Conto IV
I've just seen a face
(ou "Um amor que poderia ter sido")
Ela sentia o vento frio cortar seu rosto. Aquela era uma noite de outono atípica, muito gelada para a época. O inverno ainda estava longe, demoraria a chegar.
Gina apertou contra si o casaco que usava e continuou andando, os saltos fazendo barulho quando batiam contra a calçada. Era quase meia-noite de uma quinta-feira e não tinha muita gente pelas ruas.
A mulher parou esperando o sinal mudar para poder cruzar a avenida. Sobrou o hálito quente contra as mãos a fim de esquentá-las. Lamentava por não ter trazido consigo as luvas que Draco havia lhe dado. Seriam bem úteis em uma noite como esta, pensou.
Ela fechou os olhos por um instante e respirou fundo, enfiando as mãos nos bolsos. Desejava uma resposta, um sinal ou uma pista. Qualquer coisa que a fizesse decidir. Decidir? Mas já estava decidido, os convites até já tinham ficado prontos. E eles pensavam dentro da bolsa elegante dela. Pensavam mais do que algumas dezenas de papéis pensariam, porque, além de papel, ela carregava compromisso e responsabilidades.
Abriu os olhos e fitou a mão esquerda. Havia um anel ali. Como algo tão pequeno podia lhe causar tantas incertezas? Por Deus, já não tinha dito "sim"? De onde vinham aquelas dúvidas, então? O que estava acontecendo com ela? Não amav...?
Um carro buzinou longamente, chamando sua atenção. Seu coração disparou. Será que alguém tinha se ferido? Olhou ao redor procurando por um acidente, porém não havia carro destruído nem ninguém machucado. Só tinha um homem com um violão. Era apenas uma silhueta, um cantor solitário sem ninguém para lhe dar atenção ou dinheiro.
Mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa, ela cruzou os metros que a separavam do homem. Tentava imaginar o rosto do louco que deixara o conforto de sua casa para cantar na rua àquela hora. Talvez, pensou, ele não tenha casa, por isso está aqui nessa noite fria.
De acordo com que se aproximava, um passo na frente do outro, reconheceu a canção tocada. Era "Please, Please, Please Let Me Get What I Want", dos Smiths, uma de suas músicas favoritas quando adolescente. Naquela época ela podia se dar ao luxo de ficar a tarde toda esparramada no sofá ouvindo os vários discos da coleção de seu pai. Não precisava estar cedo no escritório para resolver problemas que não eram dela nem usar roupas caras e sapatos de salto. E, principalmente, não tinha de fazer o que os outros esperavam que ela fizesse em vez do que realmente queria, porque ninguém cobrava nada dela quando era jovem. Sua única obrigação era tirar boas notas, o que sempre foi fácil.
Ah, aquela canção! Aqueles tempos! Era feliz e nem sabia...
Gina parou em frente ao homem para escutar o final da música. Ouviu-o entoar em uma ótima voz um pedido para, pelo menos uma vez na vida, deixarem-no ter o que queria, pois seria a primeira vez.
- Muito bom – ela comentou quando a última nota foi tocada.
- Obrigado.
O cantor levantou os olhos do violão e Gina pôde observá-lo bem. Era jovem, tinha aproximadamente a sua idade e os olhos mais verdes que ela jamais vira. E os cabelos, ah, os cabelos! Eram negros, além de bagunçados e meio compridos como os de um astro de rock.
- Você tem uma voz ótima.
Ele riu. Gina reparou que seus dentes eram muito brancos - tinha um sorriso perfeito.
- Não foi o que andaram me dizendo ultimamente.
- Seja lá quem disse o contrário é um mentiroso - a jovem tirou 5 libras da bolsa e jogou no estojo do violão do cantor de rua. Quando depositou o dinheiro, notou que ele só tinha arrecadado algumas moedas - Você tem sim uma ótima voz.
O homem se abaixou, pegou a nota que Gina havia lhe dado e enfiou-a no bolso.
- Cinco libras – ele comentou. – Você pode escolher cinco canções para eu tocar para você.
Ela deu de ombros, olhando para além da rua. As poucas pessoas que passavam ali passavam por eles como se fossem invisíveis.
- Não tem nada que eu queria ouvir particularmente.
- Então vou escolher alguma coisa. Uma música bonita para uma garota bonita.
Ele piscou para Gina cheio de charme. Foi inevitável não responder ao gesto dele com um sorriso.
Ele tocou as primeiras notas, e logo ela percebeu qual era aquela "música bonita". O homem cantava "I've just seen a face", dos Beatles. Que abusado!
Enquanto ele entoava seu amor por uma garota que tinha acabado de conhecer, enquanto cantava que seria inevitável e sonharia com ela naquela noite e que sim, ele estava se apaixonando, Gina abriu outro sorriso. Era óbvio que a garota da música era ela, o que era muito legal da parte dele. Ela só havia lhe dado cinco libras, ele não precisava lhe dedicar uma canção tão especial.
Se ela tivesse 16 anos em vez de 26, se apaixonaria por aquele estanho na primeira nota musical. Mas era uma adulta, as emoções já não se manifestavam da mesma forma que na adolescência. Todavia, podia jurar de pés juntos que aquele cantor estava flertando com ela, sorrindo e cantando daquela maneira.
- Adorável - elogiou quando a música terminou. – Mas acho que você não vai conseguir muito dinheiro cantando baladas para os seus ouvintes.
- É possível, por isso eu só canto essa para as ouvintes especiais – ele deu outro sorriso de comercial de pasta de dentes. – Meu nome é Harry Potter.
- Gina Weasley.
Eles trocaram um aperto de mão. Os dedos dele estão tão gelados!, a jovem pensou.
- Sua mão está quente – Harry comentou. – Com o frio que faz é sempre bom descobrir alguém que possa te aquecer.
Gina se sentiu corar e retirou a mão da dele, mas não tirou o sorriso bobo do rosto.
- Você é muito galanteador, Sr. Potter.
- Só Harry, por favor – ele se abaixou e colocou o violão do estojo, arrumando suas coisas. – Não sou ninguém importante para ser chamado de "senhor".
Harry fitou Gina diretamente nos olhos. Ela se sentiu incomodada com o olhar penetrante dele e, quando já não pôde sustentá-lo, desviou sua atenção para a rua, observando o momento dos carros. Ela devia ir. Não era adequado ficar na companhia de um homem estranho àquela hora. Arriscou um outro olhar para ele e vi que o cantor ainda a encarava sorridente, cheio de charme.
O mais estranho era que ela própria não conseguia tirar o sorriso do rosto. É a música, concluiu, ninguém nunca havia cantado uma canção de amor para mim. Estava apenas se sentindo lisonjeada.
Mas por que então, por um milésimo de segundo, quando voltou a olhá-lo, se imaginou transando com ele? Porra, ela estava louca! Tinha um anel na mão esquerda e um homem esperando por ela. Não devia ficar flertando com caras que conhecia na rua, mesmo se eles fossem bonitos, se vestissem como indie rock stars, tivessem incríveis olhos verdes e um sorriso capaz de descongelar um iceberg... Droga, estava perdendo o foco.
- Eu acho...
- Quer...
Eles começaram a falar ao mesmo tempo, então se calaram, rindo. Na segunda tentativa, Harry foi em frente e perguntou o que queria:
- Quer tomar um café? Tem um café aqui perto...
- Hã, não é uma boa ideia – ela o cortou. - Preciso ir para casa.
- Só um café, vai levar 10 minutos.
Enquanto observava o estranho, com o cabelo caindo displicente na a testa e o estojo do violão jogado sobre o ombro, ela lembrou de quando tinha 17 anos e se apaixonou por um cara que tocava em uma banda. O rapaz era péssimo com música, mas era incrível na cama.
Seu noivo também era bom de cama.
- Não dá – Gina falou -, tem alguém me esperando.
- Um amigo?
- Um noivo - ela levantou a mão esquerda, mostrando o anel que estava ali.
Harry fez uma careta estranha que claramente revelava seu desagrado.
- Quem é o sortudo? – indagou.
Gina apertou mais uma vez o casaco em volta de si. Estava tão frio!
- O nome dele é Draco Malfoy. Vamos nos casar em dois meses – ela bateu na bolsa. - Os convides ficaram prontos hoje. Vou levar para o meu noivo ver e dar o aval.
- Boa sorte.
- Obrigada.
Outro momento de silêncio e troca de olhares, mas desta vez Harry já não parecia não contente. Isso está ficando estranho, Gina pensou, dando alguns passos para trás.
- Preciso ir, está muito tarde. Boa sorte com a música.
- Valeu.
Ela deu às costas a ele e voltou a caminhar. Era melhor se apressar para chegar ao metrô antes que ele fechasse. Ela se distraía tão fácil! Tinha saído do trabalho bem tarde, era verdade, mas já podia estar em casa se não...
- EI, GINA! – uma voz chamou. Ela se virou e viu o cantor correndo em sua direção. Quando chegou até ela, ele estava sem fôlego – Se mudar de ideia, o cafê é para lá – ele apontou a esquerda -, na esquina, não tem erro.
- Ok.
- Estou sempre por lá.
- Ta.
Os únicos sons eram os dos carros passando e da respiração alterada de Harry. Quando ele recuperou o fôlego, disse:
- Adeus.
- Adeus.
Nenhum dos dois se moveu. Gina se perguntou por que não saía dali e não gostou da resposta que sua mente lhe deu – porque ela estava muito concentrada nos lábios daquele homem. Ele tinha lábios vermelhos e bonitos, com uma forma bonita... Pareciam suculentos.
Dois passos. Foi isso o que ela andou. Chegou a dar dois passos na direção de Harry Potter, mas então parou. Ela não estava dando passos rumo à direção certa. Ela estava indo na direção de um homem que não era o dela. Aquilo não era correto, mesmo com olhos verdes, cabelos bagunçados, uma voz incrível e sorrisos fáceis. Mesmo com "I've just seen a face". Draco a estava esperando para ver os convites do casamento. Casamento. A palavra a fez tremer.
Pela terceira vez, Gina apertou o casaco em volta de si. Então deu meia volta e partiu sem olhar para trás.
Aos leitores:
Rende uma fic, não? Eu já tenho toda a trama na minha mente! Mas se eu resolver escrever essa história, será uma pleascoisa para um futuro bem, bem, bem distante, por isso publiquei como one-shoot mesmo. Não é uma das melhores, mas a ideia ficava martelando na minha cabeça e resolvi escrever.
Como eu detesto canções no meio dos textos da fic, não coloquei a letra das músicas citadas aqui. Mas recomento que ouçam "Please, Please, Please Let Me Get What I Want" e "I've just seen a face", ou que pelo menos deem uma olhada nas letras (há traduções na internet).
Agradeço a todos que estão lendo esses continhos. Obrigada pelo apoio em mais um projeto, galera!
Beijos,
Lanni
Respostas aos comentários de "Os vizinhos":
ooo Marininha Potter: Também achei "Os vizinhos" o melhor conto. Ele é tão intenso! Mas eu acho que o Harry "ama" a Gina sim, mas ama do jeito dele - um jeito que não é o suficiente para ela. Acho que, dentro do universo dessa one-shot, a Gina vai viver toda a vida dela tendo um caso com o Harry. Abraço!
ooo Anna Weasley Potter: Fazia tempo que eu queria escrever algo onde as personagens têm diferença de idade, o que se encaixou perfeitamente com a one-shoot. E eu gosto muito da coisa da Gina agir como um garota fatal, quando na verdade precisa do Harry. Abraço!
ooo Pedro Henrique Freitas: É, realmente acho que a história poderia ser real. Eu procuro escrever coisas que poderiam mesmo ser de verdade, só que é difícil atingir esse objetivo sempre - eu tento. Abraço, Pedro!
