Acordei cedo como todos os dias pra – infelizmente - ir à escola, tomei um banho demorado e relaxante, vesti o uniforme da escola que eu particularmente odiava, mas era obrigada a usar, ele era totalmente brega, mas eu dei o meu jeito. Arrumei meu cabelo, minha maquiagem e minhas joias, peguei minha mochila e desci as escadas em direção à cozinha, o meu sorriso se desfez quando vi meu pai tomando café da manhã tranquilamente... Aquele destruidor de sonhos.
- Bom dia filha – minha mãe sorriu e veio me dar um beijo.
- Bom dia mãe - eu peguei uma barrinha de cereal e dei uma mordida, eu estava evitando comer demais.
- Não vai falar com seu pai? - ela perguntou me lançando um olhar estranho, mas eu ignorei.
- Não tenho nada pra falar com ele - resmunguei e me virei pra sair da cozinha.
- Não adianta fazer pirraça - ele murmurou sem tirar os olhos do jornal - isso não vai mudar nada.
Ignorei e sai de casa irritada, se ele pensava que ia ficar por isso mesmo estava enganado. Fui dirigindo meu carro até a escola e o estacionei na minha vaga VIP, reservada especialmente pra mim, ser filha do dono da escola tinha seus privilégios e eu, é claro, aproveitava. Enquanto caminhava pelos corredores todos sorriam pra mim, alguns sorrisos eu sabia eram falsos, a maioria por assim dizer, eu conhecia os podres de cada um deles, e a maioria me tratava bem só pra não se dar mal, era como funcionava.

Santana e Quinn me esperavam na porta da sala de aula como costumavam fazer todos os dias, elas sorriram ao me ver.

- Bom dia Rachel - nos cumprimentamos com um beijinho no rosto.
- Bom dia meninas - eu sorri pra elas, eram a única coisa boa na escola.
- Como foi à aula ontem? - Santana perguntou claramente curiosa.
- Terrível - revirei os olhos ao lembrar - esse cara que meu pai arrumou é bem mais persistente do que eu esperava, geralmente os professores se cansam de mim no primeiro dia quando percebem que eu não estou lhes dando atenção e esse garoto é muito petulante pro meu gosto, me chamou de chata e arrogante.
- Um nerd petulante? - Quinn ergueu as sobrancelhas - eu nunca vi isso na vida.
- Eu não quero falar sobre isso - disse irritada - quero esquecer que tenho outra aula hoje, eu preciso pensar em alguma coisa pra me livrar dele, mas ainda não me ocorreu nada.
- Sei que você vai dar o seu jeito - Santana sorriu - você sempre dá.
O sinal indicando o inicio das aulas tocou e nós entramos, foi difícil pra mim prestar atenção nas aulas, eu bem que tentei mas em alguns minutos acabava viajando e pensando em outras coisas. Por sorte nenhum professor me incomodou fazendo perguntas, eles tinham medo de importunar a filha do dono da escola, ninguém queria perder o emprego, era fácil demais manipular essa gente, chegava a ser entediante às vezes.

Depois do intervalo fomos à aula de natação, era na aula de educação física e o era o mesmo professor, por isso ele alternava, uma semana natação e outra futebol ou qualquer outro desses jogos que eu odiava. Nós meninas tínhamos posto o maiô vermelho, uniforme obrigatório pra essa aula e agora estávamos sentadas na arquibancada esperando. O professor Martin sempre nos dividia em grupos, primeiro os meninos - porque eles competiam em jogos idiotas da escola e precisavam treinar - e depois nós. A aula era basicamente a mesma coisa sempre, ele mandava que déssemos cinco voltas na piscina, de um lado ao outro, quem fosse mais rápido ganhava uma medalha fajuta que o professor arranjou e tinha direito a ficar livre da próxima aula, era o único motivo pelo qual eu fazia aquela, e bem... Eu gostava de nadar, mas na piscina da minha casa onde não entrava aquele bando de malucos.
- Eu adoro essa aula - Santana comentou de repente mordendo o lábio inferior enquanto observava o time de natação masculino conversando com o professor, todos sarados de corpos molhados usando apenas uma sunga azul, o uniforme deles - sinceramente, é a melhor parte da minha semana.
- Se controla Santana – eu pus a mão no queixo dela e o levantei um pouco -você esta babando.
Ela me mostrou a língua como uma criancinha faria e nós três rimos juntas.

Passei a observar os meninos também e enquanto meus olhos analisavam um por um acabei reparando em algo que em tanto tempo nunca notara: Finn, o meu novo professor particular era da equipe de natação. Eu nem sabia que ele existia até ontem, mas naquele momento não pude evitar observá-lo. Ele estava junto com o resto da equipe discutindo algo com o professor, usando apenas a sunga, os cabelos negros molhados e bagunçados e o corpo sarado molhado. Ele podia ser nerd e irritante, mas era tremendamente gato e eu não tinha prestado atenção ontem, devia ser o mais gostoso da equipe, com o peitoral definido.
- O que esta olhando? - ouvi Quinn perguntar e percebi que sem querer estava viajando enquanto observava o Finn.
- Meu novo professor - respondi sem desviar os olhos dele, como alguém tão irritante e nerd podia ser tão incrivelmente gostoso? Aquilo não estava certo, nerds deviam ser esquisitos, usar óculos enormes e ter espinhas e não ser esportistas gatos.
- Qual deles? - Santana perguntou tentando adivinhar quem seria.
- O segundo da direita pra esquerda - respondi apontando discretamente_ o que esta com os óculos na mão.
As duas olharam juntas e analisaram o menino, depois viraram o rosto pra me encarar surpresas.
- Tá brincando - Santana disse espantada – Finn Hudson é o seu professor? Ele é o melhor nadador que temos.
- Você disse que ele era nerd - Quinn me lembrou.
- E ele é - dei de ombros e revirou os olhos - devia vê-lo falando sobre aquela maldita revolução.
- Você esqueceu de comentar que ele era fodidamente gostoso - ela protestou - ele não é muito popular é verdade, mas é lindo.
- Pode acabando com essa empolgação - eu disse pras duas - eu proíbo vocês de gostarem dele.
- Mas por quê? - elas fizeram um biquinho engraçado como se estivessem decepcionadas.

- Porque eu não gosto dele - respondi como se aquilo fosse óbvio - nada de amizade ou gracinhas pra cima dele, ele esta oficialmente na minha lista negra por ser chato, irritante, petulante e idiota.
- Tudo bem, nós odiamos ele - Quinn concordou sem discussões - mas isso não me impede de achá-lo gostoso.
- Ele é bem dotado também - Santana brincou cutucando Quinn e soltando uma risadinha maliciosa.
Revirei os olhos decidida a ignorar as duas, mas elas tinham razão, ele era incrivelmente lindo, mas que meu último namorado idiota e sem graça, mas ainda era um chato e estava mancomunado com meu pai e isso o tornava meu inimigo. Ficamos lá olhando enquanto os meninos terminavam suas voltas e Finn era o mais rápido deles, assim ganhou a medalha e o direito de faltar à próxima aula embora eu duvidasse muito que ele fosse fazê-lo, nerds eram sempre nerds.
Depois de alguns longos minutos finalmente chegou à vez das meninas nadarem.
- Vamos meninas, já conhecem o esquema, cinco voltas - o professor disse e depois me encarou - Rachel querida, você precisa usar a touca, faz parte do uniforme, nada de cabelos soltos na piscina.
- Mas essa touca amassa o meu cabelo - resmunguei fazendo bico - eu fui ao salão anteontem.
- São as regras Rachel, sinto muito - ele se desculpou, eu levava numa boa porque o senhor Martin era nosso professor mais divertido, então eu deixava passar, eu iria ao salão de novo depois - dois minutos meninas, andem logo.

O professor se afastou um instante pra verificar alguma coisa que não era do meu interesse e enquanto nós meninas nos preparávamos pra mergulhar os meninos ficaram parados ali nos observando, inclusive meu novo professor que não desgrudava os olhos de mim, eu não sei exatamente porque, mas ele me irritava profundamente... Talvez fosse o simples fato de o meu pai gostar dele, nós garotas gostamos de contrariar, principalmente eu.
- O que você esta olhando? - eu me virei pra encará-lo enquanto ajeitava a touca.
- Nada Barbie - ele respondeu e parecia querer rir - só estou surpreso que seu maiô não seja cor de rosa.
- Infelizmente não me deixaram mudar a cor do uniforme - respondi tranquilamente sem me deixar abalar pelo comentário engraçadinho - e se esta tentando me ofender me chamando de Barbie esta perdendo seu tempo, pra mim é um elogio.
Ele ergueu a sobrancelha como se eu tivesse dito um absurdo, garoto estúpido.
- Vocês se conhecem? – Mike, o capitão do time de basquete e também da equipe de natação perguntou.
- Eu sou o...
- Não te interessa - interrompi antes que ele espalhasse que era meu professor particular, ele pareceu entender, pois ficou calado, agradeci por isso - agora saiam que estão me atrapalhando.
Eu fiz um gesto com as mãos pra que saíssem da minha frente e me preparei pra mergulhar.

Infelizmente eu não consegui ganhar, cheguei em segundo lugar e seria obrigada a participar da aula semana que vem, mas eu teria de superar isso também. O resto das aulas foi entediante também, normalmente eu desejaria que o tempo passasse depressa pra eu poder ir pra cada, mas lembrei que teria que ver aquele nerd de novo e estudar mais então desejei simplesmente poder desaparecer, ou ser filha de um bilionário menos irritante, pena que sonhos são apenas sonhos.
No fim das aulas fui ao estacionamento buscar meu carro, joguei minha mochila lá dentro e me preparava pra sair quando Finn apareceu do meu lado e sorriu pra mim como se fosse meu amigo ou coisa do tipo, se ele não tivesse um sorriso tão lindo eu poderia ter quebrado os dentes dele, não estava de muito bom humor hoje.
- Oi - ele disse sorrindo.
- O que esta fazendo aqui? - perguntei o encarando - porque está sorrindo pra mim?
- Porque eu sou uma pessoa educada e simpática? - ele disse cinicamente - porque você não sorri?
- Porque não tenho motivos pra isso no momento, agora sai, podem nos ver juntos - resmunguei e girei a chave pra ligar o carro.

- Espera - ele pediu - pensei que poderia me dar uma carona.
- Porque pensou isso?
- Porque vamos pro mesmo lugar - ele revirou os olhos - vai demorar se eu tiver que pegar um ônibus.
- E você continua falando como se eu me importasse - abri meu melhor sorriso cínico.
- Deixe de ser chata Barbie, vai me dar à carona ou não? - ele cruzou os braços esperando.
Eu devia admitir, esse garoto era corajoso e petulante, ninguém naquela escola ousava me chatear ou desafiar, mas ele não parecia se importar com as consequências... Eu odiava e gostava disso ao mesmo tempo.
- Entra de uma vez - ordenei sem olhar pra ele.
- Obrigada - ele disse e entrou no carro sentando no banco do passageiro - seu carro não é um pouco rosa demais?
- Cala a boca se não quiser ir a pé, eu gosto de rosa e você não tem nada com isso.
Ele se calou, mas eu podia ver que ainda estava rindo, ele estava tentando me irritar de propósito, diabos que vontade de esganar alguém. Acelerei e sai o mais depressa que pude da escola pra não correr o risco de alguém nos ver, ninguém precisava saber das aulas particulares, seria humilhação demais pra mim.

- Eu falei com seu pai de novo - ele disse depois um longo silencio - ele fica bastante irritado enquanto fala sobre você, o que foi aprontou pra deixá-lo desse jeito?
- Eu não aprontei nada - respondi de mau humor - ele é um idiota igual a você, não me entende.
- Nem imagino o porque - ele provocou olhando pela janela.
- Porque esta fazendo isso em? – perguntei - que interesse tem em dar aulas pra mim? Aposto que consegue achar alunos que se importem com o que você tem a dizer.
- Seu pai vai me ajudar a arrumar uma bolsa de estudos em Stanford - ele respondeu.
- Ah claro porque não pensei nisso, ele comprou você.
- Ele não me comprou - rebateu um pouco zangado - estou trabalhando pra conseguir, não é de graça. Não é fácil dar aulas pra você e olha que só dei uma até agora, você não presta atenção em nada do que eu falo, só fica olhando pras unhas.
- Não presto atenção porque não preciso dessas drogas de aulas.
- Não foi o que seu pai disse - deu de ombros.
- Ele é um idiota, ele não entende, ele acha que me conhece, mas não conhece - disse zangada - só porque sou filha dele não significa que saiba alguma coisa sobre mim, afinal só tem tempo pro trabalho e blá, blá. E você vai se arrepender de trabalhar pra ele, meu pai não é confiável.
- Vocês tem uma relação incrivelmente saudável, é até bonito de ver - ele novamente zombou.
- Idiota - revirei os olhos.

Pra minha sorte finalmente chegamos em casa, estacionei o carro e não esperei por ele pra poder entrar. Meu pai achava que sabia algo sobre mim, que estava fazendo o melhor pra me ajudar, mas ele nunca entenderia o motivo das minhas dificuldades, nunca entenderia meus desejos e minhas expectativas, ele não se importava com o que eu queria ou se eu estava ou não feliz, ele só queria manter as aparências e ter alguém pra cuidar de seus negócios quando ele não pudesse mais. O caso é que a cada vez que ele me obrigava a fazer algo que eu não queria, cada vez que me deixava triste ou irritada com suas palavras duras, mas eu desejava que aquela maldita empresa dele afundasse, eu deixaria ela ir pro buraco se viesse pras minhas mãos.
Larguei minhas coisas em cima da mesa e me sentei, eu até tentaria fugir dessa bendita aula, mas infelizmente meu pai estava em casa e aposto que ficaria de olho em mim o tempo todo. Então se eu não quisesse piorar minha situação teria que bancar a boazinha, eu poderia fazer isso se quisesse, mas não ia durar.
- Que tal começar com matemática? - Finn perguntou se sentando a minha frente, ele não parecia estar nem ai pro meu mau humor, estava sempre sorrindo, qual era a dele?
- Tanto faz - dei de ombros deixando claro que não me interessava nem um pouco.

- Matemática então - ele suspirou enquanto pegava os livros - vai ser uma longa tarde.
Abri o meu caderno e comecei a bater com impaciência o lápis na mesa. Olhei na direção do escritório do meu pai e vi ele parado na porta me observando, eu sabia que ele faria isso... O encarei um instante deixando clara minha raiva e depois voltei a encarar Finn.
- Da pra começar logo com isso? - eu insisti.
- Esta ansiosa pra estudar? - ele sorriu - parece que temos um avanço.
- Só estou ansiosa pra me livrar de você - resmunguei.
Ia ser uma longa tarde... E só de pensar que ainda restava um semestre inteiro, eu precisava pensar em alguma coisa que me livrasse dessa bagunça mas no momento não me ocorria nada, enquanto minha cabeça não funcionasse eu teria de aturar essa chatice.