4 - Os sentimentos ocultos

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Os passos furiosos de Kinugami ecoavam pelo templo, seu olhar de cólera fitava os três servos que permaneciam ajoelhados, curvados por sobre o chão de madeira escura. Nenhum deles ousava se pronunciar, esperavam que o mestre mostrasse um pouco de calma ou que pudesse iniciar algum diálogo, continuar naquela posição estava acabando com as suas costas.

— Bastou eu me afastar por um minuto e algo assim acontece bem debaixo do nariz de vocês! – a voz saiu em um rugido, sobressaltando-os.

— Mestre... – sussurrou o líder, que estava no meio. – Não havia nada que pudéssemos fazer!

— Não dava para entrar no templo por causa do veneno. – disse o da direta, tremendo-se por inteiro.

— Não dava para ir pelo telhado, não conseguimos fazer isto com estes corpos! – completou o da esquerda, quase choramingando.

— Quantas desculpas eu terei de ouvir antes de arrancar as suas cabeças?! - parou perante eles, o corpo inclinado para frente de modo ameaçador.

— Kinugami... – com a voz firme o líder se levantou, seus olhos esbugalhados giraram por alguns segundos. – Não tinha como ajudar, então não desconte a sua frustração em mim e nos meus irmãos!

— Mano Hayato... – disse o da direita, jogando-se no chão.

— Agora sim vamos morrer... – completou o da esquerda, escondendo-se atrás de um pilar.

O cão dourado inspirou fundo, olhando a reação dos três e bufou. Seus ombros largos arquearam, cansados. Hayato se aproximou, colocando a mão nas costas do mestre, confortando-o como velhos amigos.

— Vamos proteger a princesa, o que aconteceu daquela vez não vai se repetir.

A cena daquele dia voltava aos poucos, nublando os olhos negros do deus-cão. Encarou as próprias mãos e a única coisa que conseguiu sentir foi raiva, o sentimento que ocupou seu coração depois que aquela mulher partiu daquela forma. O trio permaneceu em silêncio, divagando na tristeza daquele momento, deixando Kinugami sozinho no corredor mal iluminado.

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Os olhos foram se abrindo lentamente, pesados como se o sono ainda estivesse sobre eles. O corpo rejeitava os comandos, obrigando-a permanecer deitada por mais alguns minutos.

Shirayuki ficou surpresa ao perceber que estava em seu quarto. Sua mente estava uma bagunça, lembrava vagamente dos últimos acontecimentos e ficou envergonhada em ter pensado – primeiramente – no invasor ao acordar. "Será que ele está bem?" repetia mentalmente, se repreendendo em seguida por ter desobedecido ao pai.

Esforçou-se o máximo que podia e sentou sobre o futon, refletiu sobre tudo o que havia acontecido e decidiu que deveria falar com o pai sobre a sua negligência, sobre o tesouro roubado. Olhou ao redor e notou que no chão, perto de onde estava deitada, havia uma bacia com água, toalhas e um copo com um líquido negro que flutuava algumas pétalas de rosas. Ao mesmo tempo em que aquela flor lhe fazia lembrar novamente do youkai raposa, das palavras ditas antes dele partir, lembrou que havia sido envenenada e por isto estava nestas condições. Tudo ficava mais claro a cada instante e a necessidade de se desculpar com Kinugami tornava-se inadiável.

Levantou-se com esforço, ignorando a leve tontura que sentiu e caminhou até a porta de madeira, deslizando-a para o lado. Parou imediatamente surpreendida pelas costas largas do pai, que estava sentado ali, movendo as orelhas provavelmente ao notar que a filha havia levantado.

— P-papai... – começou, sentindo a voz fraca e falha. – Me desculpe.

O deus-cão se levantou, formando uma muralha na frente da filha. Seu olhar penetrante ficou estagnado no rosto pálido – ainda sofrido pelo veneno – da jovem. Sua expressão era uma verdadeira incógnita, não estava bravo e nem tão pouco sério. Apenas olhava de uma forma que ela nunca tinha visto antes e por este motivo, lágrimas começaram a minar de seus olhos, escorrendo sem permissão por sua face.

— Vá descansar. Eu estarei aqui.

"Eu vou te proteger" foi o que ela entendeu nestas palavras e com um sorriso tímido, limpou as lágrimas. Não era do feitio de Kinugami ser sentimentalista, porém era nos pequenos sinais que ele mostrava o quanto amava a filha e o porquê de não consolá-la sempre... Desejava que ela ficasse forte. Com as mãos sobre o peito, reconfortada pela presença do pai, voltou para o futon, deitando-se virada para a porta, do modo em que pudesse ver aquelas costas largas velando seu sono.

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Os dias passaram, assim como a neve continuava caindo incansável. Os três servos cuidavam dos portões, limpando montanhas de gelo que se acumularam no tempo em que Shirayuki esteve acamada. Nenhum dos três saiu do lado dela neste período e nem foi necessário uma ordem para tal, pois o trio amava a jovem princesa. Neste instante restava apenas alegria, tendo ela toda contente e jovial, brincando e conversando com eles nas tardes entediantes do Makai.

— Como é bom ver a princesa aqui! – Hayato falou todo orgulhoso.

— Não tem coisa melhor, não é mesmo? – disse o da direita, pulando alegremente.

— Não, não! Isto é uma verdadeira maravilha! – bradou o da esquerda, acompanhando o irmão, pulando empolgado.

— Pessoal...

Os lábios dela se alargaram em um sorriso iluminado, encantando os três que pararam de trabalhar somente para contemplá-la. Estava linda usando um quimono azul marinho, flores bordadas em branco e lilás enfeitavam as mangas longas e a cinta que envolvia a cintura fina da youkai. Seus cabelos platinados formavam uma trança longa que pendia por sobre o ombro. Estava encantadora como sempre, pois era assim que a viam: a inocente e bela princesa Shirayuki.

— Posso ajudá-los? – sugeriu, inclinando levemente a cabeça para o lado. Seus olhos brilhavam em expectativa.

— Reunir!

Hayato gritou, erguendo a pá de coletar neve. Os três formaram um círculo, abaixando a cabeça e começaram a discutir se deveriam ou não deixá-la fazer um trabalho tão cansativo e perigoso. Cogitaram os prós e quando começaram os contras, dentre os motivos dela machucar as mãos ou que pudesse escorregar no gelo, decidiram que era melhor não. Quando enfim voltaram à atenção para a deusa-cão, viram-na agachada, cavoucando a neve com as mãozinhas e jogando o pouco de neve que conseguiu acumular para o lado, formando um novo montinho de neve.

Yuki-onna! Yuki-onna! Por favor, não sopre mais. – cantava animada, balançando levemente o corpo para lá e para cá. – Pois a neve é muito fria e minhas mãos não aquecem mais!

Os três caíram de joelhos, derrotados por aquela cena tão fofa. As orelhas felpudas subiam e desciam conforme jogava as palavras, repetindo a mesma estrofe, o que fazia crer que ela só conseguia se lembrar dessa parte da música. Levantaram animados e junto dela, cantarolaram por um bom tempo.

Shirayuki estava se divertindo bastante, talvez aquele fosse o dia em que mais se sentiu feliz. Estava brincando com os cristais de neve que caiam lentamente, dançando junto a eles conforme o vento soprava criando redemoinhos. O vento trouxe consigo um aroma que foi familiar ao olfato aguçado da youkai, fazendo-a parar no mesmo instante, adentrando o templo apressadamente.

Hayato discutia com os irmãos que estavam atrasados, logo Kinugami chegaria e a neve ainda ocupava todo o lugar. Voltou o olhar para a princesa e notou que ela havia retornado para o interior, praticamente correndo. Estranhando aquela ação, deixando a pá no chão e abandonando os irmãos que rolavam na neve ainda brigando, seguiu a jovem carregado de preocupação.

Ela continuou no mesmo ritmo, atravessando os corredores e chegando ao jardim branco em um segundo. Seu coração batia apressado e a ansiedade tomava conta de seu peito, não conseguia entender o motivo de toda essa agitação, mas desejava muito encontrá-lo. Olhou ao redor e não o avistou, caminhando um pouco mais até a cerca que separava o templo do imenso abismo. Olhou curiosa para baixo e não viu nada além de uma densa neblina, deu a meia volta derrotada, abaixando as orelhas – triste.

Ergueu o olhar, decidida em voltar para a companhia dos servos quando o avistou parado, encostado em uma grande pedra, olhando-a com aqueles olhos selvagens. Um sorriso de canto surgiu no youkai raposa, como se ele conseguisse ver tudo o que acontecia no interior da deusa-cão, os sentimentos que afloraram e tingiam as bochechas dela. Apesar da surpresa do encontro, nenhum dos dois falou uma única palavra e apenas se olhavam; cada um avaliando o outro vagarosamente.

A youkai deu um passo à frente, desviando primeiramente o olhar para os lados, abrindo um sorriso tímido. Foi até ele, parando a alguns passos. Seus olhos bondosos transmitiam alegria e uma imensa satisfação em vê-lo. Soltou um suspiro antes de começar a falar:

— Aah... Ainda bem que conseguiu descer a montanha em segurança. – alargava o sorriso, ele estava bem afinal, entretanto uma dúvida veio em sua mente. – Mas por que voltou aqui, Kurama?

— Tinha uma coisa que eu queria ver novamente.

— Os tesouros? - perguntou, levantando as orelhas um pouco curiosa.

— Sim, os tesouros.

Kurama abriu um sorriso diminuto, faceiro, sempre tão misterioso em seus atos. Acabou sendo retribuído pela gentileza do olhar de Shirayuki, que inocentemente desejava cada vez mais a presença do raposa. Aquele dia, de fato, havia sido o melhor de sua vida.


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Notas:

- Futon - O futon é um tipo de acolchoado ou manta flexível o suficiente para ser dobrado e guardado durante o dia e utilizado à noite, com o objetivo de se poupar espaço. É formado por um shikibuton (inferior) e um kakebuton (acolchoado grosso).

- Yuki-Onna - É a famosa mulher da neve, que no folclore japonês é retratada como um fantasma que seduz homens e os deixam morrer nas tempestades de neve. No anime/mangá Yu Yu Hakusho, aparece um grupo de Yuki-onna, sendo uma delas a mãe de Hiei e de Yukina. Algumas lendas dizem que se ela soprar, pode chamar uma forte tempestade ou congelar uma pessoa por completo.

*E uma pequena observação, a música que a Shirayuki canta foi inventada, rs. Não foi retirada de nenhuma música infantil/e ou da cultura japonesa.

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Voltei!

Mais um capitulo revisado e postado, estou muito feliz por estar conseguindo manter a atualização nos dias certinhos! Só preciso mesmo é criar vergonha na cara e continuar escrevendo. Eu não tenho jeito mesmo, mas não perdi as esperanças! E gosto muito da Shirayuki para deixá-la sem um final digno... Alias, gosto de todos eles, até do Kinugami que as vezes, bem as vezes é um cara legal xD

Agradeço muito quem estiver acompanhando e a Co-star pelos comentários... ç_ç é muito importante pra mim... Valeu! s2

Isso é tudo, não vou enrolar mais... Beijos e até mais!