin levantou-se e recolheu os cacos de vidro maiores do chão, colocando-os cuidadosamente na palma de sua mão, seguindo para a cozinha em seguida, sumindo lá dentro e deixando Harry sozinho por fim.


Por muito tempo Draco criara todo tipo de situação em sua mente e no fim do dia sempre havia uma nova dúzia de reações as quais ele esperava de Harry quando eles por fim se reencontrassem, mas nada, absolutamente nada, o preparara para a expressão devastada que instalou-se no rosto do rapaz.

Enquanto Draco fazia seu caminho até o moreno, vários fios elétricos pareciam conectar-se a sua fonte, causando pura estática contra os ouvidos de Draco e a cada passo o sinal de possível sobrecarga parecia fazer o chão tremer como em um terremoto.

Algo começou a desmoronar no fundo das íris verdes de Harry e quando ele levantou-se, afastando-se de Draco como se houvesse levado um choque, as ondas elétricas foram formando ondas cada vez mais fracas e sensíveis, até partirem.

Enquanto ele subia as escadas de sua casa, ele ainda podia ouvir o zunido da sobrecarga de seus sentimentos. Agora ele se perguntava onde Harry estava, como ele estava se sentindo, no que ele estava pensando.

A única coisa da qual Draco estava certo quando caiu em sua cama era de que as imagens dos dedos de Harry entrelaçados aos de outro cara e a expressão no rosto do moreno estavam marcadas em suas retinas e se repetiam a cada piscar de olhos.

Draco grunhiu enquanto enfiava-se de baixo das cobertas, proibindo-se de fechar os olhos. Silenciosamente ele se perguntou por quanto tempo aquelas imagens o assombrariam.

As pessoas costumavam dizer que os Malfoy não tinham coração e naquele momento Draco desejou que aquilo fosse verdade. Assim como ele desejou nunca ter dado atenção às coisas que seu pai falava e ter ficado em Little Aiming.

18 de Maio de 2005

- Você vai se casar, Draco?

O loiro olhou para Harry e sorriu ao ver o reflexo do pôr do sol em seus olhos. Eles estavam sentados no deque, os pés descalços na água morna e a camisa do uniforme do colégio desabotoada até a metade. Em breve seria o fim e eles iriam para a faculdade.

- Não com as loucas que meu pai arruma. – Draco respondeu com sinceridade. – Mas tenho que admitir que a ideia de passar o resto da minha vida com uma mulher não me soa muito confortável.

- É um pouco assustador. – Harry concordou e encolheu os ombros, olhando para Draco. – Você não quer saber se eu vou me casar?

- Eu já sei que vai, Harry. – O loiro deu uma risada nasal. – Você vai casar com uma garota sem sal, ter pelo menos duas dúzias de filhos e um deles terá meu nome.

- Oh, dá próxima vez que formos fazer um roteiro sobre minha vida, me avise antes de ter tudo planejado. – Ele reclamou e deu um empurrão no outro garoto com seu ombro. – E o que te faz pensar que eu vou colocar um nome tão horrível quanto o seu em um filho meu?

- O seu amor por mim. – Draco respondeu com grande certeza em sua voz.

- Ah, mas é claro. – Harry revirou os olhos e em seguida suspirou. – Você pode ter o resto da sua vida planejada, Draco, mas eu não faço ideia de como vai ser pra mim quando terminamos o colégio. Você sabe que eu sou tão bom com garotas quanto eu sou com química.

- Eu não sei se vou casar e você não sabe o que fazer. – O loiro olhou novamente para o pôr do sol com ar pensativo. – Parece perfeito. Vamos comprar aquela casa branca do outro lado da rua e iremos morar juntos até eu não consegui mais olhar para sua cara.

- Parece uma oferta tentadora. – Ele riu. – Podemos ter um cachorro?

- Eu posso escolher a raça? – Draco olhou para ele novamente e de repente seu rosto estava perto demais.

- Fechado.

Harry estendeu a mão para Draco como em um gesto de quem fecha um negócio importante, mas o loiro preferiu selar seu acordo com um beijo. E Harry não iria reclamar.

Quando as íris cinza voltaram a observá-lo com intensidade, o sol já havia sumido no horizonte, o canto dos pássaros havia cessado e o vento uivava alto. Harry sorriu e juntou seus lábios novamente.

Eles tinham planos e tudo ficaria bem, tudo daria certo. Draco tinha certeza disso até chegar em casa e ser recebido por pastas e envelopes sobre as universidades de Londres. Sua mãe parecia agitada e seu pai não apareceu em casa por uma semana.

Quando Lucius por fim reapareceu, para o alivio de Narcissa e alarde de Draco, o loiro foi informado de que eles estariam indo para Londres e que ele estudaria direito em Oxford. Como muitas vezes antes, Draco não discutiu nem questionou, cometendo, assim, o maior erro de sua vida.


Não tive tempo de reler este capítulo, então peço desculpas por qualquer erro.
Obrigada pelos follows e favorites!