Draco remexeu-se, aturdido com a luz que entrava por um pequeno filete nas cortinas. Puxou o cobertor sobre sua cabeça, tentando se livrar da luz, mas não escapando do calor que invadia o aposento. Por fim desistiu de dormir novamente e levantou-se a contragosto.

Um roupão verde escuro esperava-o apoiado sobre uma cadeira. Todo aquele quarto cheirava horrivelmente como sua infância. As cortinas luxuosas, a escrivaninha em baixo da janela, tudo parecia estranhamente igual ao que ele se lembrava.

Vestindo o roupão, olhou interessado pela grande janela que ocupava, quase completamente, uma das paredes. Jardins até onde a vista alcança, lírios, rosas, cravos, orquídeas, qualquer flor que se procure poderia ser encontrada ali. Até mesmo os narcisos, perto do lago, tinham um brilho especial naquele lugar.

Pegou o porta-retrato que estava desde a última noite apoiado sobre a escrivaninha. Gina sorria para ele, ao fundo a casa aonde viveram.

Lembranças apenas, pensou o loiro pousando novamente o retrato e saindo do quarto abafado.

Passou pela mesa de café da manhã sem dar muita atenção a toda a comida colocada lá especialmente para ele. Seus pais não estavam e tinha a impressão de que nunca mais haveria uma refeição em que estivessem os três juntos.

Pegou um biscoito e subiu em direção ao corujal. Antigamente costumava ser lotado de pássaros de todas as formas e cores, porém hoje hospedava apenas uma pequena coruja branca. A coruja que Draco trouxera.

Ao perceber a chegada do dono, a pequena ave correu a recebe-lo, pousando majestosamente em seu ombro e dando leve bicadinhas em sua orelha, tentando demonstrar toda a felicidade pela visita.

- Ei menino, pronto para fazer aquela entrega para mim? – Ao ver a coruja estender-lhe a perna prontamente, amarrou uma belíssima carta, murmurando em seu ouvido. – Você sabe para onde levar isso.

Ficou quase a tarde inteira ali, debruçado no parapeito, observando a coruja bater asas em direção ao horizonte. Como queria poder bater asas também. Mas as coisas não são tão simples, a vida humana não é tão simples, mesmo assim nunca se tem motivos suficientes para desistir. Nunca se pode ter motivos para desistir, tudo um dia vai melhorar por pior que esteja, sempre existe aquela luz no fim do túnel. Mesmo que às vezes ela demore a aparecer. Não... Nunca se deve desistir. Draco tomara isso como verdade absoluta, nunca desistiria.

Desceu as escadas desertas até a grande porta que dava entrada para a mansão. Apesar de já terem visto melhores dias, ainda mantinham o velho esplendor e brilho que tivera em seus dias de glória. Deu um suspiro e andou na direção contraria, rumo ao jardim.

O sol começava a se por. Não comera nada o dia inteiro e apesar disso não sentia a mínima fome.

"Você passa a sentir menos essas coisas quando sente falta de algo", pensou olhando os Narcisos brancos que tomavam conta da borda do lago. Tomou um deles entre as mãos, sentando-se a margem das águas. Passou os dedos pelas pétalas macias e olhando para o céu percebeu, surpreso, que a primeira estrela já surgira, trazendo para a noite um brilho azul quase imperceptível.

- Gina...

Voltou a abaixar os olhos, envolto em lembranças passadas.

- Draco, não deveríamos estar aqui fora. Vão sentir nossa falta na festa. – Uma jovem ruiva, aproximava-se do banco no jardim da mansão, onde, desde algumas horas atrás, musica alta e gritaria anunciavam a festa que estava ocorrendo.

- Não sentirão nossa falta nem que fiquemos aqui o resto da noite. – Replicou o loiro com um sorriso no rosto. Estendeu a mão para Gina, que a segurou sentando-se ao seu lado.

Um por do sol majestoso refletia-se no lago da propriedade, beleza que provavelmente os donos da mansão nunca perceberam. É triste ver como algumas pessoas não tem sensibilidade para ver o belo, pensavam enquanto observavam, abraçados, o final da tarde.

- Draco, vou te dar um presente para você lembrar de mim quando estiver longe.

O Malfoy olhou-a curioso. O que poderia lembra-lo daqueles olhos e ao mesmo tempo estar em todo lugar? Era uma charada que o deixava bem entusiasmado e logo se resolveria.

- Está vendo aquela única estrela? – Gina apontou para um pontinho azul no céu. O loiro seguiu seu olhar, e realmente, havia uma única estrela fraca brilhando na imensidão azul escuro. – É a primeira estrela que surge à noite. Logo ela vai ser ofuscada pelas outras de brilho mais forte, só podemos vê-la durante uns cinco minutos, mas quando você estiver longe, olhe para ela no final da tarde e eu também estarei olhando-a. Então não se sentira mais tão só. E eu também não.

Draco tomou por entre os dedos as mãos frágeis da Weasley, beijando-as gentilmente. Era incrível como ela podia ser doce.

- Obrigada! Agora, melhor voltarmos ou darão pela nossa falta.

Gina respondeu-lhe apenas com um sorriso e ambos seguiram para dentro do calor da mansão.

- Olhando as estrelas, Draco? – Alguém chegara por traz do loiro pondo uma mão em seu ombro. Instintivamente virou-se para ver quem era, e contemplou, aliviado, seu único amigo nesse tempo todo. Harry Potter. – Vim assim que o Hump chegou... coruja inteligente, se fosse outra não conseguiria ter feito todo esse percurso em tão pouco tempo.

- Ainda bem que você veio. – Draco se levantou, apertando a mão do amigo com um sorriso que a muito tempo não vinha no rosto. – Eu vou aceitar um pedido que minha mãe me fez e é preciso que você saiba. Vamos até uma mesa.

Os dois caminharam silenciosos pelo jardim, não ousando trocar um olhar sequer. Harry fervia de curiosidade, mas sabia que não adiantaria pressionar, Draco não lhe contaria nada antes de estar de todo preparado.

Sentaram-se em algumas cadeiras existentes no jardim, de ferro retorcido, faziam um belo conjunto com a paisagem. Apoiando os pés sobre a mesa, o Malfoy tornou a falar.

- Não fará mal você estar aqui, minha mãe não sai de seu quarto e meu pai está louco. – Harry não pode impedir um olhar surpreso perante noticia – Queria que você soubesse... Vou assumir o lugar de Lucius. Sou eu agora o líder dos comensais. É a única forma de limpar meu nome com a família.

Um calafrio percorreu a espinha de Potter, não queria Draco como inimigo. Mas não teria como convence-lo a mudar de idéia, ele nunca mudava de idéia. Por fim conformou-se, assustado com a calma com a qual recebera a situação.

- Não acredito que seja a melhor solução, você sabe. Mas não vou tentar impedi-lo, se é essa sua decisão. Sabe, entretanto, que sou um auror, então a partir de hoje estamos fadados a inimizade.

- Infelizmente tem total razão. Você foi muito importante para nós... Foi o único que ficou comigo e Ginny, os outros Weasleys, a Granger. Nenhum deles acreditou em nós, e nenhum deles acreditará, não admitirão o erro. Nunca. – O Malfoy virou-se na cadeira, olhando para o céu agora totalmente estrelado. A estrela azul desaparecera. – Ainda não assumi... Por essa noite ainda podemos ser como velhos amigos. Olhe, Harry... O céu está tão estrelado, a quanto tempo não temos uma noite assim? Sete meses? Talvez oito... É uma bela noite realmente.

- Sim, Draco. É uma bela noite... Mas ela vai passando e preciso ir-me. Tenho um jantar e uma cama quente esperando-me na ordem.

- Sobre a cama eu não sei se poderei resolver, tudo aqui é tão úmido. Mas quanto ao jantar, ínsito que jante comigo. Vamos ter nossa última conversa informal...

- Eu não sei não, Drac. Se seus pais me virem ficarão uma fera.

- Eles nunca descem. Jantam, Almoçam, fazem tudo em seus quartos. Não existe perigo algum – O loiro levantou-se da cadeira onde estava, pegou o casaco e fez sinal para que o amigo o seguisse rumo a mansão. – Vamos. Há sempre um prato a mais na mesa.


N/B: Mari batendo sua cabeça contra parede Beta má! Beta má! Beta má! O atraso foi completamente minha culpa! Mea maxima culpa! Se acontecer de novo... Vocês podem... Vocês podem... Ummm jogar bolinhas de papel em mim? Sério! Não vou mais fazer isso!

Sai Mari com a cabeça abaixada murmurando lamentos para si

N/A: Ainda bem que ela admite... Bem... Já que está tudo devidamente explicado, vamos para os agradecimentos.

Obrigada gente... Vocês nem imaginam como os reviews me deixam feliz.

Estrelinha: Pois é... Tadinho... Botei ele entre a panela e o fogo, né? A amizade do Harry ele não traiu, pois teve a decência de avisá-lo. Mas quanto a memória da Gina eu já não sei...

Mya: Acho que com os Malfoys não tem negociação, Mya. Eles não são muito flexíveis, sabe? Obrigada pelos elogios e espero que tenha gostado da solução para a proposta...

Aline: Muitoobrigada pelo apoio! A fic é um pouquinho triste mesmo mas tem alguns momentos bem gostosos mais pra frente... .

Anna: Obrigadoo! A continuação está ai enfim... Agora resta esperar o próximo capítulo.

Bem... Obrigada mesmo gente. Vocês são o motivo porque eu ainda estou fazendo isso. Se vocês quiserem ver como o Draquinho vai se sair como comensal, esperem até a próxima sexta-feira (se a minha beta colaborar).

Até o Capítulo 5!