CAPÍTULO 07
Menos de duas semanas depois, a banda de Inuyasha tinha aumentado com seis moças e nove moços, e Agom tinha que usar mais flechas e, em consequência, mais tempo para conseguir carne suficiente para alimentá-los e que ficassem restos para troca. Desta vez levou quatro flechas, saudou com a cabeça ao grupo de jovens de aspecto mal-humorado e se foi. Fez-a deter-se que um deles a assinalasse com um gesto e depois se voltasse para os outros.
—Com esse terá problemas — disse ao Inuyasha, que a tinha acompanhado fazendo suficiente ruído para alertar a qualquer presa.
—Também vê o futuro? —perguntou ele.
Agom o olhou de soslaio. Ele levava um kilt, sem capa e sem feile-breacan. A parte superior do corpo levava coberta com um linho fino e, com a chuva cada vez mais intensa, tinha-o pego a todos os centímetros de sua pele. Ela o observou e cruzaram um olhar.
—Põe-lhe furioso minha habilidade e que Sango lhe desse foras ontem à noite — respondeu ela.
—Rechaça a todos, Agom. Só tem olhos para você. Quando vai fazer algo a respeito?
Agom se deteve e levantou uma mão.
—Caça ou bate-papo? Não podemos fazer ambas as coisas.
Inuyasha baixou a voz.
—Sango me ofereceu faz um par de noites sabia?
Os olhos de Agom flamejaram antes de poder ocultá-lo e notou, mais que viu, sua diversão.
—Não tomou? —perguntou ela.
—Disse-lhe que você me tinha advertido de que não o fizesse.
Agom franziu o cenho.
—Isso explica meus pasteizinhos — disse por fim.
—Está provando uma receita muito antiga, moço.
—De pasteizinhos?
—Não, a comida. Nenhum moço de sua idade se pode resistir à boa cozinha. Não sou o único que o notou. Engordou um par de quilos desde que se conheceram. Melhorou-te, embora se engordar um pouco mais o rosto, não saberei como manter a minha empregada, Maci, afastada de você.
Estava se referindo a sua última donzela, a quem tinha posto o apelido em um arrebatamento de otimismo. Seu rosto parecia uma torta plana com uma framboesa por nariz. Agom fez uma careta.
—Maci? —perguntou.
—Sim, Maci. Todas as garotas lhe receberiam encantadas em seu leito e como pagas você seus desejos? As ignorando. Nada fomenta mais o apetite. Se fosse capaz de deixar sua moral de lado e levar uma à cama, desfrutaria de uma boa queda, estou seguro.
Agom decidiu não lhe fazer caso. Era mais fácil que falar do que ele chamava o jogo do amor. Também aguçou os ouvidos. Havia uma fêmea de javali com duas de suas crias à vista, embora se Inuyasha seguisse com seus sarcasmos não continuariam passeando tão tranquilas, esperando a morte.
Levantou a mão.
—Hoje gostaria de javali ou cervo? —perguntou em voz baixa.
Ele a olhou.
—Sério? — sussurrou.
—Escolhe — insistiu Agom.
—Ambos — respondeu sorrindo.
Agom tinha quatro flechas. Havia um cervo enorme atrás deles no alto de uma serra. Mais que vê-lo o tinha recebido pelo comportamento do javali. Colocou uma flecha e apontou aos cervos. Inuyasha seguiu sua linha de visão, entreabrindo os olhos.
Agom puxou e abateu ao cervo antes de tomar ar de novo. Já tinha outra flecha colocada e bem tensa no arco com a tensão do retorno. A reação foi imediata, porque o javali caiu, grunhindo e gemendo, e suas crias saíram correndo em direção oposta. Agom apontou e acertou primeiro a mais longínqua. Inuyasha estava rígido a seu lado, e era o que ela queria. Tinha deixado para o final o javali que pretendia lhes atacar. E não utilizou a flecha. Agarrou as seis adagas que lhe havia devolvido. Metodicamente, cravou-os em seu focinho e nos olhos, até que o animal parou uivando de dor a menos de um corpo de distância de Inuyasha.
Agom se situou escarranchada sobre o animal e arrancou as adagas e lhe cortou o pescoço antes que seus cascos cessassem de agitar-se. Depois foi para a fêmea. Ela já tinha deixado de mover-se e Agom lhe cortou o pescoço para sangrá-la. Depois foi pelo mais longínquo.
Fez estalar a língua ao ver a vara quabrada da flecha. Normalmente não era tão descuidada. Pelo geral devolvia todas as flechas a Inuyasha. Agarrou-a para arrancá-la. Inuyasha a deteve e o fez ele mesmo. Depois a fez girar entre os dedos.
—Tem quebrado uma flecha — disse, sacudindo a cabeça.
—Má pontaria — respondeu, encolhendo-se de ombros.
—Já começava a acreditar que fosse perfeito, Agom.
Sorriu-lhe de lado e ela tragou saliva. O corte no pescoço do javali foi mais profundo do que tinha querido e o sangue lhe salpicou o torso e outro pouco lhe caiu sobre as botas.
—Sorte que está chovendo — comentou Inuyasha — Eu não gostaria de te obrigar a te banhar outra vez.
—Só um parvo que não fosse escocês diria isso — respondeu ela — A chuva me deixará bem limpo. Além disso, banhei-me ontem à noite.
—Sei.
—O... sabe? —Lhe quebrou a voz e esperou que ele não notasse, ou que se o notasse não fizesse nenhum comentário. Relaxou um pouco, mas era uma noite sem lua e chovia, e pôde banhar-se nua, deixar os cabelos soltos e fingir que era a ninfa que para ele era Sango. Pôde chapinhar agradada na superfície, experimentar o peso de seus seios flutuando na água e perguntar-se por que ficavam tão sensíveis com as mudanças de tamanho.
Entretanto, ficou rígida de medo quando ele disse que sabia. Sua respiração era tão superficial que resultava quase dolorosa.
—Todos sabem quando vai, Agom, embora nenhum de nós seja o bastante valente para sair para te buscar. Soube que tinha ido quando vi que voltava com a trança molhada.
—Ninguém sabe nada de mim — respondeu ela, sentindo que o medo lhe subia pela coluna e a deixava tremente.
Ele se encolheu de ombros.
—Isso é verdade. Conte-me algo de você para variar. Diga-me como te apelida, de que clã é, sua linhagem, por que é tão consagradamente bom em tudo. Conte-me.
—Não sei cozinhar — respondeu ela.
Ele se pôs a rir.
—É certo, mas temos empregadas de sobra para competir nessa arte.
—Querem que te fixe nelas — disse Agom. Sabia perfeitamente por que. Todas as moças novas suspiravam por Inuyasha, até o ponto de resultar embaraçoso. Ele também sabia, a julgar pela pouca roupa que usava e pelas competições esportivas que organizava com os moços, como a luta, por exemplo.
—Não, moço querem que você te fixe nelas.
—Eu? —perguntou.
—Ontem à noite ganhou em levantamentos de os braços. Não sabia que existisse um homem que pudesse fazer duzentos e cinquenta seguidos, e provavelmente poderia ter seguido. E eu que te chamava esquálido...
Agom sorriu sem poder evitá-lo.
—Tenho que me pôr a fazer exercício. Se meus irmãos se inteirarem disto, não me deixarão em paz.
—Irmãos? —perguntou ela, tentando que não lhe notasse a emoção na voz. «Tem mais de um irmão?»
—Sim, meus irmãos. Custaria-te encontrar uma turma mais cordial.
—Tem muitos, então?
—Sim. Cinco.
«Tem cinco irmãos?» Agom fechou os olhos. Pensou que era uma sorte que não tivesse jurado matar a todos os Taishos.
—Me diga uma coisa, moço. Como pode ter tanta força nessas extremidades tão fracas para me vencer? —Para demonstrá-lo, subiu as mangas, lhe dando uma boa visão dos músculos e os tendões endurecidos. Todo ele era uma demonstração de fortaleza. Ela afastou o olhar. Esforçou-se muito. Os braços lhe tinham tremido durante horas depois do esforço de chegar ao levantamento número duzentos e vinte.
—As aparências enganam — respondeu ela em um sussurro.
—Estou de acordo. Por exemplo, Yura, a empregada que ganhamos faz um par de dias.
—Não ganhamos nada. Ganhei eu. Se a toca, eu... —Deixou a ameaça sem terminar, secou a adaga na erva molhada e ficou junto ao javali para deixar as coisas claras.
Inuyasha baixou a manga. Tinha os cabelos esmagados sobre a cabeça e os olhos âmbares cintilavam como a luz do Sol pela manhã. Agom teve que afastar o olhar.
—E estranha dos estragos que provocou? —observou ele.
Ela riu com incredulidade.
—Eu não provoquei nada.
—Me proibi de tocar às empregadas, mas você nem sequer as olha. O que te parece isso?
—Parece-me uma violação.
Inuyasha tentava reprimir um sorriso, mas não o obtinha.
—As moças também são luxuriosas — disse, lhe passando um braço pelos ombros como tinha feito com Myouga.
Agom se separou dele. Sabia que tinha o rosto aceso.
—Não disse que não seja assim. E não tenho feito nada para detê-las.
Ele a olhou com curiosidade. Sabia que a olhava, pelo sorriso que tinha na cara e pelas rugas da testa.
—Isso é certo. Não ameaçou às empregadas. Provavelmente permitiria que qualquer de meus novos criados se deitasse com qualquer das moças, exceto Sango, possivelmente. Só ameaça a mim. Por quê?
—Ameaçaria a todos. Mas os demais não me obrigaram a fazê-lo.
—E tem um sono muito profundo — foi à resposta dele.
Agom o olhou. Ela tinha escolhido um lugar no centro de cada acampamento para deitar-se perto do fogo e poder defender sua virtude, se fosse necessário, e agora lhe dizia que era em vão?
Depois ele riu e lhe deu um empurrãozinho.
—É sempre tão sério, Agom, moço. Meu próprio cavalo tem mais senso de humor.
Agom olhou por cima dele.
—Seria melhor que retornássemos. O acampamento necessita a seu chefe.
—Chefe? Você?
—Ontem te venci, recorda?
—Só em um pulso e foi porque eu acabava de vencer Myouga. Posso te vencer em qualquer outra luta — disse ela.
—E se declarar a luta do amor?
Agom ofegou.
—Não aceitarei essa luta — respondeu por fim.
—Não tem valor? —perguntou.
—Não— respondeu, retrocedendo à medida que ele avançava para ela — Não tenho experiência. Não saberia por onde começar.
—Sim sabe por onde começar, Agom. Aventurar ia-me a dizer que também seria um perito nisso.
Ela ficou sem fôlego.
—Está brincando e eu não gosto.
—Falo a sério, Agom, moço, e se deseja me desafiar nisso, estou disposto.
—Não aceitarei essa classe de provocação!
—Por que não? Acovarda-te?
—Não. Só me parece uma estupidez. E esquece com muita facilidade. Já ganhou uma vez. Não posso te vencer no pulso. Demonstrou-o ontem à noite.
—Só porque, como observou você, já tinha vencido Myouga e antes dele Renkotsu e Suikotsu e inclusive ao grande Ira. Forçou-te muito.
—Me forçar? —disse ela atônita outra vez.
—Tinha que ganhar. Tinha vencido a todos os moços. Estava te criando uma reputação e arruinando a disciplina de meu acampamento.
—Se seu acampamento tiver problemas de disciplina, não é minha culpa, a não ser tua.
Os estragos aos que se referia eram simplesmente deixar que homens e mulheres jovens e luxuriosos se juntassem sem estrutura. Não era de estranhar que sua mãe se queixasse dele. Necessitavam um líder e ele os deixava a seu arbítrio. Esses eram seus estragos — Eu não tenho nada a ver com isso.
—Vence a todos os varões e depois se nega a levar uma empregada que cai sobre seus joelhos. Esse é o pior dos estragos. É um estrago provocado pela luxúria. Sofri-o eu mesmo.
Agom se ruborizou da mesma cor que o sangue diluído pela chuva no tecido da camisa que lhe cruzava o peito. Não tinha pedido a Yura que se sentasse em seus joelhos e lhe estampasse um beijo no rosto, nem tinha desejado sentir os seios da moça lhe roçando o ombro. Era o último que queria. De fato, Agom ainda se sentia mortificada ao recordá-lo. Yura era uma moça atirada. Também possuía experiência e tinha umas mãos que estavam por toda parte. Agom mal tinha terminado de vencer Inuyasha no levantamento e já teve que encontrar forças para afastar à empregada, e não tinha sido divertido absolutamente. A outros tampouco tinha parecido divertido. Agora Inuyasha afirmava que Agom estava fazendo estragos provocados pela luxúria e que ele também os sofria. Era ridículo. Toda a conversa começava a ser ridícula.
—Não tenho feito nada — respondeu finalmente.
—As moças nem sequer olham aos outros. Apenas me toleram. Todas querem que Agom, o bonito, o jovem, o grande «deus da caça», fixe-se nelas. E quando não olha, perguntam-se por que e competem entre elas para ser a mais formosa. E isso só as moças.
—O grande deus do que? —perguntou atônita.
—Não tem ideia do que é e de como lhe percebem?
—Não sou nada nem ninguém — respondeu ela.
Ele levantou os olhos ao céu.
—É assombroso em tudo o que tenta. Se um dia se puser a cozinhar, não haverá paladar nem estômago a salvo em muitas léguas. Não é fácil competir contigo.
—Não compito porque queira. Você me obriga a fazê-lo para recuperar minhas adagas.
—Não me refiro às feiras. Falo do acampamento. Do acampamento de Inuyasha Taisho e os estragos que Agom, sem clã e sem sobrenome, provocou nele.
Já não estava ruborizada. Estava pálida. Nunca tinha estado com gente de sua idade e o que estava descrevendo ele parecia ajustar-se a como atuavam as moças.
—E eles? —perguntou por fim.
—A maioria gostaria de te fazer cair em uma armadilha. Um só não pode contigo, mas juntos sim poderiam.
—Aliarão-se contra mim? Por quê?
—Porque a ninguém gosta da perfeição que não pode manchar-se. Não deveria te esforçar tanto.
Agom olhou as botas manchadas de sangue e o tecido dos Taisho.
—Então partirei — disse por fim.
Ele riu com sarcasmo.
—Antes que isso aconteça, mandarei a todos direto a minha casa. Deve-me o traje, recorda?
—Quanto quer por ele? Quantos cervos? Quantos javalis? Quantas aves?
—Se te der uma cifra, cumprirá?
Ela assentiu.
—E se necessitar um fornecimento constante? Não tudo de repente?
—Quantos por temporada? Conseguirei-lhe isso.
—Mostra tão pouca emoção, Agom. É interessante e um pouco desalentador devo reconhecê-lo. Não deveria me perguntar à razão, mas me pergunto isso.
—Em você tudo é emoção, Taisho. Seu acampamento transborda emoções. E quer que eu também mostre emoção?
—Não, só quero que mostre um pouco. Com um indício bastaria. Faria-te mais humano.
—Mostro emoções — protestou ela — Me ruborizo. Já o viu.
Ele cruzou os braços e a olhou como se não tivesse nada melhor que fazer em todo o dia exceto lhe sustentar o olhar. Ela o notou quando ele levantou um pé do lombo do javali, elevando o kilt o suficiente para que lhe vissem os joelhos. Agom os olhou e franziu mais o cenho.
—Acaba de caçar três javalis, cotaste-lhes o pescoço enquanto um deles ainda agonizava e não mostrou nada. Nem sequer a excitação da caça ou da morte. Isso é preocupante.
—Cacei três javalis e um cervo — respondeu tensa.
—A morte representa pouco para você. A vida tem o mesmo valor?
—Tudo o que vive morre. Quer que me lamente por isso?
—Não te dá medo a morte, então?
Ela se encolheu de ombros.
—Quando chegar será bem recebida — respondeu.
—Não se preocupa sofrer dor?
—A dor não significa nada para mim.
—Então é que não o sofreu. As facas, por exemplo. Cravaram-lhe algum?
Agom subiu uma manga, mostrando uma cicatriz desigual.
—Sofri.
—Lhe fez isso praticando?
—Não. Fizeram-me isso em um desafio.
—Isso é o que terá que fazer para te vencer?
—Me vencer? —respondeu Agom — Tenho dois braços.
—Não há quantidade de carne que possa oferecer e eu possa aceitar para te deixar em liberdade, Agom sem clã e sem sobrenome. Não há.
—Por quê? —perguntou ela.
—Não é humano e quero mudar isso. Não sei como, não me pergunto nem o porquê, mas sei que vou fazer.
—Não mudarei por você — respondeu ela.
—Além disso, é um fanfarrão.
—Um fanfarrão? Eu? Não alardeei nada que não pudesse fazer.
—Disse que podia escolher entre javalis e cervo. Não vejo nenhum cervo.
Agom olhou atrás dele e fez um gesto com a cabeça.
—Não estava olhando, então, e te move com muita lentidão. Siga-me.
Ele assobiou ao ver o tamanho do animal. A morte não tinha chegado rapidamente, embora Agom tivesse acertado no olho como tinha por costume. O animal tinha levantado a terra a seu redor com os cascos e tinha mudado o entorno. Agom o olhou sossegadamente um momento, depois se ajoelhou e lhe cortou o pescoço. Sentiu os olhos de Inuyasha sobre ela todo o momento.
E se ruborizou.
-0o0o0o0o0o0o0o0o-
CAPÍTULO 08
Inuyasha a ajudou a esfolar e esquartejar o cervo antes de ir procurar o cavalo. Agom o viu afastar-se, com uma cria de javali sobre o ombro e um revoo garboso do kilt. Tinha umas costas musculosas, a julgar pelo balanço do kilt, e ela já conhecia o alcance de sua masculinidade frontal.
O rosto de Agom ardia. Era um homem atrativo e varonil e não tinha encontrado uma mulher com a que aliviar-se desde que ela o conhecia. Isso não podia ser normal e, por alguma razão, também era molesto. Não se atrevia a perguntar o por que.
Tombou de barriga para baixo em meio de sua matança e esperou que ele voltasse. O aroma do sangue dos animais pesava no ar empapado de chuva, mas não ocupava suficiente lugar em seus sentidos para pensar nisso. Era igual num campo de batalha semeado de homens. As coisas viviam... e depois morriam. Se esse grande cervo não tinha sido posto na terra para chegar à maturidade, estar no cio, procriar e depois morrer para encher o estômago de um homem, para que o tinham posto?
Olhou o olho sem vida, de onde Inuyasha já tinha arrancado a flecha. A galhada era quão maior tinha obtido. Muito bicuda e em forma de terrina, com um tamanho proporcionado. Havia carne suficiente para alimentá-los quase todo o mês. Era um grande animal. Agora era um animal grande e morto.
Rodou no chão e olhou para o céu cinza, através do túnel de gotas de chuva, piscando cada vez que uma gota caía perto de seu olho. Nunca tinha desejado atenção. De tê-lo sabido, faria algo. Não queria que as moças suspirassem por ela, nem que os moços conspirassem contra ela. Queria cumprir seu destino, deitar-se no chão, fechar os olhos e esperar o esquecimento de uma boa morte. Isso era o que queria o que sempre tinha querido.
Então, por que lhe incomodava o que Inuyasha havia dito? Por que falava tanto esse homem, em definitivo? O que importava a ele se Inuyasha, sem clã e sem sobrenome, preocupava-lhe a morte ou a vida? Esse homem era absurdo. E ainda por cima ocupava quase todos seus pensamentos. Assustava-a mais ainda que ocupasse muitos de seus sonhos. Não sabia o que pensar.
Ele tinha umas mãos fortes. Umas mãos que a tinham agarrado a véspera e não lhe tinham deixado nenhuma dúvida de que a venceria no pulso. Também tinha uns formosos traços. Já tinha pensado ao conhecê-lo e nada tinha alterado essa impressão. Não deixava de usar a adaga para coçar a barba de três dias, mostrando a fenda do queixo, a forte mandíbula, as maçãs do rosto altas. Se fosse uma moça das que se voltam loucas por essas coisas, teria pensado que era o homem mais formoso da terra.
Suspirou.
—Sonhando acordado sobre o sangue? Assim é como imaginava.
—OH, Agom! O que vou fazer contigo?
Já estava de pé antes que acabasse de falar, deixando que a chuva caísse sobre os restos do cervo. Observou-o cuidadosamente. Não o tinha ouvido aproximar-se e tinha vindo com o cavalo. Agom olhou o animal e se maravilhou de seu sigilo recém adquirido.
—OH, talvez estivesse dormindo? —perguntou ele com jovialidade.
—Não estava dormindo. Seu arreio não se ouvia sobre o urze e você tampouco fez nenhum ruído.
Ele sacudiu a cabeça.
—Assustamos a todos os pássaros pelo caminho. Admite-o, Agom. Está recuperando o sono.
—Por que deveria recuperar o sono?
—Porque o perde tentando proteger a virtude das empregadas, diria eu. Por outra parte, também diria que tem medo.
Agom abriu muito os olhos.
—Medo do que? —perguntou.
—De sonhar — respondeu ele.
Ela teve que afastar o olhar, depois olhou ao chão e por fim tragou o medo à vista da maldição feminina. Agom se ajoelhou sobre o chão ensanguentado e agarrou a cabeça com as mãos. Agora tinha a menstruação? Agora?
—Busca um arroio e te asseie. Eu carregarei Agom. Está acostumado ao aroma, mas não gostará que você também cheire a sangue.
Agom saiu correndo. Estava tremendo antes de inundar-se no riacho, molhando-se mais do que podia empapá-la a chuva. Teve que tirar a parte de sua túnica interior e utilizar também a tanga que Inuyasha tinha inventado. Fazia quase um ano que não lhe vinha à maldição e tinha que lhe vir agora? Perguntou-se por que. Não tinha feito nada diferente, exceto comer e descansar mais.
Perguntou-se essa seria a causa, mas não tinha a ninguém a quem perguntar. Se alguma outra das empregadas de Inuyasha sofria seu período, o fazia em segredo. Devia ser em segredo. Era outro segredo que tinha que guardar e nem sequer sabia quanto tempo se supunha que estaria maldita com ele. Não deveria acontecer. Quão último desejava era um aviso de seu sexo. Não pensava permitir-se ser uma mulher. Não tinha nem o tempo nem a inclinação para isso. Era exatamente o que Inuyasha a tinha chamado uma máquina de matar.
Levava os ombros desafiantes e uma careta zombadora na boca quando se reuniu com ele.
—Ah, este banho te melhorou muito. Um pouco mais molhado e menos sangrento. O que ocorreu?
—Nada — respondeu ela de má maneira.
Ele arqueou as sobrancelhas, mas não disse nada. Tinha carregado toda a carne e tinha as rédeas na mão. Como sempre dizia ele em brincadeira, tinha-se liberado do trabalho e havia tornado a tempo para se beneficiar do resultado.
Seguiu-lhe a pé, tentando manter os olhos em qualquer lugar que não fosse a largura de seus ombros, ou os músculos de suas costas onde a camisa lhe pegava, ou suas pernas, ou onde a parte traseira de seu kilt parecia acariciar cada passo, ou, sobre tudo, sua nuca, onde uns cabelos longos, prateados e molhados nasciam antes de cair sobre até metade das costas...
Agom tragou o excesso instantâneo de umidade e levantou os olhos ao céu, detendo a lista mental de seus atributos. Como se tivesse se dado conta de seu nervosismo, ele ficou a assobiar da forma atonal que tinha por costume. Então ela teve que tentar ignorar seu corpo, além do ruído que estava fazendo.
Matar a seu irmão, o senhor, esperava que valesse a pena, disse a si mesma.
O acampamento estava montado, mas muito silencioso. Inuyasha parou de repente e Agom tropeçou com ele antes de poder evitá-lo. A mão dele posou em seu flanco para detê-la, mas ela já se afastou e estava observando a cena. Dois dos novos moços adquiridos estavam se enfrentando, com uma adaga em cada mão, e atacando-se meio agachados.
A roupa desordenada de Yura e a expressão satisfeita de sua cara contava a história. Era evidente que brigavam por ela, embora pensassem com a cabeça em lugar de com os órgãos masculinos, saberiam que Yura estava disponível para qualquer deles, ou para todos eles. Agom olhou a cena e tinha as seis adagas nas mãos antes que alguém pudesse fazer outro movimento.
—Solta-os —disse Inuyasha em voz baixa.
Um deles levantou a cabeça para lhes olhar e o outro saltou e aproveitou a oportunidade para cortar seu competidor no antebraço. Agom lançou suas próprias adagas e fez cair ao chão às quatro que eles tinham nas mãos antes que alguém pudesse tomar ar. Houve um ofego coletivo. Agom se colocou frente à Inuyasha, segurando as duas últimas adagas entre o polegar e os dedos indicadores com as folhas para fora. O moço chamado Akago esfregou uma mão, enquanto o que sangrava a olhava com a boca aberta.
—As duas próximas irão onde menos as querem —disse.
Isso fez que levantassem as quatro mãos e provocou mais olhares de admiração das fêmeas com as que Inuyasha tinha enchido seu acampamento. Agom se afastou, deixando que Inuyasha pronunciasse sua sentença e admirando-se por sua estupidez. Se os moços queriam conspirar contra ela, como havia dito Inuyasha, acabava de assinar o anúncio de seu ataque.
Olhou Inuyasha de soslaio. Ele a olhou e depois olhou os dois combatentes. Agom devolveu seu olhar a Akago e ao outro.
—Faltam-nos muitas léguas para chegar a território Taisho —disse Inuyasha — Myouga?
—Sim? —disse o moço da primeira feira.
—Quero que leve os homens a minha casa. Já te expliquei como chegar.
—Sim — respondeu Myouga.
Agom se aproximou mais de Inuyasha e lhe sustentou o olhar. Falou-lhe com os olhos.
—Tem um plano melhor? —perguntou ele em voz baixa.
—Já tem suficientes criados. Não?
Ele assentiu.
—Eu os cederia às moças Nakamura. Elas ganhariam mãos fortes e... bom, homens, e você ganharia a paz de uns moços agradecidos que já não terão tempo para tolices como matar-se entre eles.
Viu que os lábios lhe tremiam. Depois, sorriu. Continuando, estava morrendo de vontade de rir. Agom se separou dele e tentou chegar às árvores, atrás deles. Os moços a olhavam com ódio. Não tinha necessidade de perguntar o que expressavam seus olhos. Sabia.
—Sabe escrever? —Inuyasha a olhava.
—Só com uma faca, senhor — respondeu ela tranquilamente.
Inuyasha a olhou com incredulidade um momento e depois se voltou para os outros.
—Algum de vocês sabe escrever?
—Sim. —Myouga foi o que respondeu — Posso escrever se tiver tinta e pergaminho.
—Tenho ambas as coisas. Myouga? Escreva uma nota para que a firme. Já decidi seu castigo, moços.
—O que vai ser? —perguntou Akago.
—Sim, o que é o que Agom pensou para nós?
Inuyasha franziu o cenho.
—Foi Agom quem o pensou, mas não lhes parecerá excessivo. A menos, claro, que não tenham nada entre as pernas. Não escreva isso, Myouga.
—O que significa?
Agom reconheceu a fanfarronada masculina atrás do tom de Akago e se ruborizou quando ele a olhou furioso.
—Só que Agom recordou onde vivem quatro moças luxuriosas. Também sabem cozinhar igualmente bem, se não melhor, que minhas criadas. As damas Nakamura têm escassez de homens para lavrar a terra, sair de caça e lhes esquentar a cama. Decidi lhes dar de presente seu contrato deste ano. Escreve-o, Myouga.
Ambos os jovens ficaram atônitos um momento. Depois começaram a sorrir.
—Não creiam que não é um castigo, moços. Duvido sinceramente de que quando conhecerem às moças Nakamura e comecem seu serviço, possam caminhar muito mais. De fato, garanto-lhes que não. Myouga?
—Sim?
—Conhece as Nakamura?
—Todos as conhecem. —Também sorria.
—Te ocupe de que Akago e Renkotsu cheguem sãos e salvos e depois volta. Estarei perto do Chidester's Quarry. Conhece o lugar?
—Sim — respondeu.
—Em marcha, então. É uma caminhada de três dias, talvez quatro. Agom? Vêm comigo.
Aproximou-se do centro do grupo, recolheu as adagas e seguiu caminhando, com Agom lhe pisando os calcanhares. Quando chegaram a sua tenda, abriu a porta e lhe fez um gesto com a cabeça convidando-a a entrar.
Assim que fechou a abertura, o acampamento ficou em marcha outra vez. Agom o ouviu através do tecido da tenda.
—Tem ideia de quão estúpido é? —Estava tirando as adagas dela cravadas nas mangas dos outros para devolver-lhe e não o fazia com boas maneiras. Seus braços se estremeciam com cada movimento, quão mesmo os ombros e o torso, e...
Agom quase gemeu com seus próprios pensamentos enquanto o observava, recebendo inconscientemente as adagas que lhe estendia. Nem sequer piscou.
—Agora não haverá quem os pare. Não te ocorreu falhar alguma vez?
—Falhar? —repetiu ela, agarrando a última adaga e sustentando-a — Falhar?
—Sim, falhar. É uma ideia tão descabelada?
—A que o deveria apontar então?
Ele levantou os olhos ao céu e suspirou.
—Não deveria apontar a nada. Deveria falhar.
—Mas eu nunca lancei sem apontar. Poderia dar em uma parte vital se não apontasse.
—Pois aponta a uma pedra atrás deles. Aponta a uma fibra de erva, aponta a uma mancha de sol no chão, maldita seja!
Agom seguia olhando-o sem piscar.
—Minha habilidade é um dom de Deus — sussurrou — Eu não a pedi, não a mereço, sem dúvida não a desfruto, mas é um dom de Deus. Não posso lhe dar as costas.
—Deus não concede dons para matar.
—Não matei a ninguém... ainda —respondeu ela.
—Justo. Ainda. É uma máquina de matar, sem um pingo de remorso. É desumano e aterrador. Também está se convertendo em um semideus, vá aonde vá. Os moços lhe odeiam por isso. As moças suspiram por você. Não sei o que pensar de você.
Sua voz invocava tudo o que tinha de feminino nela, e Agom lutou contra isso antes de dar-se conta de que estava perdendo. Deveria ter sabido que perderia.
—Sinto remorsos — sussurrou.
Ele a olhou ao ouvir isso. Os olhos de Agom estavam úmidos de lágrimas e viu que a olhava fixamente. Não se atrevia a piscar.
Algo estava ocorrendo entre eles e ao notá-lo lhe abriram ainda mais os olhos.
—Preparara-te o leito aqui. Comigo. Não admito discussão.
Estava mais zangado que antes, a julgar por seu tom brusco.
—Nego-me — respondeu ela.
—Não tem a opção de te negar. Não posso garantir sua segurança e não quero despertar e ver que lhe cortaram o pescoço.
—Posso me proteger sozinho — respondeu, deixando que caíssem as lágrimas pelas bochechas.
—Não, não pode. Tem um sono muito profundo. E sonha muito, a julgar por como te move.
Agom levantou as mãos e esfregou o rosto para secar as lágrimas.
—Não sabia — disse finalmente. Depois baixou os braços.
—Faz-o. Observei-te.
«Observou-me?», perguntou-se ela, contendo o fôlego tão forte que lhe doía.
—Quando não posso dormir, eu gosto de olhar o fogo. Você dorme tão perto dele que poderia te queimar. Mas não se queima, não? Agom, sem clã e sem sobrenome. Você não se queima nunca. Só se queimam os que lhe rodeiam.
—Nunca há ninguém a meu redor — respondeu ela.
—Provavelmente isso seja certo. Não o permitiria. Mas se queimarão de todos os modos. Acredite-me.
Agom franziu o cenho. Não entendia nada.
—Não posso dormir aqui, embora me ordene isso.
—Não discuta mais ou o atarei a minha cama. Crê que isso gostaria a seu ofegante grupo de seguidores?
—Não tenho seguidores — protestou Agom.
—Só tem que dizê-lo e qualquer das moças de fora te seguirá aonde queira, quando quiser. Muitos deles também. Não tenho seguidores, diz, como se não fosse um fato provado. —Não a olhava, estava observando as unhas. Agom o olhou — Se eu tivesse seu dom para a pontaria teria legiões de seguidores, e todos atrás do coração dos bastardos Sassenach que há sobre a face da terra. Mas posto que não o tenho... —calou-se e suspirou —, devo me conformar utilizando o teu.
—De todos os modos não dormirei aqui contigo.
—Por que discute quando te disse que não admito discussão? Não admito réplica e utilizarei a força bruta se for necessário. Não me obrigue. A nenhum dos dois gostaremos.
—Mas eu durmo no chão. Estou acostumado a isso. Uma tenda é muito para mim.
—Há espaço sob o tapete. Pode dormir nele. Desejo tanto te dar minha cama de armar como sua liberdade. Por quem toma, por um parvo?
—Não — respondeu ela — É meu amo, mas um parvo? Não.
—Equivoca-te, moço, agora que o penso. —Tinha deixado de olhar as mãos e centrou o foco de seu olhar âmbar nela. Agom não estava preparada para isso e provavelmente lhe notou — Sou o mais parvo dos parvos. Só espero não me consumir mais. Há problemas com o que desejo e necessito agora. Compreende-me?
Agom entreabriu os olhos antes de encolher-se de ombros. Não tinha a menor ideia do que lhe estava falando. Provavelmente se notou.
—Posso ir? Tenho que curtir uma pele e tenho que preparar um javali para a próxima feira.
—Sim. Prepara-o bem e abranda-o até que não se possa mais. Isso é o que mais gosto de você, Agom, moço. Ata a suas vítimas e as prepara para a matança, e elas nem sequer sabem o que está ocorrendo.
—Não acredito que te compreenda — disse ela.
—Graças a Deus — respondeu ele — Eu também estive pensando no que disse.
Agom esperou. Havia dito muitas coisas, podia ser qualquer.
—Já tenho muitos criados e não desejo corrigi-los e fazer que me obedeçam. Desta vez pediremos outra coisa.
—Não pode — respondeu ela.
—Por que não?
—Não há nada que te assegure mais lealdade que levar seus filhos. Você mesmo o disse e é certo. Vi-o. Tudo o que disse é certo.
—Então, o que deveria fazer?
Agom se encolheu de ombros.
—Tem irmãos e parentes? Dê-lhes de presente alguns criados. Precisa se assegurar também sua lealdade, de todos os modos.
—Meus irmãos são todos leais!
Agom mostrou sua incredulidade soprando.
—Te assegurar da lealdade de seus criados, não de seus irmãos.
—Também iria bem mais tecido. E mais farinha.
—Mais cozinha? Para que? —perguntou Agom totalmente estupefata.
—Cozinha não, farinha. Farinha de trigo. Como crê que se faz o pão que comemos? Do ar?
—Troca o javali por farinha a próxima vez.
—Tem resposta para tudo, não, Agom?
—Seus problemas são pequenos, e por isso são fáceis de resolver — respondeu.
Ele deu um passo para ela e posou sobre seu rosto seus olhos âmbares. Agom temia respirar.
—Se isso fosse verdade — sussurrou e deu outro passo para ela.
Agom começou a retroceder. Depois, inconscientemente, pegou as adagas na mão. Ele nem sequer desviou o olhar. Não afastou o olhar dela.
—Há algo proibido em você, e não tenho ideia do que é. —Sussurrava as palavras tão baixinho que Agom não estava segura de tê-las ouvido bem. Tampouco acreditava que se supusesse que devia as ouvir.
Os olhos dela estavam muito abertos, sua respiração era contida e suas costas estavam contra o poste da tenda. Estava aterrada. Ele riu burlonamente e se separou dela. Foi ao outro extremo da tenda com grande rapidez.
—Pode ir — disse.
Agom tragou saliva e depois começou a avançar devagar para a entrada. Não entendia nada do que lhe dizia. Fazia que todas as fibras de seu corpo vibrassem com algo parecido à antecipação que experimentava quando alguém a desafiava e sentia um tremor não muito diferente à emoção da vitória quando dava no alvo. Era muito imenso para ela.
—Sabe outra coisa, Agom?
Ela se deteve junto à entrada.
—Tem uns sonhos horríveis.
-O0o0o0o0o0o0o0o0o0o0-
Continuaaa...
